3.2 Applied research methods
3.2.4 Data collection method: Interview
Para se analisar as origens das operárias do calçado em Franca, trabalhou-se com um universo de pesquisa composto por dezenove colaboradoras. A maior parte das entrevistadas era proveniente de regiões agrícolas dos estados de São Paulo e de Minas Gerais. Os dados obtidos permitiram realizar uma análise mais detalhada a respeito dos fatores motivadores para o abandono do campo, bem como, da dinâmica da migração. Nove colaboradoras eram migrantes mineiras filhas de ex-trabalhadores rurais e, na maior parte dos casos, trabalharam no campo ajudando os pais durante a infância; cinco eram migrantes paulistas de municípios vizinhos à Franca, também provenientes de famílias de trabalhadores rurais; apenas cinco nasceram no município de Franca, das quais, duas nasceram em fazendas, e as três que nasceram na zona urbana também eram filhas de ex-trabalhadores rurais.
A origem rural foi uma característica comum à maior parte dos operários brasileiros, sobretudo, a partir da década de 1930, período que marcou a intensificação da passagem de uma economia agrícola para uma economia industrial. Paulo Fontes afirma que em diversas análises a migração foi vista como a passagem de sociedades e culturas tradicionais e arcaicas para as cidades, as quais representariam espaços do desenvolvimento industrial e, por conseguinte, do moderno.32
Para os primeiros sociólogos do trabalho, esta característica foi um dos fatores internos à classe operária responsáveis pelo sucesso das políticas corporativistas implementadas a partir do governo Vargas. Por políticas corporativistas entende-se o projeto político-social que se estruturou a partir dos anos de 1930 e que visava minimizar os conflitos sociais e promover uma “aliança classista” que contribuísse para o desenvolvimento nacional por meio da harmonia e da paz social. Tiveram como elemento central a política sindical
32 FONTES, Paulo. Migrações Nordestinas e Experiências Operárias. São Miguel Paulista nos anos 1950. In: BATALHA, Claudio H. M.; SILVA, Fernando T. da; FORTES, Alexandre. (orgs.) Culturas de classe:
forjada a partir de então, a qual assentou-se sobre quatro pilares principais de efetivação: a unicidade sindical, o imposto sindical obrigatório, o monopólio da representação, e a tutela do Estado. Segundo Rodrigues,
A nova política governamental foi facilitada pela entrada maciça de trabalhadores de origem rural, orientados por outros valores e aspirações, favorecendo o isolamento das antigas lideranças e criando dois segmentos bem diferenciados no interior da classe operária. Os temas habituais do movimento operário europeu (de tipo anarco- sindicalista, socialista ou comunista) não conseguiram motivar a massa de trabalhadores que abandonava o campo, trabalhadores analfabetos, socializados num
padrão de submissão ante as camadas superiores e que encontravam, ademais, no meio fabril e urbano, condições de trabalho e de vida geralmente mais satisfatórias do que tinham no meio rural.33 [grifos nossos]
Seguindo esta mesma linha de raciocínio, difundiu-se a idéia entre vários acadêmicos de que a origem rural dos operários seria responsável pela ausência de laços de solidariedade, pela ausência de consciência de classe, visto que muitos não se identificariam com a condição operária, e pela ausência de ações de cunho coletivistas. Neste sentido, afirma Juarez Brandão Lopes que o mais importante para se compreender as características do operariado
é o ambiente social de origem da maioria desses trabalhadores. Conhecendo-o, não deveria surpreender a ausência de padrões de ação organizada no grupo e o baixo nível da sua solidariedade. [...] Nada na sua experiência anterior à migração para a indústria da grande cidade prepara essa gente, ligada entre si apenas por achar-se em condições semelhantes de emprego em uma mesma empresa, a fim de participar junta de uma ação coletiva para a qual os padrões tradicionais de comportamento não lhe podem servir de guia.34
Tais pesquisas foram de significativa importância dentro do contexto histórico em que estavam inseridas. Em primeiro lugar, tiveram o mérito de eleger como objeto de estudo os operários, num período em que apenas as elites eram analisadas. Em segundo lugar, procuraram ouvir os próprios trabalhadores em seu ambiente de trabalho. Porém, suas afirmações indicam que estavam presos a um paradigma de classe operária tipicamente européia, o que os levou a buscar na classe operária brasileira em formação, padrões, atitudes e formas de organização, característicos do operariado europeu. Ao não conseguirem enquadrar os resultados alcançados na pesquisa de campo dentro dos modelos explicativos
33 RODRIGUES, Leôncio Martins. Sindicalismo e classe operária (1930-1964). In: FAUSTO, Boris (dir.). História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Republicano. v.3, t.III. São Paulo: DIFEL, 1981, p. 520. 34 LOPES, Juarez Rubens Brandão. Sociedade Industrial no Brasil. São Paulo: DIFEL, 1964, p. 69.
formulados a priori, tenderam a minimizar as formas de solidariedade e ação dos operários brasileiros, sobretudo, aqueles de origem rural.
Nesse trabalho, chegamos a alguns resultados semelhantes aos dos autores citados acima, visto que também tivemos como referentes operários de origem rural, inseridos no processo de abandono do campo e de formação da grande indústria nacional. Porém, o trato de tais resultados foi completamente diferente, pois onde os estudos mencionados tenderam a ver ausência de consciência de classe, valorizamos as especificidades no processo de formação da classe operária no Brasil. A partir das contribuições de autores como E. P. Thompson, procuramos realizar uma análise que valorizasse as experiências operárias, tanto no período anterior à inserção na grande indústria calçadista, quanto no período de trabalho fabril.
Em outras palavras, o presente trabalho dá um enfoque à história operária que não busca a comprovação de teorias sobre um determinado tipo de ação política; ao contrário, valoriza as ações desenvolvidas num determinado período e local analisando-as como parte de um processo histórico complexo e muitas vezes contraditório. Assim, a origem rural dos trabalhadores não será analisada como uma condição que necessariamente explique o que convencionalmente se chamou de ausência de ações tipicamente classistas, e sim como um dos componentes da formação da classe operária.
A análise dos relatos sobre a origem rural evidenciou que as lembranças dos tempos de infância das colaboradoras foram marcadas pelas inúmeras dificuldades que suas famílias passaram. Muitas das casas em que cresceram eram de chão de terra batida, outras eram de paredes de barro; tinham poucos móveis; os colchões eram fabricados pelas próprias mulheres que costuravam panos rústicos e os enchiam com palha de milho ou capim seco, trabalho que geralmente contava com a ajuda das filhas. Quando possível, havia um quarto para os pais,
um para os filhos e outro para as filhas. No caso destas, freqüentemente duas dividiam a mesma cama.
As formas de trabalho no campo eram diversas. Algumas famílias de migrantes possuíram pequenas propriedades, as quais eram cultivadas com base no trabalho familiar. O pai era o chefe da unidade familiar e contava com o trabalho direto da mulher e dos filhos na lida no campo. Nesses casos em que os trabalhadores eram proprietários de suas terras predominava a cultura de gêneros de subsistência, bem como a criação de animais, os quais forneciam carne, leite, força de tração e transporte.
Era comum a prática conhecida como mutirão, a qual consistia em recorrer aos vizinhos, amigos e familiares para a realização de tarefas que extrapolavam a capacidade de trabalho da unidade familiar, como, por exemplo, roçar e preparar uma área para ser cultivada, realizar alguma colheita e construir uma habitação. Diferentes autores analisaram tal prática como um dos elementos indicativos da solidariedade do trabalhador rural, que em diversas ocasiões foi transferida e mantida na cidade após a migração. No caso dos mineiros que migraram para Franca, Ronaldo Garcia afirmou que
após os trabalhos [mutirão] era realizada uma festa com música e comida farta. Este tipo de cooperação entre os habitantes do meio rural no Brasil, era bastante antigo, ainda é muito utilizado em algumas regiões, com variações no tempo e no espaço. [...] O depoente se referia ao mutirão como um momento de lazer, diversão e festa. Este fato demonstra que não existia no meio rural uma nítida divisão entre trabalho e lazer. Isto só iria acontecer na cidade.35
A importância dessa e de outras formas de solidariedade desenvolvidas no meio rural também foram apontadas por Paulo Fontes em sua análise a respeito dos migrantes nordestinos que se dirigiram para São Miguel Paulista. Criticando a argumentação de Juarez Brandão Lopes, que como afirmamos anteriormente creditou à ausência de cooperação no campo o suposto baixo nível de solidariedade operária, Fontes afirma que
35 GARCIA, Ronaldo Aurélio Gimenes. Migrantes Mineiros em Franca: memória e trabalho na cidade industrial (1960-1980). Franca: UNESP/FHDSS: Amazonas Prod. Calçados S/A., 1997, p. 71, 72. O autor afirma ainda, que “para Antônio Cândido, o mutirão fazia parte de uma rede de relações vicinais, em que os membros de determinada comunidade estabeleciam trocas de favores e tinham o compromisso de retribuir sempre que solicitado.” Apud. CÂNDIDO, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito.São Paulo: J. Olympio, 1964.
a migração para as cidades pode ter significado uma revitalização de práticas de vizinhança e auxílio mútuo de origem rural, como o mutirão. Readaptado no ambiente urbano, o mutirão seria largamente utilizado pelas populações de origem migrante para a construção de suas moradias. [...] Era um espaço importantíssimo de
socialização na vida operária e de consolidação das redes sociais no bairro.36 [grifos nossos]
Além do cultivo da própria propriedade, encontrado entre um número reduzido de migrantes, os demais estiveram submetidos a outras formas de trabalho. Algumas famílias trabalharam no regime de colonato, no qual o patrão cedia uma casa para que morassem e os trabalhadores tornavam-se responsáveis pelo cultivo e “panha” (colheita) de uma determinada quantidade de pés de café, ganhando de acordo com a produção. Em alguns casos, recebiam um pequeno pedaço de terra para cultivo próprio, no qual plantavam verduras, legumes e arroz e feijão. Quando possível, criavam porcos e galinhas que forneciam carne e gordura durante o ano; eventualmente, o excedente podia ser trocado ou vendido. Quando não recebiam um pedaço de terra, formavam hortas no meio das plantações de café, aproveitando a terra fértil.
Outros trabalharam “de a meia” (regime de meação), sistema no qual o trabalhador recebia uma determinada quantidade de terra para ser cultivada, podendo plantar café, arroz, feijão, milho ou fumo. Na época da colheita, metade da produção era dividida com o proprietário da terra. Outra forma de sobrevivência poderia ser arrendar um pedaço de terra, pagando uma espécie de aluguel ao proprietário e cultivando-a para si próprio. Além destas relações de trabalho, muitos já haviam se tornado empregados de grandes fazendeiros, vendendo sua força de trabalho em troca de um pagamento mensal. Outros trabalharam como diaristas, o que poderia tornar a vida mais difícil, pois além do serviço ser instável, não recebiam casa para morar, e quando não tinham habitação própria eram obrigados a dividir os parcos ganhos com o pagamento de aluguel.
36 FONTES, Paulo. op. cit., p. 386-387.
Na maior parte das vezes, a infância das entrevistadas, tanto no campo como na cidade, foi marcada por carências alimentares, privações e sofrimento. Marilene Paes Leme concedeu o seguinte relato a respeito de sua infância:
Meu pai ficou doente, minha mãe não trabalhava e a gente não fazia nada, porque era tudo menino, então nós passou muita falta, tinha necessidade mesmo! Necessidade de os vizinho dar as coisa pra gente!!! Não tinha não!!! Passou uma boa época assim. Necessitava de comida mesmo, não era nem de nada, roupa nós não tinha, mas comida também não tinha. Então tinha que comer. Os outro dava, os vizinho dava.37
Tal situação poderia ser agravada pelo grande número de membros do núcleo familiar. Alguns trabalhadores tiveram entre quatro e vinte e dois filhos, como foi o caso dos pais de Cecília Silvestre. Dos seus vinte e dois irmãos, oito morreram ainda crianças, indicando que o quadro de miséria somado à alta taxa de natalidade resultava em grande mortalidade infantil. A miséria poderia ser minimizada conforme os filhos fossem crescendo, pois desde os sete anos de idade começavam a ajudar na lida no campo.
Nesses casos, era freqüente a prática dos filhos entregarem integralmente aos seus pais os salários que recebiam (quando eram assalariados), seja pelo trabalho na roça, ou mesmo em outras atividades quando já haviam se mudado para a cidade. Dessa forma, não existia um salário do indivíduo e sim do núcleo familiar. A administração de tal orçamento variava em cada família, em algumas era responsabilidade do marido, que podia inclusive ser o responsável pelas compras; em outras, era responsabilidade da esposa.
Em alguns casos, o dinheiro proveniente de economias ou da venda de produtos cultivados pelos próprios trabalhadores, como por exemplo, o fumo de corda, poderia ser utilizado para a compra de um terreno na cidade em que moravam, ou para o processo de migração para Franca. Edna Aparecida relatou que sua família migrou para Franca com dinheiro proveniente da venda de fumo de corda.
[...] o papai casou muito novo e sofreu muito na roça. Trabalhava de empregado pros outros, depois quando a gente foi crescendo ele passou a trabalhar assim... de a meia pras pessoas, pegar café pra colher... fazer plantio, repartia. Então trabalhava de a
meia pras pessoas, e a mamãe também ajudava muito assim o papai. Depois que o papai passou a ser fabricante de fumo, as coisas foram melhorando pra gente... Aí a gente foi crescendo, a mamãe viu que tinha necessidade da gente vir pra cidade, porque na roça não tinha muito futuro porque a gente não tinha a terra da gente, então sempre trabalhava pros outros e não tinha futuro. [...] Aí a gente já tava assim tudo moço, e ele foi plantar fumo, então fumo era uma coisa que dava mais dinheiro, e ele como trabalhava de a meia, colhia café e vendia, tudo que fazia ele repartia, mas tinha a parte que sobrava e ele vendia. Então quando a gente veio pra cá ele tinha uma reserva de fumo bem grande e ele vendeu e guardou um pouco de dinheiro.38
Segundo Paulo Fontes, muitos estudos a respeito da migração para São Paulo e demais cidades industriais do sudeste tenderam a explicar o processo de abandono do campo levando em consideração apenas motivações econômicas,39 como a miséria do campo, a concentração fundiária, o avanço do latifúndio, as alterações nas relações de trabalho, a crise da agricultura tradicional e a mecanização das lavouras. Os migrantes seriam atraídos pela oferta de empregos, pela possibilidade de obterem maiores rendimentos, pelo acesso aos direitos trabalhistas, além da maior oferta de educação e saúde.40
Sem dúvida, estes fatores são fundamentais para a compreensão desse fenômeno tão marcante na história brasileira da segunda metade do século XX, quando milhares de famílias abandonaram suas regiões de origem e partiram em direção, sobretudo, aos grandes centros urbanos em desenvolvimento. Entre 1950 e 1980 cerca de 38 milhões de pessoas saíram do campo, alterando profundamente o perfil socioeconômico do país.41
Ronaldo Garcia cita dados relevantes para a percepção do processo de concentração populacional na região urbana do estado de São Paulo. Na tabela a seguir, percebe-se que desde a década de 1950 a população urbana do estado como um todo já era um pouco maior do que a rural; esse processo intensificou-se e, na década de 1970, a população urbana chegava a pouco mais de 80%. Como se constata, a alteração mais significativa ocorreu no
38 Depoimento de Edna Aparecida Lima de Andrade concedida ao autor em 26 e 28 de julho de 2004. 39 Cf. dentre outros LOPES, Juarez Rubens Brandão. op. cit. e Crise do Brasil Arcaico. São Paulo: DIFEL, 1967.; e RODRIGUES, Leôncio Martins. op.cit.
40 FONTES, Paulo. op. cit., p. 371. 41 Ibidem, p. 365.
interior do estado, uma vez que a população rural ainda era maior do que a urbana na década de 1950.
1950 1960 1970
REGIÃO
urbana rural urbana rural urbana rural Est. de São Paulo 52,50 47,50 62,81 37,19 80,33 19,67 Interior 39,68 60,32 52,73 47,27 70,93 29,07 Grande São Paulo 87,64 12,36 83,60 16,40 96,65 3,35 Capital 93,36 6,64 88,00 12,00 99,13 0,87
Fonte: Fundação SEADE. Informe demográfico, n. 1, 1980.42
O significativo movimento populacional em direção às regiões urbanas do país, sobretudo para as cidades industriais, foi em grande medida decorrente das transformações na economia do país. Contudo, Paulo Fontes adverte que a supervalorização dos fatores econômicos acaba por perder de vista o papel dos próprios migrantes no processo histórico, reduzindo os personagens centrais a meros elementos acessórios dentro da estrutura em transformação, o que significaria retirar a autonomia de tais pessoas, seu poder de decisão e ação. Como afirma o autor, os migrantes “não eram apenas reflexo de forças econômicas determinadas externamente, embora estivessem imersos nelas. Eles também foram agentes do seu próprio movimento e, dessa forma, por meio de estratégias diversas, contribuíram na moldagem do processo migratório.”43
Ao se questionar quais foram os fatores responsáveis pela decisão das famílias das entrevistadas de tentar a sorte em cidades industriais, como era o caso de Franca, todas afirmaram que migraram em busca de melhores condições de vida, de emprego mais bem remunerado, de educação para os filhos; em síntese, migraram em busca de um “futuro” melhor. Portanto, percebe-se a importância dos fatores econômicos em tal processo. Assim, não se pretende negar as motivações econômicas da migração, e sim enriquecer tal análise, valorizando-se a ação humana no processo.
Para muitos migrantes, a cidade em desenvolvimento representava também uma atração cultural, uma nova forma de vida. Nesse sentido, os familiares e conhecidos que
42 Apud. GARCIA, Ronaldo A. G. op. cit., p. 30. 43 FONTES, Paulo. op. cit., p. 372.
haviam migrado primeiro transformavam-se em figuras centrais para a difusão do modo de vida industrial, transformando-se em sujeitos determinantes para atração que as cidades industriais exerceram sobre os migrantes rurais. Como observa Ronaldo Garcia, para o trabalhador do campo, a cidade “era vista como um centro de atração com seus divertimentos, seus personagens e suas aparências.”44
Um elemento essencial para a compreensão da agência humana no processo migratório é a análise das redes sociais estabelecidas entre os migrantes. Paulo Fontes observou que os depoimentos de migrantes nordestinos revelaram a constituição de uma
articulada rede social para a efetivação da migração. Muitas vezes os conhecidos cumpriam o papel de acolher os recém chegados, de ajudá-los a conseguir um emprego e uma moradia. “Uma certa imagem da migração, vista como um movimento desordenado, ‘irracional’, feito às pressas, não corresponde à experiência da maior parte dos migrantes.”45
Guardadas as devidas proporções, foi possível vislumbrar processo semelhante no movimento migratório para a cidade de Franca. Na maior parte dos casos, um dos membros do grupo familiar mais amplo tinha o papel de pioneiro, em seguida, ao visitar seus conhecidos e familiares passava a dar informações a respeito do modo de vida em Franca, da grande oferta de emprego e dos salários que eram maiores que o dos trabalhadores rurais. Ofereciam sua ajuda, e até mesmo abrigo, caso os parentes e/ou conhecidos decidissem seguir seus passos. Um exemplo desse processo é encontrado no depoimento a seguir de Maria das Graças.
Então, minha avó e a irmã do meu pai já moravam aqui. Na época, muita gente assim... vizinho da região de lá [Claraval – MG] foi vindo tudo aqui para Franca. Tanto é que tem um bairro aqui que é quase que tudo o pessoal que morava lá naquela época. Esvaziou as roças e vieram principalmente aqui para Franca. Eles vinham em procura de serviço, porque é igual eu falei pra você, lá na roça vai ficando cada vez mais difícil. Os filhos foram crescendo e queriam melhorar de
vida. Então, Franca oferecia muitas condições melhor. [...] Claraval fica aqui muito pertinho de Franca, então tanto quando vinha alguém aqui, ou alguém que já mudou voltava lá, a gente sabia como que Franca era. Aí vinha um irmão, depois ia lá