Ao investigar sobre as ações do catolicismo no processo de colonização em Rondônia, escolheu-se como principal problema de pesquisa a historicização e problematização das práticas criadas pelos agentes do catolicismo no território correspondente a Diocese de Ji-Paraná, fazendo uma análise histórica do perfil da Igreja Católica através das atividades do Projeto Pe. Ezequiel, com base nos trabalhos da Pastoral da Saúde.
No início da colonização de Rondônia, a Igreja teve presença ativa no sentido de proporcionar estratégias e condições de atendimento às necessidades dos migrantes. As ações programadas perpassaram o nível da fé, possibilitando a historicização e estudo dos acontecimentos. A Igreja Católica se tornou um dos principais veículos de organização dos migrantes cedendo até mesmo seus espaços para acolhida e reuniões.
Na tentativa de entender a participação e o perfil da Igreja Católica em Rondônia e parte do Mato Grosso, nos territórios correspondentes a Diocese de Ji-Paraná, buscou-se perceber com base em Bourdieu (2007) a estrutura e organização do campo religioso, o sentido de habitus e o poder simbólico exercido pela Igreja neste período. Para concretizar os resultados procurou-se analisar a organização oficial da Igreja em nível universal e local. Constatou-se uma Diocese interligada a Roma, mas com uma estrutura peculiar, que como exemplo destaca-se no campo do trabalho religioso com a criação do Projeto Pe. Ezequiel visando atender as demandas dos migrantes que em grande parte chegavam para Rondônia despreparados para enfrentar os desafios e conflitos da colonização.
A abordagem demonstrou como a instituição buscou criar estratégias de ações que perpassaram o campo da fé. A Igreja enquanto responsável pelos "bens da fé" se preocupou também em oferecer condições de saúde e integração social. As quatro áreas de atividades do Projeto Pe. Ezequiel estavam voltadas para o trabalho social. Assim, transpareceu um perfil de Igreja que se caracterizou com o perfil progressista, que busca apresentar o novo. Os dados apresentados confirmaram que a Diocese de Ji-Paraná por ser uma Igreja com clero reduzido houve investimento na formação dos leigos, capacitando-os para assumirem a maioria dos trabalhos pastorais.
Por outro lado, a Diocese de Ji-Paraná se caracterizou como bispado progressista e inovador, pois as ações elaboradas por meio do Projeto Pe. Ezequiel e Pastorais Sociais demonstraram que a Igreja teve uma ação transformadora no processo de colonização de Rondônia possibilitando acolhida e apoio ao migrante. Os dados apresentados confirmaram
que a Diocese embasada na Teologia da Libertação promoveu educação, cidadania, saúde e integração social.
Esta análise primou como ponto de partida o estudo da presença histórica do catolicismo em Rondônia, principalmente as ações elaboradas no processo de colonização e seus conflitos, bem como o contexto da "Amazônia" que para a Igreja traz como característica própria da região as distâncias, dificuldades de estradas e carência de seus ministros do altar. Por isso, predominou-se o protagonismo dos leigos nas atividades elaboradas pela Igreja. Eles atuaram frente aos trabalhos tanto na programação como realização. Os Agentes de Pastoral, que são os representantes oficiais da Igreja, pertencentes ao clero ou não, trabalhavam em conjunto com os leigos. Notou-se como característica própria da Igreja Particular de Ji-Paraná a presença de Leigos Liberados nos trabalhos pastorais junto com o clero fazendo muitas atividades semelhantes, exceto o sacramento da confissão e unção dos enfermos que são específicas do ministro ordenado. Esta forma de organização caracteriza a Diocese de Ji- Paraná como uma Igreja que descentralizou o poder eclesiástico e fez o trabalho pastoral em parceria com os leigos.
Na análise contatou-se que as diferentes atividades programadas pela Igreja na “nova terra de missão” no campo religioso e social são característica própria da Igreja Particular local através do Projeto Pe. Ezequiel, que surgiu em 1988, período de intenso fluxo migratório para Rondônia. As propagandas do governo federal influenciaram a vinda de muitas famílias para Rondônia, mas ao mesmo tempo não criou estrutura para receber estes migrantes. Diante da demanda no atendimento dos migrantes observou-se que a Igreja criou esta frente de ação visando dar suporte no campo da educação popular, saúde, agricultura familiar, e apoio a criança e adolescente.
Constatou-se um perfil de Igreja que teve como organização eclesial as Comunidades Eclesiais de Base, e mediante as Pastorais Sociais realizou atividades de cunho social. Foi constatado que a Igreja realizou ações que perpassam a dimensão da fé, como por exemplo, o trabalho de alfabetização e saúde.
Ao abordar as ações do catolicismo a partir da Pastoral da Saúde evidenciou-se que esta instituição não criou uma prática inovadora no atendimento as pessoas. A Diocese de Ji-Paraná ofereceu possibilidade de socialização de práticas já existentes nas famílias. A Igreja promoveu o encontro das pessoas e ofereceu o local para que pudessem socializar práticas da medicina popular, e com isso, surge a Pastoral da Saúde, antes mesmo de sua oficialização pela CNBB em nível nacional. Assim, a Pastoral da Saúde foi espaço de
orientação e acolhida dos migrantes diante das consequências decorrentes do processo de migração.
O percurso transcorrido por esta pesquisa teve seu marco inicial na análise da presença do catolicismo em Rondônia. Notou-se a Igreja envolvida com as questões sociais. Os setores de trabalho do Projeto Padre Ezequiel estavam direcionados para as questões sociais. Neste sentido, a criação deste Projeto foi uma forma que a Igreja criou para dar resposta às necessidades dos migrantes.
No estudo do Projeto Pe. Ezequiel ficou evidente que a Igreja contou com a ajuda de uma instituição estrangeira para realizar suas ações. A Misereor favoreceu ajuda financeira para a realização das atividades e a Igreja com este recurso deu apoio aos migrantes nos setores em que a demanda por atendimento era maior. A análise possibilitou observar que as necessidades dos migrantes advinham da falta de estrutura e planejamento para receber a população.
A abordagem evidenciou uma realidade marcada pelo abandono das famílias frentes às políticas públicas do Estado de Rondônia. Por isso, em 1987, a Igreja Católica de Ji- Paraná faz um estudo mediante as Pastorais Sociais e Comunidades Eclesiais de Base e discutiram formas de contribuir com a organização dos migrantes e procuraram uma alternativa que pudesse atender as principais necessidades. Tendo feito a constatação, no ano de 1988, a Diocese criou o Projeto Pe. Ezequiel para atuar nos campos de maior necessidade, que foram: Agricultura Familiar, Saúde, Educação Popular e Criança e Adolescente.
Tendo como fundamento de estudo o Projeto Pe. Ezequiel, esta pesquisa traçou o perfil do trabalho religioso eclesiástico da Igreja Católica de Ji-Paraná no processo de colonização de Rondônia. Observou-se através deste estudo a marca de um catolicismo progressista voltado para as questões sociais, tendo como base de organização as Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais, na realização dos trabalhos em conjunto com os leigos.
Por conseguinte, a Diocese de Ji-Paraná estava envolvida no trabalho religioso com as pessoas que enfrentavam conflitos advindos do processo de colonização. Através das CEBs, Pastorais Saciais e CPT buscou-se organizar as pessoas na luta pelos direitos da terra e cidadania. A Igreja era o local de encontro das lideranças religiosas, sindicatos e associações para planejamento de ações em benefício do povo. Assim, a Igreja Católica ofereceu condições de saúde, cidadania e integração social.
No campo próprio de estudo observou-se que a Igreja organizou a Pastoral da Saúde para atender as pessoas doentes e oferecer medidas de prevenção. A Diocese
proporcionou encontros de formação em que as pessoas faziam o curso e depois se tornavam multiplicadores nas paróquias locais e atuavam nas "Centralzinhas" atendendo as pessoas. Este trabalho de atendimento era feito por leigos voluntários que alternavam semanalmente as atividades para prestarem serviços voluntários.
Para finalizar, vale apontar as possibilidades de abordagens da atuação da igreja no campo dos movimentos sociais, da luta pela cidadania, a atuação por meio das escolas políticas e o trabalho com a agroecologia. A historicização das ações da Igreja pode ser vista a partir de diferentes ângulos da história. Assim, os trabalhos religiosos desenvolvidos pela Diocese de Ji-Paraná permitem que o historiador analise as ações dos cristãos no campo social. Destarte, o campo da fé perpassa a produção dos bens religiosos e entra na dimensão social.