• No results found

Data Acquisition System (DAQ)

ATLAS IBL

6.3 Data Acquisition System (DAQ)

Desde os primórdios da humanidade o homem manifesta grande interesse sobre a questão da religião e espiritualidade, ao longo da história, em diferentes épocas ou culturas. Ambas são importantes aliadas das pessoas que buscam um sentido para a vida. Como veremos adiante, há evidências crescentes de que espiritualidade e religiosidade estão associadas à saúde mental e à recuperação do alcoolismo. Essa questão tem sido tratada por autores sob diversos prismas e, por essa razão, é quase que impossível abordarmos o tema em sua integralidade. O critério para a opção das bases teóricas adotadas foi a importância e significado do

binômio acima mencionado, como fator importante para ajudar na recuperação do alcoolismo, e também pelas afinidades conceituais e filosóficas do pesquisador.

Fazendo um recuo no tempo, mais precisamente no século 19, veremos que havia uma valorização do papel da religião nos tratamentos clínicos, tanto nos Estados Unidos como na Europa. O cenário começa a mudar no início do século 20, com os escritos de Sigmund Freud e G.Stanley Hall. Esses autores acreditavam que “a religião gerava neurose e que teorias psicológicas iriam substituir as religiões como propiciadoras de visão de mundo e fonte de tratamento”. (Koenig, 2007, p.1) Tais atitudes negativas em relação à religião, “não eram baseadas em pesquisas científicas nem em estudos sistemáticos, mas primordialmente nas crenças e opiniões pessoais desses pioneiros” (Ibid., p.1). Consequentemente, subestimaram e reprovaram crenças religiosas como um campo de tratamento à saúde mental. Alguns textos fortemente antirreligiosos foram escritos nas décadas de 1980 e 1990 (Ellis, 1988; Watters, 1992)1. Entretanto, a ciência apenas começa a caminhar na investigação dos fenômenos religiosos. Em meados de 1960, surge o primeiro Journal of Religion and Health, que começa a dar mais validade ao fenômeno religioso.

Na década de 1990 e adentrando o século 21, começam a surgir importantes e sérios pesquisadores com trabalhos científicos sobre religião e espiritualidade em vários países, como Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Irlanda, Espanha, Suíça, Alemanha, entre outros. (Koenig, 2007)

Começou-se a observar que a espiritualidade se edifica nos contextos socioculturais e históricos, conferindo disposição e outorgando significado à vida, ou seja, emprestando valores aos comportamentos, experiências e vivências humanas. A interligação entre a religião e espiritualidade e a saúde,

“remonta aos primórdios da história, em que os poderes da ‘cura’ estavam nas mãos dos que lidavam com o espírito (sacerdotes, xamãs, etc), a quem era reconhecido o saber para tratar dos males do corpo”. (Pinto e Pais-Ribeiro, 2007, p. 47)

_____________

1 Ellis, A. Is religiosity pathological? Free Inquiry 18:27-32, 1988.

Watters, W. Daedly Doctrine. Health, Illness and Christian God-Talk. Buffalo, New York: Prometheus Books, 1992.

Nota-se um aumento significativo de estudos e uma importante tendência em explorar, cada vez mais, os fenômenos sobre a religião e a espiritualidade, convalidando essas pesquisas no âmbito da ciência. O mecanismo pelo qual e/ou por meio do qual a religião e a espiritualidade afetam a saúde, no entanto, ainda não está bem esclarecido. Duas são as hipóteses explicativas: a) relação mediada (vários mediadores psicológicos/sociais/fisiológicos explicariam os efeitos encontrados); b) relação direta (os efeitos podem ser encontrados na própria natureza da religião e espiritualidade influenciando a saúde) (Hill e Pargament, 2003).

O espaço a ser dado para a religião e a espiritualidade se mostra com um alto potencial no campo clínico, permitindo avanços e caminhos sólidos para novas pesquisas e discussões.

Como nos lembra (Stanziani, 2002), o final do século 20 e o início do 21 vêm, particularmente, marcados por um paradoxo, em especial na sociedade ocidental. Por um lado, o sinal permanente do desenvolvimento tecnocientífico nos arrebatando, quase que diariamente, através da mídia, fortalece quase que ininterruptamente os vieses da ciência como emissária de salvação e do progredir da raça humana. De outro lado, emerge uma onda de religiosidade e espiritualidade que, entre outras prerrogativas, pode, talvez, representar compensação de um efeito sombrio que, ainda, permanece à margem deste mesmo desenvolvimento.

O desenvolvimento das ciências da saúde levou a uma prática de cuidados entendidos como saúde dessacralizada, e a dimensão espiritual não mais pode ser considerada nesse próprio âmbito. A espiritualidade foi rechaçada dentro do discurso positivista, como pôde ser verificado no último século, decorrente do avanço tecnológico, no qual a própria ciência ainda não encontrou resposta para questão do sentido da vida. (Pinto e Pais-Ribeiro, 2007)

Peres et. al. (2007), aludem estudos realizados por Rainville, sobre estados meditativos que revelaram significativa diminuição da atividade no tálamo, no córtex somatossensorial secundário, na ínsula e no córtex cingulado quando comparado com estado não meditativo; Azari fez outro estudo similar sobre as reciprocidades neurais da experiência religiosa investigada como um fenômeno de atribuição cognitiva. Durante a prece religiosa, notou-se aumento da atividade do circuito frontoparietal, composto pelo córtex parietal frontal e medial pré-frontal e dorsolateral. Essas áreas são subjacentes à sustentação reflexiva do pensamento,

portanto, a experiência religiosa pode ser um processo cognitivo e não apenas uma vivência emocional imediata. Há ainda experimentos que revelam “a evidência de que certas experiências de cunho religioso podem ser simuladas em laboratórios, induzidas por campos eletromagnéticos”. (Marino, 2005, p.92) Esses estudos evidenciam que a consciência religiosa e espiritual tem de certa forma, ligação com a natureza neurofisiológica humana como qualquer outro processo cognitivo e perceptivo e, consequentemente, nas estruturas cerebrais neurofisiológicas frutifica o aparecimento de sensações, cognições, percepções ligadas às experiências e vivências religiosas e espirituais.

Podemos observar nos exemplos acima, embora ainda com poucos resultados concretos, uma metodologia que busca evidenciar os efeitos do fenômeno em questão. Há uma pertinência sendo construída nessa relação, e o que desponta são efeitos positivos que começam a surgir em trabalhos realizados com seriedade.

É possível dizer que essa pluralidade trazida pela contextualização da espiritualidade pode representar um patamar para a diferença. Essa mesma diferença se faz presente para a mudança e instalação do que está por vir, ou seja, o novo. O construto espiritualidade tem um valor intrínseco que oferece referencial de significados para o enfrentamento da vida. A inclusão da espiritualidade no âmbito da ciência, no momento atual, no entanto, demanda flexibilidade e atenção para que não venha se perder nos tons de preconceito, erroneamente empregado por céticos positivistas.

O que pretendemos esboçar nessa diferença são as formas de relacionamentos, de envolvimentos e significados dados, sobretudo, nos modos de vivência desse fenômeno. Penso que a forma de perceber e sentir o fenômeno amplia a diferença pessoal e coletiva do relacionamento religioso (não vendo nesse uma participação institucional, e sim, o que transcende e eleva), de forma que essa pluralidade de sentimentos possa se manifestar abertamente na participação individual e social. Vale ressaltar, contudo, que o principal objetivo de nossa discussão é procurar identificar o modo como a espiritualidade é vivenciada, considerando também que pode haver uma sobreposição entre religiosidade e espiritualidade (Cook, 2004). Para os objetivos do presente estudo é necessário apresentar uma noção desses conceitos e contextualizá-los conforme as discussões de alguns pesquisadores sobre o assunto.

Consideramos relevante e primordial, em última instância, verificar a relação e o envolvimento da espiritualidade como forma de conduta e expressão diária da vida de pessoas que se envolveram com o vício do álcool e analisar a forma de seu convívio com esse fenômeno. Está fora dos limites deste estudo aprofundar o fenômeno em si, já que fugiria da proposta deste trabalho.

O sentido de espiritualidade aqui empregado, conforme mencionamos na introdução deste trabalho é uma emancipação do ser humano diante de seu encontro consigo mesmo, uma experiência de sentido próprio e que contém um significado de vida maior. Reiteramos a afirmação de Carvalho (1992, p.4), ao salientar que a espiritualidade seria “a maneira como um determinado indivíduo internaliza, desenvolve de modo sempre idiossincrático, uma particular via e modelo de união”.

“Assim, espiritualidade já implica uma dimensão de subjetividade trabalhada, de experiência que transcende a norma ou a expectativa formal da comunidade. Enfim, pode-se ser religioso, no sentido de assiduidade de participação, sem que se tenha uma espiritualidade muito desenvolvida”. (Carvalho, 1992, p.4)

Observamos que não apenas uma participação religiosa, no sentido institucional, pode direcionar o sujeito a um envolvimento espiritual, mas antes mesmo a sua própria busca interna, elevando, assim, sua dimensão a níveis mais altos e transcendentes; com uma ligação verdadeira do seu mundo interno com o externo. Para Cassirer (2005), a própria ideia de homem está intimamente cingida a uma noção de religião.

[...] “o homem é a criatura que está em constante busca de si mesmo – uma criatura que, em todos os momentos de sua existência, deve examinar e escrutinar as condições de sua existência. Nesse escrutínio, nessa atitude crítica para com a vida humana, consiste o real valor da vida humana”. (Cassirer, 2005, p.17)

Indubitavelmente, os conceitos de religião e espiritualidade têm uma longa história de controvérsias, e não há explicação aceita por todos os estudiosos. A maioria dos autores usa o termo proposto por Moreira-Almeida e Koenig (2006), concordando que os mesmos se refiram ao ‘sagrado’. Argumentam que há necessidade de padronização dessas definições e, em análise dos termos, ou seja,

levam em conta as diferentes características que os diferenciam, sendo conveniente selecionar esses conceitos para fins de pesquisas. Koenig, Larson e Larson (2001) definem os termos como:

“Espiritualidade: seria a busca pessoal para o entendimento de respostas sobre o significado da vida e o relacionamento com o sagrado e/ou transcendente, que podem (ou não) conduzir ao desenvolvimento de rituais religiosos e a formação de comunidades”. “Religião: seria um sistema organizado de crenças e práticas, rituais e símbolos projetados para: a) auxiliar a proximidade do indivíduo com o sagrado e/ou transcendente (Deus, força superior ou verdade/realidade fundamental). b) Promover entendimento e relacionamento de responsabilidade para com as pessoas da comunidade”. (Koenig, Larson e Larson, 2001, p. 18)

O conceito que Koenig, Larson e Larson (2001), nos oferecem assemelha-se a um espelho diante do qual se realiza a busca do ser humano pelo entendimento do mistério da vida, ou seja, pelo seu próprio entender-se como ser. Esse mesmo ser que tem suas experiências enaltecidas, percebidas e reconhecidas, ou não. Essa força que o homem coloca no entender a si mesmo é que possibilitará sua renovação e participação mais verdadeira com seus sentimentos. No entanto, o medo e o pavor também estão presentes, participam igualmente, lado a lado desse processo, e levam o homem a se deparar, na mesma medida, com o pavor da tamanha força dessa manifestação. Como nos mostra Eliade (2001), que essas experiências são instigadas pela revelação do poder divino e que

[...]“o sentimento de pavor diante do sagrado, diante desse mysterium tremendum, dessa majestas que exala uma superioridade esmagadora de poder; se deparando com o temor religioso diante do mysterium fascinans, onde se estende a primorosa plenitude do ser”. (Elíade, 2001, p.16)

Hill et al. (2000) mencionam estudos realizados por Pargament, Zinnbauer et al., Spilka &Mclntosh e Roof, no início dos anos 90, em que os pesquisadores tentam estabelecer critérios sobre religião e espiritualidade. Para eles a espiritualidade se tornou diferenciada da religião (ou religiosidade), em razão de alguns elementos formalmente incluídos na religião. Consideram que,

historicamente, a religião era uma extensa arquitetura que incluía tanto elemento individual como institucional, e agora é vista como uma pequena vinculação que tem mais a ver com uma instituição à parte, sozinha. Espiritualidade aparece como a melhor descrição para a experiência individual e é identificada como transcendência pessoal, sensitividade suprapessoal e significação. O termo espiritual é de modo crescente reservado a uma elevada função da face da vida. Religião, em contraste, é agora mais atrelada a uma estrutura rígida e formal, em que quase sempre é percebida como restringindo o potencial humano. Entretanto, esses estudos mostram-nos que a prática religiosa institucional não é aquela ligada à espiritualidade como experiência pessoal subjetiva de cada pessoa. Faz-se necessário separar claramente estes dois conceitos, porque existem pessoas que não mantêm nenhum tipo de ligação a nenhuma religião institucional, porém estão envolvidas em algum tipo de experiência ou atividade espiritual.

[...] “the social dimension of religion includes not only the mass of persons but also the outstanding individuals through whose features glimmer old and new thoughts of the heaven toward which they aspire”. ( Smart, 2002, p.21)2

O importante nessa dimensão é que podemos emprestar uma descrição balanceada dos movimentos que têm animado o espírito humano e que têm um espaço na sociedade, sem negar outras ideias e práticas, sejam elas religiosas ou espirituais. Naturalmente uma forma particular de ver o mundo está inscrita no individual de cada um de nós e, portanto, seguimos nossa própria maneira de ir descobrindo e integrando nossas experiências.

Para Koenig (2008), espiritualidade inclui saúde mental positiva e valores humanos como definição; como também uma busca do sagrado e estado psicológico positivo: propósito e significado na vida, ligação com o outro (suporte social), estado de paz, harmonia e bem-estar. Entretanto, há muitas pessoas com “um profundo interesse espiritual que não pertencem a nenhum movimento religioso formal e, no entanto, exprimem significado na união com a natureza ou nas relações _____________

2 [...]”a dimensão social da religião inclui não somente um grupo de pessoas dispersas e anônimas

mas também, a projeção individual através dos traços de velhas e novas noções de pensamentos do firmamento em direção ao que se aspira.” Smart, N. The World’s Religions. Cambridge

com outras pessoas” (Smart, 2002, p.12).

O homem sempre teve a intenção de buscar uma maneira de entender a si próprio e ao mundo, nas esferas do religioso, e obter com isso explicações sobre sua existência e seus sentimentos. Ao buscar uma explicação, não importa qual seja, deparou-se numa vertente contemplativa,

[...] “preservava a crença naquilo que estava fora do cotidiano e das coisas comuns nas quais se expressava uma ordem sagrada que dava sentido à vida, aos lugares e a sua concepção de mundo”. (Marchi, 2005, p.36)

Apesar de as definições serem diferentes, a essência continua sendo a mesma para esses autores. Cook (2004) refere-se a trabalhos dos seguintes pesquisadores que conceituam a espiritualidade: Booth para o qual espiritualidade é definida como um ser positivo e criativo em todas as áreas da vida humana; para Mercadante, seria o suporte protetor das estruturas conceituais e religiosas, e para Parker et al., seria o sentido em ser no universo.

O termo religião e espiritualidade estão intrinsecamente ligados, o que determina sua internalização e suas raízes de significação atribuídas na relação estabelecida pelos indivíduos. Esses fenômenos podem ser vistos como sinônimos, ou de forma intercambiável, para facilitar a leitura deste estudo, embora possamos verificar uma ampla variedade de definições relacionadas ao termo na literatura nacional e internacional. “O termo espiritualidade é complexo, por isso, nenhuma parte significativa do campo de sua definição deveria ser excluída de sua classificação” (Cook, 2004, p.541), e mais ainda, “nós também precisamos ser suscetíveis na maneira em que a tradição religiosa evolui e se configura” (Smart, 2002, p.26). No entanto, a espiritualidade está fortemente ligada a uma discussão que se trava no âmago da filosofia existencial, emergindo daí seu significado, liberdade e isolamento e a busca de significado e propósito sendo inseridos como aspectos existenciais da espiritualidade. (Fawcett e Noble, 2007)

A título de ilustração, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM - IV) reconhece e separa problemas entre religião e espiritualidade. A primeira denota um sentido mais estrito, é co-ligada à religião institucional, e a

segunda denota um sentido, conotação individual ou subjetiva de experiência do sagrado. Essa diferenciação se deve a possíveis mudanças relacionadas às transformações surgidas na cultura ocidental nesses últimos séculos.

Destacamos aqui vários aspectos da espiritualidade encontrados na literatura nacional e internacional, que foram descritos em suas formas múltiplas, para não nos restringirmos a uma posição única e estreita. A dimensão da espiritualidade se faz importante na existência do ser humano como fator de ligação pessoal interno como também o é o mundo da natureza que nos cerca. Podemos referir que a espiritualidade pode nos conduzir a um enfrentamento possível em situações tanto de doenças físicas como mentais e também pode ser percebida como um fator de resiliência nas vicissitudes da vida e como apoio na recuperação do alcoolismo.

Optamos, nesta dissertação, pelo termo espiritualidade por abranger um comportamento mais livre e diversificado e não submetido a uma religião institucionalizada. No capítulo a seguir, iremos refletir sobre o papel da espiritualidade no contexto da psicologia analítica.