4 Presentasjon av funn og analyse
4.2 Differensieringserfaringer
4.2.3 Dannende tilpasset opplæring
Entre os agentes mais atuantes do campo literário, ou da Literatura como instituição, encontram-se os críticos e/ou pesquisadores da área. É importante deixar claro que, nesse tópico, está sendo deixada de lado a crítica literária feita nos meios de comunicação comerciais. Com a especialização crescente do campo, a análise literária com base teórica existe, fundamentalmente, nas universidades, nas discussões e publicações acadêmicas que terminam por tentar definir o objeto ou a legitimidade de uma obra literária, de um autor, ou mesmo de uma teoria. A idéia da literatura como disciplina autônoma nasce no século XIX, como explica Terry Eagleton, com a “ascensão do inglês”.1 Para ele, a emergência dos estudos literários nas universidades, além de implicar uma profissionalização, exigindo jargões e técnicas próprias de análise literária, também deu fim à figura do “homem de letras”, aquele intelectual sem academia, que escrevia em periódicos sobre assuntos de interesses gerais, entre os quais as obras literárias. Instituições da esfera pública burguesa clássica, como cafés, salões e os periódicos, eram os espaços desse tipo intelectual. Com o estreitamento desse espaço, o discurso teórico terminou sendo auto-sustentado em seu próprio ambiente institucional, em especial as universidades. Fazendo parte, portanto, do campo acadêmico, com suas próprias peculiariedades, e cada vez mais tornando-se legitimado por si mesmo. Pelo menos, até a década de 60, quando questionamentos no cenário universitário europeu trazem novas facetas para a teoria literária, com a emergência de novas discussões, a serem citadas a seguir.
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No Brasil, a presença desses “homens de letras” estava marcadamente na imprensa, como já foi visto, que faziam, por exemplo, as crônicas em suas páginas. Influenciada pelos folhetins franceses, a crônica nasceu no rodapé das páginas dos jornais do século XIX sob o signo de "variedades". Outro momento marcante para o exercício dessa crítica fora da academia foram os periódicos modernistas. O Modernismo brasileiro, independente da busca de um estilo próprio, pode ser pensado como uma ação coletiva, que também teorizou e tentava conquistar um mercado e um lugar no campo. Para tal tarefa, reservava para si atividades específicas, como a busca de atenção da mídia, por meio de artigos, eventos e outros métodos.2 Conquistar novos mercados, desferir ataques sistemáticos aos padrões estéticos e instituições artísticas vigentes, valorizar um novo tipo de fruição da obra de arte são missões que exigiam canais permanentes de expressão. Daí a importância de, não só escrever nas páginas disponíveis dos jornais existentes, como já vinham fazendo alguns, mas também criar os próprios veículos, como Klaxon, Estética, Festa, A Revista, Terra Roxa...e outras
terras, Verde, Revista de Antropofagia, que são alguns desses veículos, e duraram de
1922 a 1929. Na década de 1940, quando o Governo Vargas já atuava fortemente na área cultural, inclusive com a participação de modernistas em órgãos estatais, aparece a revista Clima, formada por jovens críticos atuantes em suas respectivas áreas: Paulo Emílio Salles Gomes (cinema), Décio de Almeida Prado (teatro), Gilda de Mello e Souza (Artes Plásticas) e Antonio Candido, como crítico literário. A “geração” Clima vai ser absorvida pela Universidade de São Paulo.
Ao mesmo tempo, na grande imprensa, como já vimos, havia espaço para os comentários críticos de Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux no Correio da Manhã. Na década de 1950, Décio de Almeida Prado edita o Suplemento Literário no O Estado de
S.Paulo, que reúne o pessoal da antiga Clima, e torna-se modelo para os suplementos
nos outros jornais.3 Com a especialização do campo jornalístico, e o surgimento dos primeiros críticos literários formados pela universidades, a tendência foi a divisão entre a crítica especializada e acadêmica, e a jornalística. Se a última, como vimos, está atrelada à idéia de notícia, vinculada aos acontecimentos, ao serviço e à pauta de lançamentos, a primeira, mesmo que colabore eventualmente na mídia, está mais ligada ao campo acadêmico, e tentando “salvaguardar-se” das ingerências do mercado, como
2Ver Veloso; Madeira. Leituras brasileiras, p. 93. 3
citou Eagleton.4Contudo, tentar manter a teoria literária como um discurso à parte tem sido cada vez mais difícil, como explica Eneida Maria de Souza:
Se antes a crítica de rodapé cedia lugar à universitária, criando-se um abismo entre a academia e a mídia, hoje o discurso crítico se nutre dos meios de comunicação de massa, através da apropriação dos procedimentos e da dicção enunciativa. A elitização cultural não mais se sustenta diante do apelo democrático dos discursos, razão pela qual a literatura deixa de se impor como texto autônomo e independente – se é que algum dia ela assim pôde ser vista.5
Além disso, Eneida de Souza enfatiza que o discurso sobre a literatura está diante da necessidade de mudanças frente aos fenômenos culturais. Para ela, está ocorrendo a passagem do discurso universalizante (que ainda tem seus defensores) para uma “dose excessiva de contextualização”, que pode moralizar o texto, por exemplo. Como defensora da interdisciplinariedade nos estudos contemporâneos, a pesquisadora acredita que os estudos literários podem ganhar força nesse novo cenário, justamente pelo fato do reconhecimento da presença do “discurso ficcional” em outras disciplinas e em outros discursos.
Tal posição é totalmente distinta daqueles segmentos críticos que defendem a delimitação entre os estudos literários e outras disciplinas. Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, crê que a presença forte do mercado e da indústria cultural se, por um lado, ampliou o acesso a bens culturais, por outro lado, fez predominar o entretenimento em vez do conhecimento e da estética. E, no âmbito acadêmico, a Literatura teria se tornado “terra de ninguém”, uma vez que especialistas de outras áreas procuram nas obras literárias respostas para a crise de paradigmas em suas próprias ciências: “ao ignorar o significante e concentrar-se no significado, privilegiam o que da obra literária e esquecem o como, aquilo em que ela se distingue e que é só dela.” 6 Ou seja, para Galvão, estudar obras literárias exige um conhecimento específico para determinar o seu fundamento estético, justamente o que as outras disciplinas não fazem, ao privilegiarem o conteúdo ou a biografia de seus autores. Assim sendo, a autora defende um estatuto da Literatura por ela mesma. Continuando no argumento, essa “contaminação” pelo mercado teria trazido modificações nas obras, como “o temor pela experimentação formal, na mediania do discurso, no recuo da preocupação estética.”7
4Ver Eagleton, A função da crítica.
5Souza, “Os livros de cabeceira da crítica”, p. 20.
6Galvão, As musas sob assédio: literatura e indústria cultural no Brasil, p. 10. 7
Posição muito próxima a de Leyla Perrone-Moisés8, que define os valores comuns compartilhados pelos escritores-críticos por ela estudados: maestria técnica, concisão, exatidão, visualidade e sonoridade, intensidade, completude e fragmentação, intransitividade, utilidade e impessoalidade. Ela questiona se essa literatura, baseada nesses valores, ainda existiria. E defende que os novos autores querem ser logo publicados, traduzidos, adaptados para o cinema e TV. Não querem, necessariamente, ingressar no cânone. São livros “light”, para serem consumidos rapidamente, em seus termos. Por outro lado, os estudos literários têm sido “estrangulados”, por professores de literatura “politicamente corretos”, que submeteram as análises e a própria escolha de textos a critérios de “raça”, “gênero” e “classe”.9Para ela, a literatura agora é literatura “como” (como depositária da memória cultural, como expressão das diferenças sexuais, como ideologia etc), e não está mais centrada na estética.
Posições como as últimas citadas são reações aos novos paradigmas sociais que terminam por colocar em xeque valores pretensamente universais, através dos quais eram organizados os estudos literários, além de outras áreas do conhecimento. Alguns críticos literários, como Beatriz Sarlo, têm tentado uma posição mais equilibrada, não deixando de valorizar os estudos culturais mais amplos, mas tentando ainda delimitar o campo dos estudos literários, em relação a outras disciplinas. Para Sarlo, a literatura está no campo da arte, que não é necessariamente sinônimo de cultura no sentido antropológico. O discurso artístico possuiria uma densidade estética e formal, que marcaria sua especificidade. Em sua concepção, os estudos literários e os estudos culturais necessitam um do outro, uma vez que ambos discutem a questão dos valores, no sentido do que é significativo. Se, por um momento, falar de valores estéticos denota uma posição difícil, pois sempre soaria como algo elitista e conservador, ela acredita que não haveria uma essência inquestionável em uma obra de arte, mas uma resistência de algo, tensionada pelo conflito e pela não-identificação direta. E tal conflito, traduzido pela arte e pela literatura, dar-se-ia em nível formal, não sendo objeto dos estudos culturais.10
A história dos estudos literários, e suas inúmeras tendências, revelam a própria historicidade de seu objeto de estudo. Sempre se pensou o que seria, afinal, “literatura”,
8Ver Perrone-Moisés, Altas Literaturas. 9Id, p. 191.
10Ver Sarlo, “A literatura na esfera pública”, “O lugar da arte” e “ Los estudios culturales y la crítica
e, em cada momento crítico, tendeu-se para essa ou aquela definição. Como resume Antoine Compagnon:
A teoria da literatura, como toda epistemologia, é uma escola de relativismo, não de pluralismo, pois não é possível deixar de escolher. Para estudar literatura, é indispensável tomar partido, decidir-se por um caminho, porque os métodos não se somam, e o ecletismo não leva a lugar algum. A dobra crítica, o conhecimento das hipóteses problemáticas que regem nossos procedimentos são, portanto, vitais.11
Definições baseadas em valores universais também são posicionamentos diante de um momento em que há uma profusão de adjetivos adicionados ao termo literatura: “feminina, negra, gay, infantil, marginal” etc. Isso é, em parte, devido, à própria política de visibilidade e de inclusão social de tais grupos, além do descentramento da própria noção de identidade, como coloca Stuart Hall:
De forma crescente, as paisagens políticas do mundo moderno são fraturadas dessa forma por identificações rivais e deslocantes – advindas, especialmente, da erosão da ‘identidade mestra’ da classe e da emergência de novas identidades, pertencentes à nova base política definida pelos novos movimentos sociais: o feminismo, as lutas negras, os movimentos de libertação nacional, os movimentos antinucleares e ecológicos.12
O questionamento da existência de uma cultura única, geralmente associada à classe dominante, a formação das identidades transnacionais e o papel dos meios de comunicação de massa na difusão e criação de processos simbólicos estão no cerne dessa discussão, movimentada, especialmente, pela ascensão dos estudos culturais. Os estudos culturais, com suas origens britânicas, terminaram por privilegiar as práticas culturais, entre as quais a literatura. Como salienta Maria Elisa Cevasco, a análise literária feita sob o leque dos estudiosos da cultura vai indagar as “condições de possibilidades históricas e sociais de considerar esse tipo de composição como literatura, e vão observar as condições de uma prática.”13
Ao analisar os ganhos dos estudos culturais, Terry Eagleton também ressalta o que chama de suas “metaquestões”: “‘Em vez de perguntar ‘Este poema tem valor?’, ela (a teoria cultural) pergunta ‘Que queremos dizer com chamar um poema bom ou mau?’”14 Para ele, as questões diretas e as metaquestões podem ser feitas conjuntamente, apesar da resistência da crítica convencional. O crítico destaca algumas conquistas de teoria cultural como a abertura para diversas maneiras corretas, não somente uma, de se interpretar uma obra de arte, a valorização da cultura popular como
11Compagnon, O demônio da teoria, p. 262.
12Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, p. 21. 13Cevasco, Dez lições sobre estudos culturais, p.149. 14
objeto de estudo, bem como o gênero e a sexualidade. Além disso, o fato de estar claro que uma obra de arte não depende só de seus produtores, mas de outros fatores, como “os jogos de poder e desejo nos artefatos culturais.”15
Se Terry Eagleton coloca o feminismo como um ramo da teoria cultural, Stuart Hall afirma que a intervenção feminista foi decisiva para a área. O feminismo reestruturou o campo, segundo ele, devido a vários fatores: a questão do pessoal como político foi revolucionária em termos teóricos e práticos, a noção do poder não só vinculado ao domínio público, a centralidade das questões de gênero e sexualidade, da subjetividade e a abertura para o diálogo entre a teoria social e a psicanálise.16
Visadas críticas que vinculam a arte e o texto literário a seu contexto histórico e social permitem pensá-los como campo, instituição e sistema, com todos os seus elementos integrados, como está sendo trabalhado nessa tese. E, como campo, também está sujeito a mudanças que são possíveis pela correspondência entre mudanças internas (diretamente determinadas pela transformação das possibilidades de acesso ao campo literário) e mudanças externas que oferecem às novas categorias de produtores e consumidores, como teoriza Pierre Bourdieu.17 Para ele, o campo literário também relaciona-se ao campo do poder. Penso que a inserção das mulheres no campo literário, e o feminismo, e sua vertente crítica, como uma força política atuante, foi capaz de promover mudanças no campo, especificamente nas tomadas de posições de seus principais agentes.