Como mencionado anteriormente, um grande número de judeus europeus migrou para a Jamaica, onde eles poderiam praticar sua religião livremente em face da perseguição ao grupo na Europa. Esses judeus foram chamados de ‘jumaicanos’ (‘Jewmaicans’, tradução minha). De acordo com Argell (2000, p. 7-13), os primeiros judeus desembarcaram na Jamaica em 1530, antes de se tornar uma colônia britânica em 1655. Para Holzberg, “‘nenhum
outro grupo étnico pode alegar uma presença mais contínua e mais antiga na Jamaica”89
(Holzberg, 1987, p. xiv). A bisneta de Cristóvão Colombo, Isabella Colon, que havia herdado o título de Marquesa de Santo Iago de la Vega (atualmente Spanish Town) casou-se com um português nobre da Casa de Bragança e residiram na Jamaica, que era um feudo espanhol. A princípio, os portugueses eram vistos como intrusos pelos espanhóis. Porém, com o declínio da dominação da Espanha e a invasão britânica, com a qual os portugueses reconhecidamente cooperaram, sua vinda para a Jamaica foi estimulada. No entanto, o processo de aceitação dos portugueses foi lento devido ao fato de que os judeus queriam povoar a região como comerciantes e a Jamaica oferecia oportunidades principalmente para proprietários de terras na cultura das plantations (fazendas que funcionavam no regime escravocrata). Esses
portugueses na verdade eram cripto-judeus90. Entretanto, o povoamento judeu em Porto Royal
resultou em um fortíssimo centro comercial e os judeus se dispersaram por toda a ilha, o que pode ser atestado pelo número de cemitérios judeus localizados em várias regiões.
Quanto ao relacionamento entre os judeus e a população afrodescendentes na Jamaica, pode-se dizer que era amigável, também devido ao fato de que ambos os grupos eram discriminados, o que gerava um nível de identificação entre os tais. Nas palavras de um líder maroon (Argell, 2000, p. 53), “Nós e os judeus somos da mesma origem. Se você é
89 Texto original: “no other ethnic enclave can cite continuous presence in Jamaica as far back as this.”
90 Cripto-judeus são judeus que, por causa da perseguição, principalmente da Inquisição, se escondiam por trás de outra afiliação religiosa, na maioria das vezes o catolicismo, e adotavam uma adesão secreta à fé judaica.
diferente dos brancos, então eles odeiam você. Vamos juntar forças.”91 A discriminação contra os judeus se manifestava na forma de algumas limitações em seus direitos civis: não lhes era permitido votar ou assumir cargos públicos, eles eram sujeitos a impostos diferenciados e havia dificuldade para a obtenção da cidadania. Esses direitos só lhes foram atribuídos legalmente em 1831. Argell (2000, p. 41) comenta que “eles eram comerciantes de
primeira classe, mas cidadãos de segunda classe.”92. Além do mais, aos judeus era permitido
possuir somente dois escravos, especialmente trabalhadores contratados93. Sendo assim, em
função da natureza de suas ocupações como comerciantes e não proprietários de terras, eles só podiam possuir escravos domésticos. Há controvérsia em relação ao relacionamento entre os judeus e seus escravos. Alguns afirmam que havia uma ligação afetiva entre os escravos e os judeus, que até mesmo apoiavam a causa dos maroons ao vender-lhes armas e munição. Outros afirmam que os judeus agiam de má fé ao adquirir escravos doentes com o intuito de vendê-los por um preço mais alto após tratá-los até que se recuperassem de suas enfermidades (Argell, 2000, pp. 50-51).
Outra conexão entre os jumaicanos e os afrodescendentes está diretamente relacionada aos Rastafáris na esfera ideológica, apesar de também haver disparidades na maneira de perceber o conteúdo das Escrituras Sagradas. A associação entre os Rastas e a ideologia do Antigo Testamento é tal que um de seus grupos é chamado de As Doze Tribos de Israel. Os Rastas se consideram os filhos espalhados de Israel, como descrito no Antigo Testamento, o povo escolhido de Deus dispersado pelos quatro cantos da terra. O termo ‘diáspora’ possui suas origens no evento em que os judeus foram expulsos de sua própria terra natal e foram enviados para a Babilônia como escravos. Fazendo referência a isso, os Rastas
denominam o governo institucionalizado pelos brancos de ‘Babilônia’ – não somente na
Jamaica, mas em todo o mundo capitalista ocidental, se opondo a Sião, a Terra Prometida. Os Rastafáris seguem práticas do Antigo Testamento, tais como alguns hábitos alimentares (não comer carne de porco, por exemplo) e hábitos estéticos (não barbear-se, como ordena o livro de Levítico). Além disso, os Rastas guardam profundo respeito por figuras do Antigo
91 Texto original: “We and the Jews are from the same origin. You are different from the whites, and they hate you. Let’s join forces.”
92 Texto original: “they were first class merchants, but second-class citizens.”
93 O termo ‘trabalhadores contratados’, em inglês ‘indentured laborers’ refere-se a uma prática colonial na qual se contratava o trabalhador por um período de tempo, geralmente três a sete anos, em troca de transporte, comida, vestimentas, acomodação e outras necessidades básicas. Esses trabalhadores eram homens e mulheres; a maioria abaixo de 21 anos, e eram contratados para fazer trabalhos manuais nas fazendas ou serviços domésticos. Eles não recebiam salários. O sistema proporcionava emprego e benefícios para jovens do mercado saturado da Europa para as Américas, que tinham carência de mão-de-obra.
Testamento, principalmente Salomão, de quem Haile Selassie descende, segundo a tradição. Um dos livros sagrados para Rastafári é o Kebra Nagasta, que dá descrições históricas detalhadas da vida de Menelik, filho de Salomão com a Rainha de Sabá, concebido durante seu curto período de residência em Israel na busca da tão aclamada sabedoria de Salomão.
No intuito de ilustrar as visíveis similitudes entre os jumaicanos e os Rastas, Holzberg, ela mesma uma judia, descreve um encontro pessoal com um homem que ela achava que podia ser um judeu negro, pois era um vendedor de rua e em seu carrinho
vermelho, verde e amarelo estavam desenhados dois símbolos da fé judaica:a estrela de Davi
e a palavra ‘Sião’ em ambos os lados. Quando a autora se aproximou do vendedor para confirmar sua afiliação judaica, ele admitiu ser ‘um verdadeiro judeu, um judeu negro’, afirmação que intrigou Holzberg, já que ela jamais tinha visto o homem na sinagoga. A conversa continuou, como a descreve Holzberg:
Não, filha, não é dessa igreja de judeu que eu e eu94 faço parte, eu e eu não sou dessa fé judaica. Eu sou Rastafári’. O Rasta explicou que na Jamaica havia dois tipos de judeus: os judeus brancos que adoravam na igreja judaica e os judeus negros ou os verdadeiros judeus como ele, que continuou dizendo que o homem negro foi o primeiro homem na Terra, feito por Deus à sua imagem a partir do barro da terra. Aí veio o homem brown. Mas o homem brown pecou. Então Deus puniu o brown esticando seus dreadlocks e embranquecendo sua pele. Como o homem negro foi o primeiro, ‘os negros são o povo escolhido de Deus’. E como são os judeus que são o povo escolhido, todo o povo negro tem que ser judeu! (HOLZBERG, 1987: 5)95 Essa ideia de que os Rastas são os verdadeiros judeus foi expressa no Relatório da Universidade de 1960, no qual os autores indicam que entre o credo do grupo está o princípio de que “aqueles judeus que Hitler e os nazistas exterminaram eram simplesmente os falsos judeus de quem as Escrituras falam, ‘Ai daqueles que se chamam de Israel e não são’” (Augier et al, 1960).
O relato de Holzberg poderia revelar que a influência do judaísmo na cultura Rastafári foi mais devido ao processo de cristianização do que resultante de proselitismo judeu, já que não há registro de que os judeus tivessem ensinados os seus escravos afrodescendentes acerca da existência de um verdadeiro judeu, diferente deles mesmos. Como
94 Na linguagem Rasta, o pronome ‘nós’ é substituído por ‘eu e eu’. Em inglês, ‘I and I’. 95
Texto original, onde não foi possível traduzir os regionalismos típicos da fala Rasta: “No, daughta, is not dat Jewish church dat I and I man reach, ascordin to I-man not of dat Jewish fait. I man Rastafari’. The Rasta-man explained that Jamaica had two kinds of Jews – the white Jews who worshipped at the Jewish church and the black Jews or true Jews like himself. He went on to say that the Black man was the first man on earth, made by God in His image from the black dust of the earth. Then came the brown man. But the brown man sinned. So God punished the brown man by straightening their dread locks and whitening his skin. Since the black man was the first man, ‘black men are God’s chosen people’. And since it is the Jews who are God’s chosen people, all black people must be Jews!”
mencionado anteriormente, quando os escravos africanos foram evangelizados pelos missionários protestantes, houve uma identificação imediata com suas experiências diaspóricas e escravistas contidas nos relatos do Antigo Testamento, o que levou o grupo a fazer associações com a experiência jamaicana. Por conseguinte, a influência do judaísmo na ideologia Rasta não veio diretamente dos judeus jamaicanos. Foi uma influência indireta do conhecimento adquirido através da leitura do Antigo Testamento, apesar de que a presença dos judeus na Jamaica possa ter reforçado a identificação entre os dois grupos.
Os judeus não consideram os Rastas ‘os verdadeiros judeus’. Os Rastas não são membros da Congregação Unida dos Israelitas (United Congregation of Israelites) nem participam dos cultos na sinagoga. Também não há semelhança entre os elementos básicos das práticas Rastafári nem há interseção nas crenças, principalmente em relação à divindade
de Haile Selassie ou Jesus Cristo – algumas casas96 Rasta aceitam o papel de Jesus Cristo
como o messias. Da mesma forma, o Novo Testamento não representa um denominador comum ao redor do qual os judeus constituem sua fé, enquanto os Rastas consideram que há um componente divino nessa parte da Bíblia e muitos de seus fundamentos são baseados em passagens tiradas de livros da Bíblia, especialmente do livro de Apocalipse, que contém muitas características milenaristas. As diferenças entre os Rastas e os judeus são de caráter ideológico e não racial, demonstrado pelo fato de que há judeus negros membros da Congregação Unida dos Israelitas (Holzberg, 1987, p. 6).
Atualmente, a comunidade judaica na Jamaica é relevante, apesar de haver somente uma sinagoga localizada na cidade de Kingston. A redução na população judaica deve-se à emigração e aos casamentos interétnicos, que resultam no processo de assimilação cultural, diluindo a essência da fé. Em geral, os judeus na Jamaica ocupam uma posição neutra em relação à observância da fé judaica reformada e a ortodoxa, tendo adotado práticas mais de acordo com a cultura jamaicana, sem abandonar completamente sua identidade étnica. A comunidade judaica jamaicana faz parte da camada rica da população da ilha e seu
poder político e econômico é incontestável.