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A realidade é complexa. Certamente já ouvimos essa frase com bastante frequência, mas o que nos diz hoje tal afirmação? De acordo com Jorge Albuquerque Vieira (2006) nosso século emergiu com o retorno do problema da complexidade, tema esse que foi muito discutido pelos antigos filósofos e presente na construção do paradigma newtoniano, mas que foi aos poucos sendo abandonado em prol do “mito da simplicidade”; uma regra metodológica que aconselhava a divisão do todo em partes mais simples para, então, se chegar ao complexo entendendo que a natureza podia ser “resumida” a algumas leis. Mas sabemos, é claro, que a natureza não é simples, a tal ponto que a própria ciência, ancorada no método científico, está constantemente sendo revista e em contínuo processo de redescobertas. Como consequência desse retorno do problema da complexidade, percebe-se cada vez mais a necessidade de uma abordagem transdisciplinar do conhecimento

Para o filósofo francês Edgar Morin (2008) o complexo e o global são dois importantes eixos de análise. A interligação entre os dois eixos torna-se evidente quando nos deparamos com problemas enfrentados pela humanidade na contemporaneidade: desigualdades sociais e econômicas, aquecimento global, crises econômicas, crises políticas, só para citar alguns, são problemas essenciais e de escopo global e que de maneira alguma são parceláveis e são, não raro, indiferentes às nossas especializações.

É importante destacar que a crítica de Morin incide diretamente sobre um tipo de pensamento marcado, por um lado, pela histórica divisão entre as ciências humanas e

ciências exatas e, por outro, pela hiperespecialização, que ele mesmo define como

“especialização que se fecha em si mesma sem permitir sua integração em uma problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto do qual ela considera apenas um aspecto ou uma parte” (MORIN, 2008)

O modelo geral de educação ocidental parece ter sido marcado de forma indelével pelas duas dimensões acima. Mesmo na Idade Média, quando surgiram as primeiras Universidades, o estudo do Trivium e Quadrivium pautava-se na divisão entre o estudo da mente e o estudo da matéria, sendo essa talvez uma primeira forma de dividir ciências humanas (estudo da mente) e ciências exatas e biológicas (estudo da matéria). O primeiro aspecto alvo da crítica de Morin, a divisão entre humanidades e ciências exatas, já vem

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sendo discutido desde, pelo menos 1959 quando C. P. Snow (apud KNIGTH, 2004) proferiu a palestra The two cultures and Scientific Revolution onde o autor denunciava a existência de uma linha que dividia os cientistas: de um lado estava o mundo previsível e lógico, baseado no experimento desapaixonado e matemático; do outro, um mundo frequentado por aqueles treinados nas humanidades, na esfera da retórica e da imaginação, ou algo neste espectro, bem como nos relacionamentos, intuições e sabedoria, que permeava a literatura e a pintura.

Essa deflagrada crise no pensamento educacional moderno, repetido e reproduzido em todos os níveis educacionais à exaustão, é, para Morin, parte fundamental do problema da carência de uma sensibilidade em relação a ideia de complexidade. O exemplo utilizado para ilustrar essa realidade é a atuação de um profissional da Economia que quando focado apenas nas quantificações e modelagens matemáticas de um dado problema, pode perder de vista a complexidade de tais situações onde necessidades e paixões humanas também têm um importante papel.

Assim, diante de uma realidade complexa, é necessário olhar de diversos ângulos para melhor enxergá-la, sendo para isso de fundamental importância a união dos saberes, a união das áreas do conhecimento. Mas antes de pensarmos sobre como trabalhar de forma transdisciplinar, é importante nos perguntarmos: até que ponto é, de fato, possível conhecer a realidade?

Para responder a essa pergunta, Jorge Albuquerque Vieira nos apresenta a ideia de

Umwelt, termo proposto pelo biólogo estoniano Jakob von Uexkull no início do século XX

para designar a forma como uma determinada espécie interage com seu ambiente. Utilizando a metáfora de Vieira, o Umwelt seria como uma bolha própria de cada espécie, um intermediário entre o ser vivo e a realidade que o cerca. “Cada espécie viva vive num mundo particular dela, dimensionado pela sua história contida e, portanto, elabora a realidade de uma certa maneira que pode ser bastante diferente da maneira como outras espécies elaboram.” (VIEIRA, 2009). Isso significa dizer que a realidade percebida pelo cachorro não é a mesma realidade percebida pelo gato, e que a realidade do cavalo não é a mesma do ser humano.

Porém, como não é nosso objetivo pensar a realidade a partir da zoologia, vejamos como os homens lidam com a realidade e como lidam com seu Umwelt.

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acesso à realidade em si, mas podemos representá-la, sendo então a arte e a ciência duas formas de conhecimento na medida em que são duas formas de representação do real. Tanto cientistas quanto artistas lidam com o real, porém a partir de perspectivas distintas, de acordo com Vieira; a partir de hipóteses gnosiológicas diferentes.

A hipótese gnosiológica assumida pela maioria dos cientistas é o objetivismo realista

crítico, ancorada na crença em uma realidade externa e independente de nossas

possibilidades de conhecimento. Através da observação e do método científico a ciência busca alcançar essa realidade externa, sendo a crítica, exercida pelos pares e pelo próprio método, uma garantia de que tal percepção do real é plausível. Se um cientista afirma, por exemplo, que todo corpo quando lançado tende naturalmente a cair e se, além dele, muitos outros têm essa mesma percepção entende-se então que esse é um dado real. A ciência é, portanto, uma tentativa de ultrapassar a barreira do Umwelt.

Já a arte não busca, primordialmente, saber o que é o real, mas o que pode ser real, isto é, a arte explora as possibilidades do real. Mas de que nos serviria esta exploração de possibilidades? Em uma palestra de Vieira disponível na internet2 ele nos oferece um exemplo bastante esclarecedor quanto à importância dessa exploração. Ele conta que um grupo de cientistas pesquisando sobre como seria o movimento do corpo em um mundo sem gravidade, convidou, para lhes demonstrar essa possibilidade, uma bailarina; alguém cujo trabalho é vencer a gravidade ou se apropriar dela para criar novas formas de se mover no espaço. A bailarina, como artista, lida com possibilidades do real, com a possibilidade de um mundo sem a resistência da gravidade, com novas possibilidades de movimento. Por isso, como ressalta Vieira nessa mesma palestra, se um dia nos depararmos vivendo em um mundo completamente novo, um mundo sem gravidade por exemplo, talvez sejam os artistas, especialmente os bailarinos, os que melhor e mais rápido se adaptem ao novo padrão de existência.

A arte e a ciência são um exemplo do fato de que o Umwelt humano já deixou de ser apenas biológico, isto é, o conhecimento da nossa espécie não se limita às nossas possibilidades físicas. Graças à ciência podemos enxergar muito mais do que nossos olhos permitiriam, através de telescópios, microscópios e uma infinidade de aparelhos e através da arte podemos imaginar possibilidades de realidade que não existem de fato, mas que podem vir a existir (a ficção científica é um exemplo evidente disso) ou podem, de uma

2 TaoIDC. Sobre Arte e Ciência – Jorge Albuquerque Vieira. Disponível em: <

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forma distinta da ciência, desvelar aspectos da própria realidade existente.

Um exemplo interessante de como a arte trabalha com possibilidades do real está na famosa peça de rádio teatro de Orson Welles transmitida no dia 30 de outubro de 1938 e que desencadeou o pânico nos ouvintes que acreditavam se tratar de uma transmissão de rádio relatando a notícia de que extraterrestres haviam, de fato, invadido o planeta Terra. A transmissão, no entanto, fazia parte de uma série de adaptações radiofônicas organizadas por Orson Welles e que naquele dia fazia a leitura de trechos da obra Guerra

dos mundos de H. G. Wells. Nem todos os ouvintes haviam escutado a introdução do

programa e ao sintonizarem a rádio no meio da transmissão, supuseram tratar-se de uma notícia real. O que esse fato demonstra é que, através da imaginação desencadeada pelo texto ficcional, é possível acreditar em uma realidade que não é acessível aos nossos sentidos, já que nunca os seres humanos tiveram, comprovadamente, um contato real com qualquer tipo de vida extraterrestre. Assim, a arte, nesse caso a radionovela inspirada na literatura, é uma forma de ultrapassar nosso Umwelt criando uma possibilidade do real. Isto sem mencionar a influência das imagens na nossa concepção de realidade, o real é aquilo que vemos de fato, ou aquilo que nos foi representado visualmente? O próprio caso dos extraterrestres exemplifica isso: por que quando pensamos em ETs pensamos em seres com uma pele animalesca, uma cabeça gigantesca e olhos assustadores? Muitas vezes realidade e representação se confundem. Apenas a título de exemplo, vale mencionar ainda que essa obra de Wells foi recentemente adaptada para o cinema em um filme de Steven Spielberg, a fotografia do filme por sua vez, parece ser fortemente influenciada nas obras do artista Henrique Alvim Correa que ilustrou a edição belga, em 1906, de A guerra

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Figura 4. Alvim Correa. Os marcianos atacam, 1906.

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Essa relação entre realidade e ficção não se encerra em si mesma, mas aponta para a capacidade humana de ultrapassar o Umwelt por meio da representação. De acordo com Vieira (2006) aí reside a principal característica a unir arte e ciência: os atos de criação. Não só a literatura lança mão da ficção mas também a ciência, pois como falar da realidade micro e macro, às quais não temos acesso por meio dos sentidos? Para isso a ciência também cria suas ficções, denominadas por ele “ficções eficientes”, são exemplos disso o centro de gravidade, a máquina térmica de Ludwig von Boltzmann e, acrescento, o próprio átomo.

Os atos de criação, tanto em arte quanto em ciência, exigem daquele que cria a capacidade de imaginar novas possibilidade de realidade. A esse respeito a artista Fayga Ostrower (1998, p.25-26) nos conta sobre a proposta que recebeu de um professor de astrofísica, depois de o ter acompanhado em uma visita ao museu e ter lhe apresentado as obras de alguns impressionistas:

─ Quero lhe fazer um convite. Se algum dia você quiser deixar de ser artista, venha trabalhar comigo no Instituto de Astrofísica.

Tomada de surpresa, comecei a rir.

─ Mas, professor, eu [Fayga Ostrower] não lhe serviria para nada. Nem sei ler uma simples equação matemática.

─ Isto não tem importância alguma ─ respondeu o professor; equações se aprendem, é uma técnica apenas. Mas a visão especial que você foi capaz de expor para mim, ao comentar a estrutura das obras impressionistas e as transformações no Cubismo contem pensamentos bem interessantes. De fato, aproximam-se de certas conjeturas que nós estamos formulando para tentar explicar certos fenômenos no universo e, talvez, a própria origem do universo. O que necessitamos na pesquisa é exatamente disto: a mente aberta para novas possibilidades, a imaginação e a capacidade de relacionar dados de maneira diferente, intuindo contextos globais em que tais dados poderiam se encaixar em uma nova visão da realidade. Naturalmente, depois tudo necessita de repetidas verificações. Mas pense nisto; estou falando sério.

Eu me senti extremamente emocionada.

Esse episódio reforça a ideia de que a arte não é um luxo dos sentidos, mas possui relações com a nossa realidade e com toda a complexidade que dela advém, sendo ela também uma forma de conhecimento e um meio pelo qual exploramos e investigamos o mundo. Assim, toda descoberta científica é também uma descoberta artística.

43 “A questão real é que a arte é forma de conhecimento e todo conhecimento é função vital, todo conhecimento garante vida e complexidade. Desvalorizar o artístico é matar, em altos níveis de complexidade, nossa Humanidade. Insistimos aqui: a Arte é o tipo de conhecimento que explora as possibilidades do real. Não nos basta acreditar em uma realidade, temos que aprender os caminhos complexos para tentar atingi-la, e temos que fazer isso para sobreviver, não só em corpo, mas nos signos que já somos capazes de produzir e extrasomatizar, além das necessidades biológicas.”

Jorge de Albuquerque Vieira, 2006, p.83

“Não se há de pensar, talvez, que os mundos da imaginação sejam fictícios ou menos verdadeiros do que os mundos da razão, do que, digamos, a realidade lógica matemática. Mundos imaginativos, sim, mas nunca apenas fantasias ou meras ilusões. Ao contrário, a imaginação poética é a capacidade de condensar o essencial na experiência, levando aos níveis mais interiorizados de compreensão. Com ela, a arte penetra no real ser das coisas talvez mais do que qualquer tipo de racionalização o pudesse fazer.”

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O descobrimento do átomo

Alguns anos se passaram desde a última vez que estive na casa da minha família na Trácia. De lá me restaram poucos afetos e o sentimento de não pertencimento que me levaria a vagar de chão em chão. Desde que deixei a casa depois do falecimento do meu pai, minha mãe certamente vivia mais feliz ali. Reinando soberana sobre a vasta propriedade herdada, ela havia ordenado aos servos que preparassem um banquete em minha homenagem, embora ambos soubéssemos que entre nós não havia nada o que se celebrar. O tumulto na casa gerado pelos preparativos me incomodava muito, mas o sol e o calor do lado de fora impediam que naquele momento eu fugisse para as plantações de trigo e por isso decidi repousar na varanda, tentando pegar no sono enquanto pensava na forma mais rápida de contar os losangos do teto. Mas fui interrompido pelo cheiro do pão que uma serva levava para o cômodo de cima.

Aquele cheiro bom despertou minha fome, mas não quis seguir a serva em busca do alimento. Logo a fome e o cheiro passariam. Mas não foi o que aconteceu; o cheiro daquele pão ocupou o pátio inteiro afetando também todos os meus outros sentidos. Logo eu não somente cheirava o pão, eu via, tocava e sentia em minha boca aquele gosto inexistente, o gosto do cheiro. Eu tocava o cheiro, eu o enxergava. Seria isso possível? O

45 que trazia aquele cheiro até mim quando o pão, já há muito, ia longe da minha vista? O que trazia o calor ao meu corpo se o sol, era sabido, estava a uma incalculável distância de mim? Comecei a ocupar-me dessas questões, sem desgrudar ainda os olhos do teto. Pressenti que aqueles losangos, que àquela altura contavam 48, poderiam trazer alguma resposta.

De repente, talvez por um breve reajuste dos olhos, percebi que aqueles pequenos losangos eram todos um só. Como que por uma vertigem eu já não mais via os 48 losangos mas apenas um, um grande losango composto por todas aquelas pequenas partes que eu contava uma a uma. Naquele momento percebi o mistério do mundo. O mundo todo era feito de várias partes. Não de várias coisas simplesmente, mas das várias partes das várias coisas. Coisas como o pão, como o calor, como o teto daquele pátio.

Subi apressadamente em busca do pão e o comi admirando suas migalhas; mas não eram as migalhas aquilo que constitua o mundo, era o que estava dentro das migalhas e o que estava dentro desse dentro. Algo invisível ainda, mas que existia materialmente a despeito dos nossos parcos sentidos. Existia para mim e eu mal podia esperar para encontrá-lo em todas as outras coisas.

47 Complexidade revelada na literatura

Partindo do pressuposto de que a arte é uma forma de conhecimento e um modo de lidar com o real, passamos agora a pensar em como ela pode contribuir no desvelar da complexidade humana. Vejamos, para isso, alguns exemplos advindos da literatura, a qual de acordo com Morin (2008, p.43) “(...) nos leva diretamente ao caráter mais original da condição humana” Em relação ao romance, diz ele (2008, p.44)

O romance é mais que um romance. Sabemos que o romance, a partir do século XIX, tornou-se prenhe de toda a complexidade da vida dos indivíduos, até da mais banal das vidas. Ele demonstra que o ser mais insignificante tem várias vidas, desempenha diversos papéis, vive uma existência em parte de fantasias, em parte de ações. Dostoievski demonstrou vivamente a complexidade das relações do sujeito com o outro, as instabilidades do “eu”.

Dostoievski, célebre escritor russo do século XIX, é de fato um excelente exemplo de autor que consegue captar “as instabilidades do ‘eu’”. Em uma de suas obras célebres, o romance Crime e Castigo, ele nos leva fundo na mente, sentimentos e motivações de um assassino. Afinal, embora esse seja um crime horrendo, o assassino não deixa de ser homem e portanto nada seria tão simplista como reduzir a análise do caso ao julgamento de que “ele é um monstro e pronto”. A literatura, enquanto arte do discurso, sempre parte do pressuposto de que nada é tão simples quanto parece, todo ser humano é mais complexo. De acordo com escritor checo Milan Kundera (2009, p.24):

O espírito do romance é o espírito da complexidade. Cada romance diz ao leitor: “As coisas são mais complicadas do que você pensa”. Essa é a eterna verdade do romance que, entretanto, é ouvida cada vez menos no alarido das respostas simples e rápidas que precedem a questão e a excluem.

A trama principal de Crime e Castigo é uma trama relativamente simples: um jovem comete um crime por dinheiro e por convicções ideológicas, se arrepende, porém, e oscila entre a culpa e o medo da punição. Decide, então, confessar e se entregar à polícia e é, assim, condenado a cumprir pena pelo crime cometido. Tal enredo porém se desenrola em mais de 500 páginas de modo que a narrativa nos permite ir muito além dos fatos da trama e nos dá acesso à vida interior do personagem em todas suas angústias, medos, dilemas, amores e esperanças. É muito diferente de uma abordagem jornalística, por exemplo, onde em uma folha de jornal lemos os principais detalhes de um crime e isso já nos basta. A

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abordagem jornalística tende a ser sucinta e factual e embora seja questionável a objetividade e imparcialidade do texto jornalístico, é claro perceber o quanto ela se distancia de uma narrativa literária.

No texto abaixo podemos ler o começo de uma notícia, publicada na internet na página do jornal Folha de São Paulo sobre um rapaz que, por ter cometido um crime, foi amarrado a um poste e agredido por alguns civis. A notícia desse linchamento, divulgada no início de fevereiro de 2014, ganhou notoriedade nacional e em 18 de fevereiro desse mesmo ano, o rapaz comete outro delito e temos, então, mais uma notícia publicada sobre esse “personagem”:

A história do adolescente que foi preso pelo pescoço a um poste, com uma tranca de bicicleta, há três semanas na zona sul carioca, ganhou um novo capítulo. Na última terça-feira (18), o menor voltou a uma delegacia, desta vez a DEAT (Delegacia Especial de Apoio ao Turista), detido sob suspeita de ter assaltado um turista em Copacabana. [...]

Ainda que a notícia se apresente, de certo modo, em forma narrativa: “a história do adolescente [...] ganhou um novo capítulo”, ela não pode ir muito além de fatos e simplificações da notícia em favor da concisão e pretensa objetividade.

A literatura, por outro lado, não está presa a regras de economia de texto e objetividade, ela pode ir além. Pode nos ajudar, por exemplo, a enxergar pessoas que andam pelas ruas invisíveis, como a personagem Macabéa do romance A hora da estrela da escritora brasileira Clarice Lispector (1995, p. 26).

Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste.

Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos.

[...] Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam.

Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?

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