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Data availability, processing, and analysis

In document CMI WORKING PAPER (sider 24-46)

6. Issues in applying the framework

6.3. Data availability, processing, and analysis

No decorrer de três décadas centenas de moradores dos seringais do vale do rio Acre migraram para a periferia da cidade de Rio Branco, levando consigo uma das mais belas manifestações religiosas, o culto e a devoção aos santos canonizados por eles mesmos na floresta. Santos estes que serviram de amparo, referência, consolo e esperança na árdua luta diária nos seringais: Santos que revelam o quanto a dimensão de fé se faz presente na vida desses homens e mulheres.

Ao realizar as entrevistas na periferia da cidade, constatei que a devoção a Santa Raimunda não ficara nos seringais mas tinha acompanhado seus devotos na

181 Depoimento concedido por Luiz Antônio Souza Aguiar morador na colônia vista alegre município

164 marcha para a cidade. Os depoimentos ao fazerem memória do deslocamento ocorrido em décadas passadas mencionavam sempre a figura de Santa Raimunda. Fato ocorrido nos bairros Cidade: Nova, Taquari e Triângulo.

A vinda para a cidade trouxe profundas mudanças na vida dos seringueiros que tiveram de superar inúmeros desafios. No fundo, era necessário recomeçar sem poder contar com recursos que dispunham na floresta. Nesse momento, a vivência religiosa teve um papel de destaque e contribuiu para que eles não perdessem a esperança, e fossem a luta. Retorno marcado por dois sentimentos, o de encontrar trabalho para sustentar a família sentimento gerador de muita apreensão e angustia e o de reencontrar os amigos.

Os sentimentos de alegria por encontrarem velhos amigos, compadres e comadres que não viam a muitos anos foi reconfortante e trouxe um pouco de segurança. As distancias na floresta não possibilitavam um contato mais frequente, mas agora morando próximos podiam prosear longamente ao cair da tarde, sentados na frente de suas casas. Quanto às dificuldades, que não foram poucas, podemos enumerar algumas: encontrar um lugar para construir moradia, falta de alimentos, ameaças de expulsão dos locais ocupados na cidade. O companheirismo, os terços rezados durante a noite para Santa Raimunda do Bom Sucesso pedindo proteção e ajuda contribuiu para garantir a permanência deles na cidade. Nos depoimentos, deixam transparecer que Santa Raimunda do Bom Sucesso mostrou alternativas e que a “virgem das florestas” os ajudou a enfrentar os desafios da vida na cidade e a permanecer. O depoente Antônio Ferreira da Silva relata;

Quando cheguei no bairro Taquari no inicio tudo foi muito difícil, não sabia fazer nenhum serviço da cidade. Cheguei a pensar que eu e minha família ia passar fome. Nós trouxemos muito arroz, feijão, farinha, galinha da nossa antiga colocação de seringa mas sabia que com o tempo tudo ia

165 acabar. Ao chegar na cidade construí a nossa casa com materiais que trouxemos do seringal, porém sabia que a casa estava construída em um local que não era meu. Em menos de um mês dono das terras começou a fazer ameaças, dizendo que mandaria colocar todas as casas no chão e depois ia mandar queimar tudo. Não tinha ninguém pela gente era Deus e nós. Muitas noites não consegui dormir pensando como seria o nosso futuro, se o dono resolvesse destruir as barracas. Mas eu sempre tive muita fé em Deus e nos Santos, sempre fui devoto de São Francisco do Canindé e de Santa Raimunda do Bom Sucesso. Quando começou mesmo o movimento para expulsarem a gente do bairro, eu coloquei os joelhos no chão e pedi e implorei para que Santa Raimunda não deixasse eu e minha família ficar jogada na rua, sem ter onde morar. Minha fé era e é tão grande que nunca mexeram com nossa casa. Na parte da frente ainda andaram derrubando algumas casas, a nossa nunca chegaram perto. Ainda lembro, no dia 22 de setembro de 1992 por volta das quatro horas da tarde, o dono das terras acompanhado com um oficial de justiça e vários policiais começaram a reintegração de posse. Presenciei tudo de perto, era muita gente chorando e correndo. Quando vi a destruição das casas corri pra casa ao chegar a casa chamei minha esposa e os meninos e disse agora estamos perdidos tudo vai ser destruído, só Santa Raimunda pra ajudar a gente. Lembro-me disto até hoje, pedir para a Conceição minha esposa acender uma vela e eu e ela nós prostramos de joelhos pedindo a intercessão de Santa Raimunda, para ela não deixar destruírem nossa casa e só ouvia o barulho na rua da frente.Quando começou anoitecer percebi que foi ficando calmo, o barulho foi diminuindo. Fui até lá e percebi que os policiais decidiram parar de derrubarem as casas, tudo por que um deles encontrou uma tia e um tio quando os conheceu não teve coragem de destruir a casa deles, os colegas deles também recuaram. Eu acredito e tenho certeza que foi Santa Raimunda que tocou no coração daquele policial. Os dias foram passando e deixaram de perseguir a gente. Era devoto de Santa Raimunda, depois daquele dia minha fé aumentou ainda mais, por que somente quem passa por uma situação igual a que passei é que sabe, é a fé nestes momentos é quem salva 182.

Conforme o depoente, a fé em Santa Raimunda foi e é capaz de dignificar sua vida e a da sua família, no bairro Taquari. Por meio de sua fé, conseguiu encontrar razão para enfrentar a incerteza, desespero e superar os obstáculos.

Entre as mulheres mais idosas do bairro, a devoção a Santa Raimunda é muito intensa. Entre outras razões, pode-se dizer que elas se consideram guardiãs, da devoção, no bairro Taquari.

Elas preservam a prática religiosa de rezar o terço, uma vez por mês, num sábado se reúnem, o terço ocorre sempre no início da noite. Várias mulheres e alguns homens reúnem-se na casa da dona Francisca para a reza do terço de Santa Raimunda do Bom Sucesso. Esta prática teve início, segundo Dona Francisca, há

182 Entrevista concedida por Antônio Ferreira da Silva, devoto de Santa Raimunda e morador do

166 quinze anos, quando ficou doente e fez uma promessa a Santa. Ao ficar curada, convidou as vizinhas e vizinhos para pagar a promessa, rezando um terço. Passado alguns dias, uma vizinha pediu a Francisca para que rezasse um outro terço para a Santa, pois, também, havia feito uma promessa e queria pagá-la. Um mês depois, outra vizinha pediu para que puxasse um terceiro terço para agradecer Santa Raimunda por uma graça alcançada. Após a reza do terceiro terço, uma das mulheres presentes, sugeriu que rezassem um terço uma vez por mês, os presentes gostaram da sugestão e decidiram, após, aquele dia, rezar um terço uma vez por mês, sempre, num dia de sábado, para Santa Raimunda do Bom Sucesso. Ao término de cada terço, os presentes fazem seus pedidos ou agradecem a Santa Raimunda pelas graças alcançadas, ou que querem alcançar. Francisca fala de sua devoção a Santa Raimunda.

Morei muitos anos no seringal, na década de 1990, eu, meu esposo e meus filhos, decidimos deixar o seringal e vir morar na cidade, porque a vida no seringal já não era a mesma. Meu marido veio conhecer o bairro Taquari e encontrou muitos conhecidos aqui. Ao voltar para o seringal decidimos vim morar aqui no Taquari. Quando nós chegamos aqui, o bairro já estava formado, compramos uma casa e passamos a morar. Meus filhos e meu esposo conseguiram trabalho. Inicialmente, só fiquei cuidando da casa, depois decidi lavar roupa. Eu comecei a lavar roupa para fora, tinha quatro lavagem de roupas, e ainda fazia as coisas em casa e lavava roupa à tarde toda, depois tinha que engomar toda aquela roupa. De tanto ficar com minhas mãos molhadas, com sabão, peguei unheiros nos dedos. Pensei que meus dedos fossem cair de tão inchados, as unhas dos dedos das mãos estavam todas inchadas com e cheios de pus. Na época, fiz uma promessa a Santa Raimunda do Bom Sucesso e fui atendida. Quando fiquei boa, chamei os vizinhos e rezei um terço, isso já faz quinze anos que aconteceu. Depois minhas vizinhas fizeram promessas pra Santa Raimunda do Bom Sucesso e chamavam para rezar os terços. Depois de três terços que rezei um pra mim e outros dois para minhas vizinhas, quando terminamos de rezar o terceiro terço oferecemos. Ficamos conversando, daí surgiu a ideia, de minha comadre Luzia, de rezarmos um terço aqui em casa, uma vez por mês. Minhas vizinhas, meu marido e um compadre gostaram muito da ideia e daí em diante, todo mês, em um dia de sábado, no início da noite, rezamos um terço para Santa Raimunda do Bom sucesso183.

Percebe-se, na fala da entrevistada, uma profunda devoção a Santa Raimunda do Bom Sucesso. As mulheres vindas dos seringais encontraram na reza

183 Entrevista concedida por Francisca Morais de Souza moradora do bairro Taquari, Rio Branco-AC,

167 do terço uma maneira de perpetuarem a devoção e se colocaram como guardiãs da devoção. A reza mensal do terço preserva a devoção.

Figura 35: A senhora Maria Vicente de Assis rezando um terço para Santa Raimunda

do Bom Sucesso, no dia 27 agosto de 2011

.Fonte: Foto tirada e Adaptado pelo autor.

A fotografia mostra uma guardiã da devoção de Santa Raimunda, presente no terço. Os terços são realizados aos sábados, os devotos posicionam-se sentados em bancos, cadeiras ou mesmo no chão. Os olhares fixos na imagem da Santa revelam um certo distanciamento, do aqui e do agora e uma intimidade com a Santa.

Percebo que no altar improvisado, sobre uma mesa, as imagens foram distribuídas, respeitando o grau de importância para os devotos, pois as imagens de Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora Aparecida, Imaculada Conceição, Santa Raimunda do Bom Sucesso e a fotografia de sua mãe já falecida. Da forma como a devota distribui as imagens sobre a mesa, percebe-se que todos são iguais para os devotos populares, não existindo distinção entre santos canonizados ou não

168 canonizados. Para eles, todos são SANTOS, isso implica dizer que para os devotos de Santa Raimunda do Bom Sucesso, ela está no mesmo patamar de igualdade de outros santos. Olhando com mais calma, percebe-se a Imagem de Santa Raimunda do Bom Sucesso em uma posição de destaque e ao mesmo tempo, está entre as imagens de Santa Rita de Cássia e Nossa Senhora Aparecida. Assim, da forma como está colocada, fica evidente sua importância e sua relevância para seus devotos. Creio que a relevância, em relação aos outros santos, deve-se a aproximação por ser da mesma região, serem conhecedores de sua trajetória de mulher peregrina, mulher pobre e em sua morte ter sido martirizada. Os inúmeros relatos de graças, concedidas a seus fieis, também, contribui para ter uma posição de destaque. Acredito que essa seja uma das maiores motivações que torna Santa Raimunda do Bom Sucesso ser venerada entre os moradores do bairro Taquari.

Os moradores do bairro Taquari, ao falarem de suas experiências, rememoram as experiências positivas como as conquistas de espaços, superações profissionais e religiosas. As referências aos momentos difíceis, não foram poucas. Na devoção, elas encontraram força para retomar a vida na cidade. Alfredo Gomes da Silva, no seu depoimento, afirma que o período de sofrimento ficou no passado, hoje, vive muito feliz em sua casinha no bairro Taquari.

Sempre que posso, vou à reza do terço na casa da comadre Francisca, quando não posso ir, minha esposa vai. Tenho muita fé em Santa Raimunda, acredito que se não tivesse tanta fé nela eu não estava, mais aqui hoje. No início, aqui, foi meio difícil, mas com confiança nela sempre esperei que um dia fosse superar tudo e graças a Deus e a Santa Raimunda do Bom Sucesso consegui. Hoje estou aposentado, tenho saúde, nunca falta nada em casa, minha esposa goza de uma excelente saúde, não tenho que reclamar de nada. Tenho que só agradecer aos seus milagres, sua proteção que sempre fui atendido em todos os momentos que precisei. Santa Raimunda para mim é tudo sem ela já tinha morrido184.

Para Alfredo Gomes da Silva, graças a Santa Raimunda, sua vida hoje decorre em paz, vive tranquilo com sua esposa. Tem o mínimo para sua sobrevivência e a de sua família e atribui toda sua felicidade à sua devoção a Santa Raimunda. Para ele Santa Raimunda é tudo em sua vida “para mim é tudo sem ela

eu já tinha morrido”. Ao entrevistar os moradores do bairro Taquari, percebi o quanto

184 Entrevista concedida por Alfredo Gomes da Silva morador no bairro Taquari, em Rio Branco-AC,

169 a religiosidade deles se fazia presente no dia a dia, proporcionando sensação bem- estar, saúde, esperança e paz em suas vidas. Religiosidade que tem uma lógica própria ou como nos diz Christian Parker185, uma “outra lógica”.

Refletir sobre a devoção dos moradores do bairro Taquari, é entrar em contato com dois universos que se intercruzam, o mundo material e o universo santoral. Dois universos profundamente interligados.

A simbiose desses homens e mulheres com o mundo material é muito forte, como também o é com o mundo dos Santos, pois sua devoção faz parte de sua vida. As relações tecidas com os Santos são tão profundas, que eles não saberiam viver sem ela. Viver sem a devoção em Santa Raimunda, para suas vidas, seria como um arbusto seco, sem vida, sem esperança e, sobretudo, sem perspectivas de um amanhã. Na relação com os Santos, percebem que suas vidas têm sentido. Para Maria do Socorro Mota de Paiva, por exemplo, a devoção em Santa Raimunda é comparada ao elixir da vida.

Sou viúva, tenho cinco filhos e doze netos. Sou uma mulher muito feliz na vida, me considero uma pessoa realizada na vida. Nunca tive grandes sonhos de ficar rica, possuir muitas propriedades e ter aborrecimentos. Minha maior riqueza é minha família, ter minha casa para morar, minha saúde e minha devoção a Santa Raimunda do Bom Sucesso. Todo dia rezo de manhã e ao entardecer para Nossa Senhora Imaculada Conceição e Santa Raimunda. Já faz muitos anos que sou fiel à minha devoção e acho que é graças a ela que sou uma pessoa tão feliz na vida. Às vezes, estou assim, meio triste, pensando em alguma coisa com meus parentes minhas tias, daí lembro da Santa e logo me animo e esqueço os pensamentos ruins e volto a ter ânimo, coragem e alegria na vida. A minha devoção foi aumentando aos poucos, foi a vida que foi me levando para me apegar a alguma coisa, para me manter viva. Mas fiquei devota mesmo quando fiquei muito doente, achei que estava chegando ao meu fim. Um dia estava sozinha em casa e olhando para uma imagem que tenho de Santa Raimunda, na parede da sala, lembrei-me do sofrimento dela, da sua morte. Em seguida, me deu uma coisa estranha por dentro, uma força, uma vontade de lutar pela vida. Levantei e comecei a lutar, fiz vários chás até ficar boa. Minha fé me curou e hoje sou muito grata a ela, sem ela não estaria viva, aqui, agora, estaria morta. Viver sem minha devoção em Santa Raimunda, seria quase impossível, eu seria uma planta morta sem vida, seca, estaria vivendo por viver186.

185 Cf.PARKER, Christian. Religião popular e modernização capitalista: outra lógica na América

Latina, Petrópolis, Vozes, 1995.

186 Entrevista concedida por Maria do Socorro Mota de Paiva em Rio Branco-AC, em 18 de julho de

170 Constatei, ao longo das muitas entrevistas realizadas, que a superação de muitos problemas dos moradores, seja relacionados a saúde ou moradia, se deu graças a devoção a Santa Raimunda. Os moradores acreditam que graças à intercessão da Santa, conseguiram e conseguem ter forças e coragem para darem continuidade às suas vidas e lutar por sua sobrevivência na cidade. Cada um, do seu jeito, relata os benefícios, as graças obtidas ao longo da vida.

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