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Conta Antonaccio (1996):

Mamed Ali Assi era casado com a Sra. Emily Ali Assi e tornaram-se conhecidos em Manaus pelo bom gosto de suas confecções, sedas finíssimas importadas, botões e adornos para roupas das mais variadas espécies. Vinha tudo da Suíça, da França e da Inglaterra e de outros países da Europa para suprir a cidade que ainda aspirava um pouco à era do fausto da borracha, a sociedade amazonense costumava sair à noite para vislumbrar, nas vitrinas da loja, A Famosa Noiva do Mês.

Sobre sua vida na escola, nos conta Antonaccio (1996):

O escritor inicia seus estudos no então colégio Barão Rio Branco, escola pública primária que atendia às famílias da elite manauara, e, logo depois, Milton Hatoum vai estudar no então conhecido Colégio Estadual do Amazonas que, na época, chamava-se Ginásio Amazonense D. Pedro II, e que também recebia os filhos da elite política e econômica da cidade de Manaus. (...) Inesgotável celeiro de figuras de realce de nossa cultura, cenário de movimentos decisivos na estrutura educacional do Amazonas. Formador de grandes quadros que atuaram no campo político, econômico e artístico na cidade e Manaus (ANTONACCIO, 1996, p. 175).

Figura 4: Gimnasio Amazonense Pedro (Maged El Gebaly, Manaus, 16/05/2012).

No Relato encontra-se a recolha dos estilhaços e ruínas de emoções identificáveis num inconsciente familiar. Nessas narrativas de “um certo oriente”, a rememorização de imagens afetivas só é possível graças a estruturação da narração em base de uma polifonia de vozes narrativas familiares e diversos pontos de vista (BAKHTIN, 1984). Estas vozes se encontram enredadas nos fantasmas incertos da memória manauara.

No mesmo sentido, Hatoum afirma em entrevista (2010):

A literatura fala basicamente da passagem do tempo, filtra uma experiência do autor, que é transferida para o narrador. Nem tudo que a gente viveu cabe na literatura, então você tem que filtrar essa experiência e dar sentido a ela. Dar sentido com coerência interna, com uma estrutura bem armada. Isso é que é difícil, porque você julga um livro não pelo que o autor é ou pelo que ele fez ou faz ou diz, e sim pela linguagem. Agora, é claro que alguma coisa de mim, da minha vida, está presente nos meus romances e nos contos.

Hatoum conseguiu traçar sua própria voz com a construção literária assentada nessas memórias familiares:

Tenho parentes no Líbano, país que visitei com meu pai em 1992 e que ele não visitava havia mais de 30 anos. Então foi uma viagem muito emocionante porque eu conheci o país dele; conheci muitos parentes, primos, tios. (...) Os libaneses têm várias origens étnicas, e nisso se parecem com os brasileiros. (...) O Líbano é um pequeno recorte do Mediterrâneo com muita área verde, montanhas, e sem região desértica. O clima é maravilhoso, pois combina a temperatura à beira-mar (Mediterrâneo) com um clima mais temperado das montanhas (HATOUM, 2010).

Miltom Hatoum, em uma entrevista concedida à Professora Aida Hanania, conta que: No Relato há um tom de confissão, é um texto de memória sem ser memorialístico, sem ser autobiográfico; há como é natural, elementos de minha vida e da vida familiar. Porque minha intenção, do ponto de vista da escritura, é ligar a história pessoal à história familiar: este é o meu projeto. Num certo momento de nossa vida, nossa história é também a história de nossa família e a de nosso país (com todas as limitações e delimitações que essa história suscite). (...). Além disso, as outras lembranças da infância, os relatos dos mais velhos.

No Relato, a família está construída ao redor da matriarca Emilie e de seu esposo inominável. O casal possui quatro filhos, sendo Hakim o mais velho e uma das vozes mais relevantes na narração; há os dois filhos que, como o pai, são inomináveis e, por fim, Samara Délia, mãe solteira, e sua filha. Além dos filhos biológicos, o casal possui um casal de filhos adotivos, sendo a filha, a relatora principal do livro e o irmão, seu interlocutor. Como afirmou Milton Hatoum em várias entrevistas, ele construiu os personagens do Relato a partir de suas histórias pessoais com sua família, seus amigos e seus conhecidos. Sabe-se que a família de Milton, líbano-brasileira, foi constituída de um matrimônio entre uma manauara descendente de libaneses católicos e um libanês muçulmano imigrante. O autor narra esta melancolia da vivência entre duas línguas, duas culturas (a libanesa e a manaura) e duas religiosidades (católica e islâmica). Nesse sentido, esta situação aproxima do estado psicológico do duplo de Jung (1984) como aquel projeção do sujeito do eu dual que se vê, a si mesmo, como Outro, como entidade autônoma, mas idêntica ou semelhante em todos os aspectos. É o rival ou o complemento da personalidade. É um ser cindido em dois, do encontro do outro- o estrangeiro íntimo que habita o homem- ganha ressonâncias trágicas e fatais.

Após a publicação do Relato, Hatoum revisita várias vezes, vozes e situações familiares. Temos os seguintes exemplos:

Em Dois Irmãos (2000) aborda a relação entre dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, e suas relações com a mãe, o pai e a irmã, numa família de origem libanesa que vive em Manaus. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e o filho dela (o narrador). O amor doentio da mãe (Zana) pelo filho mais novo (Omar) tem muito de incesto, ignorando a relação com o próprio marido.

A narradora do conto “A natureza ri da cultura” é a mesma do Relato de um certo oriente, na mesma situação de rotorno a casa da avó Emilie. A narradora fala sobre Armand Verne, um dos amigos da sua avó, “um andarilho que colecionava lendas e mitos da Amazônia. Um homem que se apropriava da cultura dos nativos para salvá-los” (p.100) e, ao referir-se à plaqueta escrita por Delatour, outro estrangeiro amigo da família, intitulada “Voyage sans fin”, dá bem a significação do personagem-viajante.

No conto “O adeus do comandante”, narra sobre o seu Moamede, um homem que gosta de contar histórias, um vendedor de mercadorias, que são transportadas pelo rio Amazonas. Hatoum não escreve, mas fica claro que Moamede é um árabe, ou descendente de árabes. Numa entrevista, Hatoum nos contou que “seu Moamede é uma homenagem ao meu avô Mamede, que foi um grande contador de histórias”. Hatoum afirma que as histórias que ouviu, na infância, sobre o Líbano, país de origem da sua família, ajudaram a estimular a sua imaginação. Muitas delas eram contadas pelo avô Mamede. “Ele contava histórias para os netos, e muitas me impressionaram”, afirma. O conto, além de homenagem ao avô, é dedicado a um tio de Hatoum, Adib M. Assi. “Uma das pessoas que mais me estimularam quando comecei a escrever. Ele lê tudo o que publico”, nos afirmou Hatoum. Ao respeito disso, Antonaccio (1996) conta:

Com a morte de Mamed Ali Assi, em 1968, a empresa se desmembra antes propriedade Mamed Ali Assi deixou 7 filhos: Tufic Assi, engenheiro; Munir Assi, empresário; Adel Assi, político; Samir Assi, economista e atleta; Adib Assi (sem dados) e as irmãs Naha e Nohad Assi, que deram continuidade com a loja, dentre estes filhos está a mãe do escritor Milton Hatoum, a filha Naha Assi Hatoum casou-se com o comerciante (regatão) Hassan Ibrahim Hatoum, pai do escritor. (ANTONACCIO, 1996, p. 238).