contornos que a diferenciavam das anteriores. Um arguto contemporâneo assim a
analisava: "Todos se iludem pensando que vamos para uma campanha política no
sentido anterior a 1930. Desta vez a posição social está enquadrada no terreno.
Questão social é revolução. Isto vai virar Espanha".
Omesmo analista via quatro
correntes em luta violenta: o integralismo, o comunismo, o Exército e o regio
nalismo com suas polícias estaduais. Destas quatro, Exército e integralismo
tendiam a aliar-se, ficando os comunistas em posição dúbia: embora fossem anti
regionalistas, apoiavam Flores como elemento de luta armada contra o integralis
mo; mas também apoiavam José Américo como fator popular de luta democráti
ca68. A campanha deJosé Américo, candidato inicialmente apoiado pelo governo,
A Revolução de 30 1 47 foi aos poucos adquirindo tonalidades inaceitáveis para o poder. Segundo outro observador, esta campanha, "procurando agradar diretamente às classes popula res, criou uma situação de alarma geral". E ainda outro, no mesmo tom, dizia que a opinião pública do sul do pais (escrevia de São Paulo) já procurava outra solução pois " está verdadeiramente
alarmada, mesmo alarmadúsima,
com os rumos que os acontecimentos estão tomando", já se falando com simpatia de uma ditadura militar (ênfase do missivista). Ou mais diretamente ainda: "O homem (José Américo) está fazendo agitação proletária e das massas inconscientes ..É
umambicioso criminal". E dizia-o apoiado pelos comunistas, pelas massas operárias e rurais e no Exército (referia-se aos tenentes de segunda classe - talvez os comissionados convocados), a caminho de uma frente popula,v9.
Apesar de todo o viés ideológico que poderia estar afetando tais percepções (os missivistas eram pessoas ligadas ao governo e poderiam estar fazendo o jogo
deste, que era exatamente o de preparar o ambiente para o golpe), não há dúvida de que se inverteria a situação em relação àquela descrita por Osvaldo Aranha em 1931 e citada no início desta seção. Percebia-se novamente um perigo para a ordem social, mas agora não da parte do Exército. Pelo contrário, este já aparecia como garantia da ordem e aceitava-se mesmo a mudança do regime através do golpe militar. Isto é, de ameaça ao regime e à ordem social, o Exército, e sem dúvida também a Marinha, passava a ser esteio do Estado.
Não que o golpe tenha sido consensual. Mas as resistências foram pequenas. Houve protestos de alguns generais, logo reformados, dos interventores da Babia e de- Pernambuco, logo substituldos, e dos candidatos Armando Sales e José América. Mas todos os outros estados o aceitaram, inclusive o interventor de São Paulo, a quem foram prometidas medidas de apoio à economia cafeeira. O PRP logo depois também daria seu apoio. Certo apoio popular foi dado através dos integralistas, os maiores incentivadores da intetvenção. Poucos dias antes do golpe, eles fizeram desfilar 40 mil adeptos ao lado dos militares7o.
Na realidade, a maior reação militar viria exatamente quando foi fechada a AIB a
3
de dezembro. O general Newton Cavalcânti, conhecido integralista, enviou carta de protesto ao governo. Vários generais foram exonerados de seus postos e começaram as conspirações para o movimento, que afinal explodiu em maio de1 938, com grande apoio na Marinha e entre alguns generais do Exército.
No entanto, foi também reprimida com severidade a revolta integralista, enchen do-se novamente os cárceres do Rio, como em1 935.
Se ideologicamente o integralismo tinha posições próximas das que dominavam na cúpula militar, o pertencimento simultâneo a duas organizações tão absOIventes acabava por criar problemas de conflitos de lealdade que terminavam por minar a disciplina militar. Além disto, o integralismo era mobilizatório, provocava reações politicas contrá rias, mantendo, enfim, viva a atividade poBtica. E isto era exatamente o que não interessava à cúpula militar, que via a oportunidade de eliminar de vez a atividade1 48
Seminário Internacionalpolítica e conseguir assim eliminar também as penurbações disciplinares motivadas pelo partidarismo7! . A queda de Flores era o fim definitivo da velha ordem e do papel subalterno que nela representava o Exército. O golpe, vindo na esteira da mobilização popular que se fazia em torno das eleições (não impona se exagerada pelo governo), inaugurava os primórdios da nova ordem em que entrariam no jogo político novos atores sobre os quais as antigas lideranças não tinham controle, incluindo entre eles os próprios integralislaS. Se sete anos antes, uma parcela do Exér· cito liderara o movimento de destruição da velha ordem, agora ele servia de parteiro para a nova ordem, mas diferente da imaginada pelos revolucionários de 1 930. A ênfase agora não seria nas reformas sociais, na representação classista, no combate ao latifúndio, mas no desenvolvimento econômico, na indústria de base, na divida externa, na exportação, nas Estradas de Ferro, no fonalecimento das Forças Armadas, na segurança interna e na defesa externa72.
Desaparecera totalmente a idéia de Exército como vanguarda de povo, e firmava-se a do Exército coexistindo com a estrutura do Estado cmno elemento dinãmico deste, de que falava Azevedo Amaral, citado nO início do trabalho. A citação vem precedida do trecho seguinte que a completa: "Estado e Nação formam uma unidade, que se completa pela integração perfeita das classes armadas na organização politica, como força executiva da vontade estatal. Estabelece-se assim uma colaboração harmoniosa entre o Exército e o Estado. que é a expressão orgânica da própria Nação",
Sem dúvida, tais afirmações eram em boa pane tributárias da retonca totalitária da época. Mas vimos ao longo de todo este trabalho mostrando que as transformações reais se vinham processando no sentido de modificar o papel da organização militar na política nacional, e isto em pane independia do discurso politico predominante e fazia pane das transformações maiores que se davam na própria sociedade e no Estado. O simples enunciado feito acima dos projetos do novo regime em matéria de desenvolvimento econômico mostra uma conotação que de muito extrapolava o aspecto de autoritarismo pol!tico em geral salientado por seus opositores.
É
muito sintomático que, após o frustradoputsch
de1 938, e
com o inicio da guerra, elementos da própria esquerda, vinculadosà ANL,
passassem a dar apoio ao governo nos aspeaos desenvolvimentista e nacionalista de sua obra7 3 ,A ênfase n o desenvolvimento econômico e, particularmente, industrial seria secundada abertamente pelo Exército e talvez mais ainda pela Marinha. O problema da siderurgia já fora objetivo de destaque em entrevista do general Leite de Castro, quando Ministro da Guerra da revolução, em entrevista dada em março de 1931. Foram constantes durante os anos seguintes as manifestações em favor de uma indústria bélica nacional. A Marinha, a panir de 1936, pelas dificuldades de cãmbio para a compra de navios, enveredaria por um amplo plano de construção naval, retornando
à tradição imperial interrompida desde o inicio da República
A Revolução de 30 149 devido às mudanças na tecnologia de construção que passou a exigir aços especiais não produzidos no país. No início ela imponou aço dos Estados Unidos, mas logo passou a produzi-lo em fornos elétricos montados na Ilha das Cobras, até que viesse a solução da grande siderurgia nacional, pela qual não cessavam os
ministros de clamar, como condição de libertação da tutela estrangeira. Foi feito apelo também à indústria privada, e desenvolveram-se projetos nacionais de vários produtos. Com o Estado Novo estas atividades adquiriram ritmo imenso74.
o Exército demorou um pouco mais a tomar medidas concretas, mas o fez a panir de 1 939, quando um aviso do ministro ordenou maior entTosamento com a indústria civil nacional; preferência à matéria-prima e máquinas nacionai� incentivo a novas indústrias pela garantia de compra etc. O Depanamento de Material Bélico passou imediatamente a implementar esta orientação, dinamizando e ampliando ao mesmo tempo a produção das fábricas do Exército e oferecendo assistência técnica às indústrias particulares, Na expressão de seu diretor, estava em organização "um verdadeiro parque industrial adequado às necessidades militares" . Vários oficiais tinham sido mandados à Europa para especialização e já tinham conseguido, junto a empresas nacionais, fabricar máquinas, antes impor tadas, a preços muito inferiores. Conseguira-se mesmo produzir aços especiais para fabricação de armas75.
Com a aproximação da guerra, essa atividade cresceu substancialmente e envolveu não só Volta Redonda, de cuja negociação participaram intensamente dois oficiais do Exército, E. Macedo Soares e Silvio Raulino, como a Fábrica Nacional de Motores, a fábrica de aviões de Lagoa Santa, além dos esforços com relação ao petróleo, já estudados76.
Por trás da retórica da identificação Exército-Estado e da visão de ambos como expressão orgânica da nação, estava a realidade de um projeto que se caracterizava pela nacionalização da política, pelo industrialismo e pela ideologia de nova ordem não liberal mas inequivocamente burguesa. Um capitão perguntava-se em 1935 se seria necessário um novo conceito de forças armadas e respondia positivamente, dizendo estar sobrepujado o papel de simples guarda das instituições que o liberalismo a elas atribuía O grande mundo francês não era mais, segundo ele, o exemplo a imitar, Em seu lu
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surgiam os exemplos dos exérci tos nacionalistas, fascistas, nazistas e comunistas7 . O projeto da intervenção contro ladora dos militares sem dúvida fugia do modelo de exército burguês clássico. Mas o conteúdo concreto da intervenção. particularmente em seus aspeaos nacionali zantes, industrializantes e de contenção politica, revelava-se compatível com a ordem burguesa indus(Tial que se gestava no país, embora fosse a anti tese do liberalismo político.As transformações trazidas pela guerra que resultaram, ao final, na queda do Estado Novo, apenas parcialmente alteraram este quadro. As motivações que
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Seminário Internacionallevaram a cúpula militar a agir novamente em