Apesar dos extensos territórios das espécies de Acipitriformes e Falconiformes incluírem diversos tipos de micro-habitats, essas espécies pouco ou nunca utilizam esses habitats. Dessa forma assume-se que apenas as características em uma escala mais ampla influenciem a riqueza e a abundância dessas espécies, como determinadas características dominantes da estrutura da vegetação e da paisagem (Jullien e Thiollay 1996).
A influência das variáveis da paisagem sobre a riqueza e a abundância das espécies de Accipitriformes e Falconiformes foi considerada em duas escalas: (i) na escala do fragmento, considerando a influência das características intrínsecas de cada fragmento; (ii) na escala da paisagem, quando os descritores paisagísticos foram determinados com o esboço de raios a partir do centróide de cada fragmento foco.
2.3.1. Seleção e análise dos fragmentos
A seleção dos fragmentos foi baseada em uma imagem do sensor orbital PRISM/ALOS, (ano de 2008) com uma resolução de 2,5m e cobrindo uma área de 31.404 ha. O programa
Spring5.1.6 foi utilizado para a fotointerpretação da imagem e a criação de um mapa vetorial,
que foi utilizado para a medição dos fragmentos. Depois de medidos, os fragmentos foram separados em seis classes de tamanho (0 a 5; 5,1 a 10; 10,1 a 20; 20,1 a 50; 50,1 a 100 e maiores que 100 ha), e dentro de cada classe foram sorteados de 4 a 8 fragmentos, totalizando 35 remanescentes. As variáveis dos fragmentos correlacionadas com a riqueza e a abundância das espécies foram: área de cada fragmento, o isolamento (distância para o remanescente mais próximo) e os tipos de vegetação e relevo encontrados em cada remanescente. Estas duas últimas variáveis são descritas a seguir.
A classificação da vegetação foi baseada no estágio de regeneração indicado pela Resolução no10 do Conselho Nacional do Meio Ambiente, de 1o de outubro de 1993 (D.O.U.
1993), além de observações de campo, distinguindo-se em três categorias básicas de estágios de sucessão (Figura 02):
Estágio inicial (I): Fisionomia herbáceo/arbustiva de porte baixo. Espécies lenhosas com
43 principalmente por poucas espécies de liquens, musgos, briófitas e pteridófitas. As trepadeiras presentes são de porte herbáceo. Poucas espécies arbóreas ou arborescentes, ausência de sub-bosque e abundância de espécies pioneiras.
Estágio médio (M): Fisionomia herbácea e arbustiva ou somente arbustiva, podendo haver
estratos diferenciados. Cobertura arbórea aberta ou fechada, podendo haver indivíduos emergentes. Predomínio de indivíduos com pequeno diâmetro, embora haja amplitude moderada de distribuição diamétrica. Maior número de espécies e indivíduos de epífitas do que no estágio inicial; trepadeiras predominantemente lenhosas. Presença de sub-bosque.
Estágio Avançado (A): Predomínio de fisionomia arbórea, com dossel fechado e relativamente
uniforme, com ou sem árvores emergentes. Copas superiores e horizontalmente amplas. Árvores com distribuição diamétrica de grande amplitude. Abundância de epífitas e trepadeiras geralmente lenhosas. Grande complexidade estrutural, com grande diversidade de espécies. Fisionomia semelhante à vegetação primária, normalmente com sub-bosque menos expressivo que no estágio médio.
O relevo da região foi subdividido conforme denominações comumente utilizadas em topografia (Espartel 1977) em baixadas, grotas, encostas e topos de morro, sendo que um mesmo fragmento poderia ter mais de um tipo de relevo. Cada tipo de relevo apresenta as seguintes características (Figura 03):
Baixadas (B): terrenos com até 8% de declividade. Geralmente este tipo de relevo acompanha leitos de u sos d’ gua.
Grotas (G): superfícies côncavas, originadas do encontro de duas encostas adjacentes. Ge al e te ao lo go de u sos d’ gua e e suas a e ei as.
Encosta (E): superfícies laterais inclinadas, com declividade moderada a forte, entre as baixadas e os topos de morro.
Topos de morro (T): áreas mais elevadas da paisagem e com topografia menos declivosa no topo da encosta, que apresenta pequena área.
44 Figura 02.A) Mata em estágio inicial de sucessão (Fragmento 09); B) Mata em estágio intermediário de sucessão (Fragmento 23), C) Mata em estágio avançado de successão
(Fragmento 22).
Figura 03. A) Fragmento florestal restrito ao topo de morro (Fragmento 07); B) Fragmento em topo de morro e encosta (Fragmento 12), C) Fragmento florestal abrangendo tanto as
encostas e topos de morro como as áreas de grota e baixada (Fragmento 35).
B
C
B C
A
45
2.3.2. Estrutura da paisagem: raios e métricas
Sendo todos os fragmentos da área contemplada florestas secundárias e a matriz caracterizada por habitats antrópicos abertos, para a edição vetorial da imagem a paisagem foi dividida em apenas duas classes, conforme Boscolo e Metzger (2009): Florestal, os remanescentes não foram segregados de acordo com o grau de conservação; e Não Florestal, matriz composta por áreas abertas como pastagens, cultivos diversos e distritos urbanos.
Para o cálculo das métricas da paisagem foi utilizado o programa Fragstats 3.3 (MacGarigal e Marks 1995). Duas métricas foram calculadas para a paisagem total, a porcentagem de cobertura florestal (PLAND) e o índice de agregação (CLUMPY). A estrutura da paisagem do entorno dos remanescentes foi analisada em raios de 500, 1000, 1500, 2000m a partir do centróide dos remanescentes amostrados (Apêndice I), compreendendo áreas de 78,5, 314,2, 707,9 e 1256,6 ha, respectivamente. As métricas analisadas descrevem características da paisagem que influenciam diretamente os padrões de ocorrência das aves, conforme Boscolo e Metzger (2009) e Bispo (2010), como a conectividade e a quantidade de habitat favorável. Seguem as descrições das métricas e seus respectivos códigos:
i) Porcentagem de cobertura da vegetação (PLAND) = Proporção de cobertura florestal em cada raio;
ii) Densidade de fragmentos (PD) = Números de fragmentos florestais dentro de cada raio dividido pela área total do raio;
iii) Área média dos fragmentos (AREAMN) = Média das áreas de todos os fragmentos da paisagem de entorno;
iv) Quantidade de área nuclear (CORE) = Soma das áreas nucleares dos remanescentes presentes em cada raio, assumindo-se uma distância da borda de 100m.
v) Distâncias médias do fragmento mais próximo (ENNMN) = Média das distâncias do fragmento mais próximo de todos os fragmentos do raio considerada.
2.4. Caracterização das espécies
As espécies foram separadas em três categorias conforme a sua associação com o ambiente florestal (Jullien e Thiollay 1996, Ferguson-Lees e Christie 2001, Thiollay 1989a,b, 2007):
1- Dependentes – inclui as espécies restritamente florestais, cuja ocorrência está totalmente vinculada à presença do ambiente florestal;
46 2- Semi-dependentes – dependem parcialmente das formações florestais, utilizando esses ambientes para forragear ou se reproduzir, inclui-se aqui as espécies típicas de borda;
3- Independentes – espécies generalistas ou típicas de áreas abertas, cuja ocorrência não depende da presença das formações florestais.