Chapter 2 Methodology
2.3 Data collection
Os resultados das investigações desenvolvidas, ao longo deste Capítulo, elaborado com o propósito de estender o grau de compreensão com que o termo “língua portuguesa” é empregado para denominar a língua falada pelo povo brasileiro e pelos portugueses ibéricos, muito embora sempre seja observado haver diferenças entre o que dizem por meio dessas suas falas. Essas diferenças são idiomáticas, pontuam os estudiosos que se ocupam com as questões de identidade linguística, sendo que os idiomas respondem por propriedades que explicitam essas diferenças entre os modos com que os homens dizem uns aos outros seus conhecimentos de mundos, expressando-se em língua e, pelo exercício de suas atividades de fala, comunicam esses seus conhecimentos. São eles, conhecimentos sócio-cultural- históricos, herdados de seus antepassados, mas continuamente reinterpretados por seus herdeiros: as gerações futuras que respondem pela transmissão e pelo cultivo desses saberes.
A comunicação desses saberes, a serem cultivados e propagados entre seus herdeiros, focalizados pelo princípio da reinterpretação, possibilitou que se considerasse o fato segundo o qual o que é doado como bem cultural não tem equivalência unívoca com o que é recebido. Assim, os conceitos, as práticas e os valores são continuamente transformados e reinterpretados, para se adaptarem a outros tempos e lugares do espaço para onde se deslocam e são reconstruídos. Essa reconstrução se refere, contudo, a descobertas de outros-novos saberes por meio dos quais os velhos-conhecimentos – aqueles já conhecidos e usados – são recontextualizados, reelaborados ou ressignificados.
Logo, socialização de bens culturais não materiais e materiais – conceitos, ideias, práticas, valores – comunicados pelo exercício das atividades de fala têm a sua
materialidade, ou objetividade assegurada pelo funcionamento efetivo de elementos léxico-gramaticais da língua por meio dos quais eles se fazem recursos que asseguram o exercício das denominadas práticas sócio-interativas da linguagem. Nessas e por essas práticas, esses recursos fazem referência aos modelos de representações por meio dos quais os saberes herdados estão sendo cultivados, embora reinterpretados por novos-outros conhecimentos resultantes de descobertas, de modo a serem ressignificados, mas não cancelados ou ignorados.
Os estudos de Hjelmslev contribuíram para que se compreendesse o fato de a língua portuguesa ser objeto de pertença de povos distintos, cujas comunidades se diferenciam por variados matizes culturais que, ao longo do tempo de convivências desses povos distintos, foram sendo reinterpretados uns pelos outros. Desses processos de reinterpretações pôde-se compreender a distinção entre “língua” e “idioma” na/pela relação que as qualifica, pois o idioma sempre tem por sistema de referenciação a relação indissociável entre língua-cultura. Assim, se a língua é forma e essa forma não tem a sua realidade assegurada se dissociada de conteúdo, esse conteúdo faz remissão a conhecimentos culturais, históricos e socialmente compartilhados entre os membros de uma comunidade. Tais conhecimentos em sendo dinâmicos asseguram a unidade da comunidade pelas formas léxico- gramaticais da língua e pela remissão ao matiz pelo qual os velhos conhecimentos foram e são organizados ou ordenados, consoante modelos de estruturações organizadoras e estruturadoras de seus significados.
Esses modelos de representações cognitivas referentes a organizações de ordenações apontam que as línguas não são simples instrumentos reprodutores, pois elas também são remodeladoras desses mesmos conhecimentos, por um lado. Por outro, se os novos conhecimentos não são independentes dos velhos, os conceitos, as ideias e os valores também não o são, bem como os modelos pelos quais esses conhecimentos são organizados, ordenados e expressos em língua, conforme acordo sobre esses modelos de organização e ordenação. A esses modelos denominam-se “categorias semânticas”: aquelas pelas quais significamos os mundos da cultura do universo humano que são flexíveis e, também, são elas que orientam o foco pelo qual se percebe e compreende os novos conhecimentos. Essa mesma flexibilidade faz com que se compreenda o fato de as línguas
funcionarem como códigos permeáveis, por onde transitam significações de matizes culturais distintas.
Assim compreendidas, pôde-se pontuar as distinções entre língua-materna e língua oficial, tendo por parâmetro o idioma como produto dos processos de idiomatização da língua portuguesa pelos matizes da cultura ameríndia e africana, neles implicados a reinterpretação e recategorização dos saberes herdados do povo português, ao longo do tempo de colonização. Nessa mesma proporção, esses mesmos matizes foram interpretados pelos portugueses ibéricos que foram se fazendo brasileiros.
Resultante desse tempo de vivências históricas, quando a língua oficial era aquela do Estado Português, a língua materna era a “língua geral”; contudo, nas práticas sociais diárias dos colonos da “Casa Grande e das Senzalas”, bem como no cultivo da terra dos engenhos, os “vernus”, ou escravos africanos – muitos deles filhos da mistura – também já a idiomatizavam. Assim, também idiomatizada entre os ameríndios, mesmo antes de se fazer língua oficial do novo Estado da América, o Decreto Real do Marquês de Pombal apenas contribuiu para que a nova Nação não se fizesse bilíngue. Mas os brasileiros africanizados também contribuíram para tornarem a língua portuguesa uma língua vernácula e/ou materna. São essas três dimensões dos matizes culturais desses três povos, de civilizações distintas, que respondem pela formação sócio-cultural-histórica do idioma brasileiro.
Numa síntese, concluímos:
a) o idioma brasileiro é uma arquitetura da estrutura da língua portuguesa, uma de suas vertentes históricas que se caracteriza pelos diferentes e variados usos majoritários que dele faz o povo da nação brasileira;
b) esse povo se constituiu e se construiu pelo próprio marco desses processos de idiomatização de que resultou a fundação da consciência e o sentimento de pertença ao próprio território brasileiro; assim, idiomatização e nacionalização são concepções indissociáveis;
c) a denominação “língua portuguesa” ou “língua brasileira” são inadequadas, visto que a primeira, falada por brasileiros, não equivale à mesma língua falada pelos
portugueses ibéricos; logo, duas arquiteturas diferenciadas; a segunda equivaleria a afirmar que esses dois idiomas seriam línguas distintas e elas não o são;
d) língua Oficial do Brasil ou Língua Nacional brasileira, como afirma Luft, faz remissão a uma mesma língua concebida como bem comum de duas nações, considerada pelo princípio da idiomatização;
e) a denominação “língua padrão” ou “língua de cultura” tem por sistema de referenciação a civilização da escrita e, nessa acepção, é preciso pontuar que, conforme estudo etnolinguísticos, não se pode considerar o fato de uma dada norma linguística ser acultural e outra cultural. Logo, as normas de usos são inerentes à civilização do oral tanto quanto as da escrita e, ainda hoje, em sociedades como a brasileira, esses dois modelos de civilizações coexistem;
f) sobre a norma padrão, afirma Cunha (2010: 75), ser o nosso idioma nacional, na diversidade de suas normas históricas, dentre as quais se situa “o padrão, língua de comunicação, língua materna, língua vernácula e, em se tratando do seu ensino escolar, pelo marco da civilização da escrita, pela qual a aprendizagem incide sobre a denominada “norma culta”, “não se pode mais adiar os efeitos das forças de diferenciações latentes no nosso idioma” nacional. Para o autor, esse ensino deve ser fundado e fundamentado em realidades normativas sentidas como próprias, porque assentadas no saber linguístico idiomático, sem que se abra mão da unidade da língua, mas assentada num domínio mais consciente por parte dos usuários de ser ela um idioma e na uma outra língua.
Nesse contexto, foram situadas as expressões idiomáticas como herança dos matizes cultivados, ao longo desse tempo de idiomatização que se buscou tematizar neste Capítulo, de sorte a apontar seus registros em língua escrita usada pelos greco-latinos e herdadas por todos os povos da Europa, principalmente pelos usuários das línguas neolatinas. No caso dos seus usuários ibéricos que delas nos fizeram herdeiros, elas foram por eles interpretadas e, ao serem por nós empregadas, elas resultam de outros-novos processos de reinterpretações. Outras expressões, conforme se buscará focalizá-las ao longo dos outros dois capítulos desta pesquisa que as tematiza, têm por marco matizes da cultura indígena na sua confluência com aqueles da africana. Contudo, todas elas, em tendo sido
interpretadas pelo idioma brasileiro, são próprias do nosso povo, embora “tradicionais” e, por isso, institucionalizadas em diferentes e variadas línguas, seus significados são continuamente ressemantizados, à semelhança de quaisquer outros elementos léxico-gramaticais, na intermitência das práticas de linguagem.