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4. Development and evaluation of forecasting methods

4.5. Data analysis

As fotografias antigas permitem por meio de um “dar a ver a cidade”, um novo olhar

sobre parte da história de Porto Alegre. A história do veraneio na Pedra Redonda (ANEXO L), Zona Sul de Porto Alegre, na primeira metade do século passado, se insere no que Ana

Maria Mauad denomina de “abordagens pouco convencionais”. Para a autora, a partir da

necessidade de se problematizar outros temas, faz-se necessário ampliar o universo das fontes, daí o uso da fotografia. Segundo Ana Maria Mauad: “Novos temas passaram a fazer parte do elenco de objetos do historiador, dentre eles a vida privada, o cotidiano, as relações interpessoais”242.

A coleção de fotos aqui analisadas integram o acervo digitalizado da Fototeca Sioma Breitman do Museu Joaquim José Felizardo, o Museu de Porto Alegre. As fotografias selecionadas retratam não só paisagens, mas também personagens, os quais se fazem presente pelas lentes de fotógrafos desconhecidos. São imagens que interagem, possibilitando uma análise mais completa acerca de hábitos de vilegiatura vividos às margens do lago.

É fato que a prática de banhos nas águas do Guaíba na parte sul da cidade possui registros fotográficos que remontam aos anos de 1900, identificado na primeira imagem analisada. Na foto em questão, (Figura 45), vê-se uma família de veranistas da Pedra Redonda, um dos primeiros balneários descobertos pela população. A fotografia indica um lugar recém-descoberto pela população, com cenários ainda pitorescos da Zona Sul. São famílias que, ao herdar grandes levas de terras (muitas delas à beira do rio), utilizavam -nas para o veraneio e descanso. Tempos mais tarde, passaram a residir nas propriedades de verão. A imagem mostra também a natureza delineada pela presença de grandes pedras sobrepostas e uma areia grossa e escura que declina até a beira do rio. Roberto Pellin define assim a Pedra Redonda daqueles tempos:

242

MAUAD, Ana Maria. Na mira do olhar: um exercício de análise da fotografia nas revistas ilustradas cariocas, na primeira metade do século XX. Anais do Museu Paulista, n. serv. v. 13, n. 1, p. 137, jan.-jun. 2005.

É uma praia funda, por ser costa de um morro alto. Tem uma areia grossa, misturada com conchinhas do tamanho de uma unha. Podemos considerar como seus limites a Ponta dos Cachimbos e o Morro do Sabiá. No verão recebe uma brisa agradável da Lagoa dos Patos, a partir das quatro horas quando surgem as ondas que vão se amainar lá pelas sete da noite. Por todos esses predicados e pela sua paisagem natural, a Pedra Redonda foi eleita a melhor praia do Guaíba243.

A indumentária da personagem feminina da foto indica que esta pertence a uma classe privilegiada da sociedade daquele período. Vestindo um longo traje e finas luvas, a jovem senhora posa para as lentes do fotógrafo desconhecido. O chapéu e a sombrinha completam o figurino e indicam os cuidados com a pele e com a saúde. A moda, proveniente da Europa, impõe também que todo o corpo deveria ser coberto para proteger a pele branca dos raios solares (Figura 45). O cenário refletia desta forma, um lugar de descontração, de lazer, de moda e de conversas à beira do Guaíba, permeando uma nova cena social em plena virada do século.

Figura 45 - Família de veranistas da Pedra Redonda/1900.

Fonte: Museu Joaquim José Felizardo/Acervo da Fototeca Siomam Breitman.

Até fins do século passado, os rapazes e moças se cobriam da cabeça aos pés, evitando sair nos horários mais ensolarados, a fim de preservar um tom pálido, macilento, funéreo, sinal de distinção daqueles que não precisavam trabalhar sob o sol. Sombrinhas, chapéus, luvas eram indispensáveis, além de anquinhas, ombreiras, estofos para os seios e as nádegas e espartilhos para a cintura. Algumas moças chegavam a tomar vinagre pela manhã, com o intuito de produzir um efeito esverdeado e musgoso à cútis244.

243

PELLIN, Roberto. Revelando a Tristeza. Porto Alegre: Metrópole, 1979, p. 110.

244

SEVCENKO, Nicolau. História da Vida Privada no Brasil. República: da Belle Époque à Era do Rádio. Porto Alegre: Companhia das Letras, 1998, v. 3, p. 561.

O enquadramento da fotografia em questão é no sentido horizontal, isto é, um estilo bastante utilizado pelos fotógrafos de paisagens. Quanto à direção da foto, o olhar inicia da direita para a esquerda, onde se vê, primeiramente, a família, os elementos centrais da imagem.

Conforme Ana Maria Mauad, “os estudos sobre visualidade afirmam que o observador inicia o

percurso do seu olhar pela imagem da direita para a esquerda, de cima para baixo, numa

trajetória em S”245

. Seguindo o raciocínio de Ana Maria Mauad, a fotografia, neste caso, pode ser usada com a intenção de recuperar os códigos de representações sociais e comportamentos de certa classe social num dado período histórico, pois o caráter de exotismo do balneário, propiciado pela natureza exuberante, também servia para um público que tinha dinheiro e podia gastar em lazer e férias durante alguns meses do ano.

A história de um lugar, contada por meio de fotografias reflete as experiências tanto dos turistas quanto daqueles que trabalhavam no balneário, promovendo a viabilização dos empreendimentos e dos lazeres. Por outro lado, ser uma estação de veraneio significava estar integrada à urbanização da cidade. Assim, as temporadas de férias no local implicaram um estímulo às oportunidades de novos produtos e serviços. Com o advento da Estrada de Ferro do Riacho e dos vapores que percorriam as águas tranquilas do Guaíba, dava-se o deslocamento até o arrabalde. O surgimento de hotéis e restaurantes na região se impunha como componente indispensável ao desenvolvimento do lugar. Dessa forma, os confortos oferecidos conduziam às sociabilidades, as quais incorporavam um novo padrão de comportamento como a sensação de bem-estar adquirida com a mudança de “ares”.

Em torno dos anos 1920, ocorreu a construção de um trapiche na beira da praia (segunda imagem – Figura 46). Patrocinado pela Intendência Municipal, o trapiche facilitava a chegada dos veranistas que vinham de vapor. Ficaram conhecidos, o Guaporé, o Bubi e o Santa Cruz, embarcações que transportavam, pelo Guaíba, famílias até a Pedra Redonda. O movimento atraía não só aos porto-alegrenses, como também estrangeiros, entre eles, argentinos e uruguaios que vinham à procura de diversão no balneário. Conta Roberto Pellin que brasileiros de outros estados também procuravam a Pedra Redonda, entre eles, os cariocas, os quais buscavam nas atrações da Pedra Redonda, recreio e descanso.

245

MAUAD, Ana Maria. Na mira do olhar: um exercício de análise da fotografia nas revistas ilustradas cariocas, na primeira metade do século XX. Anais do Museu Paulista, n. serv. v. 13, n. 1, p. 148, jan.-jun. 2005.

Figura 46 - Trapiche da Pedra Redonda/1920

Fonte: Museu Joaquim José Felizardo/Acervo da Fototeca Sioma Breitman.

O enquadramento da fotografia (Figura 46) se dá no sentido horizontal, porque é uma paisagem, cujo cenário apresenta o trapiche em primeiro plano. A fotografia foi feita de dentro do rio, aproveitando assim, um amplo cenário da beira da praia, com sua natureza ainda bastante preservada. Observa-se que a intenção do fotógrafo era a de salientar a presença do trapiche. Conforme pesquisas já concluídas, é possível afirmar que os muros e o portão que aparecem na fotografia pertenciam à família Pabst, analisada nos próximos capítulos.

Na foto seguinte (Figura 47), identifica-se um grupo de veranistas em pose para as lentes de algum fotógrafo desconhecido. Observa-se, nesta imagem no sentido horizontal, por se tratar também de paisagem, uma visão do balneário da Pedra Redonda. Em primeiro plano,

“salta aos olhos”, um grupo de homens, mulheres e crianças, e, num segundo plano, a

paisagem. São as grandes pedras da beira do rio, marca reconhecida do balneário, as quais

deram nome ao local. “Faz parte da Tristeza e tem este nome porque em sua praia

encontramos três enormes pedras acavaladas, sendo a superior maior e arredondada”246.

Na imagem (Figura 47) observa-se ainda a presença de duas jovens senhoras vestindo roupas típicas dos anos de 1920. Nessa época, a moda feminina já estava livre dos espartilhos do século XIX e por isso as senhoras podiam ousar mais, mostrando as pernas e o colo. Os

246

vestidos eram mais curtos, leves e elegantes, com braços e costas à mostra. O tecido predominante era a seda, o qual facilitava os movimentos. O chapéu era acessório obrigatório e ficou restrito ao uso diurno. O modelo preferido era o “enterrado” até os olhos que só podia ser usado com os cabelos curtíssimos. A imagem deixa a ver ainda que mulher sensual era aquela sem curvas, seios e quadris pequenos e a atenção estava toda voltada aos tornozelos. Já os homens transformaram o terno em sua peça de vestuário por excelência, mesmo à beira do rio em momento de lazer e descontração, usavam o chapéu Panamá, que apesar do nome era fabricado no Equador.

Figura 47 - As pedras redondas que deram origem ao nome do balneário/1920

Fonte: Museu Joaquim José Felizardo/Acervo da Fototeca Sioma Breitman.

A outra imagem aqui analisada mostra, além da bela paisagem, um grupo de

“vilegiaturistas” em momento de descontração à beira do lago. Na imagem (figura 48), em

sentido vertical, se identifica dois grupos: um de rapazes e outro de meninas banhistas. As fotos dos jovens em trajes de banho mostram os corpos sob uma perspectiva histórica em plenos anos trinta do século passado. De um lado, salienta a evolução da moda com a diminuição do tamanho do vestuário. E, de outro, a importância da saúde e do vigor dos corpos. É importante que se diga que, ainda no século XIX, os médicos recomendavam para a boa saúde de seus pacientes, férias em lugares aprazíveis, entre eles, a praia.

Portanto, sobre o vestuário gravado nas imagens, evidencia-se a transformação dos trajes de banho que vão, progressivamente, e sob o efeito da moda, diminuir com o passar dos

anos. Surgem, para os homens, os calções de banho e camisetas de física brancas. Para as mulheres, a ousadia foi maior. Na sensualidade dos contornos, a aparência dos maiôs inteiros que vão do pescoço até os joelhos.

Com o passar dos anos, as roupas passam por mais modificações: o calção masculino que ia da barriga à perna, passa a ser colado ao corpo e para as moças, surge o maiô inteiro, porém, mostram-se as costas, as axilas, e, às vezes, também, as coxas, salientando, sensualmente, as nádegas. Nesse período, tem-se o rompimento da timidez e do recatamento impulsionado pelo advento das roupas mais curtas e provocantes (Figura 48). Surge, assim, uma maior contemplação dos corpos, os quais douram sob os raios solares. O forte calor da cidade nos meses de janeiro e fevereiro convidava os porto-alegrenses para o veraneio nas praias da Orla Sul alterando assim a rotina.

Figura 48 - Veranistas da Pedra Redonda em trajes de banho/1930

Fonte: Acervo da Fototeca Sioma Breitman/Museu Joaquim José Felizardo.

Desta forma, conclui-se que as novas formas de usufruir o tempo livre, associadas ao conforto proporcionado pelos investimentos no local fizeram do balneário da Pedra Redonda um ponto de encontro e de entretenimento importantes na Zona Sul da cidade.