Muitos são os métodos utilizados para a coleta de dados em pesquisas qualitativas. O uso de entrevistas é uma das opções mais frequentes, devendo ser reconhecido como um método de qualidade para a coleta de dados, seguindo os cuidados necessários.
Duarte (2004) afirma que, embora não haja obrigatoriedade do uso de entrevistas em pesquisa qualitativa, ela ainda é muito requisitada. Parece que a realização da entrevista é fácil, simples e acessível a todo pesquisador, principalmente aos principiantes. No entanto, como afirmou Duarte (2004), este método requer
189 planejamento, preparo teórico e habilidade técnica no momento da coleta, da transcrição e da análise dos dados.
A sua utilização requer planejamento prévio e manutenção do componente ético, desde a escolha do participante, do entrevistador, do local, do modo ou mesmo do momento para sua realização (BICUDO, 2006).
Deve-se orientar os entrevistados sobre o objetivo das informações coletadas, questionar acerca do direito ao sigilo profissional, e comentar sobre possíveis interrupções da entrevista, caso necessário. Somente ao término das orientações e após o livre consentimento e autorização expressa é que as entrevistas devem ser iniciadas (FALCÃO; TÉNIES, 2000).
Existem três tipos de entrevistas: estruturada, semiestruturada e não estruturada. Compreende-se por entrevista estruturada aquela que contem perguntas fechadas, semelhantes a formulários, sem apresentar flexibilidade; a semiestruturada é a direcionada por um prévio roteiro composto geralmente por questões abertas; não
estruturada é aquela que oferece ampla liberdade na formulação de perguntas e na intervenção da fala do entrevistado.
Sobre o instrumento utilizado, optou-se pela entrevista como forma de conhecer a perspectiva de outrem a respeito de determinado assunto. É realizada a inquisição direta com o respondente. O modelo da entrevista é semiestruturado, guiado por um roteiro de questões.
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os gestores dos Sistemas Integrados de Bibliotecas (SIBi) que compõem a amostra. O roteiro de entrevista contemplou questões acerca do indicador que configura o ponto focal do estudo: “Roteiro de entrevista” (apêndice A).
Uma questão levantada na análise se deteve no que diz respeito ao interesse pontual desta pesquisa no tocante à visão do gestor. No Instrumento de Avaliação da Biblioteca Universitária, o grupo de indicadores “serviços ao usuário” indica a análise da relação entre a prestação de serviços e os níveis de satisfação dos usuários. Entende- se, sempre, a necessidade de relacionar a oferta de serviços com os níveis de satisfação dos usuários, no entanto, o foco desta pesquisa ao invés de relacionar os serviços com a
190 satisfação dos usuários, relacionou os serviços ao usuário sob a percepção dos gestores dos SIBi.
Quanto à definição do instrumento para a coleta de dados, fez-se necessário pontuar o ferramental usado no Projeto de Pesquisa realizado junto ao SIBi da UFG, uma vez que os conhecimentos adquiridos no decurso de um ano no acompanhamento das atividades teórico-práticas possibilitaram adquirir uma compreensão maior acerca do contexto acadêmico e suas interrelações com o sistema integrado de bibliotecas, possibilitando a esta autora empreender inclusões no instrumento para a coleta de dados junto à amostra da pesquisa.
Justificou-se, portanto, a medida de incluir questões abertas para obter a ótica dos gestores. O pré-teste que foi aplicado, posteriormente, possibilitou confirmar essa necessidade para a pesquisa.
Com base na literatura estudada, estabeleceu-se que apenas uma ou duas questões acerca de eixos temáticos relevantes para a pesquisa, possibilitariam apontar para as tendências gerenciais, frente a este estudo:
percepção do gestor acerca da oferta de serviços no SIBi; oferta de novos serviços;
programa de qualidade para avaliação de produtos e serviços;
parcerias e convênios com outras instituições nacionais e internacionais na área de produtos e serviços;
utilização do Website/portal como recurso de gestão da informação e do conhecimento entre as bibliotecas do SIBi;
opinião acerca de uma rede colaborativa entre SIBi.
Após a transcrição das informações, iniciou-se a análise dos dados. A primeira parte do roteiro da entrevista, portanto, seguiu o Instrumento de Avaliação, recebendo os resultados quantitativos da avaliação da situação mediante os níveis pré- estabelecidos, e a segunda parte, com as questões sobre a ótica do gestor, com a apresentação dos resultados, mediante Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).
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5.6.3.1 Discurso do Sujeito Coletivo
O Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) é uma estratégia metodológica. Utiliza-se de uma estratégia discursiva “para tornar mais clara uma dada representação social, bem como o conjunto das representações que conforma um dado imaginário” (LEFRÈVRE, F.; LEFRÈVRE, A., 2005).
Trata-se de uma proposta de coleta, organização, tabulação e análise de dados qualitativos de natureza verbal, obtidos através de depoimentos, ou por meio do discurso dos sujeitos obtidos através de artigos de jornal, matérias em revistas semanais, cartas, papers e revistas especializadas. O DSC se apresenta na forma de um discurso- síntese redigido na primeira pessoa do singular. (LEFRÈVRE, F.; LEFRÈVRE, A., 2005)
O DSC é utiliza figuras metodológicas para auxiliar na coleta e análise dos dados. Ele é composto por expressões-chave (EC) que tem a mesma ideia central (IC) ou AC (ancoragem).
Lefrèvre e Lefrève (2005) apresentam os conceitos das figuras metodológicas, conforme segue:
Ideias Centrais (IC): “é um nome ou uma expressão linguística que revela e descreve, da maneira mais sintética, precisa e fidedigna possível, o sentido de cada um dos discursos analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH, que vai dar nascimento, posteriormente, ao DSC”. Ou seja, a ideia central é uma descrição (a mais sucinta e objetiva possível) do sentido de um discurso, sendo que um discurso pode ter mais de uma ideia central. Expressões-Chave (ECH): “são pedaços, trechos ou transcrições literais do
discurso, que devem ser sublinhadas, iluminadas, coloridas pelo pesquisador, e que revelam a essência do depoimento ou, mais precisamente, do conteúdo discursivo dos segmentos em que se divide o depoimento (que em geral, correspondem às questões de pesquisa)”. Isto é, representam o conteúdo ou a essência das IC. São segmentos de discursos que remetem à IC e a corporificam.
Ancoragem (AC): “remetem não a uma IC correspondente, mas a uma figura metodológica que, sob a inspiração da teoria da representação social
192 denomina-se ancoragem (AC), que é a manifestação linguística explícita de uma dada teoria, ou ideologia, ou crença que o autor do discurso professa e que, na qualidade de afirmação genérica, está sendo usada pelo enunciador
para “enquadrar” uma situação específica”.
Os autores destacam a importância da interrelação entre as IC e as ECH:
ambas são indispensáveis para que os sentidos dos discursos possam ser adequadamente obtidos e descritos, tendo a primeira função identificadora, particularizadora, especificadora, e a segunda (ECH), uma função corporificadora, de substantivação, de “recheio” do sentido nomeado”. (LEFRÈVRE, F.; LEFRÈVRE, A., 2005).
Com base no Discurso do Sujeito Coletivo, pode ser obtida a síntese da percepção dos gestores, conforme apresentado em item posterior.