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Os últimos 50 anos do século passado comprovaram a eficácia do lide e consolidaram sua prática na organização e na transmissão de notícias para o jornalismo ocidental. Como uma espécie de gênero discursivo, o lide organiza a distribuição das informações , ressaltando as macroproposições e preserva a coerência textual , agilizando o processo de redação e de processamento da leitura.

Uma das principais influências estadunidenses foi a disseminação do lide, cuja

propagação sepultou na grande imprensa brasileira o velho “nariz de cera”, prática de se

iniciar um relato com elementos secundários, frases de efeito, postulados morais e comentários que introduziriam o leitor levemente ao fato em si, sem chocá -lo. O lide pode

compor-se nos dois primeiros parágrafos de uma notícia e os demais trazem os antecedentes do fato, repercussões, comentários, circunstâncias, etc.

Na prática profissional o lide é largamente utilizado , sendo basilar para um bom texto jornalístico, segundo manuais de redação de grandes jornais brasileiros.

Quando se tratar de um texto noticioso, a Folha recomenda com relação ao lide que: a)contenha as informações essenciais do fato noticioso, de preferência as respostas às perguntas básicas (quem, o que, quando, onde, como e por que); b) seja tão completo que o leitor possa se sentir informado sobre o assunto apenas com a sua leitura; c) tenha, de preferência, até cinco linhas e jamais ultrapasse oito linhas de setenta toques datilográficos; d) seja rígido na ordem direta (sujeito, predicado, objetos e complementos); e) não comece com verbo ou advérbio; f) não utilize, sem explicar, nomes, palavras ou expressões pouco familiares para a média dos leitores (LEITE, 1987, p.85-86).

O lead é a abertura da matéria. Nos textos noticiosos, deve incluir, em duas ou três frases, as informações essenciais que transmitam ao leitor um resumo completo do fato. Precisa sempre responder às questões fundamentais do Jornalismo: O quê, quem, quando, onde, como e porquê. Uma ou outra dessas perguntas pode ser esclarecida no sublead, se as demais exigirem praticamente todo o espaço da abertura. Graficamente, recomenda-se que o lead tenha de quatro a sete linhas da lauda padrão do Estado. Nada impede, porém, que ocupe uma ou duas linhas, apenas, em casos excepcionais ou quando se tratar de informações de impacto. Mais que nas demais partes do texto, o lead deve ser objetivo, completo e simpl es e, de preferência, redigido na ordem direta. Todas as demais recomendações feitas a respeito do texto jornalístico valem especificamente para o lead (as palavras estranhas ou desconhecidas deverão ser sempre explicadas; rebuscamentos não têm vez na aber tura; o fato de que constitui o lead deve ser novo; use frases curtas; procure dar um ritmo adequado à frase e, principalmente, jamais construa leads de um único período) ( MARTINS, 1990, p. 42).

Em relação ao estilo, os lides, ainda em um modelo clássico, podem apresentar variadas formas de estruturas. Em uma tentativa de classificação com fins didático - pedagógicos, Erbolato (1984) os enumera em 12 tipos: clássico, integral (dá noção completa do fato, contém todos os 6 itens); simples (refere -se apenas a um fato principal); composto (anuncia vários fatos importantes logo na abertura); suspense ou dramático (provoca mais emoção em quem o lê); flash (nota breve ou informação relâmpago sobre um fato); resumo (é quase o mesmo que o clássico, resume os princip ais fatos no lide); citação (transcreve um pronunciamento); contraste (revela fatos antagônicos); chavão (cita um slogan ou chavão); documentário (narra utilizando elementos que podem servir de documento histórico); pessoal (fala diretamente ao leitor, na segunda pessoa); não noticioso (não é uma notícia, a narração de um fato mas precisa levar ao leitor o ponto central da história; mais utilizado em reportagem)

p.230): “O bom lead é aquele que faz o leitor ler o texto”. Assim, saber “abrir” uma matéria

chega a ser determinante na carreira de um bom redator. Lage (1979) assegura que as mudanças objetivas, objeto de notícias, correspondem a três campos semânticos, pois a notícia é o relato de deslocamentos, transformações ou enunciações observáveis no mundo e consideradas de interesse para o público. O autor (1979, p. 78) exemplifica o que seria um

lide clássico: “O taifeiro Joaquim da Rocha matou, ontem à tarde, com dois tiros, num barraco

da favela da Rocinha, sua mulher, Marlene, ao encontrá -la em casa com outro homem”. Fragmentando este exemplo de lide, teríamos os seguintes enunciados:

O quê: taifeiro assassina esposa Quem: taifeiro Joaquim da Rocha Quando: ontem à tarde

Como: com dois tiros

Porquê: ela estava com outro homem Onde: em casa, na favela da Rocinha

Há outra vertente que fundamenta a origem e a consolidação do lide como estra tégia narrativa racional baseada na retórica clássica. Embora creditado aos estadunidense s, a estratégia de retórica do lide e da pirâmide remonta à Antigüidade, sendo coerente mesmo com nossa tradição oral e cotidiana de transmissão de fatos. Karam (2000) e Sousa (2002), por exemplo, afirmam sê-la não mais que derivações e atualização da ret órica desenvolvida na Grécia antiga, que utilizava estruturas semelhantes a atuais modelos da imprensa mundial como a Pirâmide Invertida e a normal, o relato cronológico e a introdução de um início e um final de impacto: “com freqüência, contamos histórias de maneira semelhante à forma como

os nossos antepassados as contavam”. Sousa afirma que a tese do primeiro doutor em

Comunicação (Tobias Peucer, Leipzig, Alemanha, 1690), intitulada De Relationibus Novellis, propunha que o relato noticioso observasse a indicação do sujeito, objeto, causa, maneira,

lugar e tempo: “estes elementa narrationis acabam por corresponder às seis questões a que

tradicionalmente se dá resposta na notícia: quem?, o quê? quando? onde? como? e por quê?” (1994, p.91).

Van Dijk (1990, p.99) afirma que no discurso cotidiano, ao contrário do relato noticioso, as pessoas geralmente narram os acontecimentos em ordem cronológica. Embora tal forma realmente ocorra para assuntos triviais, banais, o mesmo não po de ser dito em relação àqueles fatos impactantes que suced am aos homens comuns e que carreg uem em si genes também característicos dos critérios de noticiabilidade, tais como surpresa, impacto, proximidade das pessoas, soma envolvida, etc. Nestes casos, o relato geralmente se

hierarquiza e se inicia a partir do que o emissor avaliar como mais importante ou mais recente. Em outras palavras, ao narrar a um colega de repartição que tenha acabado de abalroar seu automóvel no estacionamento da empresa, o funcionário não começará seu relato pelo momento em que se despertou naquela manhã mas pelo ápice do acontecimento. Algo do

tipo: “poxa, acabei de bater no carro do chefe!”, e na seqüência fornecerá outras informações

como horário, gravidade do acidente, testemunhas, culpabilidade, etc. O costum e e o bom senso mostraram a este motorista que iniciar a narrativa em ordem cronológica ou do menos importante para o mais importante tornaria o discurso extremamente maçante e dispersaria a atenção do interlocutor.

A utilização do lide como produto semi-acabado de uma indústria de notícias favorece o consumo e persuade o leitor, estigmatizando -o como mero depositário de informações ordeiramente empacotadas e levemente digeríveis. O instrumento do lide sobrevive à crítica do leitor como receptor passivo de informações das teorias de efeitos ilimitados, passando pela abordagem funcionalista, Teoria Crítica e estudos culturais ( Cultural Studies). A construção da notícia, especificamente do lide, sucumbiu ao figurino de se fornecer contexto, antecedentes e perspectivas de um fato somente para reportagens e para os últimos parágrafos de um relato noticioso. E muitas vezes es ses dados são omitidos em substituição a outros de maior impacto, sensacionais, de apelo mais consumista. Com todas as reflexões críticas, a principal razão para o sucesso e a sobrevivência do lide é sua extrema praticidade para usuários e produtores de notícia nos atuais tempos de consumo rápido e massivo.

A discussão (rara) a respeito da pragmática do lide quase o compara a um projétil de arma de fogo. Significativamente, a fórmula clássica do lide (em que todos os elementos aparecem no primeiro parágrafo) subsiste a todas as discussões teóricas ao longo do século 20 e assemelha-se à concepção teórica da Bala Mágica ou Agulha Hipodérmica, na crença da possibilidade de se atingir certeiramente o leitor. Nes sa ótica dos efeitos ilimitados, o usuário seria um sujeito passivo e presumivelmente assimilaria as intenções do emissor, depositário final das intenções do emissor. Os estudos dos efeitos acompanham os diversos paradigmas inseridos no âmbito das teorias da comunicação , mas pouca atenção tem sido dada à característica de principal evocação e fundamental para a estrutura das notícias. Sua práxis seria sempre certeira, funciona, e perpassa tod os os estudos de recepção, mesmo que seus efeitos tenham transitado entre limitados e ilimitados. Estando o comportamento do usuário reduzido à relação estímulo -resposta, o estímulo e a eficácia são colocados em cheque , quando não há resposta, ou seja, se não ocorreu o problema teria sido na formulação do lide.

constituída basicamente pelos meios de comunicação de massa, a partir da renúncia da autonomia da razão, sendo tal indústria um dos principais instrumentos para a funcionalidade de uma sociedade que tudo pode. Tal postulado afirma que os usuários cons omem sem resistência, contestação ou crítica.

A simplificação da fórmula do lide ao reportar um acontecimento de d estaque, e a repetição do modelo de relato em todas as mídias e em eventuais repercussões nos dias seguintes geradas por este fato inicial reforçam e ampliam os efeitos da agenda setting e da espiral do silêncio. A agenda setting trabalha sob a égide da im posição dos meios de comunicação de massa sobre os indivíduos, pautando os assuntos a serem debatidos cotidianamente a partir da tematização definida e hierarquizada pelos próprios meios. Não define exatamente “como” , mas sobre “o quê” pensar. Os temas ignorados ou com pouco destaque nos jornais teriam igual equivalência pública. Ainda na perspectiva dos efeitos ilimitados dos meios de comunicação de massa, na abordagem da espiral do silêncio determinados temas atingem os indivíduos , levando os portadores de opiniões diferentes a se silenciarem. O princípio é que os usuários não querem o isolamento, buscam associar -se a opiniões dominantes, evitando o choque com opiniõ es de grupos sociais influentes (WOLF, 2005).

A discussão sobre a estrutura do lide escapa também aos paradigmas da comunicação que refutam a onipotência dos meios de comunicação de massa. Aqui a certeza dos efeitos da mensagem é limitada a certas condições, introduzindo -se o conceito social, a influência de líderes e de grupos sociais sobre o leitor. Três tipos de efeitos seriam previstos: criação, transformação ou conservação de idéias já preestabelecidas. Outros estudos apontaram para o binômio uso e gratificação ( uses and gratifications) em que se procurava privilegiar o que os usuários esperavam daquilo que consumiam, ou seja, ao invés de se perguntar a influência dos meios, questiona-se o que os usuários fazem com os meios. Em um ambiente concor rencial, os media necessitam submeter-se aos ditames do “mercado”. Nos anos 1960, os estudos culturais (cultural studies) discutem a problemática da codificação/decodificação assentada sobre a dominação simbólica, em obediência a critérios sociais e culturais como sinalizadores da interpretação de uma mensagem por parte do usuário.

Ferreira (2003) ressalta terem surgido outras abordagens pelo viés da hermenêutica, da fenomenologia e da semiótica , mas os exclui da discussão de estudos de recepção , pois demonstraram interesse pela recepção , mas não “no” receptor, em trabalhos próximos a estudos de produtos midiáticos, “como estes da semiologia, que numa démarche de conhecimento, entre outros, de mitologias contemporâneas fazem alusão a um receptor, como

pretexto para uma análise interna ou imanentista do texto” (p. 7). O autor aponta vertentes

recentes em estudos de recepção midiática: construção social da realidade, a contribuição dos meios de comunicação na formação e na mudança das identidades individuais e coletivas e a contribuição dos meios de comunicação no elo social.

Ao longo de toda esta trajetó ria houve raros e breves hiatos da visão certeira do poder da mensagem, limitado ou ilimitada, como a proposta teórica de Freire (1978) que aborda a comunicação como instrumento de conscientização, dialógica, e que consolidou-se principalmente no campo de pesquisas midiáticas do Terceiro Mundo a visão da recepção como de efeito limitado, como lócus de produção de sentido. Tal modelo se aplica fundamentalmente em propostas de comunicação alternativa, não massivas, e ressurgiram nos anos 1990 com as novas míd ias, principalmente o webjornalismo, ambiente em que o modelo discursivo de notícias, ainda em construção, propõe como adequado ao meio eletrônico a publicação de textos curtos, aprofundando o uso do lide.

Freire propõe o compromisso da teoria com a trans formação social e nessa perspectiva ele insere a questão da prática jornalística. Os estudos de Freire estimularam novas indagações sobre o discurso, a prática e a teoria do jornalismo como forma de conhecimento, estimulando investigações profissionais e a cadêmicas na área, no que Meditsch chamou de

“método Paulo Freire de jornalismo”:

“O desenvolvimento de tal método certamente se apoiaria na filosofia de Freire sobre a educação, em sua teoria do conhecimento e em sua experiência pedagógica, confrontando os conceitos e as técnicas às neces sidades da prática jornalística e as suas particularidades. Requer, portanto, não apenas conhecimento da obra de Freire, mas também domínio da atividade profissional. Tal método se aplicaria tanto à produção do jornalismo , enquanto prática cognitiva dos jornalistas, quanto a sua recepção pelo público, onde a atividade cognitiva se refaz. E, certamente, teria conseqüências importantes também no ensino do jornalismo” (MEDITSCH, 2003, p.14).

A teoria freiriana foi ainda uma das fontes para o desenvolvimento da abordagem Sense-Making, que veremos no Capítulo 3 desta tese.