Embora a teoria da intertextualidade seja por vezes entendida como uma simples atualização da crítica de fontes, os dois conceitos apresentam diferenças importantes. Ainda que os fenômenos estudados sejam praticamente os mesmos, a saber, a presença de outros textos em uma obra, a crítica das fontes busca a identificação das “influências” encontradas em um texto, estabelecendo uma relação de dependência deste com relação às obras anteriores nele identificadas. Já a intertextualidade tenta compreender o processo de produção do texto, que passa pela transformação de escritos anteriores. A relação entre os textos é vista de modo diferente do considerado pela crítica de fontes, isto é, do texto segundo ao texto base. Ao evocar determinado(s) texto(s), um escritor modifica a leitura dos mesmos, e amplia suas possibilidades de interpretação.
A intertextualidade pode ser vista como uma tentativa de incutir nos estudos literários a ideia de um sistema de relações. Nos anos 60, época na qual surge o conceito, o discurso literário passava por uma mudança significativa de seus instrumentos de análise. Estes visavam tornar o estudo dos textos uma ciência que considerasse seu objeto de modo imanente, ou seja, sem referência a determinações psicológicas ou biográficas tal como o fazia a crítica das fontes. O texto ganha o estatuto de objeto teórico, a ser analisado per se. A intertextualidade surge então como uma noção “linguística e abstrata, integrada à análise transformacional (redistribuição da ordem da língua e transformação dos códigos), a fim de levar em conta o social e o histórico”.60
O conceito de intertextualidade, definido pela primeira vez por J. Kristeva61 sofreu (e ainda sofre) muitas reformulações ao longo do tempo. Uma das mais importantes é a sugerida por G. Genette, que o interpreta como uma
60 SAMOYAULT, T. A intertextualidade. Tradução Sandra Nitrini. São Paulo: Hucitec, 2008. p. 15. 61 Ver Sēmeiotikē. Recherches pour une sémanalyse. Paris : Seuil, 1978.
32 das categorias da transtextualidade, definida pelo crítico como toda relação existente entre textos. Para Genette, a palavra intertextualidade deve ser usada apenas quando dois ou mais textos apresentam relações evidentes entre si, como citações, alusões diretas ou plágio. O intertexto apenas incorporaria os textos-base sem nenhuma transformação.
Duas categorias da transtextualidade nos interessam particularmente, a hipertextualidade e a metatextualidade. A primeira é definida como a relação existente entre um texto A anterior, o chamado hipotexto, e um texto B derivado do primeiro, o hipertexto. Genette admite que todos os textos apresentam ligações hipertextuais com outros de alguma forma e que tal vínculo pode ser estabelecido por meio de uma transformação direta ou de uma transformação indireta, a qual Genette chama imitação. Ulysses de James Joyce seria um bom exemplo de transformação direta, e a Eneida de Virgílio de imitação de um hipotexto comum, a Odisseia de Homero.
Esse vínculo entre os textos não é, segundo o crítico, um comentário do hipertexto sobre o hipotexto; este tipo de relação seria reservado à metatextualidade, sem que haja obrigatoriamente citações diretas do texto analisado no texto que o analisa. A metatextualidade constituiria a relação crítica por excelência, existindo apenas entre um texto literário e uma análise do mesmo. Como exemplo de tal categoria, Genette cita a Fenomenologia do Espírito de Hegel, que comentaria Le Neveu de Rameau, de Diderot, mas sem citá-lo explicitamente.62
O próprio Genette admite que as categorizações por ele criadas não são fechadas: todo hipertexto apresenta certo valor metatextual, e o pastiche sempre contém uma crítica do estilo dos autores imitados. O estabelecimento de um vínculo entre a metatextualidade e a noção de hipertextualidade é, portanto, possível.
P. Martin Sanchez atribui à hipertextualidade uma definição que vale a pena analisar. Tendo por base uma formulação de T. Nelson, a hipertextualidade representaria a possibilidade de escolher entre alguns caminhos diferentes em um texto. Nelson pensava nas ligações entre textos em informática, mas podemos conservar a noção de texto sem sequência pré-
33 estabelecida, e que permite ao leitor seguir vários caminhos e muitas potencialidades de leitura. Em Manderre essa multiplicidade de sentidos é gerada não apenas por conta da forma fragmentária do texto, mas principalmente pela indefinição de cada uma das narrativas, nas quais o leitor não dispõe de nenhuma informação sobre o que as antecede ou as precede. A leitura linear é uma possibilidade, mas a formação de sentido não é garantida por tal percurso, e por nenhum outro. Cabe ao leitor interpretar o texto como lhe aprouver – e nisso está a maior dificuldade da leitura de Manderre. Já em um texto como La Vie mode d'emploi, que pode dar a impressão de ser um romance hipertextual, a leitura só pode ser linear:
Chaque unité d’information doit être lue comme la suite naturelle d’une première et le début d’une troisième (...). C’est pour cela que l’image qui traverse le roman d’un bout à l’autre, celle du puzzle, fonctionne plutôt comme une métaphore et ne représente pas la structure réelle du texte. (…) Au bout du compte, donc, même si le lecteur de La Vie mode d’emploi est apparemment libre de poursuivre
une lecture hypertextuelle, il ne fait que parcourir le seul chemin que l’auteur a conçu pour lui.63
Apesar do exposto, decidimos seguir a tendência identificada em boa parte dos estudos sobre a teoria e conservar a utilização dos termos “hipotexto” e “hipertexto” por nos parecerem neutros, isto é, sem qualquer relação hierárquica. Quanto à noção de intertextualidade, por ser empregada pela maioria da crítica, decidimos adotá-la por comodidade, e entendê-la como todo vínculo entre textos. Finalmente, para os textos cuja leitura é múltipla, embora estejamos de acordo com as formulações de Martin Sanchez, escolhemos não adotar sua terminologia, a fim de não causar confusão de conceitos.
Também a noção de metatextualidade não tem um significado unânime entre os críticos. Para U. Eco e B. Magné64, este último pensando
63“Cada unidade de informação deve ser lida como a sequência natural de uma primeira [unidade] e o
início de uma terceira (...). Por isso a imagem que perpassa o romance, a do quebra-cabeça, funciona de fato como uma metáfora e não representa a estrutura real do texto. (...) No fim das contas, portanto, mesmo que o leitor de La Vie mode d’emploi esteja aparentemente livre para seguir uma leitura
hipertextual, ele apenas percorre o único caminho traçado pelo autor.” MARTIN SANCHEZ, P. “Hypertextualité et pseudo-hypertextualité dans l’oeuvre de Perec”. In Le Cabinet d’amateur. Revue
d’études perecquiennes. p. 9-10. Disponível em
http://www.associationgeorgesperec.fr/IMG/pdf/PMartin.pdf. Acesso em 22 de maio de 2012.
64 Em especial em ECO, U. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. Tradução
de Attilio Cancian. São Paulo: Perspectiva, 2004, e em MAGNE, B. “Le puzzle mode d’emploi. Petite propédeutique à une lecture métatextuelle de La Vie mode d’emploi de Georges Perec”. In ___, op. cit.
34 especialmente no caso da obra de Perec, um metatexto é uma obra que expõe suas próprias estratégias de produção, e a metatextualidade seria uma função existente apenas e tão somente no interior de um texto literário. Como exemplo de metatextualidade, poderíamos citar a aparição do “grand ami Hubert” em Quel petit velo à guidon chromé au fond de la cour? A presença do amigo do narrador de Paludes é suficiente para que se estabeleça uma relação entre os dois textos. Mas Hubert surge trazendo um maçarico, e o instrumento sugeriria o modo como Perec insere o personagem em seu texto, retirando-o do contexto da sotie e “soldando-o” à estória do pobre Kara-.65 Esse tipo de alusão
ao próprio trabalho também aparece em Manderre, em pelo menos um trecho: quando o narrador fala do petit fétiche levado por Manderre em todas as suas viagens66. O objeto pode ser comparado ao próprio personagem, transposto pelo narrador a várias situações diferentes e desconexas. Ele afirma conhecer o significado de tal objeto – afinal, ele é o narrador, e decide como quer o destino de sua criatura – mas não o revela ao leitor, para que este descubra sozinho. O episódio da leitura de Paludes feita pelo protagonista também pode ser interpretado como metatextual se pensamos na “adesão” à sotie, invocada por Manderre e à “ausência de adequação” constatada pelo narrador. Com relação à primeira, ela surge como resultado da alegria de Manderre à leitura de Paludes. Tal sentimento pode ser atribuído ao próprio Perec, de acordo com sua correspondência. A adesão ao livro de Gide é tal que este decide “continuá-lo”; no entanto, essa continuação não constitui uma simples “adequação” da sotie a outro contexto, e sim de uma reescritura de Paludes, com personagens diferentes, mas que conservam o saugrenu, o absurdo do texto gidiano.