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A despeito de tal desenvolvimento, o campo não está isento de desafios e dificuldades. Autores que têm analisado a produção científica sobre políticas sociais identificam aspectos problemáticos em tais estudos, que podem comprometer a consolidação e qualificação desse campo. Assim, analisar tais características se torna importante para que os pesquisadores da área possam, ao identificar as fragilidades e potencialidades que os cercam, investir em melhorias em sua agenda de pesquisa.

As principais características que marcam o campo de estudos sobre políticas sociais decorrem, em grande parte, das próprias particularidades deste objeto de estudo. Isto significa que, além das condições do contexto que influenciam a produção científica de maneira geral no país (como discutido no capitulo anterior sobre a pós- graduação stricto sensu brasileira), as especificidades de se tomar as políticas sociais como objeto de estudo condicionam sobremaneira o quadro geral desta produção.

Tomem-se aqui dois pontos específicos das políticas sociais que impactam diretamente na produção científica relacionada ao campo: o fato de tratar-se de um objeto de estudo que responde diretamente à relevância prática e seu caráter multifacetado. Destes pontos, decorrem como características: a fragilidade teórica e metodológica da produção científica; o caráter pragmático que marca o campo e os múltiplos recortes disciplinares sobre o objeto.

Em relação ao primeiro aspecto, sabe-se que o campo das políticas sociais consiste em uma especialização das Ciências Sociais, configurando-se como uma área eminentemente propositiva. De acordo com Reis (2003), isso dá margem para que pesquisadores da área se refugiem no território técnico, sem ter clareza (ou sem a explicitação) do campo teórico em que se inscreve seu trabalho. O autor defende que uma agenda de pesquisas em políticas sociais tem que contemplar projetos que tenham sustentação teórica e não, que tratem de aspectos práticos descolados da rede de interesses, valores e normas que estão embutidos nas concepções de políticas sociais, que são diversas.

Titmuss (1974) pode ser considerado um dos pioneiros no esforço de conceituar política social e, desde então, vários são os esforços para sistematizar as diversas correntes teóricas acerca do fenômeno. Coimbra (1987), por exemplo, cita seis tipologias axiológicas que classificam as teorias explicativas acerca das políticas

sociais, chegando o autor a propor seu próprio modelo que, a despeito das controvérsias que gera, consegue representar com clareza as distintas perspectivas teóricas que rodeiam o termo políticas sociais44.

Apesar do reconhecimento de tais abordagens teóricas que buscam explicar a emergência e funcionalidade das políticas sociais, o que se percebe acerca da produção científica deste campo é um distanciamento de tal sistematização teórica, circunscrevendo os estudos e pesquisas ao campo estrito da prática, da técnica, costumeiramente tomando as políticas sociais como sinônimo de “o Estado em ação” ou “o que fazem os governos”. Souza (2003) aponta os riscos de definições simplistas como estas, por se basearem no pressuposto de que as políticas sociais são processos racionais e lineares, desvinculados dos contextos teórico-políticos. De acordo com a autora, no geral, o que se percebe é uma diversidade de abordagens baseadas em teorizações incipientes e vertentes analíticas difusas.

Articulado com isto, percebe-se também a superficialidade metodológica que tem acompanhado com persistência as pesquisas na área de políticas sociais no país. Como apontado por Trevisan e Bellen (2008), os métodos de investigação têm recebido pouca atenção no debate deste campo, que ainda apresenta uso excessivo de descrições, em especial estudos de caso, que mantêm uma leveza metodológica sem aprofundamento analítico do objeto de estudo.

A segunda característica dos estudos sobre políticas sociais refere-se ao natureza deste fenômeno, considerado mais como objeto de intervenção prática do que objeto de estudo científico. Deste cenário, decorrem duas implicações.

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Baseado no trabalho de Mishra (1981), Coimbra (1987) traça um panorama das teorias explicativas acerca das políticas sociais, o que foi alvo de críticas e correções (Behring, 2006; Boschetti, 2009; Frey, 2000; Montaño, 2009; Oliveira, 1989; Pereira, 2001; Vianna, 1997). Mesmo assim, continua sendo utilizado como base para discussões em função da compilação que faz, para cada abordagem teórica, de suas influências, seus principais expoentes, a explicação atribuída ao papel das políticas sociais e o impacto causado por elas na sociedade.

Primeiro, tal proximidade do tema com a prática política governamental, deixaria a agenda da pesquisa acadêmica sobre o campo suscetível à influência de órgãos públicos. De acordo com Melo (1999), isto termina por resultar em trabalhos essencialmente normativos e prescritivos, segundo os interesses políticos em jogo.

Importante ressaltar que tal problema recai não apenas em relação aos órgãos do governo propriamente dito, que financiam a maior parte da pesquisa científica no país, mas também aos organismos multilaterais internacionais que interferem na política científica nacional. A despeito deste aspecto, manter a autonomia e a possibilidade de crítica não parecem vigorar como problema de difícil enfrentamento no país hoje, haja vista a quantidade de trabalhos acadêmicos que empreendem duras análises sobre gestões governamentais em diversos níveis e setores.

A segunda implicação da vinculação deste tema com o campo da prática diz respeito à proliferação horizontal de estudos sobre o campo. Por consistir em subárea ampla, de grande diversidade temática, prevalece a baixa capacidade de acumulação de conhecimento, com abundância de estudos setoriais e objetos empíricos diversificados, sem que haja um fortalecimento vertical de tal produção científica. Percebe-se que o crescimento da disciplina no país se estruturou mais em torno de áreas temáticas do que de grupos de pesquisa, o que termina por levar a dificuldades na sistematização das pesquisas realizadas e pouco intercâmbio entre pesquisadores.

Por fim, para além da supremacia da abordagem técnica em contraposição ao aprofundamento teórico, as fragilidades metodológicas, o risco de ingerência dos governos sobre as pesquisas e a dificuldade de acumulação vertical do conhecimento, não se pode desconsiderar o caráter multifacetado das políticas sociais como campo de estudos científicos.

Apesar de sediada oficialmente nas Ciências Políticas, o tema das políticas sociais é território de várias áreas do conhecimento que contribuem teoricamente com o campo, a exemplo da Sociologia e Economia. De acordo com Pereira (2001),

(...) nas tematizações mais promissoras da política social percebe-se claramente a relação de mútua implicação entre três esferas chaves: Política, Ética e Economia. Disso se depreende que, embora os métodos e técnicas utilizados por essas diferentes especializações variem, o seu objeto de interesse, e muitas vezes os seus objetivos últimos, coincidem. (p. 80) Assim, para pensar a interface entre disciplinas científicas no que se refere ao estudo das políticas sociais deve-se ir além da análise de como cada uma delas participa isoladamente para a compreensão deste fenômeno. De outro modo, é preciso buscar entender como os conhecimentos produzidos se articulam (se complementam ou se negam) no processo de entender tal fenômeno, indo além da “soma” dos saberes produzidos por distintos campos do conhecimento na tentativa de se ter uma visão mais completa dos processos sociais.

Pensar a interdisciplinaridade (ou qualquer de suas variantes: multi, pluri, trans) sem considerar os fenômenos e as implicações do modo de fazer ciência, especializado e fragmentado, típico da ciência moderna, não leva à resolução do que, de fato, está na raiz dessa questão45. A superação da fragmentação do saber não depende de uma postura puramente metodológica ou conteudista, vai além de um método de investigação ou de uma técnica didática. Conforme análise de Frigotto (2008), a articulação entre saberes de diversos campos do conhecimento se impõe como

45 Tonet (2013), em análise sobre a interdisciplinaridade, discorre sobre a articulação entre produção de

conhecimentos a partir de disciplinas isoladas e a divisão social do trabalho, com caráter funcional à manutenção da lógica do capital, por impedir uma visão de totalidade, permitindo apenas acesso a aparência da realidade. Esse debate será retomado no quarto capítulo, referente à integração dos dados.

necessidade “fundamentalmente no plano material histórico-cultural e no plano epistemológico” (p. 42). Considerando que os processos sociais são constituídos nas e pelas relações sociais, assim como são constituintes destas mesmas relações, percebe-se a limitação, ontológica e epistemológica, da soma ou justaposição de setores acadêmicos para a compreensão de práticas sociais, nas quais podem ser incluídas as políticas sociais.

Com isso, não se está afirmando que o embasamento científico considerando saberes produzidos por diferentes disciplinas acadêmicas é dispensável ou nocivo à produção científica. Frigotto (2008) também afirma que, a despeito de representarem momentos parcializados na produção do conhecimento, a especialização científica consegue revelar aspectos que, de outra forma, se manteriam obscurecidos. O que se objetiva aqui é apontar suas limitações na compreensão da dinâmica social, no desvelamento da realidade, na busca pela essência dos fenômenos - ou seja, o intercâmbio de saberes entre distintos campos da comunidade científica não constitui, por si só, em resolução para a fragmentação do conhecimento, mas em alguma medida pode contribuir para ampliar o acesso aos objetos de estudo.

É seguindo esta lógica que, além das disciplinas “tradicionais” que se dedicam à produção científica a respeito das políticas sociais (Ciência Política, Sociologia e Economia), é comum observar tal prática em outras áreas do conhecimento. Destaque-se o caso daquelas que guardam proximidade com as políticas sociais pela via da atuação profissional, como por exemplo, as diversas subáreas da Saúde, Educação, Serviço Social e Psicologia.

Para o escopo desta tese, tome-se para uma análise mais detalhada a relação estabelecida entre a Psicologia e o campo das políticas sociais, a fim de entender a contribuição desta disciplina científica para o debate em torno do referido tema.