TEMA 4: REFLEXÕES DOS PARTICIPANTES SOBRE A INVESTIGAÇÃO
Figura 7. Quadro síntese de categorias e subcategorias que integram o TEMA 4
Nos diversos contactos com os participantes, bem como na situação da entrevis- ta e nos feedbacks, todos os participantes demonstraram uma postura reflexiva sobre a investigação em que participaram.
Alguns participantes exploram o sentido da sua participação na investigação:
“E eu hoje quando vinha de manhã, quando vinha trabalhar… faço um percurso de 10 minutos a pé até ao local de trabalho e vinha a pensar que este nosso encontro hoje, no fundo parece que vem fechar um ciclo… exatamente o que eu sinto… juro, Catarina… é exatamente o que eu sinto…” (P13, E)
“foram todos uma série de pequenos detalhes que depois moldaram a minha experiên- cia, a minha visão da minha experiência e eu, porque mesmo isto, esta situação de aqui vir e discutir, acho que se fosse mesmo pensar nisso era impensável, nunca em qualquer pronto da minha vida até ter passado pela experiência (de Psicoterapia) teria aceite, tal- vez fazer este tipo de abordagem aos tópicos que estou a abordar, por alto claro, mas que estou efetivamente a falar sobre eles… por isso, não sei mesmo mais que diga so- bre…” (P15, E)
É interessante sublinhar que, para este participante, a participação na investiga- ção é, em si mesma, um exemplo das mudanças terapêuticas conseguidas, neste caso o ter uma maior flexibilidade e abertura para a experiência, até no sentido de se expôr e colaborar na presente investigação.
Ao longo dos diferentes contactos com a investigadora principal, alguns dos par- ticipantes levantaram múltiplas questões sobre a investigação e as suas contribuições. No geral, os participantes foram-se mostrando progressivamente mais à vontade e participativos tendo refletido sobre a sua própria participação durante todo o processo de investigação. De seguida, apresentamos a descrição como duas participantes parti-
lharam com a entrevistadora as reflexões sobre os seus próprios comportamentos, ao longo da entrevista.
“… e se calhar, neste momento, já fica mais claro porque é que eu fiz as perguntas que fiz no início… a confidência daquelas coisas que para mim não é fácil… e se há alguém que eu sinto que posso confiar, não é… portanto, eu sentir-me vulnerável ou eu sentir-me exposta perante alguém que eu não sei se vou poder confiar na pessoa…” (P12, E) “Não, não… foi um prazer estar aqui consigo… não sei é se correspondi… eu senti que de vez em quando eu tentava fugir, mas não sei se correspondi e se vai retirar grande sumo aqui das nossas conversas… eu espero é que tenha sido útil… se quiser, estarei sempre disponível para falar consigo mais qualquer coisa… se me quiser enviar alguma coisa por escrito, terei todo o prazer em responder por escrito, se me quiser ligar, se quiser que eu venha mais alguma vez… tenho a disponibilidade para vir cá… não se sinta minimamente constrangida que eu tenho bastante tempo livre, para mim não é nada difícil…” (P13, E)
Para além de refletirem sobre a observação dos seus próprios comportamentos é também claro que se colocam como observadoras da própria interação e dos com- portamentos da entrevistadora:
“já estou com a sensação que já estamos aqui há imenso tempo e que se calhar estou a ocupar-lhe o tempo a si, mais tempo do que aquele que tinha desejado ocupar… por outro lado, não me está a dar de todo esse sinal, portanto não é por aí…” (P12, E)
Um aspeto interessante, referido repetidamente e sentido pelos participantes como positivo, é o de que a investigação permitiu a alguns participantes o repensar da sua te- rapia e alguns referiram, ainda, que a sua participação teve uma dimensão “terapêutica”:
“Não, eu posso acrescentar que para mim este é mais um momento na minha terapia… e quando a (nome da Terapeuta) sugeriu, perguntou se eu não me importava, eu pensei logo: ‘Olha que bom, vai ser aqui uma oportunidade de eu fazer aqui uma espécie de
flashback, de voltar a ver as coisas com outro olhar, com outras ajudas…’. Acho que foi
ótimo, eu gostei imenso de vir aqui falar consigo…” (P11, E)
Uma participante, no dia seguinte à entrevista, escreve à investigadora principal afirmando que há mais duas coisas que gostaria de acrescentar à entrevista, sendo uma delas a seguinte partilha:
“O efeito terapêutico da minha conversa de ontem: Quando hoje acordei, senti-me orgu- lhosa do meu percurso de vida. (…)” (P16, F1)
Os participantes revelaram cuidado e preocupação relativamente à clareza e qualidade das suas contribuições, que foram expressos durante as entrevistas e tam-
bém na revisão das mesmas, no feedback fornecido. De modo geral, as entrevistas foram avaliadas como refletindo a perspetiva dos participantes:
“Quer dizer, não tenho muito a acrescentar… acho que acabei por dizer aquilo que sentia genuinamente e pronto, foi mesmo isso…” (P15, E)
“Quando li a entrevista senti que me dispersei um pouco nas respostas. Estava dema- siado emotiva, comi palavras… e não fui eficaz – deveria ter sido mais concreta. Mas o essencial está lá…” (P05, F)
“Já li os dois documentos que me enviou. De facto, resulta um pouco estranho a en- trevista convertida em texto. Mas, no geral, está lá aquilo que penso relativamente às questões que me colocou. Reitero o que disse que, primeiro, não é fácil aceitarmos que temos um problema que necessitamos resolver. Segundo (…)” (P08, F)
Pelo menos alguns dos participantes reviram cuidadosamente as entrevistas e trabalharam a clarificação dos seus conteúdos, tendo em conta o impacto destas na comunidade, como parece evidente nos feedbacks que a seguir se apresentam:
“Foi com gosto que li a transcrição que me enviou. Suponho que seja uma primeira ver- são, sujeita ainda a revisão. É que além de palavras omissas, notei que há diversos casos em que a pontuação mal colocada ou determinados viés de palavras alteram o sentido do que eu disse. Por exemplo: ‘de ter um espaço meu de trabalho’ (pg.17). Parece que me estava a referir a um espaço para trabalhar, o que não foi o caso. Falta uma vírgula: ‘de ter um espaço meu, de trabalho’.” (P03, F)
“Fiz umas pequenas alterações onde senti que o entendimento do texto escrito/lido podia ser diferente daquilo que era a minha intenção quando o disse… De resto deixei aquele início um bocado confuso mas que, como diz, se deve à falta de body language que não deixa ver a minha aflição perante perguntas que me obrigavam a mergulhar bem fundo na minha ‘aventura’ existencial…” (P11, F)
De modo geral, todos os participantes quiseram continuar a colaborar na inves- tigação após a entrevista, tendo havido apenas um participante que não se manifestou disponível para tal afirmando que confiava na interpretação da investigadora das suas palavras (P01). Alguns disponibilizaram-se mesmo para contactos posteriores e novas entrevistas e alguns manifestaram interesse em ler a tese ou assistir à sua defesa.
A relação de colaboração estabelecida entre a investigadora e os participantes foi, como referido no capítulo da metodologia, uma dimensão fulcral da mesma. Este aspeto foi também visível nos comentários sobre o estudo e os seus procedimentos
metodológicos. Como é visível no contributo seguinte, alguns dos participantes comen- taram ativamente a própria metodologia da investigação:
“Finalmente, a experiência de ter conversado consigo sobre este tema, foi também ela terapêutica (a oportunidade de revisitar o percurso terapêutico, algum tempo depois, e refletir sobre o que aconteceu, quais os temas, as áreas de desenvolvimento e, também, de vulnerabilidade), e receber a transcrição, ou seja, ficar com um registo pessoal do meu percurso terapêutico, que me permite revisitar este percurso, é também um belo presente! Ou seja, a sua metodologia recebe algo valioso dos participantes do estudo e proporciona-lhes em troca algo que, do meu ponto de vista, é também muito valioso!” (P12, F2)
Para além de comentarem a metodologia da investigação alguns participantes contribuíram ativamente com materiais que consideraram importantes. Interpretamos este facto como significando que os participantes se sentiram à vontade para comple- mentarem os procedimentos definidos para a investigação, o que pode indiciar que o processo de investigação não foi perspetivado como rígido e unilateralmente definido. Por exemplo, a participante anteriormente citada enviou um texto sobre o Bem -Estar anexado ao seu feedback; o participante seguinte, após afirmar que a entrevista não foi desconfortável, revela que trouxe um livro por si elaborado no âmbito do processo de terminar a terapia de grupo, sobre o seu processo terapêutico o qual, na sua opinião, poderia ajudar a investigadora a compreender a sua experiência:
“Não, não, não, não foi… não, não foi não… não sabia propriamente o que é que estava à espera, aliás, sabia qual era o conteúdo, sobre o que é que ia versar… mas não pro- priamente que tipo de perguntas é que ia fazer, enfim… mas não, de maneira nenhuma, não foi desconfortável… eu até trouxe uma coisa, um… não sei se pode ajudar ou não… é assim, eu fiz… na minha alta, eu resolvi fazer um pequeno livrinho e foi um trabalho, um bocado de trabalho, não foi o meu só… tive que fazer um para as outras pessoas, o que eu pensava também das outras pessoas… e levou uns mesitos a compor as coisas, depois está bem, depois não está, depois não sei o quê, enfim, mas lá consegui… e fiz um para mim, fiz um para mim… o que eu acho que me aconteceu e que eu fiz… eu te- nho ali para me mostrar, nunca dei a ninguém e nunca mostrei a ninguém a não ser aos terapeutas, eles ficaram com um livro desses, que eu ofereci-lhes só a eles… e o outro está comigo, mais ninguém o viu, de maneira que eu vou-lhe mostrar… para ler.” (P14, E)
No excerto anterior, o participante revela como, mesmo antes da situação de entre- vista, ponderou o modo como poderia contribuir para a investigação, disponibilizando, por sua própria iniciativa, informação que foi claramente além do solicitado pela investigação.