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4.1 Data Analysis

Por estar relacionado ao povo, o messias assume características da realeza. Assim, no princípio, o ungido é o rei de Israel (cf. 1Sm 9,16; 24,7), e especialmente o rei enquanto representante de Deus (cf. 2Sm 7,12s). Diante da decepção causada por seus governantes, a história, desmentindo a promessa, reporta a figura do messias à escatologia, ou seja, à

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PAGOLA, J. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: vozes, 2010 p. 116.

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ECHEGARAY, H. A prática de Jesus, p.120.

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esperança de um salvador futuro. No entanto, Grelot234 pontua que apesar dessa figura do

“mediador da salvação” fazer parte da esperança judaica, ela não ocupa seu centro. O Reino de Deus e a Tora ocupam, segundo ele, um lugar muito mais importante.

Temos no livro de Isaías o destaque de dois personagens diferentes envolvidos no anúncio da Boa Nova do Reino de Deus: o próprio Isaías, como profeta que anuncia o “longínquo” Reino de Deus, e o Servo de Deus, que proclama o “iminente” advento desse reino. O que Isaías faz, em verdade, é anunciar esse “portador” do Reino como primeiro elemento do próprio Reino e da libertação. Posteriormente, os Evangelhos reconhecerão, na pessoa de Jesus, este servo.

No A.T, a esperança por um messias está, antes de tudo, inserida em uma esperança maior, universal, ou seja, na chegada dos “tempos messiânicos”, nos quais “o Senhor virá estabelecer-se sobre todo o Monte Sião e em suas assembléias” (Is 4,5); onde “uma nação não levantará a espada contra a outra, e nem se aprenderá mais a fazer guerra” (Is 2,4); tempos em que as trevas se converterão em luz, onde todo jugo que pesa sobre o povo será quebrado “como no dia de Madiã” (Is 9,1-3). A chegada do “ungido do Senhor” precederia esses tempos favoráveis, viria como um “sinal” enviado pelo próprio Senhor, e seria o “Deus Conosco” (cf. Is 7,14). Esse Soberano enviado por Deus cujo império é grande e a paz sem fim, receberá o nome de “Concelheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5-6).

Compreensível que, em meio a séculos de guerras, lutas por sobrevivência, exílio, o povo arrefecesse por vezes em suas esperanças. Sustentaram-na, porém, pois que sem ela não subsistiriam. Um povo sem esperança é um povo derrotado, e o que Israel esperava era a vitória final sobre seus inimigos, não importando por quantas derrotas ainda tivesse de passar até que ela os alcançasse. Precisamente nisso consiste a fé e a esperança: em crer naquilo que ainda não se vislumbra, mas que se tem a certeza de estar lá.

Entre tantas derrotas e vitórias, esperanças e desesperanças, o povo viu surgir em seu meio vários “pretendentes messiânicos” e grupos ou indivíduos apocalípticos. Esses últimos nutriam a expectativa por uma incrível intervenção divina, onde o poder de Deus realizaria o

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que o dos homens não pode realizar até então, conforme já abordado no capítulo segundo. É precisamente isso que os distinguiam dos “pretendentes a messias”, cuja primeira ideia era, conforme Crossan 235a de uma rebelião militar. Estes serão os “olhos” que olharão para Jesus;

essas serão as “mentes” que procurarão compreendê-lo, entendê-lo como o “Messias do Senhor”.

3.1.1.1 O messianismo de Jesus

Se tomarmos todas as correntes de pensamento entre as quais se dividia o judaísmo a respeito dessa esperança no tempo de Jesus, perceberemos, com certeza, vários elementos comuns. No entanto, o que realmente importa notar, é que em nenhuma delas está presente a ideia de um messias que possa fracassar e sofrer. Antes do aparente fracasso na cruz, a multidão perguntava se ele seria “aquele que haveria de vir” (cf. Mt 11,3; Dt 18,15.18). Nem o próprio Jesus responde a essa questão explicitamente, como veremos adiante.

Temos divergências nos sinóticos a respeito da resposta que Jesus dá aos que o indagam sobre sua messianidade. O máximo que podemos dizer observando tais textos, é que ele não recusou o título de Messias. Em Mateus, quando Pedro faz sua profissão de fé, Jesus replicou: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim meu Pai que está nos céus” (Mt 16,13-16); Em Marcos (Mc 8,27-30) e em Lucas (Lc 9,21), consta que após tal profissão, Jesus lhes proíbe severamente de falar a alguém a seu respeito.

Porque essa relutância de Jesus em afirmar explicitamente seu messianismo? Dodd 236

explica que tal atitude parte do conceito de messianismo na mente popular, associado à função política e militar do descendente de Davi; e tal papel Jesus não queria desempenhar. Afirmar isso colocaria em risco toda sua missão, sua causa. Contudo, messias ele era. Devemos, então, reformular a pergunta; ao invés de perguntar se Jesus pretendia ser Messias, perguntar que tipo de messianismo pretendia exercer. Com certeza não era o da expectativa popular, ou seja, um messianismo de poder. Que tipo então? E a resposta nos é dada por Isaías: O Servo do Senhor (cf. Is 52,13-53), um messianismo, portanto, de serviço. Xabier Pikaza 237 vai chamar a

atenção sobre alguns traços do messianismo de Jesus:

235

CROSSAN, J. D. Jesus..., p.54.

236

DODD, C. H. O fundador do cristianismo, p.117.

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Convite ao banquete: Aos olhos humanos, Jesus se porta como um “louco”; procura o Reino de Deus e cerca-se, no entanto, daqueles que formam a escória da sociedade; quer o triunfo universal do bem e da justiça, mas caminha com publicanos e pecadores. Pois é justamente essa “loucura” que dá lugar a todos esses “pequeninos” ao banquete do Reino. A lógica desse Reino é que os últimos serão os primeiros.

A família de Jesus: Jesus, no exercício de seu ministério, escandaliza os curiosos e medíocres, os cegos e surdos de coração. Destes se pode esperar tal reação. No entanto, seu próprio clã o considera “louco” (cf. Mc 3,21), pois sofrem as consequências da ousadia de Jesus, de seus enfrentamentos e prodígios em favor dos desfavorecidos da sociedade. O que Jesus faz é expressar, já na terra, uma visão de Deus que ultrapassa os antigos laços familiares (cf. Mc 3,32-35). Seu grupo não é sua família, mas os errantes dos caminhos, das estradas e aldeias em torno da Galiléia e da Judéia. “Eis que Jesus assume o desafio e anuncia a vontade concreta ou escatológica de Deus, que passa a interpretar já sob a matriz messiânica: é preciso formar uma nova família, que vem reunir-se em torno de Cristo, isto é, em torno do iniciador do Reino” 238.

Itinerância messiânica a caminho do Reino: Israel se entende como “casa”, refúgio, abrigo, proteção. Jesus, no entanto, se apresenta “a caminho”, como alguém que “não tem onde reclinar a cabeça” (cf. Mt 8,20). Quem quiser aderir ao seu projeto deve ser capaz de deixar tudo e, com ele, colocar-se a caminho também. No entanto, essa itinerância não é apenas externa; implica, também, em uma ruptura radical com todos os valores da vida passada. Em nome dessa itinerância, Jesus parece violar até mesmo o mandamento de “honrar pai e mãe”. O discípulo não pode sequer enterrar seu pai, conforme a tradição (cf. Ex 20,12). Jesus oferece um novo tipo de amor e de família.

Radicalismo evangélico. Os Doze: Jesus não quer que a tarefa de difundir a mensagem da salvação se restrinja a ele. O grupo dos Doze significa a totalidade de Israel, o Israel disperso que Jesus vem para reunir. Representa o novo povo messiânico sempre “a caminho”, seguindo, agora, o único Caminho, Jesus.

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A itinerância de Jesus nos permite falar, literalmente, de um “movimento renovador” que ele veio criar. Seus seguidores o acompanhariam pelos caminhos da Galiléia e da Judéia. Não falamos de um grupo organizado, mas de homens e mulheres que “compartilharão com ele sua experiência de Deus; guiados por ele participarão da tarefa de anunciar a todos a vinda do Reino de Deus” 239. O lema desse movimento é: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a

si mesmo, tome sobre as costas a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). “A perfeição consiste em seguir Jesus na sua caminhada e não em buscar a excelência da própria virtude” 240.

O messianismo itinerante de Jesus faz de seus discípulos peregrinos e estrangeiros. Comblin 241 vai relacionar a peregrinação à esperança. Seguir o caminho novo e vivo que é

Jesus é caminhar na esperança. Mas o que há na peregrinação que inspira a esperança? O peregrino que caminha com Jesus, não se sente tolhido ou reprimido em seus desejos, pois já se sente realizado. Os desejos dão espaço, se submetem, a uma experiência nova, viva e superior. Por isso caminhar com Jesus era esperança para os pobres. “O discípulo recebe essas satisfações sem buscá-las, porque elas estão no caminho. Colhe as flores, mas não faz das flores um comércio ou um objetivo de sua vida. A dinâmica dos desejos é substituída pela dinâmica da esperança” 242.

O “movimento renovador” de Jesus tem como lei áurea a Lei do amor. Jesus formula normas e éticas sobre o solo da Tora. Porém a interpreta livremente. Sabe separar perfeitamente o importante do “desimportante”; o vil, do precioso. Por isso ele é a “boca de Deus” (cf. Jr 15,19). O mandamento do amor a Deus e ao próximo, para Jesus, está dentre o que é precioso e importante. Às coisas sem importância, pertencem todos aqueles mandamentos sobre o que é puro ou impuro, e toda lei que se coloque acima do valor da vida. Jesus não quer, com isso, invalidá-las; mas se sente livre para violá-las em casos particulares.

Há duas tensões que perpassam essa ética de Jesus fundamentada na relação livre com a Tora. A primeira está no fato de que, ao mesmo tempo em que Jesus lança mão de afirmações que intensificam a Tora, também o faz amenizando-a, em determinados casos. Porém, mesmo quando assim age, tal ação, ainda que severa, é sempre integradora. Por isso

239 PAGOLA, J. A. Jesus..., p.323. 240 COMBLIN, J. O caminho..., p.36. 241 Ib. p. 64. 242 Ib. p.35.

no centro está o mandamento do amor. Uma segunda tensão básica encontra-se entre a orientação sapiencial nas estruturas permanentes da criação e a expectativa escatológica de um mundo que logo se transformará 243.