Essa maneira de abordar a personagem, mais profunda e problematizadora, é possibilitada pelo modo como o autor a expõe: ele não procura palavras que a definam, objetificando-a, mas sim expressões que mostrem sua posição ideológica. Entretanto, a ideia não é o ponto central de representação, mas o que permite alcançá-lo: a representação do homem no homem. É por isso que, em Le chercheur d’or, a postura intercultural de Alexis é de suma importância, já que é por meio dela que ele conseguirá tomar consciência da necessidade em se reconhecer no outro, abolindo o ideal de uma única perspectiva acerca dos acontecimentos. A trajetória do herói é, nesse caso, a representação de um conjunto de etnias e culturas, simbolizadas pelas lendas e mitos, cujo objetivo final é se reencontrar por meio do contato pleno com o outro, por conseguinte, com o cosmos. Após descobrir o segredo do corsário, Alexis redefine seus valores, corrompidos pela ambição e pela violência vivida na
81 Primeira Guerra Mundial, e retorna ao estágio de interação com o mundo do outro que, nesse caso, é Ouma:
Depuis que j’ai compris le secret du plan du Corsaire inconnu, je ne ressens em moi plus aucune hâte. Pour la première fois depuis que je suis revenu de la guerre, il me semble que ma quête n’a plus le même sens. Autrefois, je ne savais pas ce que je cherchais, qui je cherchais. J’étais pris dans un leurre. Aujourd’hui, je suis libéré d’un poids, je peux vivre libre, respirer. Á nouveau, comme avec Ouma, je peux marcher, nager, plonger dans l’eau du lagon pour pêcher les oursins. (LE CLÉZIO, 1985, p.336)
Salienta-se que, especificamente em Le chercheur d’or, há uma tendência em evidenciar o egoísmo inerente às relações de poder, ou seja, em ambientes ligados ao capitalismo e ao objetivo lucrativo pertencente a ele, a existência do outro como consciência individual passa a ser nula. No momento em que Alexis participava da guerra, por mais que a índole do herói discriminasse essa postura, a anulação do outro era inevitável, já que, ao valorizá-lo, arriscava-se a própria vida. É por isso que o capítulo que relata a Primeira Guerra Mundial mostra um Alexis dilacerado e desagregado, imbuído de uma solidão angustiante e desoladora que faz com que ele relembre com maior nostalgia as sensações experimentadas quando gozava da interação com o outro, como na infância, por exemplo, ou com Ouma.
Nesse novo viés representativo, o autor vê o indivíduo na própria vida, e não como algo construído dentro do romance de acordo com uma visão e uma representação artística. Ao dialogar com outros ideais e consciências, o mundo das personagens leclézianas mostra-se cada vez mais dialógico, assim como a obra em geral, pois as relações humanas são, em sua essência, dialógicas e as diferentes vozes sobre o mesmo tema (polifonia) representam a complexidade dos sofrimentos e questionamentos humanos. Desse modo, o que a obra enfatiza são as temáticas que coexistem em vários tempos e que têm real significado no presente. Por isso, suas personagens, assim como as de Dostoiévski, só se recordam daquilo que ainda faz sentido, como fica nítido em Alexis no momento em que, já em Mananava, relembra sua infância com Denis, lembrança essencial para complementar o verdadeiro sentido do ouro, pois denota a plenitude em que vivia no tempo do Boucan: “Je me rappelle les après-midi où j’attendais Denis, et j’entendais le signal qui grinçait au milieu des hautes herbes, un drôle d’insecte qui répétait: vini, vini, vini...” (LE CLÉZIO, 1985, p.368). Ressalta-se que a recordação detalhada e sensorial dos momentos vividos com Denis só é explorada na ocasião em que Alexis redescobre sua identidade, ou seja, a lembrança é evocada quando ela tem algum sentido e não de maneira aleatória.
82 As lembranças lendárias de Denis e Ouma sobre a história do negro Sacalavou, evocada mais de uma vez na narrativa, também destacam as consequências da escravidão, vividas ainda no presente, o que justifica o comportamento muitas vezes arisco de Denis e Ouma, que conta a Alexis: “‘Mon grand-père était marron, aves tous les Noirs marrons du Morne. Il est mort quand on a écrasé ses jambes dans le moulin à cannes, parce qu’il avait rejoint les gens de Sacalavou dans la forêt.’” (LE CLÉZIO, 1985, p.257). Evocar a memória da escravidão e os resquícios dela é um dos motivos para iniciar a discussão acerca das desigualdades étnicas e culturais ainda latentes no mundo atual, o que denota a relevância da lembrança de Ouma que não se restringe ao passado, mas remete a algo significativo no presente. Assim, Le Clézio mostra que, ao mesmo tempo em que o Ocidente se beneficia com o progresso tecnológico, há um outro lado maléfico que prejudica aqueles que estão fragilizados pela supremacia capitalista.
A tentativa de interpretar o mundo requer um pensamento simultâneo, que tenta ver tudo de maneira coexistente, percebendo e mostrando a contiguidade e simultaneidade dos acontecimentos como que situados no espaço e não no tempo. A escolha das ilhas Maurício como cenário da trajetória iniciática de Alexis não é em vão: ela consegue abranger, pelo menos, três culturas diferentes e desigualdades sociais exorbitantes, o que dá respaldo à polifonia em Le chercheur d’or. Utilizando como cenário da narrativa um ambiente social e culturalmente contrastante, o autor consegue materializar a coexistência de diferentes realidades, intensificada no século XX, demonstrando, concomitantemente, a falta de unidade do mundo que só pode ser reunificado se forem consideradas as individualidades de cada consciência (no caso de Le chercheur d’or, de cada cultura). Nesse sentido, é importante considerar as polêmicas sociais, políticas e ideológicas contemporâneas ao romance, bem como aquelas que agitaram o contexto histórico da narrativa (final do século XIX e início do XX), já que elas serão os principais meios pelos quais Le Clézio transmitirá a mensagem principal de Le chercheur: a necessidade de um interculturalismo que faça com que o homem se veja no outro, como parte integrante do outro.
4. OS MITOS E LENDAS INSERIDOS NO ROMANCE
O apreço de Le Clézio pelas culturas preteridas pelo mundo econômico atual somado às experiências vividas por ele durante sua viagem à África e à sua descendência mauriciana faz com que Le chercheur d’or, assim como outras obras do autor, seja uma tentativa de representar parte desse emaranhado mitológico e lendário inerente a esses povos. Desse
83 modo, Alexis será a personagem que dará unidade ao romance, o que, nesse caso, significa ser o elemento da obra para onde convergem todos esses traços exóticos e aparentemente divergentes, mas que, no todo, funcionam de maneira complementar. Ao se mostrar como uma personagem que busca explicações para uma realidade devastadora, o protagonista passa a ser um representante do homem genérico que, além de procurar por respostas satisfatórias, tenta alcançar a verdadeira plenitude e harmonia.
Para Le Clézio, só há descoberta quando o homem é afastado de seu lugar de origem para conhecer outro homens, outras paisagens e outras culturas. Por isso, logo no primeiro capítulo, Alexis, além de já ter contato com outros costumes diferentes dos seus (por meio de Denis), é exilado de seu espaço original, o Boucan, e passa a conhecer outros modos de vida que influenciarão o seu destino. É nesse momento que a heterogeneidade da narrativa se intensificará, propondo a reflexão acerca de determinados mitos consagrados, mas que, sob a perspectiva de Alexis, adquirem novas roupagens e dão ao leitor uma chance de conhecer outras civilizações através do amálgama mítico (JOLLIN-BERTOCCHI; THIBAULT, 2004) proposto pelo autor.
Nesses termos, a inserção de mitos e lendas no romance será indispensável, uma vez que será por meio dela que Le Clézio discutirá a ideologia do interculturalismo, ao mesmo tempo em que mostrará ao leitor (principalmente ao leitor ocidental) outras formas de civilização, que são tão ou mais enriquecedoras do que as do Ocidente. Ademais, é sob o panorama mítico e lendário que o autor contestará o sistema econômico atual e, principalmente, colocará em questão a situação do homem contemporâneo diante das sequelas de uma sociedade calcada no materialismo, no consumismo e na conquista inescrupulosa do poder econômico, social e cultural. Assim, apesar de o mito ter, progressivamente, perdido seu valor religioso e metafísico, passando a denotar “tudo o que não pode existir realmente” (ELIADE, 2011, p.8), aqui ele adquirirá extrema relevância, pois será tomado como uma narrativa que fornece modelos para a conduta humana, tendo, portanto, a capacidade de ensinar, exemplificar e até facilitar as decisões e escolhas do protagonista, que tomará essas histórias como preciosas e significativas: “A principal função do mito consiste em revelar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas.” (ELIADE, 2011, p.13). Dessa forma, por mais que seja difícil encontrar uma definição única para o mito, as que serão utilizadas neste trabalho levarão em conta o caráter sagrado e cosmogônico dessas narrativas cujo objetivo principal é responder ou ao menos amenizar, de alguma forma, os grandes questionamentos humanos.
Por mais que as personagens mitológicas não façam parte do cotidiano, ou seja, não se assemelhem a pessoas comuns, pertencentes à realidade empírica, os acontecimentos narrados
84 nos mitos modificam a condição do homem e fazem dele um resultado direto daquilo que foi contado nas histórias míticas, explicando, nesse sentido, o porquê da atual condição humana. Além disso, ao recitar um mito, sai-se do tempo e do espaço comuns, tornando-se contemporâneo à narrativa e aos Deuses ou Heróis que dela participaram: “[...] ao ‘viver’ os mitos, sai-se do tempo profano, cronológico, ingressando num tempo qualitativamente diferente, um tempo ‘sagrado’, ao mesmo tempo primordial e indefinidamente recuperável.” (ELIADE, 2011, p.21). A evocação dos mitos bíblicos, no primeiro capítulo de Le chercheur d’or, provoca em Alexis essa sensação de transcendência espacial e temporal, ao mesmo tempo em que tenta explicar os motivos pelos quais a humanidade deixou de desfrutar do paraíso de outrora.