(...) A emergência de uma “representação coletiva” no sentido de uma relação ou de um conjunto de relações. Quer essas relações apareçam freqüentemente, quer esclareçam outras relações ou representações, constituem, segundo todas as aparências, uma manifestação particular – que pode ser inicial para nós – de um fenômeno verdadeiramente ideológico (DUMONT, 2000 p. 31).
É possível perceber que muitas categorias coexistem nas três propostas conceituais, tais como: autogestão, autonomia, solidariedade, igualdade, democracia e liberdade. Porém, o que diferencia os autores, é a capacidade que esses valores possuem de se confrontarem ou se inserirem na realidade, seja ela revolucionária (Singer), plural (Laville) ou em processo de construção (Gaiger).
Quando comparamos as diferentes propostas conceituais, é possível revelar o que Dumont (2000) chamou de “elementos implícitos da ideologia”. Essas propostas apontam para construções ideológicas comuns, existentes na ordenação e hierarquização de alguns valores presentes nessa dimensão de representação, em relação ao que entendem por “economia” e por “solidária”.
Mesmo os autores propondo concepções que se inserem de formas diversas na realidade social, a centralidade na discussão do papel da “economia” é um dado extremamente revelador nas três propostas conceituais de “economia solidária”.
Segundo aponta Dumont (2000), a economia é resultado de uma construção social, e para entender em que ela consiste e buscar a sua essência, é necessário procurá-la “na relação entre o pensamento econômico e a ideologia global, ou seja, no lugar do econômico na configuração ideológica geral” (Dumont, 2000 p. 38).
58 Se considerarmos a perspectiva econômica como parte da ideologia, não indagaremos de início, se uma perspectiva é falsa ou verdadeira, mas, apenas, como é pensada em relação a outras proposições – interiores ou exteriores ao discurso econômico -, e, particularmente, em relação não aparente com as proposições não econômicas (DUMONT, 2000 p. 39).
Para Dumont (2000), a perspectiva econômica se desenvolveu em um processo de “pulsão ideológica”, que consolidou ao longo da história, uma crença de que a categoria “economia” existiria descolada do tecido social. Será necessário relatar como ocorreu esse processo, para posteriormente resgatar a noção de “economia solidária” e compreender seu processo particular de legitimação.
Dumont (2000) resgata a importância que a “moderna concepção de riqueza” cumpriu na emergência de uma categoria autônoma de riqueza. Os direitos sobre a terra acompanhavam o poder sobre os homens nas sociedades tradicionais. Assim, com a passagem de uma sociedade tradicional, para uma sociedade moderna, a riqueza imobiliária (a terra) deixa de ocupar um papel central, e a riqueza mobiliária (bens móveis e o dinheiro) passa a ser considerada um tipo superior de riqueza, e assim,
(...) o vínculo entre riqueza imobiliária e o poder sobre os homens foi rompido, e a riqueza mobiliária adquiriu plena autonomia. (...) É a partir de então que uma clara distinção pode ser feita entre o que chamamos de “política” e o que denominamos “econômico”. Distinção que as sociedades tradicionais não conheciam (DUMONT, 2000 p.17).
Outro processo importante ocorreu na consolidação de uma moralidade especial nos fenômenos econômicos. Segundo Dumont, uma relação sutil deve ser observada: a dimensão econômica “escapa da moralidade, sem ser contrária à moral num sentido mais amplo (...)” (p. 105). No lugar da moral, entram os “vícios privados”, ou seja, interesses egoístas que serviriam como força motriz das relações sociais e resultariam assim em “benefícios públicos”. A ação econômica seria, por si mesma, orientada para o bem. “No conjunto, a moralidade foi expulsa dos negócios reais dos homens” (DUMONT, 2000 p. 110).
59 No sistema social da moralidade, vemos os sujeitos e agentes interiorizarem a ordem social sob a forma de regras morais, cada sujeito definindo sua conduta indiretamente por referência a toda a sociedade. No sistema econômico, ao contrário, cada sujeito define sua conduta por referência exclusiva ao seu próprio interesse, e a sociedade é somente o mecanismo – ou a „Mão Invisível‟ – pelo qual os interesses se harmonizam (...) (DUMONT, 2000 p. 111).
Assim, o processo que permitiu a crença de que o “econômico” existisse enquanto esfera autônoma em relação às categorias: “político” e “moral”, consolidaram uma transformação profunda nas relações sociais. As relações que se estabeleciam entre homens (sociedade tradicional), foram substituídas por relações entre o homem - no singular - e as coisas (sociedade moderna).
Com base nesta concepção, onde os aspectos econômicos estão descolados do tecido social, podemos discutir agora a noção “economia solidária”, identificando como Paul Singer, Luiz Gaiger e Laville (e França Filho) constroem seus conceitos. Refletiremos qual o papel que a categoria “econômico”, nos termos de Dumont (2000), ocupa no interior das propostas “solidárias”. Percorreremos algumas categorias valorativas presentes em cada uma das concepções, buscando identificar sua importância.
Em Singer, é possível afirmar que as categorias presentes em sua proposta, tais como: posse coletiva, solidariedade, revolução, caráter pedagógico, justiça, cidadania, ajuda aos desfavorecidos e vida melhor, nos informam sobre a tentativa deste autor em inserir valores políticos e morais no centro de sua proposta econômica, tendo como característica principal, a capacidade de superar o modelo econômico vigente, em um processo via “economia solidária”.
Já em Gaiger, podemos listar categorias como: democracia, participação, responsabilidade social, desenvolvimento humano, aspectos solidários, elemento comunitário, satisfações extra-econômicas, coletividade, que nestes termos apresentam uma forma distinta de inserção de valores morais e políticos em sua concepção. Os valores deste autor são acompanhados de ressalvas, reconhecendo os limites que a atual realidade da “economia solidária” possui em realizar na prática seus valores.
60 Por fim, Laville (e França Filho) utilizam categorias em sua proposta, tais como: pluralidade de princípios econômicos, sociabilidade comunitária, economia popular, democratização da economia, solidariedade democrática, solidariedade comunitária, educação, cultura, meio ambiente, atuação política na economia, vínculos sociais. Este autor reconhece a existência de práticas econômicas diversas, onde a “economia solidária” coexistiria com outras práticas. Porém, estes autores defendem com todas as letras o objetivo de inserir valores morais e políticos em sua concepção de “economia solidária”.
É possível identificar em todas as concepções analisadas de “economia solidária”, a prática comum de inserir distintos valores políticos e morais em uma concepção de economia. Essa prática nos informa sobre uma concepção de economia “solidária”, oposta a construção da categoria “economia” no interior das sociedades modernas identificada nos estudos de Dumont (2000) como economia de mercado.
Porém, percebemos que esse processo de distinção não é completo. Identificamos uma categoria valorativa existente na dimensão econômica tradicional, existindo também nas concepções de “economia solidária”, ou seja, a concepção de indivíduo.