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The Data Collection Process

CHAPTER 4: METHODOLOGY

4.5. The Data Collection Process

A humanização tem sido abordada constantemente, nos atuais debates sobre o contexto de saúde e nas recentes pesquisas da área da saúde, como tema relevante e como subsídio para a melhoria do cuidado e para a consolidação dos princípios e valores do SUS.

A partir da análise dos artigos selecionados para este estudo, também foi possível perceber que a humanização é uma temática emergente nas pesquisas atuais da área da saúde, sendo enfocada desde um discurso que valoriza os aspectos emocionais e subjetivos até os aspectos que envolvem mudanças na gestão e nas práticas de saúde.

Como dito anteriormente, apesar da diversidade percebida nos artigos, os temas foram construídos a partir dos próprios textos, articulando os artigos que compõem essas três tendências, sendo possível realizar uma “conversa” com esses temas para melhor explorar seu(s) sentido(s).

Cabe ressaltar que fizemos apenas algumas considerações sobre os conceitos de humanização conforme trabalhados pelos textos, em nossa compreensão, com a intenção de trazer alguns elementos para reflexão e questionamentos, mesmo porque se trata de artigos com número limitado de páginas, o que por si só já limita a visualização do aprofundamento teórico.

Alguns autores dos artigos conceituam o termo humanização de uma maneira explícita, ao contrário de outros que discorrem sobre elementos ou temas que nos permitem aproximar dos significados que o termo humanização tem para eles.

Nos artigos que conceituam explicitamente o termo humanização, esta é enfocada como a valorização do ser humano vista na sua totalidade, de maneira integral, como um ser completo e complexo, considerando a importância do respeito, do acolhimento, da dignidade, da escuta, da empatia, do diálogo, enfim, das relações interpessoais respeitosas.

Os autores dos artigos analisados, ao apresentarem os conceitos de humanização, enfocam, assim, aspectos relacionados ao ser humano como percebê-lo como um ser único e insubstituível, o que inclui circunstâncias sociais, éticas, educacionais e psíquicas, além da valorização dos significados atribuídos pelo ser humano à sua experiência de adoecimento e sofrimento, da prevalência da comunicação, do diálogo, como mostrado a seguir em trechos retirados dos próprios textos*:

O conceito de humanização se aproxima do respeito. É necessário perceber o doente como único, insubstituível e que merece ser tratado com dignidade. O respeito é o componente e o antecedente para cuidar e humanizar cuidados (texto 3, 2003, p.20-21).

Humanizar é resgatar a importância dos aspectos emocionais, tido como indissociáveis dos aspectos físicos do paciente, assumindo uma postura ética de acolhimento e de reconhecimento dos limites. É a luta de cada um para a vitória de todos, levando em conta os benefícios daqueles que sofrem (texto 6, 2004, p.82).

(...) a humanização é definida como um estado de bem- estar, envolvendo carinho, dedicação, respeito pelo outro, ou seja, considera a pessoa como ser completo e complexo (texto 6, 2004, p.82).

Humanização em saúde é, portanto, resgatar o respeito à vida humana, levando em conta os aspectos

* Os trechos dos textos analisados são apresentados na íntegra, seguidos do número do artigo. Ressalta-se que, em alguns casos, os trechos também referem-se às ideias de outros autores que fundamentam o texto analisado.

biopsicossocioespiritual – que, obviamente, implica resgatar aspectos subjetivos. Humanizar é, pois, assumir uma postura ética de respeito ao outro, acolhendo o desconhecido e o reconhecendo em seus limites (texto 7, 2004, p.446).

Humanizar o atendimento é valorizar o significado atribuído pelo ser humano à sua experiência de adoecimento, ao seu sofrimento, reconhecendo as relações interpessoais como um processo, que permeia a organização, produtiva do trabalho e suas dimensões técnico-assistenciais. Resgatar o espaço do acolhimento, da escuta atenta e interessada nas necessidades e expectativas das pessoas pode ser um estímulo à transformação das práticas em saúde, em que a clínica não é ignorada, mas associada ao conhecimento de mundo daqueles que procuram diariamente um serviço de saúde (texto 12, 2006, p.366).

A humanização pode ser definida como valor, com o respeito à vida humana, incluindo circunstâncias sociais, éticas, educacionais e psíquicas presentes em todo ser humano e, conseqüentemente, nas relações interpessoais. Este valor deve-se fazer presente e complementado com aspectos técnico-científicos (texto 16, 2007, p.315).

(...) a humanização é conceituada como valor, respeitando todos os complexos aspectos do ser humano. Enfoca a filosofia de que o cliente precisa sentir-se bem física, psíquica, social e moralmente, não se limitando a uma visão focal, mas, sim, abrangente do ser humano (texto 16, 2007, p.318).

Humanizar o atendimento não é apenas chamar o paciente pelo nome, nem ter um sorriso nos lábios constantemente, mas também compreender seus medos, angústias, incertezas, dando-lhes apoio e atenção permanente (texto 22, 2008, p.186).

Dentre os sentidos comumente utilizados, quando discutimos com profissionais de saúde e usuários, encontram-se aqueles que designam humanização como: tratar com respeito e carinho, amor, empatia, capacidade de colocar-se no lugar do outro, acolhimento, aceitação do outro, diálogo, tolerância, tratar do outro com respeito e educação, aceitar as diferenças, resgatar a dimensão humana nas práticas de saúde. (...) (texto 28, 2009, p.496).

Alguns dos trechos descritos trazem, em essência, a necessidade de construção de um olhar ampliado acerca do ser humano, compreendendo-

o em sua completude e complexidade, o que se relaciona também à sua singularidade. Isso nos leva a pensar o quanto é necessário que tais ideias transformem-se efetivamente em novos modos de cuidar que incorporem o ser humano nessas dimensões. Para tal, é importante que o processo saúde-doença seja compreendido de modo ampliado, ou seja, como inter-relação de dimensões biológica e sociocultural.

Nessa direção, a formação dos profissionais da saúde requer que a base conceitual dos estudantes seja ampliada, fundamentando-se em um entendimento do processo saúde-doença como fenômeno complexo e não limitado ao campo biológico (CECCIM; FEUERWERKER, 2004). Isto é, como já comentado, é importante para que a possibilidade de conceber e cuidar do homem de modo ampliado não se limite a um discurso teórico, desarticulado das práticas de cuidado.

Ainda, podemos relacionar que essas ideias pontuadas podem ser integradas à noção de integralidade como um dos princípios fundamentais do SUS que, aliás, é indicado nas políticas públicas como um eixo norteador da formação dos profissionais de saúde.

Para Mattos (2009), um dos sentidos de integralidade refere-se à recusa de formas de reducionismo, principalmente pelo reducionismo de sujeitos a objetos. Assim, é necessário reconhecer que as práticas de cuidado são intersubjetivas e que devem se nortear por uma perspectiva dialógica, determinando as necessidades dos serviços de saúde e ações em cada situação, individual ou coletivamente (MATTOS, 2001).

A humanização é enfocada também em relação ao compromisso com os direitos humanos, à garantia de acesso aos usuários dos serviços de saúde e à possibilidade de estabelecer vínculos solidários e de participação coletiva na gestão dos serviços de saúde, sendo ainda explicitada como encontro de sujeitos e subjetividades. É também comentada a ideia de que a humanização é possibilidade de transformação da cultura institucional, um movimento contra a violência institucional na área da saúde. Assim, emergem aspectos que vão para além da relação interpessoal e, ao mesmo tempo, que reconhecem os

profissionais também em sua subjetividade:

Humanizar a atenção à saúde, com toda a intensidade de sua inscrição no debate (bio)ético passa, então, a significar; a valorização da dimensão subjetiva e social, em todas as práticas de atenção e gestão do SUS (...); a garantia de acesso dos usuários às informações sobre saúde (...); a possibilidade de estabelecer vínculos solidários e de participação coletiva, por meio da gestão participativa, com os trabalhadores e usuários (...) (texto 25, 2008, p.486).

Atualmente, o termo humanização é aplicado àquelas situações em que, além de valorizar o cuidado em suas dimensões técnicas e científicas, reconhecem-se os direitos do paciente, autonomia e subjetividade, sem se esquecer do reconhecimento do profissional também enquanto ser humano, ou seja, pressupõe uma relação sujeito/sujeito (texto 37, 2009, p.272).

Neste estudo o termo humanização nas práticas de saúde foi concebido como o encontro de sujeitos no e pelo ato de cuidar, ou seja, o encontro de subjetividades. (...) (texto 37, 2009, p.272).

Pode-se demarcar, do ponto de vista conceitual, que os valores que norteiam a política de humanização são a autonomia, a justiça, a co-responsabilidade entre os sujeitos, o estabelecimento de vínculos solidários e a participação coletiva no processo de gestão, caracterizando uma proposta ética, estética e política (texto 25, 2008, p.486).

Sob vários olhares, a humanização pode ser compreendida como: princípio de conduta de base humanista e ética; movimento contra a violência institucional na área da saúde; política pública para a atenção e gestão no SUS; metodologia auxiliar para gestão participativa; tecnologia do cuidado na assistência à saúde (texto 32, 2009, p.254). Em nosso entender, a humanização se fundamenta no respeito e valorização da pessoa humana, e constitui um processo que visa à transformação da cultura institucional por meio da construção coletiva de compromissos éticos e de métodos para as ações de atenção à saúde e de gestão dos serviços. (...) (texto 32, 2009, p.254).

A humanização reconhece o campo das subjetividades como instância fundamental para a melhor compreensão dos problemas e para a busca de soluções compartilhadas. Participação, autonomia, responsabilidade e atitude solidária são valores que caracterizam esse modo de fazer

saúde que resulta, ao final, em mais qualidade na atenção e melhores condições de trabalho. Tal essência é a aliança da competência técnica e tecnológica com a competência ética e relacional (texto 32, 2009, p.255).

(...) A humanização propõe a construção coletiva de valores que resgatem a dignidade humana na área da saúde e o exercício da ética, aqui pensada como um princípio organizador da ação. (...) (texto 32, 2009, p.255).

Nessa direção que extrapola as dimensões interpessoais, outro texto aponta a humanização como estratégia de oposição às dificuldades enfrentadas para a concretização do atual sistema de saúde, sendo instituída como política:

(...) o papel da humanização enquanto oposição à perpetuação de espúrias relações de poder, na dependência do fortalecimento da participação democrática dos diferentes atores envolvidos (...) (texto 25, 2008, p.486). Esses aspectos do ser humano, considerados nesses artigos, vão ao encontro das diretrizes gerais da Política Nacional de Humanização (PNH) que apontam como necessários para a sua implementação a valorização da dimensão subjetiva e social, em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, a ampliação do diálogo entre todos os sujeitos envolvidos nas práticas de saúde, promovendo a gestão participativa, e o fortalecimento do compromisso com os direitos de cidadãos, construindo um sentido positivo de humanização (BRASIL, 2008).

A PNH afirma-se como política pública transversal, porque transversalmente às demais ações e programas de saúde, preocupa-se ao que como movimento social, dialoga e tenciona para tradução dos princípios do SUS em “como fazer”, além de estimular trocas solidárias entre gestores, profissionais e usuários na produção em saúde (PEDROSO; VIEIRA, 2009).

Assim, Pedroso e Vieira (2009) definem o princípio transversalizar da PNH como posicionar saberes e práticas de saúde no mesmo plano comunicacional, o que provoca a desestabilização dos limites dos saberes, territórios de poder e modos instituídos nas relações de trabalho, produzindo um plano comum. Portanto, essa comunicação não deve ser

vertical, o que manteria a dissociabilidade entre elaboração e execução, nem também se trata de uma prática horizontal que acontece entre iguais, pois isso negaria os distanciamentos entre as categorias profissionais que precisam ser enfrentados, o que envolve as diferenças quanto à formação do profissional da saúde, a sua atuação na gestão e na atenção, bem como os sentidos populares que são atribuídos aos diferentes profissionais.

Essas ideias descritas sinalizam, a nosso ver, que na formação dos profissionais de saúde, é importante que as concepções e práticas de trabalho articulado, a comunicação entre os profissionais, nas diversas instâncias do SUS, e a construção de projetos de trabalho sejam contemplados de modo crítico e não idealizado.

Há ainda comentários que relacionam a humanização à recuperação de valores humanos esquecidos nos tempos atuais e ao reconhecimento da natureza humana em sua essência:

Embora o termo laico „humanização‟ possa guardar em si um traço maniqueísta, seu uso histórico o consagra como aquele que rememora movimentos de recuperação de valores humanos esquecidos ou solapados em tempos de frouxidão ética. (...) (texto 32, 2009, p.254).

Humanizar, então, não se refere a uma progressão na escala biológica ou antropológica, o que seria totalmente absurdo, mas o reconhecimento da natureza humana em sua essência e a elaboração de acordos de cooperação, de diretrizes de conduta ética, de atitudes profissionais condizentes com valores humanos coletivamente pactuados (texto 32, 2009, p.55).

Compreendemos que se faz necessário cuidado quando nos referimos às ideias de resgate dos valores humanos para não nos limitarmos à concepção de humanização como a “ação de resgate do homem bom”, o que contraria princípios da PNH relativos à produção de sujeitos autônomos e protagonistas, como comenta Pedroso e Vieira (2009).

Esses autores ainda enfatizam que a visão da humanização como ação do resgate do homem bom pode relacionar-se à compreensão da

saúde como “fazer o bem” que se articula, por sua vez, a uma maneira assistencialista, paternalista de construção das práticas de cuidado, ficando implícito o SUS como favor e não como direito de todos. Com isso, a sociedade fica nas mãos de interesses individualizados, mantendo-se práticas autoritárias de gestão e atenção (PEDROSO; VIEIRA, 2009).

As ideias até aqui tratadas podem mostrar que a visão de humanização do cuidado em saúde pode comportar algumas conotações distintas que se relacionam ao modo como são concebidos o ser humano e o processo saúde-doença, bem como a própria compreensão dos sujeitos sobre o SUS. A partir disso podem ser construídas diferenciadas práticas de ensino e atenção relativas à humanização.

Em se tratando dos conceitos/definições sobre a humanização, compreendemos que alguns artigos partem da ideia geral de que há uma compreensão já dada sobre humanização, uma vez que não definem o termo explicitamente. Com isso, é possível que o termo humanização seja utilizado, em alguns momentos, sem um referencial teórico explícito, o que pode dificultar a própria discussão conceitual desse tema na e sobre a formação do profissional de saúde, subentendendo-se, a partir da análise desses artigos, que o ensino da humanização em saúde, nos cursos de graduação, pode apresentar limites no que se refere à possibilidade de o aluno construir referenciais teóricos relacionados, principalmente, ao campo das ciências humanas, o que pode dificultar aprofundamentos teórico-conceituais ou mesmo possibilitar uma certa banalização do termo. Afinal, a que homem, conceitualmente falando, se refere o aluno em sua formação?

Referimo-nos à banalização, pois a humanização não deve ser vista desvinculada de um projeto político, como um termo isolado e fora do contexto de saúde, como uma medida particular de cada programa ou pessoa. Conforme comenta Benevides e Passos (2005), a humanização como política pública deve criar espaços de construção e troca de saberes, possibilitando mudanças nas práticas de saúde, e não ter um caráter fragmentado em cada iniciativa de atividades, propostas ou programas.

Como ensinar humanização nos cursos de graduação da área da saúde? Que humanização ensinar, considerando que as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos da área da saúde especificam que os profissionais de saúde devem ter uma formação integral? No ensino serão claras as compreensões sobre as bases teóricas nas quais se fundamenta o conceito de humanização descrito pela PNH?

Pensar acerca dessas questões é fundamental no âmbito da formação, uma vez que a ausência ou limitação de conhecimentos mais consistentes sobre os fundamentos que podem nortear as ações “humanizadoras”, nos serviços de saúde, pode levar à construção de atitudes e ações profissionais rotineiras, padronizadas que, mesmo tendo a intenção de humanizar o cuidado, podem perder de vista a complexidade e singularidade inerentes à pessoa humana.

Considerando o contexto atual do SUS, que necessita que suas práticas sejam modificadas, para que seja construído um sistema voltado à promoção e à prevenção da saúde, muitos textos enfatizam que é necessário investir na formação dos trabalhadores de saúde e que as instituições formadoras, as universidades têm um importante papel nessa direção.

Ao ser mencionada a importância desse papel, são também delineados os limites dos modelos de formação ainda existentes, sendo apontadas necessidades de mudanças.

3.2 Universidade e as Diretrizes Curriculares Nacionais para os