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O entendimento da descrição segundo a abordagem europeia envolve uma peculiaridade que é o foco na representação temática, decorrendo em maior desenvolvimento desta. Os aspectos descritivos, propriamente ditos, são em grande medida baseados no modelo anglo-americano, mas há implicações nos modos como o processo documentário, como um todo, são considerados, motivo pelo qual merecem ser aqui abordados. Além disso, há ao menos dois modos de compreensão da Análise Documentária, como tratamos a seguir.

A análise é entendida como o estudo do todo em função de suas partes, e a análise documentária como aquela que é constituída por um conjunto de operações que trabalham com o conteúdo e com a forma dos documentos, reelaborando-os e transformando-os em outros de caráter instrumental ou secundário (PINTO MOLINA, 1993 apud GARRIDO ARILLA, 2006).

Guimarães, Moraes e Guarido (2007, p. 94-95) fazem uso do termo análise documentária para tratar das vertentes predominantes do tratamento temático dos documentos, assim denominadas: subject cataloguing, indexing e analyse documentaire.

A primeira vertente se constituiu a partir do termo ‘subject cataloguing’, de origem predominantemente anglo-americana, norteada pelos princípios de catalogação alfabética de Cutter.

A segunda vertente centra-se na ótica do termo inglês ‘indexing’, no qual os índices como produtos do tratamento temático da informação procedem da utilização de linguagens de indexação, observando-se uma preocupação de natureza teórica acerca de sua construção. Essa vertente é influenciada, em grande parte, pelos trabalhos do Classification Research

Group, da Inglaterra.

A terceira vertente, a ‘analyse documentaire’, de orientação francesa (com nítidos reflexos na tradição científica espanhola), foca o processo temático, explicitando procedimentos dirigidos à identificação e seleção de conceitos para posterior representação sendo fortemente apoiada na Linguística.

No Brasil, o Grupo Temma, inicialmente formado por professores da Escola de Comunicações de Artes da Universidade de São Paulo, apresenta-se como uma das referências no contexto da análise documentária, subsidiando teórica e metodologicamente a prática de construção de linguagens documentárias.

No âmbito dos níveis de análise nesta terceira vertente, quando se representa ou trabalha o documento no nível da sua manifestação fala-se em “análise formal” ou “análise externa” e quando se analisa o conteúdo intelectual de um documento, nomeia-se de ‘análise interna’ ou ‘análise de conteúdo’ (GARRIDO ARILLA, 2006).

Os níveis de análise estão relacionados com os elementos que integram o documento: forma e conteúdo. Cada nível de análise conta com campos teóricos concretos e, por conseguinte, com suas próprias operações, que podem ser efetuadas em maior ou menor profundidade, em função das demandas e necessidades científico-informativas dos usuários (PINTO MOLINA, 1989, p. 331).

Os elementos integrantes do documento, forma e conteúdo, relacionam-se ao que Otlet (1934) propôs fazendo uso dos termos continente e conteúdo do livro. Para ele, o continente é uma certa forma do livro e uma certa língua na qual se expressam as ideias, ou seja, os elementos materiais, gráficos, linguísticos e intelectuais do livro são relativos ao continente ou forma no sentido amplo da palavra. O conteúdo do livro são as ideias que se referem a um certo assunto, consideradas em um certo lugar e em um certo tempo; os elementos de conteúdo ou fundo são os científicos ou literários (ORTEGA, 2010, p. 14).

A dicotomia na compreensão da estrutura e dos elementos de um documento apresentado pelos autores da Análise Documentária tem por referência autores da Linguística, como Saussure e Hjelmslev. García Gutiérrez (1984) trabalha com essa divisão a partir do

entendimento do signo linguístico de Saussure. Segundo García Gutiérrez (1984, p. 65 apud ORTEGA, 2010a, p. 13), o documento científico é compreendido pela forma e fundo do continente e do conteúdo. A forma do continente remonta ao suporte material, papel, formato; e o fundo do continente aponta para os elementos de identificação do documento, como o título, o autor, o ano, editora, etc. No conteúdo a forma refere-se à exposição, à apresentação dos dados, à estrutura, como por exemplo, a forma de um poema, de uma narração, etc. O fundo do conteúdo ou dos conceitos empregados atentam para as contribuições do trabalho, das experiências, conclusões, etc.

As diversas contribuições e reflexões realizadas por parte dos pesquisadores da Análise Documentária podem ser agrupadas em torno de duas correntes teóricas. Uma, chamada de ‘corrente integrada’, adota uma ‘técnica integral’ que concebe a análise documentária como um conjunto de operações que se efetua tanto no nível da forma documental quanto do conteúdo; e outra nomeada de ‘corrente restritiva’, reduz-se somente às operações de ‘análise interna’, ou seja, de análise de conteúdo (PINTO MOLINA, 1989; GARRIDO ARILLA, 2006).

Segundo Garrido Arilla (2006, p. 345), os principais autores da ‘corrente integrada’ da Análise Documentária são: Vickery (1969), Mijailov, Chernii e Guiliarevskii (1973), Fondin (1977), Couture de Troismonts (1975), López Yepes (1978), Amat Noguera (1979, 1988), Pinto Molina (1989, 1993), Ruiz Pérez (1992) e Guinchat e Menou (1994). Por sua vez, dentre os autores da ‘corrente restrita’destacam-se: Gardin (1964), Chaumier (1974) e García Gutiérrez (1984).

Os autores da ‘corrente integrada’ adotam termos diferentes para tratar da ‘análise formal’. Mijailov, Chernii e Guiliarevskii (1973) e Vickery (1969) falam em catalogação, Couture de Troismonts (1975) adota o termo signalement4, Fondin (1977), Guinchat e Menou

(1994), López Yepes (1978), Amat Noguera (1979, 1988) e Pinto Molina (1989, 1993) usam descrição bibliográfica e/ou catalogação e Ruiz Pérez (1992) trabalha com o termo descrição bibliográfica.

Após a apresentação dos conceitos e das correntes que compreendem o processo de análise documentária, são sistematizados, na Figura 3, os principais termos levantados pelos autores.

4 O termo signalement pode ser traduzido como relato. No caso da ‘análise formal’ esse termo representaria um

relato do documento que determina as características que o identificam (autor, título do trabalho/título da publicação periódica ou série, edição, volume ou tomo, ano, fascículo, ano de publicação, número de páginas ou primeira e última página em se tratando de um artigo) (COUTURE DE TROISMONTS, 1975, p. 54).

Figura 3 – Síntese dos conceitos apresentados para Análise Documentária

Fonte: Elaborado com base em Garrido Arrila (2006).

Interessante observar como os autores da corrente integrada explicam o processo de análise formal. Inicialmente, entendem que o documento, como elemento acumulador e difusor de informação, é o objeto de estudo da Análise Documentária, de tal modo que, sua representação se dá a partir da compreensão da estrutura dicotômica do documento: forma e conteúdo. Ou seja, a descrição na corrente integrada é abordada a partir da forma das estruturas documentais. Segundo Moreiro González (2004), a descrição

busca a identificação do documento de informação, dando-se assim a primeira operação fundamental para transferir a carga informativa dos textos. [...] Os atributos dos documentos são reconhecidos por meio da coleta dos dados de sua estrutura formal. Constitui-se assim o tratamento físico, a partir de sua consignação a um determinado modelo, de acordo com as diferentes formas materiais em que está confeccionado ou disposto cada tipo de documento (MOREIRO GONZÁLEZ, 2004, p. 24 apud ORTEGA, 2010a, p. 13-14).

Na corrente europeia, podemos constatar que os conceitos levantados sobre descrição, a qual é caracterizada como processo de ‘análise formal’, são mais amplos, contemplando as atividades executadas tanto em ambientes de bibliotecas, quanto nos sistemas de informação científica, podendo também contemplar outros sistemas que surgiram posteriormente.