4. METHODOLOGY AND DATA
4.3. Data Collection and Methods of Analysis
As mudanças no contexto económico e social nas últimas dé- cadas têm provocado alterações significativas nas actividades laborais. Maiores exigências quanto à qualificação e formação profissional, mudanças tecnológicas permanentes, pressão por produtividade, aumento crescente da automatização e da informatização com consequências ao nível do (des)emprego têm gerado ameaças constantes à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores.
De facto, já em 1966, antes mesmo das questões como stres- se no trabalho e factores psicossociais se tornarem expressões correntes, foi apresentado nos Estados Unidos um relatório intitulado “Protecting the Health of Eighty Million Workers - a national goal for occupational health”, cujo objectivo era o de orientar os futuros programas de saúde no trabalho. Este concluía que existiam cerca de vinte problemas urgentes que necessitavam de uma abordagem prioritária, entre os quais a saúde mental no trabalho e os factores do local de trabalho que podiam contribuir para as situações de risco. Trinta anos depois, viemos confirmar que todas as ameaças que foram identificadas vieram de facto a cumprir-se sem que se existido qualquer preocupação na prevenção (Sauter, Hurrell, Murphy e Levi, 2001):
1. O stresse no trabalho tornou-se numa das principais cau- sas de incapacidade no trabalho, por exemplo, em 1990 nos Estados Unidos cerca de 13% dos casos de incapacidade se deviam a stresse no local de trabalho. Na União Europeia, a proporção de trabalhadores que se queixam de problemas ao nível da organização do trabalho é superior aos que se queixam de problemas físicos - sendo que os problemas na organização de trabalho estão relacionados com o apareci- mento de stresse.
2. As questões psicossociais do ambiente de trabalho têm assumido uma atenção crescente na sociedade actual (Eu- ropean Commission, 2000). Nos países da União Europeia, a exposição a stressores psicossociais relativos ao ambien- te de trabalho é relatada por uma larga proporção de em- pregadores, com consequências significativas para os tra- balhadores. Entre estas consequências apresentam-se as doenças músculo-esqueléticas, cardiovasculares, mentais, stress, burnout, diminuição da percepção da qualidade de vida, aumento do absentismo, aumento da carga de trabalho e decréscimo da motivação e produtividade. Recentemen- te, os países membros da União Europeia consideraram os factores psicossociais alvos de atenção prioritária entre os diversos factores implicados no contexto de trabalho, sendo igualmente identificados pelos diversos Institutos Europeus como o campo de investigação mais importante no futuro (EU-OSHA, 2000).
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2010) o con- ceito de ambiente psicossocial do trabalho inclui a cultura organizacional, bem como atitudes, valores, crenças e práti- cas quotidianas da empresa que afectam o bem-estar mental e físico dos trabalhadores. Acrescenta, ainda, que a avaliação dos riscos psicossociais deve ser realizada à semelhança dos riscos do ambiente físico do trabalho mas recorrendo a fer- ramentas diferentes, como estudos de caso, entrevistas e/ou questionários.
No sector da educação e, mais concretamente, a actividade profissional dos professores é referida, desde 1983 pela Or- ganização Internacional do Trabalho (OIT), como sendo a segunda categoria profissional, em nível mundial, com mais doenças de carácter ocupacional, incluindo desde reacções alérgicas a giz, distúrbios vocais, gastrite até problemas psi- cológicos e mesmo esquizofrenia”. (Vasconcelos, 1997,cit. in Webber, 2009, p. 6).
No contexto da educação, os professores têm sofrido uma exigência acrescida ao nível dos recursos materiais e huma- nos. Devido a essas situações vividas pelos professores, tem-se constatado alterações na saúde física e psíquica dos mesmos. Segundo Guérin et.al (1997), o trabalhador está envolvido na sua actividade com a sua personalidade e a sua história. De acordo com as situações de trabalho, a confrontação entre suas caracteristicas pessoais e as margens de manobras dei- xadas pela organização do trabalho irá revelar-se positiva para a sua saúde ou, no sentido contrário, provocar consequências para a saúde da relação psiquica com o trabalho. Investigações realizadas por Esteve (cit. in Picado, 2009), sobre o impacto do exercício profissional na personalidade dos educadores, re- velam que a acumulação de exigencias pedidas aos professores traduz-se num aumento significativo de fontes de pressão pre- sentes no ensino que, activadas pela aceleração da mudança social se tornam causadoras de emoções negativas. Contudo, muitos professores vencem o desafio da mudança. Infeliz- mente para outros docentes a profissão torna-se um espaço gerador de ansiedade, antagonismo e conflitos constantes, causando o stresse.
VOL 2. TRABALHO, SAÚDE
E MEDIAÇÃO AMBIENTAL
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O stresse no trabalho segundo Grandjean (2004, p. 163), é definido pelo estado emocional, causado por uma discrepância entre o grau de exigência do trabalho e os recursos disponíveis para o gerir. É assim, essencialmente, um fenómeno subjec- tivo e depende da compreensão individual da incapacidade de gerir as exigências do trabalho. O stresse dos professores é considerado pela OIT não somente um fenómeno isolado, mas um risco ocupacional significativo da profissão. O contacto di- recto com o público é o agravante para a deflagração de doen- ças psicossomáticas. Nomeadamente, o Síndrome de Burnout nos professores, considerado como uma resposta do organis- mo ao stresse laboral crónico e prolongado. Para Codo (2002, cit. in Webber, 2009, p. 9), manifesta-se em três dimensões: 1. Exaustão emocional; 2. Despersonalização; 3. Falta de en- volvimento pessoal no trabalho. Pesquisa realizada por Porto at.al (2001), com 1.024 professores no Estado da Bahia-Brasil, procurou investigar a associação entre aspectos psicossociais do trabalho e prevalência de distúrbios psíquicos em professo- res da educação infantil e do ensino primário, apresentaram uma prevalência de distúrbios psíquicos de 44%. Mostraram ainda uma associação positiva de 1,5 entre a presença de dis- túrbios psíquicos e as condições de demanda e controlo no trabalho, após ajustado para variáveis sexo, zona de trabalho e suporte social e exigência no trabalho
Estudo realizado com 127 professores de uma escola secun- daria do Distrito do Porto, onde se avaliaram vários indicado- res relacionados com o trabalho e o bem-estar pessoal (stresse, “burnout”, saúde física e satisfação profissional), revela que cerca de 40% dos participantes neste estudo terem referido experienciar índices globais elevados de stresse associados a sua profissão. Verificou-se ainda que mais de metade dos participantes (52%) referiram o comportamento inadequado e a indisciplina dos alunos como geradora de elevado mal-es- tar, seguindo-se o trabalho burocratico e o excesso de aulas (causadora de problemas para quase 34% dos professores), o estatuto da carreira docente (fonte de tensoes para 26% dos participantes), as pressões de tempo e o excesso de aulas (ava- liada como muito problematica por 25% dos docentes) e, por fim, as disparidades nas capacidades apresentadas pelos alu- nos, que suscitou maiores dificuldades a 18% dos profissionais deste estudo.
No contexto da saúde ocupacional as dimensões físicas são apenas a ponta do iceberg, porem as dimensões que as sus- tentam são as sociais, afectivas, cognitivas e criativas. O tra- balho é uma dimensão psicológica, afectiva e de identidade e não apenas um meio de subsistência, portanto as acções para promoção à saúde no trabalho devem ser direccionadas às mu- danças na organização do trabalho, e não aos comportamentos individuais, ou seja, a organização do trabalho está relaciona- da com a instância determinante do grau de demanda psicoló- gica e de controlo. Assim, a esse nível de determinação é que devem ser realizadas as intervenções destinadas à melhoria das condições de saúde no ambiente laboral.
Não sendo possível estudar, todos os sectores de trabalho, pretendemos com este artigo realçar a exposição a risco psi- cossocial e o impacto na saúde e bem-estar que os problemas psicossociais têm ou podem ter nos professores.
3. METODOLOGIA
OBJECTIVOS
O principal objectivo deste trabalho é o de descrever quais as características psicossociais do trabalho que influenciam e
qual o seu impacto na percepção de bem-estar dos professo- res. Pretende-se comparar os eixos psicossociais do Inquérito saúde e trabalho (INSAT) com as dimensões do Nottingham Health Profile (NHP) perceber as associações entre estas dimensões.
VARIáVEIS
Nesta investigação as variáveis usadas são as dimensões do NHP que foram operacionalizadas com as dimensões agres- são, discriminação, a falta de equipamento e de instalações adequadas, a falta de reconhecimento, a falta de condições dignas, satisfação no trabalho, hipersolicitação, ultrapassar o horário normal do trabalho e ter que saltar refeições, variáveis do INSAT. Variáveis sociodemográficas, Sexo, Idade, Estado civil e Tipo de empresa.
INSTRUmENTOS
INQUÉRITO SAúDE E TRABALHO (INSAT)
O INSAT tem como objectivo estudar as consequências do trabalho e das condições de trabalho, actuais e passadas, ao nível da saúde e do bem-estar (Barros-Duarte & Cunha, 2010). O INSAT é um inquérito auto-administrado que pretende ca- racterizar os principais riscos profissionais e compreender a influência que os constrangimentos de trabalho têm na saúde do trabalhador. Os principais objectivos deste instrumento são: (i) elaborar uma caracterização das condições de trabalho associadas à actividade profissional; (ii) identificar os prin- cipais factores de risco e as interacções existentes entre eles, bem como a influência de certas variáveis relacionadas com o conteúdo de trabalho e a sua organização; (iii) promover uma tomada de consciência individual e colectiva relativamente aos efeitos do trabalho e das condições de trabalho na saúde e bem-estar.
NOTTINGHAM HEALTH PROFILE (NHP)
O NHP é um instrumento de avaliação de qualidade de vida, desenvolvido originalmente para avaliar a qualidade de vida em pacientes portadores de doenças crónicas. Trata-se de um questionário auto-administrado, constituído de 38 itens, ba- seados na classificação de incapacidade descrita pela OMS, com respostas no formato sim/não. Utilizando uma linguagem de fácil interpretação, o NHP fornece uma medida simples da saúde física, social e emocional do indivíduo. Os itens estão organizados em seis categorias que englobam nível de energia (NE), dor (D), reacções emocionais (RE), sono (S), interacção social (IS) e habilidades físicas (HF).
AmOSTRA
A amostra do presente estudo é constituída por 101 professo- res. Na tabela que segue mostramos a distribuição da nossa amostra por sexo, idade, tipo de empregador, estado marital, escolaridade, tempo de experiência
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CONSTRUIR A PAZ: VISõES INTERDISCIPLINARES EINTERNACIONAIS SOBRE CONHECImENTOS E PRáTICAS
TABELA 1. DISTRIBUIÇÃO DA AmOSTRA
N (%) Sexo 101 masculino Feminino 47 (46.5)54 (53.5) Idade 101 Até 35 anos 36 anos a 45 anos mais de 46 anos 28 (27.7) 36 (35.6) 37 (36.6) Estado marital 101
Solteira, Divorciada ou Viúva
Casada Ou União de facto 41 (40.6)60 (59.4)
Escolaridade 101 Bacharelato Licenciatura mestrado/Doutoramento 15 (14.9) 65 (64.4) 21 (20.8) Tempo de experiência 97*
Até 10 anos de experiência Entre 10 e 20 anos de experiência Mais de 20 anos de experiencia
35 (34.7) 24 (23.8) 38 (37.6) Tipo de empresa 101 Pública Privada 29 (28.7)72 (71.3)
* 4 INQUIRIDOS NÃO RESPONDERAm
Na tabela 1 podemos ver a distribuição da nossa amostra por sexo e podemos ver que 53.5% da nossa amostra são do sexo feminino, na distribuição por idade, apesar de bem distribuí- da são os mais novos os menos representados. Podemos ver ainda que na nossa amostra 59.4% são casados ou vivem em união de facto, 37.6% têm mais de 20 anos de experiência en- quanto professores e por fim, 71.3% dos professores trabalham no ensino público.
4. RESULTADOS
Na tabela 2 são apresentados os resultados da análise estatís- tica com vista a responder à questão: quais a características do trabalho que influenciam a percepção de bem-estar dos professores.
Verificámos que na variável agressão, os professores que re- ferem algum tipo de agressão pontuam mais nas dimensões de reacções emocionais, interacção social e na dimensão de sono. Quanto à dimensão discriminação, esta dimensão parece mais relacionada pelos professores com mais pontuação no nível de energia e com a interacção social.
TABELA 2. FACTORES PSICOSSOCIAIS DO INSAT