3.2.3.1.1 Aproximação ao campo para coleta de dados
Esta etapa foi estabelecida a partir de dois eventos anuais, a saber: 3ª Plenária Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – III PNTTR, ocorrida em outubro de 2011 e a 5ª Plenária Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, também em outubro de
2012. Os eventos aconteceram em Luziânia, Goiás, distante 60 km de Brasília, Distrito Federal. Cerca de 700 mulheres que exerciam funções de lideranças femininas rurais foram participantes dos dois eventos, segundo dados fornecidos pela CONTAG. A decisão em realizar a coleta de dados em momentos diferenciados e de forma aleatória possibilitou que houvesse respondentes dos mais variados locais rurais das cinco regiões brasileiras.
3.2.3.1.2 Procedimentos éticos
Nessa etapa o TCLE foi elaborado em duas vias: uma para as mulheres trabalhadoras rurais e outra para a pesquisadora. Também foram observados os critérios de inclusão para entregar o instrumento e uma cópia do TCLE com os contatos da pesquisadora e do CEP/FS para o caso de outras dúvidas, esclarecimento que julgassem necessário ou desistência após a participação na pesquisa (Apêndice F).
3.2.3.1.3 Critérios de inclusão
Os critérios de inclusão limitaram-se às mulheres trabalhadoras rurais, sindicalizadas e líderes ou dirigentes sindicais, representantes de suas comunidades com idade igual ou superior a 18 anos.
3.2.3.1.4 Execução e elaboração do instrumento de coleta de dados
Assim, para a confecção desse segundo instrumento, seguiu-se o modelo utilizado na Etapa I, em que as perguntas foram extraídas e adaptadas de instrumentos já validados. Este, porém, possuía um formato mais amplo, dividido em quatro seções. A seção 1, intitulada “Perfil das Mulheres” constava de 06 questões adaptadas do questionário sociodemográfico da Pesquisa Nacional por Amostra em Domicílios (IBGE/PNAD, 2009). A seção 2 denominada de “Conjugalidade e Acesso a Serviços de Saúde” abrangeu 11 questões que foram adaptadas do questionário da mulher da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da
Criança e da Mulher BRASIL/PNDS, 2009. Na seção 3, “Vivências de Violência com Parceiro Íntimo” manteve-se as 06 questões, que, também, constavam no questionário da
Etapa I e que foram adaptadas da pesquisa Researching Violence against Women: A Practical
Guide for Researchers and Activists, da Organização Mundial da Saúde, e da pesquisa
Validade do instrumento WHO VAW STUDY para estimar violência de gênero contra a mulher (ELLSBERG; HEISE, 2005; WHO, 2005; SCHRAIBER, 2010). A última seção (4) denominou-se “Consciência da Violência Contra as Mulheres”, tendo 12 questões que foram extraídas e adaptadas da Comissão Europeia/Barômetro – Sistema Interativo de Pesquisa, sobre a violência doméstica contra mulheres na Europa (EUROPEAN COMMISSION, 2010). As modificações pertinentes a essa etapa são de responsabilidade da pesquisadora e foram realizadas para atender a uma população específica (Apêndice C).
A aproximação da pesquisadora com as líderes rurais ocorreu logo após sua apresentação pessoal e profissional, quando foram esclarecidos os procedimentos sobre a pesquisa, os objetivos e o instrumento de coleta de dados. A anuência se consolidou por meio da solicitação da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido/TCLE (Apêndice G). Uma vez assinado o documento procedeu-se à coleta dos dados, respeitando-se a disponibilidade de tempo das participantes.
A distribuição do instrumento da Etapa II-1 (150 questionários) ocorreu na parte externa ao evento. As participantes foram convidadas a responder e orientadas quanto à devolução, entregando-o ao final à pesquisadora ou à equipe de apoio. A coleta foi iniciada em outubro de 2011 e teve a duração de um dia. Foi contabilizado um retorno de 80% dos questionários, e 30 questionários não retornaram. Desta maneira, no ano seguinte (2012) foi realizada, novamente, a aplicação do questionário, tendo o cuidado para que não houvesse repetição de informações. Às participantes foi indagado se já haviam preenchido esse instrumento. Foram distribuídos mais 150 questionários, retornaram 135 (90%), sendo que 15 formulários não retornaram. Do total de 300 formulários distribuídos, houve um retorno de 255. Consideraram-se válidos 232 questionários preenchidos corretamente. Ressalta-se que para essa etapa contou-se com quatro voluntários como parte da equipe de apoio e encerrou-se ao término do segundo dia do evento.
3.2.3.1.5 Plano amostral e cálculo da amostra
Nesta etapa utilizou-se abordagem quantitativa, descritiva, exploratória, de corte transversal e amostragem aleatória simples. O objetivo foi o de identificar e descrever os seguintes aspectos: perfil sociodemográfico, episódios e natureza das violências cometidas
por parceiro íntimo, alguns aspectos sobre o acesso aos serviços de saúde, o grau de consciência das violências, e o conhecimento sobre as medidas protetivas e da Lei Maria da Penha na interpretação das mulheres trabalhadoras e dirigentes rurais.
O cálculo amostral foi decorrente de informações sobre o tamanho da população baseada no quantitativo de 1227 mulheres cadastradas (informação não oficial) que exerciam cargos de liderança ou eram dirigentes sindicais do total de participantes em sindicatos e federações dos trabalhadores e trabalhadoras da agricultura associadas à CONTAG. A confederação adotou a Lei nº 9.504/1997, que dispõe sobre o sistema de cotas para as candidaturas de mulheres no Brasil (BRASIL, 1997). Este dispositivo legal foi atribuído como incentivo à participação feminina nas instâncias de sindicatos, federações e confederação e para promover uma maior mobilização por parte das mulheres. Tomou-se como referência a informação que considerava a ocupação efetiva de mulheres, cerca de 30% do total dos cargos de dirigentes sindicais. Vale observar que este quantitativo foi obtido conforme as informações fornecidas pela secretaria da presidência da CONTAG, visto que não se dispunha de um sistema informatizado de todo o efetivo de associados e associadas (CONTAG, 2011). Nessa fase do cálculo, para o tamanho da amostra foi utilizada à fórmula para população finita, anteriormente, adotado na fase I. Nesse caso,
( ) ( ) ⁄ ( ) ⁄
( )
O cálculo amostral resultou em uma amostra de 293 potenciais participantes que seriam necessários para essa etapa da pesquisa. Foram distribuídos 300 formulários; desses, 45(15%) não retornaram e 23(7,7%) apresentavam preenchimento incorreto e foram descartados. Obteve-se menor número de participantes do que o previsto no tamanho da amostra, isto é, 232 questionários considerados corretamente respondidos e que atendiam aos critérios de inclusão. Estatisticamente, optou-se em melhorar os parâmetros do delineamento, ou seja, melhorando a precisão das informações (MARCONI; LAKATOS, 2002; BOLFARINE; BUSSAB, 2005; FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008; DESLANDES; IRIAT, 2012)
3.2.3.1.6 Procedimentos para análise dos dados
Para a análise dos dados dessa etapa optou-se por agrupar em variáveis independentes que compõem o perfil sociodemográfico contendo os seguintes itens: idade, escolaridade, região que reside, religiosidade, conjugalidade e posição na família. Elencou-se como variável dependente a ocorrência de violências praticadas pelo parceiro íntimo, que, para fins deste estudo, foi considerada a resposta afirmativa da mulher em relação à experiência de ter sofrido pelo menos um episódio de violência praticada pelo parceiro como um caso.
Os dados foram digitados diretamente no Editor de Dados Statistical Package for the
Social Sciences [SPSS©, versão 18.0] para criação do Banco de Dados (WAGNER; MOTTA; DORNELLES, 2004). O SPSS© é considerado um programa confiável e um poderoso instrumento para executar análise estatística, manipular dados e gerar tabelas e gráficos que resumem os dados. Para identificar se há diferença entre grupos, optou-se por teste não paramétrico de associação que compara as proporções das quantidades de respostas entre os grupos, em um único teste (WAGNER; MOTTA; DORNELLES, 2004).
As questões sobre frequência de situações ou acontecimentos foram consideradas variáveis dependentes, isto é, as vivências de violências e o acesso aos serviços de saúde. Do mesmo modo que na etapa anterior (Etapa II), categorizou-se idade, religião, posição na família, conjugalidade e escolaridade como variáveis independentes e utilizou-se a Razão de Prevalência e Intervalo de Confiança (IC) 95%. As questões sobre os episódios de violência (frequência e natureza) foram consideradas variáveis dependentes. As questões sobre os índices de consciência da violência foram analisadas pela análise fatorial, que é uma técnica de interdependência onde se avaliam todas as variáveis simultaneamente, relacionando-se umas com as outras, empregando-se o conceito da variável estatística (COOPER; SCHINDLER, 2002). Seu objetivo é captar as dimensões ocultas que representam o conjunto de dados em um número menor de variáveis do que as variáveis individuais originais (COOPER; SCHINDLER, 2002).