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Dan Dyrli Daatland

In document Humanistiske data nr 3 1990 (sider 21-26)

São de grande importância no mundo circense, os mestres que repassam seus saberes, facilitando a reprodução desta arte milenar chamada: circo. Na tradição das lonas, é comum que os circenses mais experientes repassem conhecimentos da profissão a novos artistas. Silva (2009, p. 106) dirá que “o condutor do processo de aprendizagem que formava um artista era considerado mestre”. Esta figura, tradicionalmente, se responsabiliza pelo processo de aprendizagem que possibilita a formação característica do circo de itinerância; é um “mestre da arte circense, mestre de um modo de vida, mestre em saberes – ou seja, um mestre “pertencente à tradição”, pois durante toda a sua vida participou das experiências de socialização, formação e aprendizagem que caracterizavam o circo-família” (idem).

No caso das narrativas empíricas analisadas nesta dissertação, trata-se não só do reconhecimento – e também dele – aos maravilhosos mestres que investiram longas horas ao ensino da arte do picadeiro, mas de apontar uma lacuna representativa de mestres da tradição que, ao meu ver, está diretamente atrelada à condição de ausência ou à pouca frequência de circos em Belém. E, consequente, a falta de espaços onde obter e gerar troca de conhecimentos, assim como a transformação do processo de ensino-aprendizagem das atividades circenses que se expandiu em Belém, principalmente, a partir do século XX. Sobretudo, se consideramos que originariamente “não podia ser qualquer circense a desempenhar este papel. Ele teria que realmente deter todo conhecimento a respeito do circo

em geral e saber como ensinar” (idem, p. 107). Devia saber de tudo a respeito de circo, em suma, resumia-se a gente criada em circo de lona.

Se por exemplo, olharmos para Jorge Torres Azevedo111, uma das figuras chave que influenciou na minha formação circense nos primeiros meses em Belém, veremos que o currículo do mestre não comporta os requisitos de “ser criado no circo”. Por isso é que nos conhecemos quando na época, ele ministrava uma oficina de acrobacias na Casa da Linguagem e não debaixo das nômades lonas do circo. Em todo caso, aprendi deste mestre, como revirar cambalhotas, fazer figuras de portagem112 e a equilibrar na perna de pau; as

técnicas passadas com eficácia fazem parte do meu repertório de apresentações desde então. Aqui, duas ressalvas podem ser feitas: a primeira, a respeito da minha formação como circense que iniciara por meio do conhecimento da dança e com a aquisição de habilidades de malabarismo e, posteriormente, em números aéreos de corda indiana, trapézio fixo e tecido. Diferente da formação que normalmente acontece nos circos tradicionais em que o artista inicia-se com o aprendizado das bases de acrobacia de solo. Ou seja, rolamentos, saltos e acro de força para, somente depois, aderir a alguma outra modalidade. A segunda ressalva é quanto aos espaços que serviram para essa formação, a começar nos institutos de dança, mais tarde como artista mambembe, em caravanas e, finalmente, em circos de lona e com artistas da tradição do circo itinerante, tanto brasileiros quanto estrangeiros.

À medida que convivíamos com as artes acrobáticas, Jorge passou a ver minhas apresentações com malabares e fez um convite que consolidou a primeiramente oficina em que eu ensinara as técnicas de swing poi e swing de bastões para um grupo local. Era ainda o ano de 2002, quando ele me apresentou ao ator e diretor Marton Maués e a companhia de atores-clowns, Palhaços Trovadores. Naquela noite, fiz uma breve demonstração “malabareando” com swings fire ao som de uma música instrumental escolhida por Marton à sorte. Foi um momento que ficou gravado na memória e o início de um longo relacionamento.

Naquela noite, outro novo integrante chegava ao grupo, era Antonio Marcos (AM)113 com quem criamos fortes laços de arte e amizade. Eles foram minha primeira família em

111 Jorge Torres Azevedo é professor do Curso Técnico da ETDUFPA. Ator formado pela ETDUFPA, Iluminador e integrante do Grupo Palhaços Trovadores. Curiosamente, as oficinas que Jorge ministrava não eram denominadas de circenses, senão de teatro ou arte de rua.

112 Portagem é o ato de carregar uma ou mais pessoas a fim de executar uma manobra acrobática ou figura. O porto, porteur, também chamado de forte, pedestal, portador ou base é quem sustenta o volante. “Ele segura, impulsiona, sustenta e equilibra o acrobata volante, com ou sem o auxílio de aparelhos. No trapézio de voos também é chamado de aparador” (MAVRUDIS, 2011, p. 172).

113 Antonio Marcos Cruz do Rosário, apelidado de AM é ator e artista circense, em formação na Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro (ENC). Foi contemplado em 2010 com a Bolsa Funarte para Formação em Artes Circenses, tendo como especialidade o malabarismo, equilíbrio em bola e Trapézio. É integrante do grupo

Belém e meus primeiros amigos, com os quais compartilhei alegrias e tristezas, vitórias e derrotas. Com eles, não somente aprendi as técnicas da triangulação do palhaço e as primeiras noções da história do circo no Brasil, mas, também, aprendi a arte de rir. E que o riso nem sempre é contagioso.

Para Minois “a afirmação dos temperamentos nacionais é acompanhada por certa diversificação geográfica do riso [...]” (MINOIS, 2003, p. 300), o que explica porque fora extremamente difícil para eu entender o humor belemense, o humor brasileiro não fazia nenhum sentido para mim. Compartilhar uma mesa de bar ou um aniversário podia ser o caos da minha psicologia emocional. Saía frustrada, sem compreender porque não conseguia rir junto com eles. Além de eles rirem muito de mim e dos meus erros de “portunhol” e de fazer piadas que me deixavam mais irritada do que feliz. Brincavam e se divertiam contando ou representando causos que nem sempre eram risíveis para minha alma estrangeira. Nisto, eles também foram meus mestres, ensinando muitas vezes o sentido e significado das palavras.

Com eles, também aprendi a maquiagem do palhaço. Com ajuda de integrantes do grupo surgiu Uvita, minha primeira palhaça de cara branca, mas sem muita definição, nem branco, nem augusto, um pouco de todos e adaptando-se às cenas que surgiam. Nem o branco sempre superior, nunca em problemas, intocável, nem o augusto de aparência estúpida, malandro e ganancioso e nem o contra-augusto que remata as piadas (HUGILL, 1980). Como a maioria dos palhaços, me inspirei em outros com maior experiência. E lembro bem como as mulheres do grupo foram de grande inspiração. Atrizes muito talentosas que se entregavam aos laboratórios de experimentação das cenas com toda generosidade. Elas foram minhas mestras-clowns.

O diretor por sua vez, nunca abandonou seu papel de branco, “botando quente” nos atores e agitando aqueles ensaios que só podiam acontecer no horário de 23h a 01h da madrugada. Era o que chamávamos de “horário maldito”, mas na verdade era uma bênção, porque de lá, saíram espetáculos como: “O singelo auto de Jesus Cristinho”, “Sem peçonha eu não trepo nesse açaizeiro”, “Clown sois o lírio mimoso”, “A quadrilha dos Trovadores no caminho da Rocinha”, “A morte do patarrão” e do “Aniversário do Auto do Círio”. Mas só um espetáculo foi totalmente montado naquele período: “Amor Palhaço”. Que teve sua merecida temporada debaixo da lona da Escola Circo de Belém. Naquela época montada na Praça da Bandeira. As melhores lembranças se acunham naquele local repleto de cores e crianças.

Os Trovadores foram minha primeira experiência com teatro, como preparação formal e profissional na cidade de Belém.

Durante os ensaios, os Palhaços Trovadores ocupavam uma sala da Escola de Teatro

e Dança da UFPA114 quando ainda era localizada na Rua Magalhães Barata, no bairro de São

Braz. Esse foi um espaço de trocas, e pude ter contato com atores, técnicos e professores de outras áreas. Dentre os frutos colhidos nessas trocas de experiência aconteceu, em 2003, o convite para preparar o Grupo coreográfico de dança da UFPA em técnicas de Pernas-de-pau. O grupo iria participar de um festival nacional e decidiram (por curiosidade) experimentar uma dança em altura. A paixão foi tal que até os bailarinos mais medrosos se dedicaram a longas horas de ensaios e experimentação corporal para atingir os passos, giros e coreografias propostas. Chamava a atenção que os homens do grupo eram robustos e, contudo, possuidores de ampla leveza e graça, conseguindo executar corridas, giros e pequenos saltos com admirável destreza. O espetáculo não ganhou a premiação, mas foi aplaudido com louvores e deixou uma marca indelével na lembrança dos que tiveram tão grata experiência. Esta lembrança é um dos marcos de minha atuação inicial como educadora circense.

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