4. Representacions de la mort
4.2. Dansa Macabra
É este um assunto extremamente complicado. Uma grande variabilidade - e, sob este termo, se compreendem sempre as diferenças individuais - é eviden- temente favorável à ação da seleção natural. A multiplicidade de indivíduos, ofere- cendo mais probabilidades de variações vantajosas num tempo dado, compensa uma variabilidade menor em cada indivíduo tomado pessoalmente, e é este, creio eu, um elemento importante de sucesso. Posto que a natureza aplique longos pe- ríodos ao trabalho da seleção natural, não seria necessário acreditar, contudo, que esta delonga seja indefinida. Com efeito, todos os seres organizados lutam por se apoderar dos lugares vagos na economia da natureza; por conseqüência, se uma espécie, seja qual for, se não modifica nem se aperfeiçoa tão depressa como os seus concorrentes, deve ser exterminada. Ademais, a seleção natural não pode agir sem que alguns descendentes herdem variações vantajosas. A tendência à regressão ao tipo dos antepassados pode muitas vezes embaraçar ou impedir a ação da seleção natural; mas, por outro lado, como esta tendência não impede o homem de criar, pela seleção, numerosas raças domésticas, porque prevaleceria ela contra a obra da seleção natural?
Quando se procede com uma seleção metódica, o tratador escolhe certos indivíduos para atingir um fim determinado; se permite a todos os indivíduos cru- zarem-se livremente, é certo que falhará. Quando, porém, muitos tratadores, sem a intenção de modificar uma raça, têm um tipo comum de perfeição, e que todos tentam procurar e fazer reproduzir os indivíduos mais perfeitos, esta seleção inconsciente traz lenta, mas seguramente, grandes progressos, admitindo mesmo que se separem os indivíduos mais particularmente belos. Dá-se o mesmo no es- tado livre; porque, numa região restrita, em que a economia geral
apresenta algumas lacunas, todos os indivíduos que variam numa certa direção determinada, ainda que em graus diferentes, tendem a persistir. Se, ao contrário, a região é considerável, os diversos distritos apresentam certamente condições diferentes de existência; ora, se uma espécie é submetida a modificações nestes diversos distritos, as novas variedades formadas cruzam-se nos confins de cada um deles. Veremos, todavia, no sexto capítulo desta obra, que as variedades in- termediárias, habitando distritos intermediários, são ordinariamente eliminadas, num lapso de tempo mais ou menos considerável, por uma das variedades vizi- nhas. O cruzamento afeta principalmente os animais que se copulam para cada fecundação, que vagueiam muito, e se não multiplicam numa proporção rápida.
Assim, nos animais desta natureza, aves, por exemplo, as variedades de- vem ordinariamente ser limitadas em regiões separadas umas das outras; é isto o que acontece quase sempre. Nos organismos hermafroditas que se não cruzam a não ser acidentalmente, da mesma forma como nos animais que se copulam para cada fecundação, mas que pouco vagueiam, e se multiplicam rapidamente, uma nova variedade aperfeiçoada pode formar-se depressa em um lugar qualquer, pode aí sustentar-se e espalhar-se depois de tal maneira que os indivíduos da no- va variedade se cruzem principalmente uns com os outros. É em virtude deste princípio que os horticultores preferem conservar sempre sementes recolhidas sobre maciços consideráveis de plantas, porque evitam assim as probabilidades de cruzamento.
Não seria preciso acreditar tampouco que os cruzamentos fáceis possam embaraçar a ação da seleção natural nos animais que se reproduzem lentamente e se copulam para cada fecundação. Eu poderia citar fatos numerosos provando que, num mesmo país, duas variedades de uma mesma espécie de animais po- dem ficar por muito tempo distintas, quer freqüentem ordinariamente regiões dife- rentes, quer a estação da cópula não seja a mesma para cada um deles, quer en- fim os indivíduos de cada variedade prefiram copular-se entre si.
O cruzamento representa um papel importante na natureza; graças a ele os tipos ficam puros e uniformes na mesma espécie ou na mesma variedade. A sua ação é mais eficaz nos animais que se copulam para cada fecundação; mas, aca-
bamos de ver que todos os animais e todas as plantas se cruzam de tempos a tempos. Logo que os cruzamentos não tenham lugar senão com longos intervalos, os indivíduos que daí provêm, comparados aos que resultam da fecundação da planta ou do animal por si mesmo, são muito mais vigorosos e muito mais fecun- dos; e têm, por conseguinte, mais probabilidades de sobreviver e propagar a sua espécie. Por muito raros que sejam certos cruzamentos, a sua influência deve, depois de um longo período, exercer um poderoso efeito sobre os progressos da espécie. Quanto aos seres organizados colocados tão baixo na escala, que se não propagam sexualmente, se não copulam, e nos quais os cruzamentos são impos- síveis, a uniformidade dos caracteres só pode conservar-se entre eles, ficando colocados nas mesmas condições de existência, em virtude do princípio da heredi- tariedade, e devido à seleção natural, cuja ação traz a destruição dos indivíduos que se afastam do tipo ordinário. Se as condições de existência chegam a mudar, se a forma sofre modificações, a seleção natural, conservando variações vantajo- sas análogas, pode dar somente aos descendentes modificados a uniformidade dos caracteres.
O isolamento goza também de um papel importante na modificação das es- pécies pela seleção natural. Numa região fechada, isolada e pouco extensa, as condições orgânicas e inorgânicas da existência são quase sempre uniformes, de tal modo que a seleção natural tende a modificar da mesma maneira todos os in- divíduos variáveis da mesma espécie. Demais, o cruzamento com os habitantes dos distritos vizinhos acha-se impedido. Moritz Wagner publicou ultimamente, so- bre este assunto, uma memória muito interessante; demonstrou que o isolamento, impedindo os cruzamentos entre as variedades novamente formadas, tem prova- velmente um efeito mais considerável que eu mesmo não supunha. Mas, pelas razões que já indiquei, não posso, de forma alguma, adotar a opinião deste natu- ralista, quando sustenta que a emigração e o isolamento são os elementos necessários à formação de novas espécies. O isolamento goza também um papel muito importante depois de uma alteração física das condições de existência, tal, por exemplo, como modificações de clima, agitação do solo, etc., porque impede a emigração de organismos melhor adaptados a estas novas condições de existên-
cia; encontram-se assim, na economia natural da região, novos lugares vagos, que serão preenchidos, em virtude disso, por modificações dos antigos habitantes. Enfim, o isolamento assegura a uma nova variedade todo o tempo que lhe é ne- cessário para se aperfeiçoar lentamente, e é este algumas vezes um ponto impor- tante. Contudo, se a região isolada é muito pequena, ou porque seja cercada de barreiras, ou porque as condições físicas sejam todas particulares, o número total dos seus habitantes será também muito pouco considerável, o que retarda a ação da seleção natural, no ponto de vista da seleção de novas espécies, porque as probabilidades da aparição de variedades vantajosas são diminutas.
A própria duração do tempo nada pode por si mesma, nem pró nem contra a seleção natural. Enuncio esta regra porque se tem sustentado sem razão que eu ligava ao elemento do tempo um papel preponderante na transformação das es- pécies, como se todas as formas da vida devessem necessariamente sofrer modi- ficações em virtude de algumas leis inatas. A duração do tempo é somente impor- tante-e nisto não exageraríamos esta importância- porque apresenta mais probabi- lidade para a aparição de variações vantajosas e lhes permite, depois que fazem o objeto da seleção, acumular-se e fixar-se. A duração do tempo contribui também para aumentar a ação direta das condições físicas da vida na sua relação com a constituição de cada organismo.
Se interrogamos a natureza para lhe pedir a prova das regras que acaba- mos de formular, e se considerarmos uma pequena região isolada, seja qual for, uma ilha oceânica, por exemplo, posto que o número das espécies que a habitam seja bastante reduzido, como veremos no capítulo sobre a distribuição geográfica- todavia a maior parte destas espécies são endêmicas, isto é, foram produzidas neste lugar, e em mais parte nenhuma do mundo. Pareceria então, à primeira vis- ta, que uma ilha oceânica era muito favorável à produção de novas espécies. Mas estamos muito expostos a enganarmo-nos, porque, para determinar se uma pe- quena região isolada tem sido mais favorável do que uma grande região aberta como um continente, ou reciprocamente, à produção de novas formas orgânicas, seria preciso poder estabelecer uma comparação entre tempos iguais, o que nos é impossível fazer.
O isolamento contribui poderosamente, sem dúvida, para a produção de novas espécies; contudo, estou disposto a acreditar que uma vasta região aberta é mais favorável ainda, quando se trata da produção de espécies capazes de se perpetuar durante longos períodos e adquirir uma grande extensão. Uma vasta região aberta oferece não somente mais probabilidades para que variações vanta- josas façam a sua aparição em razão do grande número de indivíduos da mesma espécie que a habitam, mas também em razão de que as condições de vida são muito mais complexas por causa da multiplicidade das espécies já existentes. Ora, se alguma destas numerosas espécies se modifica e se aperfeiçoa, outras devem aperfeiçoar-se também na mesma proporção, senão desapareceriam fatalmente. Demais, cada nova forma, desde que está muito aperfeiçoada, pode espalhar-se numa região aberta e contínua, e encontra-se assim em concorrência com muitas outras formas. As grandes regiões, ainda que hoje contínuas, por certo que já fo- ram, em virtude de antigas oscilações de nível, anteriormente fracionadas, de tal forma que os bons efeitos do isolamento puderam produzir-se também numa certa medida. Em resumo, concluo que, posto que as pequenas regiões isoladas sejam, sob quaisquer relações, muito favoráveis à produção de novas espécies, as gran- des regiões devem, contudo, favorecer as modificações mais rápidas, e, além dis- so, o que é mais importante, as novas formas produzidas nas grandes regiões, tendo já ganho a vitória sobre numerosos concorrentes, são as que tomam a ex- tensão mais rápida e que produzem um maior número de variedades e espécies novas. São estas que desempenham o papel mais importante na história constan- temente variável do mundo organizado.
Este princípio ajuda-nos a compreender, talvez, alguns fatos a que teremos de voltar no capítulo sobre a distribuição geográfica; por exemplo, o fato de as produções do pequeno continente australiano desaparecerem atualmente diante das do grande continente euro-asiático. Por isso que também as produções conti- nentais se aclimatam por toda a parte e em tão grande número nas ilhas. Numa pequena ilha, a luta pela existência deve ser menos ardente, e, por conseguinte, as modificações e extinções menos importantes. Isto nos explica por que a flora da Madeira, assim como o faz notar Oswald Hecr, se parece, até certo ponto, à
flora extinta da época terciária da Europa. A totalidade da superfície de todas as bacias de água doce ocupa somente uma pequena extensão comparativamente com a das terras e dos mares. Portanto, a concorrência, nas produções de água doce, deve ser menos viva que em qualquer outra parte; as novas formas devem produzir-se mais lentamente, as antigas formas extinguir-se mais lentamente ain- da. Ora, é na água doce que encontramos sete gêneros de peixes ganóides, res- tos de uma ordem outrora preponderante; é igualmente na água doce que encon- tramos algumas das formas mais anormais que se conhecem no mundo, o Ornitor- rinco e a Lepidossereia, por exemplo, que, como certos animais fósseis, constitu- em, até certo ponto, uma transição entre as ordens hoje profundamente separadas na escala da natureza. Poderiam chamar-se estas formas anormais verdadeiros fósseis viventes; se se conservaram até à época atual, é porque têm habitado uma região isolada e têm estado expostas a uma concorrência menos variada e, por conseqüência, menos viva.
Se me fosse preciso resumir em algumas palavras as condições vantajosas ou não à produção de novas espécies pela seleção natural, tanto, todavia, quanto um problema tão complexo o permite, chegaria a concluir que, para as produções terrestres, um grande continente, que sofreu numerosas oscilações de nível, deve ser o mais favorável à produção de numerosos novos seres organizados, capazes de se perpetuarem durante muito tempo e tomar uma grande extensão. Enquanto a região existiu na forma de continente, os habitantes deviam ser numerosos em espécies e em indivíduos, e, por isso, submetidos a uma ardente concorrência. Quando, após os abaixamentos, o continente se subdividiu em numerosas gran- des ilhas separadas, cada uma destas ilhas deve ainda conter muitos indivíduos da mesma espécie, de tal sorte que os cruzamentos deviam ter cessado entre as variedades em breve tornadas próprias de cada ilha. Depois das alterações físi- cas, de qualquer natureza, toda a emigração deve ter cessado, de maneira que os antigos habitantes modificados devem ter ocupado todos os novos lugares na e- conomia natural de cada ilha; enfim, o lapso de tempo decorrido permitiu às varie- dades, que habitavam cada ilha, modificar-se completamente e aperfeiçoar-se. Quando, após os elevamentos, as ilhas se transformaram de novo num continen-
te, uma luta muito viva deve ter recomeçado; as variedades mais favorecidas ou mais aperfeiçoadas puderam então estender-se; as formas menos aperfeiçoadas foram exterminadas, e o continente restaurado mudou de aspecto com respeito ao número relativo dos habitantes. Aí, enfim, abre-se um novo campo à seleção natu- ral, que tende a aperfeiçoar ainda mais os habitantes e a produzir novas espécies. Admito completamente que a seleção natural atue de ordinário com extrema lenti- dão. Não pode mesmo atuar a não ser quando haja, na economia natural de uma região, lugares vagos, que seriam melhor preenchidos se alguns dos habitantes sofressem certas modificações. Estas lacunas apenas se produzem quase sempre após mudanças físicas, que quase sempre se efetuam muito lentamente, e com a condição de alguns obstáculos se oporem à emigração de formas melhor adapta- das. Contudo, à medida que alguns dos antigos habitantes se modificam, as rela- ções mútuas de quase todos os outros se alteram. Isto é o bastante para criar la- cunas que formas melhor adaptadas podem preencher; mas é esta uma operação que se faz muito lentamente. Posto que muitos indivíduos da mesma espécie dife- rem um pouco entre si, é preciso em alguns casos, decorrer muito tempo antes que se produzam variações vantajosas nas diferentes partes da organização; de- mais, o livre cruzamento atrasa muitas vezes consideravelmente os resultados que poderiam obter-se. Não faltará quem me objete que estas diversas causas são mais que suficientes para neutralizar a influência da seleção natural. Não o creio. Admito, contudo, que a seleção natural atua apenas muito lentamente, com longos intervalos, e também somente sobre alguns habitantes de uma mesma re- gião. Creio, além disso, que estes resultados lentos e intermitentes concordam ainda com o que nos ensina a geologia sobre o desenvolvimento progressivo dos habitantes do mundo.
Por mais lenta que seja a marcha da seleção natural, se o homem, com os seus limitados meios, consegue realizar tantos progressos aplicando a seleção artificial, não posso perceber limite algum na soma de alterações, assim como na beleza e complexidade das adaptações de todos os seres organizados nas suas relações mútuas e com as condições físicas de existência que pode, no decurso das idades, realizar a força seletiva da natureza.