4: METHODOLOGY
4.1 Sampling
4.1.1 Data collection
A Teoria Evolucionária contrapõe-se à teoria neoclássica, que negligencia a dinâmica tecnológica. Formulada a partir de um modelo abstrato e descentralizado de funcionamento da economia capitalista, a teoria neoclássica vê a empresa industrial como um ponto dentro do sistema econômico. Não há uma preocupação em observar seu funcionamento interno – considerado uma “caixa-preta” – que combina mecanicamente os fatores de produção disponíveis no mercado e os transforma em mercadorias. O mercado, embora possa apresentar situações transitórias de desequilíbrio, tende a estabelecer condições de concorrência e informações perfeitas. A firma se depara com um tamanho “ótimo” de equilíbrio. As possibilidades tecnológicas são usualmente representadas pela função de produção, que especifica o resultado da combinação possível de fatores. A tecnologia é considerada um fator exógeno disponível no mercado, seja através de bens de capital ou no conhecimento incorporado nos trabalhadores. A tecnologia está disponível da mesma forma como se compram matérias-primas ou se obtém empréstimos e financiamentos (NELSON; WINTER, 2005).
De acordo com a visão de Schumpeter (1988) o desenvolvimento econômico surge de mudanças da vida econômica. Um processo que se inicia espontaneamente, de maneira descontínua, sem imposições, com iniciativa própria, criando pré-requisitos para novos desenvolvimentos. Sendo assim, o autor enfatiza a importância das grandes empresas como pilar central do desenvolvimento econômico, mediante a denominada acumulação criativa e acumulação de conhecimentos não transferíveis em determinados mercados tecnológicos e principalmente da capacidade de inovação. Ainda segundo Schumpeter (1988), a inovação tecnológica cria uma ruptura no sistema econômico, tirando-o do estado de equilíbrio, alterando, desta forma, padrões de produção e criando diferenciação para as empresas. Ela representa papel central na questão do desenvolvimento econômico regional e de um país.
Schumpeter critica a teoria neoclássica não só por sua visão estática sobre o funcionamento da economia como pela excessiva preocupação dos economistas com a
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estrutura dos mercados – concorrência e oligopólio. De acordo com o autor, enquanto os teóricos neoclássicos se preocupam em visualizar como o capitalismo administra as estruturas existentes, na verdade o problema relevante é como ele as cria e as destrói. Para Schumpeter, o que é relevante na realidade capitalista se refere não ao tipo ou intensidade da competição (perfeita, oligopolista ou monopolista), mas, sim, à competição oriunda de novos produtos, novas tecnologias, novas fontes de suprimento e novos tipos de organização que permitem o aumento da escala produtiva. Tal competição permite vantagens de custo e qualidade decisivas para determinar margens de lucro e o crescimento da firma. Ao longo do tempo as inovações resultam em queda de preços e crescimento da produção (TIGRE, 2014).
O primeiro capítulo da obra “Teoria do Desenvolvimento Econômico” apresenta um modelo de economia estacionário, fundamentado num fluxo circular da vida econômica. Assim, toda a atividade econômica comparece de maneira idêntica em sua essência, repetindo-se continuamente. Mas esse modelo contrasta com a estrutura dinâmica que Schumpeter apresenta no capítulo II, intitulado “O Fenômeno Fundamental do Desenvolvimento Econômico”, onde surge a figura central do empresário inovador — agente econômico que traz novos produtos para o mercado por meio de combinações mais eficientes dos fatores de produção, ou pela aplicação prática de alguma invenção ou inovação tecnológica (SCHUMPETER, 1988).
Também a relação entre a inovação, a criação de novos mercados e a ação de empreendedor está claramente descrita por Schumpeter quando este sugere que é o produtor que, via de regra, que inicia a mudança econômica, e os consumidores, se necessário, são por ele educados. Schumpeter relata que os consumidores são, por assim dizer, ensinados a desejar novas coisas, ou coisas que diferem de alguma forma daquelas que têm o hábito de consumir. Daí a prescrever a destruição criadora, ou seja, a substituição de antigos produtos e hábitos de consumir por novos, foi um passo que Schumpeter rapidamente deu ao descrever o processo do desenvolvimento econômico (SCHUMPETER, 1988).
Apesar de atualmente ser unanimidade, a importância da inovação demorou alguns anos para ganhar destaque no estudo do crescimento econômico das nações. Foi somente com Schumpeter (1934) que o tema tecnologia passou a ser considerado fator impulsionador da economia. Em sua pesquisa, o autor indica a inovação como a força propulsora das mudanças mundiais, sendo o principal motor do desenvolvimento das nações, de tal forma que a busca por diferenciais que tornem a empresa um bem raro no mercado, oferecendo produtos e serviços que apenas ela possua e saiba fazer é a única maneira para se destacar no cenário
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competitivo global. Schumpeter conclui declarando que apenas com a inovação é que as nações podem dar os grandes saltos de crescimento permitindo sua diferenciação frente aos demais países. Schumpeter (1934) defende que a inovação e a mudança ocorrem por meio de um espiral de atração mútua (clusters) onde um empreendedor de sucesso atrai outro empreendedor e assim os efeitos são multiplicados.
Baseando-se nos insights de Marx sobre a concentração de capital como tendência histórica do capitalismo, Schumpeter reconheceu a importância da grande empresa e da concentração do capital para o progresso técnico. A relação entre oligopólio e progresso técnico é mútua: por um lado, o processo de diferenciação do produto conduzia a expansão e a criação de novos mercados oligopolistas. Por outro, os altos custos de P&D, necessários para a sobrevivência das empresas nos mercados dinâmicos, exigiam a presença das grandes empresas (NELSON; 2005; TIGRE, 2014).
Desta forma, o que tem sido chamado de “nova economia institucional” e “nova economia evolucionária” provêm de diferentes fontes e suas orientações tem sido diferentes.
A orientação da economia institucional é voltada para um conjunto de fatores que moldam e definem a interação humana, tanto dentro das organizações, como entre estas. Em contraste, muito da teorização econômica evolucionária é focada nos processos de avanço tecnológico (NELSON; NELSON, 2002).
O amplo entendimento de que o avanço tecnológico ocorre por meio de um processo evolucionário tem sido desenvolvido independentemente por acadêmicos operando em uma variedade de disciplinas, incluindo historiadores (CONSTANT, 1980; ROSENBERG, 1976; VINCENTI, 1990; BASALLA, 1988; PETROSKI, 1992) bem como economistas (FREEMAN, 1982; ROSENBERG, 1976; NELSON; WINTER, 1982; SOETE; TURNER, 1984; SILVERBERG ET AL., 1988; METCALFE, 1998; SAVIOTTI, 1996).
Pesquisadores reconhecidos do avanço tecnológico tem compreendido o papel relevante das estruturas institucionais para dar suporte e moldar os esforços voltados ao avanço tecnológico. Desta forma, as instituições aparecem como elemento central na obra seminal “The Economics of Industrial Innovation” de Freeman (1982). Aparecem também
como elemento sine qua non para a literatura de sistemas de inovação (NELSON, 2006; NELSON; WINTER; 2005; EDQUIST, 2007; CASSIOLATO; LASTRES, 2005).
A origem das teorias econômicas conhecidas como neoschumpeterianas, evolucionistas ou evolucionárias é dupla: por um lado, Freeman (1987) resgata o estudo dos ciclos econômicos de Schumpeter, mostrando como a difusão de inovações está no centro dos
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movimentos cíclicos da economia mundial. Por outro lado, Nelson e Winter (1982) iniciaram uma linha de investigação, apoiada em Schumpeter, Simon e Penrose e em conceitos transpostos da biologia evolucionista, visando incorporar melhor a inovação tecnológica nas teorias da firma (TIGRE, 2014).
No referencial neoschumpeteriano o termo “desenvolvimentista” costuma ser bastante utilizado, sendo uma metáfora para descrever como a estrutura de uma economia muda ao longo do tempo. Neste referencial, indivíduos e organizações são entidades que “aprendem”. Seus adeptos costumam caracterizar certas indústrias como jovens e outras como maduras. Mas essas metáforas não derivam propriamente da biologia, pois o conceito geral de evolução, adotado pela economia, era conhecido antes mesmo de sua aplicação a essa ciência (TIGRE, 2014).
A competitividade de uma empresa em uma atividade particular é definida pelos evolucionistas como um conjunto de competências tecnológicas diferenciadas, de ativos complementares e rotinas. Tais competências são geralmente tácitas e não transferíveis, conferindo à firma um caráter único e diferenciado. A evolução da firma depende da transformação das competências secundárias em centrais, à medida que surgem oportunidades tecnológicas (TIGRE, 2014).
Para os neoschumpeterianos a aprendizagem é portanto cumulativa e coletiva, no âmbito da firma, e depende fundamentalmente de rotinas organizacionais codificadas ou tácitas. As rotinas constituem o fator determinante do comportamento das organizações. Uma vez estabelecidas, elas substituem a necessidade de coordenação hierárquica rígida, permitindo a coerência das decisões por indivíduos que conhecem seu trabalho, interpretam e respondem corretamente as mensagens que recebem. Cabe diferenciar rotinas estáticas, que são simples repetição das práticas anteriores, das rotinas dinâmicas que permitem incorporar inovações. Os conhecimentos tácitos e não codificados são mais difíceis de serem transferidos, o que denota um ativo específico à empresa que favorece a diferenciação competitiva (TIGRE, 2014).
Na teoria evolucionária o avanço técnico e o crescimento econômico são vistos em prática por meio de um complexo conjunto de instituições: umas com fins lucrativos, outras privadas mas sem fins lucrativos e outras governamentais. Mesmo entre as entidades privadas com fins lucrativos existe alguma troca e abertura no que se refere à tecnologia e outras questões sobre rivalidades quanto à propriedade. Os elementos do sistema de instituições que não pertencem ao mercado não são vistos como resultados das respostas a “falhas do
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mercado”, da mesma forma que instituições mercantis tampouco podem ser explicadas por falhas do setor público, como apontam os neoclássicos. Pelo contrário, no referencial evolucionário, entende-se que o conjunto vigente de instituições – privadas e públicas, rivais ou cooperantes – evoluiu através de um complexo conjunto de processos que envolvem tanto ações individuais como coletivas. As mudanças institucionais (aqui inclusas as leis de incentivo à inovação), assim como as mudanças tecnológicas, devem ser compreendidas como um processo evolucionário (NELSON, 2006).
Portanto, o contexto institucional dá forma e restringe as estratégias corporativas e as mudanças organizacionais. As formas organizacionais, tecnologias e instituições coevoluem à medida que o tempo passa (DOSI; MALERBA, 1996; NELSON, 1987).
Nessa abordagem, Dosi e Malerba (1996) consideram as organizações corporativas como sendo entidades comportamentais, caracterizadas por competências específicas, amplamente incorporadas em suas rotinas, e que evoluem ao longo do tempo, parte como resultado de aprendizado interno e parte como resposta a mudanças ambientais.
Enquanto a teoria neoclássica considera o crescimento econômico como possível por meio da movimentação ao longo da função produção, a teoria evolucionária considera que não existem formas fáceis de se inovar. Em uma perspectiva evolucionária, o crescimento econômico precisa ser compreendido como resultado de uma introdução progressiva de novas tecnologias que estão associadas com o aumento crescente dos níveis de produtividade, e a habilidade de produzir bens e serviços novos ou aprimorados (NELSON; NELSON, 2002).
A visão neoschumpeteriana tende a compreender as instituições existentes não tanto como restrições ao comportamento, mas como aquilo que define as formas eficazes de se realizar as coisas quando a cooperação humana é necessária (NELSON; NELSON, 2002).
As pesquisas de Rosenberg (1976), Freeman (1982), Winter (1987), Pavitt (1984) e Dosi (1982) têm analisado as origens, a difusão e os padrões de melhorias de novas tecnologias sobre o desempenho da firma. O foco de pesquisa tem sido mais sobre a dinâmica em um espaço tecnológico, o que tem evidenciado uma negligência relativa das questões relacionadas às instituições externas e à organização interna da firma para inovar.