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Dans i kroppsøving og kroppsøvingslærerutdanning

O rádio, porém, não foi o dispositivo de maior impacto em Downton Abbey, a ponto de alterar quase todas as divisões físicas da casa e pôr em cheque a necessidade de se conceber espaços mais flexíveis e receptivos aos mais diferentes intercursos externos, espontâneos e inesperados: tudo aquilo que as paredes em Downton/Highclere tentavam evitar. A Primeira Grande Guerra obrigou tanto Lady Almina e sua família,

18 Fala da personagem Lady Mary Crawley, episódio 2, temporada 5. 2014. DOWNTON ABBEY:

Netflix. Disponível em: <

https://www.netflix.com/watch/80011711?trackId=13752289&tctx=0%2C1%2C39ee43d2-1d95-49d8- aede-09500a8f8b1b-77594229> Acesso em: 2 mar. 2016.

como os Crawley, a se desfazer – um pouco, ao menos – de tamanha pompa, para poder abrigar os feridos dos combates.

Almina pressentia o que estava por vir e tomou uma decisão. Afinal, ela refletia sobre o assunto havia pelo menos dois anos. Consultou lorde Carnarvon, que até então se mostrava um tanto alheio aos acontecimentos. No entanto, quando pressionado, Carnarvon acabou concordando com a sugestão de Almina. Ela queria converter Highclere em um hospital para oficiais feridos, trazer uma equipe especializada de médicos e prover tudo de que um soldado pudesse precisar para se recuperar, desde equipamento de última geração e cirurgias pioneiras a alimentos frescos em abundância e lençóis macios e limpos. Almina seguia o instinto de criar um hospital que aliviasse o sofrimento e alegrasse o espírito dos homens, alquebrados pelo horror. (CARNARVON, 2012, p. 77).

Segue a Condessa em seu relato: “As pessoas em Highclere, tanto no andar de cima como no de baixo, estavam diante de uma tragédia que mudaria a vida de todos. Elas só não sabiam disso ainda.” (CARNARVON, 2012, p. 80). Tampouco em Downton se sabia, mas na mansão fictícia houve muita resistência para se fazer da casa uma extensão das trincheiras. Na série, fica evidente o quão enrijecida é Downton, por não permitir a flexibilização de seus espaços para usos outros que não os destinados previamente. Se desfazer da biblioteca, da sala de estar, dos salões coletivos para dar lugar aos feridos da guerra foi um esforço muito maior no sentido simbólico que no sentido físico.

A resistência dos donos de Downton surge quando uma das personagens, Isobel Crawley, que não vive na casa, questiona a razão sobre a dificuldade em se desfazer dos espaços temporariamente. A resistência é simples: se desfazer deles é admitir que a necessidade dessas fragmentações não existe de forma prática, mas apenas para dar sentido ao regime aristocrático (e por capricho). Porém, independente do sentido ou não, estruturalmente, Downton já anunciava não estar pronta para o novo século, onde as informações invadem o lar intempestuosamente, muitas vezes exigindo uma reação, que só pode ser dada se o imprevisto for um elemento previsto na política da casa.

No caso de uma guerra, da magnitude desta, a casa já se mostra obsoleta. Pois não atende as demandas externas (e internas, por vezes), que podem surgir repentinamente e de forma violenta. Nesse sentido, Downton/Highclere já estavam, mesmo no início do século XX, em defasagem.

Entra a Primeira Guerra (1914) e a chegada do rádio (1924) em Downton, no mundo real, a arquitetura moderna já era uma realidade e a ideia de uma casa flexível e mais sensível às necessidades de comunicação com seu entorno já não era ficção.

A residência Schröder, em Utrech, Holanda, concebida em 1924 pelo arquiteto Gerrit Rietveld, é considerada uma “obra-prima” (DEMPSEY, 2003, p. 121). Essa casa é paradigmática, pois inspirada no movimento artístico Neoplasticista, mais precisamente nas obras de Piet Mondrian, permitia a alteração quase que total dos cômodos da casa, pois suas “paredes” eram removíveis e/ou retráteis. Mas não apenas isso, o mobiliário dialogava estética e funcionalmente com a totalidade da casa, pois foram pensadas em unidade, assim todo o ambiente se modifica e “conversa” por inteiro (DEMPSEY, 2003). Ou seja, essa casa demonstra de forma palpável o ambiente como algo movente, tornando o morador apenas mais um objeto de sua comunicação sistêmica. E sendo essa casa um discurso arquitetônico e artístico (neoplástico), era portanto um ambiente informacional.

Imagens 4 e 5 - A residência Schröder, 1924.

Fonte: (DIEGO CORREA, 2016, online). Fonte: (JORNALÍSSIMO, 2016, online).

A casa Schöder, em comparação à Downton/Highclere, estava à frente ao tensionar tantas questões postas na contemporaneidade, mesmo a casa de Rietveld sendo uma criação do início do século XX. Sua abertura às provocações externas e organicidade em sincronia com os moradores, atendendo-os com uma velocidade quase imediata, faz da obra de Rietveld um ícone residencial que ainda se busca no presente, já Downton/Highclere aparentemente não deixará de ser uma casa-museu. Principalmente porque ela ainda é símbolo de um sistema político e econômico decaído e que não permite, por mais estimulada que seja, ser preenchida por outros significados.

A Guerra, ao mesmo tempo que impulsionou uma drástica mudança, que marcaria a casa até os dias de hoje, também serviu para constatar que estas mudanças não são perenes. A Guerra transformou a casa e criou ambientes de uma maneira poderosa, funcionou como um potente dispositivo. Em Downton, uma das filhas do conde desce à cozinha para aprender, pela primeira vez, a fazer um chá, para que possa ser útil durante o tratamento dos feridos da Guerra; ao mesmo tempo, leva os criados para cima, para que possam assistir ao concerto musical em favor dos soldados.

Nesse sentido, a Guerra foi uma informação que operou mudanças, tal como as mídias, só que numa frequência muito mais intensa. Isto porque as ambiências das mídias são mais dificilmente percebidas. Uma Guerra não.