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No capítulo XLVI do Leviatã, no qual Hobbes analisou as trevas resultantes da vã filosofia e das tradições fabulosas, surpreendentemente, ele iniciou sua exposição centrando a atenção no entendimento do que seria Filosofia. Nesse sentido, ele afirmou (1974, p. 388) que, por esse conceito, “se entende o conhecimento por raciocínio a partir do modo de geração de qualquer coisa para as propriedades; ou das propriedades para algum possível modo de geração das mesmas, como o objetivo de ser capaz de produzir […] aqueles efeitos que a vida humana exige.” A intenção do filósofo se mostrava na preocupação de apontar um referencial inquestionável e, na intenção de oferecer essa segura sustentação, ele usou o artifício de – ressaltando a exatidão dos princípios da Filosofia – separar seus precisos fundamentos de outras crenças de natureza diferente e que serviam para tornar a verdade objeto de suspeitas especulações ou de incompreensíveis conclusões. A utilização dessas confusas interpretações abria espaço para, aproveitando a superstição e a ignorância quase gerais, confundir o povo quanto aos seus deveres diante do soberano.

Após deixar claro o que se deveria entender pelo conceito de Filosofia, o filósofo inglês passou a separar, desta ciência, algumas leituras e interpretações muito fortes no senso comum. Em primeiro lugar, foi colocada em destaque o atributo da experiência, concebida como a capacidade de possuir muitas memórias ou recordações das sensações já experimentadas. Hobbes (1974, p. 22) faz uma associação da experiência à prudência que, embora útil como guia seguro para ação, pois, “quanto mais experiência das coisas passadas tiver um homem, tanto mais prudente é, e suas previsões raramente falham.” Segundo o filósofo, tanto os homens quanto os animais possuíam essa prerrogativa, porém, mesmo sendo extremamente valiosa para as ações da vida, essa capacidade não poderia ser considerada no âmbito da Filosofia, pois não era fruto do raciocínio que fundamenta às conclusões aceitas por esta ciência. A origem dessa qualidade era tão somente fruto da observação guardada na memória de fatos passados com a expectativa que, dada às mesmas condições, viesse ele a se repetir no futuro, ou seja, presentes as mesmas causas, o efeito seria idêntico ao anteriormente observado.

Em segundo lugar, outro erro comum destacado por Hobbes dizia respeito àquilo que era retirado dos livros baseados na autoridade de outrem, tal fato, muito comum na conturbada Inglaterra seiscentista, para ele não era conhecimento verdadeiro, mas simplesmente crença. Um dos aspectos que mais Hobbes combatia na consulta das obras dos antigos era que as mesmas eram estudadas sem o necessário cuidado, o que inevitavelmente conduzia à precipitação dos erros de interpretação, trazendo, inadvertidamente para a discussão religiosa e política de sua época, experiências totalmente inseridas em outros valores e referências do passado. Um dos pontos cruciais dessa inapropriada transposição era o referente à questão da liberdade. Numa consulta apressada às fontes gregas ou romanas a impressão que se podia, ilusoriamente, ter era que o homem daquela quadra histórica gozava de plena e irrestrita liberdade. O filósofo inglês insistia em esclarecer que a liberdade apregoada pelos antigos dizia respeito à livre ação do Estado e que, independente da forma de governo, a liberdade do súdito era sempre a mesma. Nesse aspecto, como em demais temas nos quais a referência fossem fontes antigas, se não fossem devidamente orientadas por pessoas capacitadas, tudo se resumia a crenças e opiniões, passando longe dos critérios que sustentavam a pesquisa filosófica.

Finalmente, Hobbes chegou ao ponto crucial de sua argumentação ao declarar, indiretamente, que a religião não poderia ser tema abrangido pela Filosofia, ao afirmar (1974, p. 388): “Nem aquilo que qualquer homem conhece por revelação sobrenatural (pode ser tema da Filosofia), porque não é adquirido por raciocínio.” Aceito, em sentido literal, tal princípio, Deus estaria fora do âmbito da Filosofia o que tornaria sem coerência e sentido a utilização da recorrência a divindade como argumento de convencimento, até mesmo pelo próprio filósofo inglês. Nesse ponto, a fim de entender o contexto, era imprescindível ter em mente o significado que Hobbes emprestava ao termo Filosofia em seus aspectos civil e natural. Visto de modo genérico, existe a possibilidade de emprestar um sentido equívoco a esse substantivo, fato esse que o filósofo inglês sempre buscou se afastar através da clara definição dos termos empregados. Para a clareza da pesquisa ou compreensão do analisado, a univocidade quanto ao significado das palavras era sempre o primeiro passo a ser obedecido para a necessária clareza lógica na construção de silogismos válidos.

Hobbes, ao utilizar a supracitada passagem na qual parece colocar Deus fora do campo da Filosofia, certamente utilizou uma estratégia, um tanto arriscada. A razão para tal argumento vir à tona pode ter sido tão somente pela necessidade do filósofo em responder, a fim de desmascarar os que pretendiam utilizar o estratagema fiado em Deus. Em seu entendimento, era com essa intenção falaciosa, a fim de iludir o povo, que esse recurso fraudulento – apresentação da divindade como recurso metafísico e referência segura e

irrefutável – garantia autoridade sagrada às suas propostas e discursos contra o soberano poder. Usando tal artifício, Hobbes tentou quebrar uma das colunas mestras de seus adversários, sem, no entanto, ficar completamente imune à crítica pelo lançamento de tão inusitado argumento que poderia facilmente ser tachado de contraditório ou ser utilizado, vexatoriamente, no contraditório por seus oponentes.

A herança filosófica da Grécia clássica, após a conquista do mundo helênico pelo Império Romano, havia chegado ao ocidente. As escolas gregas de Filosofia, notadamente as divulgadoras das doutrinas de Platão e Aristóteles, tiveram entusiasmada aceitação em quase todos os lugares que abrangiam o vasto Império dos Césares. Desse modo, a Filosofia que fora recebida desde o fim do mundo antigo pela conquista da águia romana se consolidara no alvorecer do medievo através da absorção de seus princípios pela elite cultural do mundo romano e, consequente a esse princípio, tornara-se a referência fundamental no campo do conhecimento, sendo enriquecida pelo surgimento de vários pensadores latinos fiéis ao acervo cultural recebido da hélade. Fruto dessa aceitação de parte dos princípios filosóficos originário dos gregos pelos romanos, nasceu um rico sincretismo que atingiu seu ápice ao encontrar a doutrina religiosa caracterizada como o judeu-cristianismo que havia penetrado na capital do Império algumas décadas após o advento da mensagem cristã. A fusão ou interpenetração dessas doutrinas com as demais crenças existentes no Império romano fez nascer um modelo de civilização sustentada pela íntima ligação entre a teologia, a cosmologia e a antropologia caracterizada na tríade Deus, o Mundo e o Homem. Essa construção de natureza filosófica religiosa, ou seja, a releitura da Filosofia sob o prisma das Escrituras fez nascer uma doutrina denominada de Escolástica que, de acordo com Hobbes, foi um verdadeiro cavalo de Troia inserido no interior do Estado para causar sua destruição.

Este arcabouço doutrinário que consolidou seu fundamento maior na chamada escola aristotélica perdurou, quase sem qualquer contestação, durante todo o medievo, chegando mesmo até a época em que Hobbes desenvolveu sua formação filosófica, ocasião na qual reagiu contra esse modelo ainda em vigor nas universidades da cristandade. O homem, inserido nessa visão sistemática de mundo, fazia uma leitura da realidade através da interpretação dos princípios ancorados na autoridade atribuída ao estagirita. De acordo com esse princípio, fruto da construção intelectual que permitiu a adaptação desse referencial clássico grego à religião romana, a ortodoxia defendia que o mundo fora feito e se mantinha por determinação divina, havendo uma natural continuidade entre o homem e o mundo, ou seja, uma perfeita hierarquia cósmica superior estava atrelada uma ordem social terrena, estática e estamental. Esta cosmovisão tinha seus alicerces assentados na fiança em uma bem construída tradição que fora reinterpretada por vários pensadores da igreja romana.

Esse construto lógico que buscava conciliar a Filosofia com a Religião seria duramente criticado por Hobbes no sentido de demolir seus alicerces que correspondiam ou derivavam das diversas obras nos campos da política, ética, física e acima de tudo, na metafísica aristotélica. Essa parte da filosofia aristotélica denominada, por seus doxógrafos64, de metafísica havia se afastado de seu entendimento original, adquirindo, na nova leitura, uma conotação bem diferente do sentido primário. O termo “meta”, que no grego tem o significado de algo que está além ou depois de, foi acrescido de “física”, ou seja, algo que está colocado ou disposto além da física. Nesse contexto, Hobbes (1974, p. 391-392) alertou, nos seguintes termos, quando à gênese desse vocábulo que seria um dos fundamentos basilares da nova doutrina:

A explicação (isto é, o estabelecimento do sentido) destes e de outros termos semelhantes é geralmente chamada nas escolas, metafísica, como sendo uma parte da filosofia de Aristóteles, que tinha esse título, mas é em outro sentido, pois aí significa os livros escritos, ou colocados depois da sua filosofia natural. Mas as escolas encararam-nos como livros de filosofia sobrenatural, pois a palavra metafísica tem estes dois sentidos. E na verdade aquilo que lá vem escrito está, na maior parte das vezes, tão longe da possibilidade de ser compreendido e é tão contrário à razão natural que quem quer que pense que há algo para ser compreendido por ela, precisa considerá-la sobrenatural.

Assim, seguindo esses confusos princípios, as trevas com que os representantes religiosos pretendiam envolver o povo, como estratégia para atingir os seus interesses mundanos, tornaram-se mais espessas quando a tática de ação chegou à apropriação desses conteúdos filosóficos. Muito embora, no final da idade antiga, na transição entre o século IV e V, Agostinho de Hipona65 fosse um ardente admirador da filosofia platônica, tendo seu legado perdurado até os dias atuais, foi a metafísica de Aristóteles que se tornou o paradigma do medievo e o referencial maior da Igreja. Tanto isso é verdade que sobre ele recai a maioria das críticas de Hobbes no que ele denomina de “aristotelia”, ou seja, um verdadeiro culto a esse autor que ele, em contrapartida, assim o caracterizou (1974, p. 390-391):

E acredito que dificilmente pode afirmar-se alguma coisa mais absurda em filosofia moral do que aquilo que hoje se denomina a Metafísica de Aristóteles, nem mais repugnante ao governo do que a maior parte daquilo que disse em sua Política, nem mais ignorante do que uma grande parte de sua Ética.

64É o relato das ideias de um autor quando interpretadas por outro autor, ao contrário do fragmento, que é a citação literal das palavras de um autor por outro. O termo foi cunhado pelo helenista alemão Hermann Diels, em sua obra Doxographi Graeci (Berlim em 1879).

65Aurelius Augustinus Hipponensis, conhecido mundialmente como Santo Agostinho (354-430), foi um filósofo, escritor, bispo e teólogo cristão africano, responsável pela elaboração do pensamento cristão. Suas obras mais importantes foram: Confissões e Cidade de Deus.

A contundente reprovação de Hobbes acerca da herança de Aristóteles e da apropriação de sua doutrina pela Igreja estava centrada na resultante final dessa fusão, ou seja, a Escolástica, este nocivo instrumento de interpretação das Escrituras que foi soberbamente utilizado para confundir os súditos quanto a seus deveres frente ao poder civil constituído.

Hobbes, dessa maneira, deixou bem claro que essa base na qual estava apoiada a Filosofia de sua época servia muito mais para confundir e, nesse sentido, ser aproveitada para fins de instabilidade social e política do que como um guia seguro para se alcançar a verdade. Partindo desse princípio errôneo ou mal interpretado, ele alertou (1974, p. 392), se chegava à ilusória conclusão de “que há no mundo certas essências separadas dos corpos, às quais chamam de essências abstratas e formas substanciais.” Se Hobbes condescendesse com essas proposições, tão em voga em sua época, toda sua construção filosófica de base mecanicista e materialista cairia por terra como falsa. Sua investida contra esse sistema defendeu, primeiramente, o modelo no qual ele assentou sua obra política e, servia ainda, na defesa do princípio da indivisibilidade do poder, princípio contra o qual investiam os defensores da existência da esfera espiritual no intento de desestabilizar a República. Nesse aspecto, o espiritual ou sobrenatural adquiria um sentido de monopólio e arma terrível a ser acenada pelo poder religioso, seja como recompensa aos que se submetessem a esses pretensos intermediários entre o sagrado e o profano ou como instrumento de flagelo e danação eterna aos que se opusessem a essa pregação radical de se considerarem os únicos autorizados a falar em nome da divindade.

Após discorrer acerca dessas questões sobre as quais estava construído todo o paradigma filosófico religioso contra o qual se deparava, Hobbes pretendeu – indo aos fundamentos das dogmáticas doutrinas – desacreditar todas suas consequências que colidiam, de forma desastrada, com o soberano poder. O ponto fundamental ou objetivo de Hobbes, continuava ao longo de toda sua obra, inalterado: defender a manutenção de toda autoridade, tanto civil quanto religiosa, enfeixada nas mãos do representante legítimo, aquele soberano (ou assembleia) que foi livremente escolhido com a finalidade de garantir a todos os súditos a proteção e a conservação da vida dentro de relativo conforto. Nesse contexto, Hobbes, tendo em vista fugir das críticas que o considerassem um autor dispersivo nos detalhes, defendeu a preocupação que evidencia ter com pretensas minudências. Esses aspectos que, à primeira vista, pudessem parecer periféricos eram, na realidade, fundamentos que exerciam grande poder lógico, logo, persuasivo no conjunto de sua argumentação, como ele mesmo assim vaticinou (1974, p. 393):

Mas qual o objetivo (pode alguém perguntar) de tais sutilezas numa obra desta natureza, na qual nada mais pretendo do que aquilo que é necessário para a doutrina do governo e da obediência? É como o seguinte objetivo, que os homens possam deixar de ser enganados por aqueles que, com esta doutrina das essências separadas, construídas sobre a vã filosofia de Aristóteles, os quiseram impedir do obedecer às leis de seu país com nomes vazios, tal como os homens assustam os pássaros do trigo com um gibão vazio, um chapéu e um cajado.

Em suma, o intento de Hobbes, mesmo discutindo assuntos atinentes ao campo religioso, era sua repercussão na esfera política. Ele combatia um poder paralelo de cunho dissidente que, usando dos artifícios da filosofia e da religião queria impor sua doutrina, visando com isso à obtenção do mando ou poder temporal. Dessa perspectiva, toda essa vasta construção e, acima de tudo, a apropriação dos fundamentos acerca da verdade e da religião que permeavam todo o tecido social, tinha como pano de fundo, uma luta desenfreada pelo poder. Apontando a estratégia desses atores sediciosos que tendiam para a desordem, e no limite, alimentavam o germe da rebelião, Hobbes buscou, em seguida, desmascarar esses a quem a interpretação, deliberadamente errônea, baseada nessa escolástica, beneficiava e servia de combustível para suas subalternas finalidades.

No último capítulo da quarta parte do Leviatã, Hobbes levantou a questão de quem seria beneficiado pela disseminação das falácias doutrinárias que resultavam nas trevas para confundir o povo e os soberanos, ou seja, a quem interessava tal engodo. Nesse sentido, ele (1974, p. 401) assim se expressou, “[…] pretendo neste lugar examinar quem pode ser que tenha durante tanto tempo dominado o povo nesta parte da cristandade com essas doutrinas contrárias às pacíficas sociedades humanas.” A seguir ele destacou um ponto que ele combatera reiteradas vezes ao longo de toda sua argumentação voltada contra os poderes religiosos: a pretensão da Igreja de ser a manifestação ou a realização do reino de Deus na terra e, dessa forma, deter o monopólio da intermediação entre os homens e a divindade. Da pretensão de possuir tal premissa resultara, no sentir hobbesiano, uma enxurrada de graves erros que confundiam a todos, e tinha ainda o potencial de exterminar a própria soberania que, legitimamente, deveria estar monoliticamente enfeixada nas mãos da autoridade civil. Após uma série de considerações acerca das consequências da aceitação de tal prerrogativa de mando pretendida por grupos dissidentes, Hobbes (1974, p. 402) afirmou peremptoriamente: “Porém, os autores destas trevas na religião são o clero romano e o clero presbiteriano.”

Após identificar os autores das trevas espirituais com o poder eclesiástico, o filósofo de Malmesbury passou ao exame crítico das doutrinas que serviram de sustentação aos propósitos de supremacia desse grupo. Desse modo, ele destacou e buscou desmontar a precária legitimidade e autoridade nas quais se apoiava a facção religiosa na defesa desses

falsos pilares tidos (erroneamente) como verdadeiros artigos de fé e sadia doutrina. A mistificação e deturpação dos verdadeiros princípios da religião contavam com a divulgação, como dogmas legítimos, de princípios, tais como: a infalibilidade papal; a pretensão da origem divina do direito dos bispos; a isenção penal dos representantes religiosos; a usurpação do título de sacerdote pelos pregadores religiosos (título esse que originalmente era dado apenas ao soberano e seus ministros públicos entre os judeus quando da aliança desse povo com Deus); a transformação do matrimônio em sacramento e a consequente autoridade de decidir quanto à legitimidade dos filhos e, desse modo, interferir no direito de sucessão dos reinos terrenos; a proibição do casamento aos padres a fim de assegurar a autoridade e poder de herança para os Papas; a instituição da confissão auricular através das quais o poder eclesiástico se mantinha informado acerca dos desígnios dos príncipes e outros rivais; a canonização dos santos atrelada a outros interesses; o poder de ordenar a penitência e de redimir ou reter os pecados de todos, inclusive do soberano civil; exploração das crenças na demonologia e o uso de exorcismos com grande fascínio sobre o povo. Encerrando estas citações, assim se expressou Hobbes (1974, p. 403) acerca dos desvios que redundaram no fortalecimento do poder das trevas:

Finalmente, a metafísica, a ética e a política de Aristóteles, as distinções frívolas, os termos bárbaros, e a linguagem obscura dos escolásticos ensinadas nas Universidades (que foram erigidas e regulamentadas pela autoridade papal) servem- lhes para evitar que estes erros sejam detectados e para levar os homens a confundirem o ignis fatuus da vã filosofia com a luz do Evangelho.

A reprovação de Hobbes embora, clara e contundente, ao clero em geral, não ficava restrita apenas ao poder religioso. Ela se estendia às circunstâncias e condições primeiras que propiciaram o estabelecimento e a consolidação desse poder paralelo que ameaçava a estabilidade do Estado. Essa responsabilidade era atribuída, por Hobbes, também aos imperadores e outros soberanos cristãos que, por falta de previsão e visão de futuro, permitiram estes abusos e usurpações do poder civil por estes atores facciosos. E fruto desse engano, ele alertava (1974, p. 404), “podem, contudo, ser considerados cúmplices de seu prejuízo próprio e público, pois, sem sua autoridade, desde o início nenhuma doutrina sediciosa teria podido ser pregada publicamente.” Após essa severa crítica, Hobbes (1974, loc. cit.) reconhece que, depois de instaurados esses abusos, “não havia nenhum remédio humano que pudesse ser aplicado, nenhum que algum homem fosse capaz de inventar.” Tal realidade e modelo de mundo, conforme nos mostrou a História, perdurou por todo o medievo, vindo a ser contestado apenas com o advento dos precursores do período histórico conhecido por modernidade, quadro no qual se insere o filósofo inglês.

No final de sua obra maior, o Leviatã, Hobbes destacou que esse arranjo maléfico, montado pela Igreja, teve sua arquitetura aos poucos sendo desmontada desde o reinado de Henrique VIII (1491-1547) até sua quase completa dissolução, como um poder constituído, no reinado da rainha Elizabeth (Isabel), já na transição ente os séculos XVI e XVII. Assim, o filósofo explicitava (1974, p. 405) o novo status quo advindo da intervenção, buscando autonomia, desses reis ingleses, “[…] e deste modo estamos reduzidos à independência dos primitivos cristãos para seguirmos Paulo ou Cefas ou Apolo, segundo o que cada homem

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