O pensamento marxista de esquerda na contemporaneidade, a despeito de investidas que tentam desprestigiá-lo em uma leitura invertida de Marx, não se esgotou e renasce sob outras agendas políticas e num contexto posterior às preocupações, demandas e acontecimentos da modernidade.44
Na atualidade a bipolaridade política perdeu muito. Eventos históricos e simbólicos para o capitalismo como a queda do muro da Berlim, a mudança das diretrizes políticas na União Soviética e o desfortalecimento de países politicamente anti- capitalistas, no caso de Cuba, enfraqueceram, em um primeiro momento, o próprio embate e antagonismo de idéias, principalmente quando se fala em teoria marxista. Entretanto, para o marxismo teórico, esse diagnóstico é aparente, pois repousa não na diminuição de seu valor ou desconstrução de sua teoria, porém no predomínio prático e
44 Tirante os autores clássicos do marxismo que não vêem necessidade de readaptar a teoria marxista
para a atualidade, César Altamira defende que o marxismo mantém-se sob novos questionamentos teóricos: “Entretanto, para além da falsa perspectiva de tentar identificar o fim do marxismo com a desintegração do bolchevismo, é possível aceitar (igualmente) uma leitura de espaços abertos nos quais seja possível pensar o surgimento de novas genealogias marxistas, capazes de imaginar um horizonte crítico diferente. O que torna este projeto uma realidade viva é justamente o fato de que o capitalismo pós- fordista, na era do conhecimento, delimitar tanto tendências mais catastrofistas quanto conflitos sociais de maior amplitude e densidade que os que foram experimentados durante o fordismo”. (ALTAMIRA, César.
Os marxismos do novo século. Trad. Leonora Corsini. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 23-
algumas vezes teórico da ideologia burguesa que, acadêmica, livresca e midiaticamente tenta a todo custo a diluição do que lhe representaria algum perigo. Acaso o marxismo não fosse tão fechado e coerente enquanto teoria, outras proposições não iriam tão direta e indiretamente contra suas bases, confrontando-as ou inventando novas formas de opor-se ao poder vigente, mas sem trazer concretas questões referentes à produção material dos meios de vida.
Fato é que o marxismo vive e mantém-se, para alguns, também, sob a rubrica de pós-marxismo. E entre os pós-marxistas, na atualidade, pelo menos dois debatedores aparecem com maior freqüência e importância no cenário mundial, em um diálogo muitas vezes convergente: são eles Alain Badiou e Slavoj Žižek.45 Esses dois filósofos
têm em comum com o marxismo a defesa de que os colapsos do stalinismo e do socialismo real não invalidaram o horizonte de emancipação radical que é o comunismo. E para tanto, cada qual à sua maneira, recriam o discurso marxista, em uma abordagem diferente das elaboradas anteriormente, como aquelas construídas pela Escola de Frankfurt.
Em Slavoj Žižek46 entende-se que o pós-marxismo ocorre pela renovação da psicanálise na interpretação da sociedade ou, por outro lado, estaria contido na própria filosofia do autor esloveno, em uma escatologia do que representaria a visão de Marx sobre a sociedade contemporânea. “Muito mais interessante do que a pergunta sobre o que permanece ainda vivo no marxismo, sobre o que o marxismo continua hoje a
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Outros contemporâneos de Žižek foram anteriormente designados de pós-marxistas como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe: “La idea de que el mundo occidental había entrado en una época ‘postmoderna’, fundamentalmente diferente del capitalismo industrial de los siglos XIX e XX reforzó, por ejemplo, los argumentos de dos de los principales pensadores llamados ‘posmarxistas’, Ernesto Laclau y Chantal Mouffe, quienes sostuvieron que los socialistas debían abandonar el ‘clasismo’, el énfasis que hace el marxismo clásico sobre la lucha de clases como furza implusora de la historia y sobre el proletariado com agente del cambio.” (CALLINICOS, Alex. Contra el postmodernismo: una crítica marxista. trad. Magdalena
Holguín. Bogotá. El Ancore Editores, 1994, p. 6).
46 Cristian Ingo Lenz Dunker dirá que Žižek aparece como um novo alento para os teóricos da democracia
radical e do pós-marxismo. “Um autor que parecia representar uma verdadeira e fiel reflexão acerca da desintegração dos Estados socialistas do Leste Europeu. Um novo alento para os teóricos da democracia radical e do pós-marxismo”. (LENZ DUNKER, Chistian Ingo. “A paixão pelo Real e seus desatinos”.
Margem esquerda: ensaios marxistas. número 3. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 171). Ainda, Ian Parker
afirma que Žižek tem sido atraente para os adeptos do marxismo, por três motivos, sendo que no primeiro deles diz existir uma harmonia com os autores pós-marxistas: “O primeiro motivo se refere à sua elaboração, de uma teoria da ideologia, de dentro do campo dos debates marxistas do final dos anos 70, e começo dos anos 80. Aqui Žižek acerta um acorde com os ‘pós-marxistas’, porque ele colocou em questão antigas certezas sobre a luta de classes e pareceu levar adiante os debates da esquerda sobre a análise da subjetividade como um processo ideológico.” (PARKER, Ian. “A política – repetindo Marx”. In.
DUNKER, Christian Ingo Lenz (org.) Žižek crítico: Política e psicanálise na era do multiculturalismo. São Paulo: Hacker, 2005, p. 141).
significar, é a pergunta sobre o que é que significa o nosso mundo contemporâneo aos olhos de Marx”.47
As linhas descritas acima são um ótimo exemplo para entender o que se denominaria de pós-marxismo em Žižek. Mais do que uma teoria marxista da sociedade, o pós-marxismo é a compreensão da sociedade contemporânea, com todos os seus problemas, pelo marxismo. Sob certo ângulo a obra de Žižek aparece com este objetivo: uma crítica marxista à sociedade, à cultura e a política contemporânea. 48 A teoria como centro para explicar o mundo, conforme já havia indicado Adorno, em oposição à tese XI sobre Feuerbach, de Marx, que diz: “os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de transformá-lo”. 49 Žižek, no seu pós-marxismo, é cônscio da necessidade de a filosofia, mais do que nunca, interpretar o mundo e procurar respostas para os dilemas atuais, para a política e sua conexão com a forma existente do capitalismo contemporâneo.
Por outro lado, Žižek, como pós-marxista, guarda da mesma maneira uma relação com autores do poder e do biopoder como Carl Schmitt e Giorgio Agamben, entre outros. O empréstimo da teoria schmittiana do estado de exceção como um ato soberano de suspensão da ordem jurídica para a revolução é a base mais nítida para rediscutir o poder e a política no autor esloveno. Žižek apropria-se criticamente da teoria schmittiana e, neste sentido, estabelece uma proximidade pelo assunto com o seu contemporâneo Agamben.
Ainda, referente às teorias do biopoder, Žižek dialoga com autores como Foucault e Derrida. Sua filosofia tem certa simpatia por esses autores, na exata medida que se afasta do marxismo mais radical.
Pode-se dizer que em uma renovação da crítica política e do marxismo Žižek transita entre autores pós-marxistas, marxistas, estruturalistas e autores do biopoder e por este fato sua obra estaria em descompasso com o marxismo mais estrito, que não
47 ŽIŽEK, Slavoj. As Metástases do Gozo: Seis Ensaios sobre a Mulher e a Causalidade. 1ª ed., Lisboa:
Relógio D’Água, 2006, p. 241/242.
48 Referente às colocações elaboradas neste tópico, pode-se dizer que existe uma aproximação histórico-
cronológica das denominações pós-moderno e pós-marxismo. Muitos teóricos atuais tratam o discurso da política, da cultura e da sociedade contemporânea como discursos pós-modernos. Mas, ao mesmo tempo, isso não quer dizer uma complacência do autor estudado aos dizeres da pós-modernidade. Além do que, defende-se que não há uma semelhança de conteúdo entre pós-modernidade e pós-marxismo.
49 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. 1ª ed., 3ª tiragem., São Paulo: Martins Fontes,
admitiria uma amplitude de correferências. Daí também se aludir que Žižek é mais um pós-marxista “eclético” que propriamente um autor marxista o que, por seu turno, não quer dizer necessariamente um melhoramento do marxismo moderno; ao contrário, para muitos, trata-se de concessões que não acrescem substância ao marxismo já conhecido.