Nas últimas décadas vários autores (ARNOLD, 2000; CROOKES; SCHMIDT, 1991; DÖRNYEI, 1990, 1994, 2001a, 2001b; GARDNER, 2001; GARDNER; LAMBERT, 1972; REVUZ, 1998; WILLIAMS; BURDEN, 1999; entre outros) passaram a dedicar-se mais intensamente ao estudo de aspectos afetivos relacionados à aprendizagem de línguas estrangeiras, sobretudo após o declínio das teorias estruturalistas e o advento das metodologias de cunho comunicativo.
A Psicanálise, por exemplo, trouxe importantes aportes para os estudos lingüísticos, enfocando a afetividade. Revuz (1998) afirma que aprender uma língua estrangeira é, essencialmente, deslocar-se para um lugar desconhecido. Esse deslocamento, que para alguns pode ser prazeroso e interpretado como renovação e descoberta, para outros pode ser vivido como uma perda, gerando diferentes níveis de insegurança e temores. Para ela (1998, p. 217),
Toda tentativa para aprender uma outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está inscrito em nós com as palavras dessa primeira língua. Muito antes de ser objeto de conhecimento, a língua é o material fundador de nosso psiquismo e de nossa vida relacional.
Torna-se possível entender, portanto, que a aprendizagem de línguas estrangeiras seja para alguns um processo tão árduo, principalmente depois que o aprendiz atinge uma certa
43
Neste trabalho tomamos a definição de Krashen (1985, p. 1) para os termos “aquisição” e “aprendizagem”. Para esse autor, a aquisição é um processo que se desenvolve no nível do subconsciente, por força da necessidade de comunicação, semelhante ao processo de assimilação que ocorre com a língua materna. Já a aprendizagem é um processo consciente que resulta do conhecimento formal “sobre” a língua.
idade44, uma vez que, entre outros fatores, interfere a reflexão acerca do que significa aprender outra língua e conhecer outra cultura. Claro que outros aspectos também serão responsáveis por tornar o processo bastante complexo (como por exemplo a capacidade de memória, o conhecimento de mundo etc.) mas não se pode negar que a dimensão afetiva assume importante papel nesse contexto. Aprender um idioma estrangeiro é um processo muito mais abrangente do que decorar listas de vocabulário e regras gramaticais; é saber necessariamente interagir com o outro e muitas vezes desconstruir significações adotadas durante anos. Conforme afirma Revuz (1998, p. 223),
O que se estilhaça ao contato com a língua estrangeira é a ilusão de que existe um ponto de vista único sobre as coisas, é a ilusão de uma possível tradução termo a termo, de uma adequação da palavra à coisa. Pela intermediação da língua estrangeira se esboça o deslocamento do real e da língua. O arbitrário do signo lingüístico torna-se uma realidade tangível, vivida pelos aprendizes na exultação... ou no desânimo.
Essas “desestabilizações”, muitas vezes não nitidamente conscientes, somadas a outros fatores afetivos negativos, como baixa auto-estima, desmotivação, ansiedade, inibição etc., podem dificultar ou mesmo comprometer o processo de aprendizagem. Krashen, lingüista norte-americano amplamente conhecido, atribui aos fatores afetivos uma importância considerável em sua teoria uma vez que, para ele, esses fatores estão diretamente relacionados tanto ao processo de aquisição/aprendizagem de uma língua estrangeira quanto aos resultados obtidos ao final desse processo. Para Krashen (1985), fatores como desmotivação, alta ansiedade e baixa autoconfiança podem dificultar tanto a aquisição quanto a aprendizagem. Por outro lado, estas serão facilitadas se houver condições psicológicas favoráveis, como motivação, baixa ansiedade e autoconfiança elevada.
O Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (2001), importante publicação no campo da didática de línguas estrangeiras, também reconhece que a aprendizagem de idiomas não pode se pautar apenas pela cognição:
A actividade comunicativa dos utilizadores/aprendentes é afectada não só pelo seu conhecimento, pela sua compreensão e pelas suas capacidades mas também por factores pessoais relacionados com as suas personalidades individuais, que se caracterizam pelas atitudes, motivações, valores, crenças,
44
Segundo alguns teóricos, como o neurologista Eric H. Lenneberg (1921–1975), existe um período no qual o aprendizado de línguas estrangeiras se dá com maior facilidade. Essa fase se estende até a puberdade quando, a partir de então, a aprendizagem só ocorrerá mediante um esforço consciente e trabalhoso (LENNEBERG, 1981, p. 206).
estilos cognitivos e tipos de personalidade que contribuem para a sua identidade pessoal. (p. 15245)
Atualmente podemos contar com vários estudos que se dedicam à relação entre os fatores afetivos e a aprendizagem de línguas estrangeiras. Os fatores mais comumente pesquisados na área de Lingüística Aplicada são:
- a ansiedade: Arnold (199446), Bailey (198347), Eysenck (197948), Ganschow et al. (199449), Horwitz, Horwitz e Cope (198650), Horwitz e Young (199151), McCoy (197952), Nascente (200453), Oxford (2000); Price (199154), Rubio (199555), Scovel (197856), Young (198657);
- a autonomia: Aoki (2000), Benson e Voller (199758), Breen e Mann (199759), Dam (199460), Gremmo e Riley (199561), Holec (198162), Little (199163), Pemberton et al.
45
Consultamos a versão em português do documento, que usa a variante de Portugal.
46
ARNOLD, J. La ansiedad en la comprensión auditiva: una posible solución. In: BRUTON, A.; ARNOLD, J. (Eds.) Lingüística Aplicada al Aprendizaje del Inglés. Alcalá de Guadaira, 1994. p. 109-118.
47
BAILEY, K. M. Competitiveness and anxiety in adult second language learning: Looking at and through the diary studies. In: SELIGER, H. W.; LONG, M. H. (Eds.) Classroom-oriented Research in Second Language
Acquisition. Rowley, Massachusetts: Newbury House, 1983. p. 67-102. 48
EYSENCK, M. W. Anxiety, learning and memory: A reconceptualization. Journal of Research in
Personality, v. 13, p. 363-385, 1979. 49
GANSCHOW, L. R et al. Differences in language performance among high-average and low-anxious college foreign language learners. Modern Language Journal, v. 78, p. 41-55, 1994.
50
HORWITZ, E. K.; HORWITZ, M. B.; COPE, J. A. Foreign language classroom anxiety. Modern Language
Journal, v. 70, p. 125-132, 1986. 51
HORWITZ, E. K.; YOUNG, D. (Eds.) Language anxiety: from theory and research to classroom
implications. Nueva Jersey: Prentice Hall, 1991. 224p. 52
MCCOY, I. Means to overcome the anxieties of second language learners. Foreign Language Annals, v. 12, p. 185-189, 1979.
53
NASCENTE, R. M. M. Ansiedade e aprendizagem de língua inglesa. In: MONTEIRO, D. C. (Org.) Ensino-
aprendizagem de língua inglesa em alguns contextos brasileiros. Araraquara: Cultura Acadêmica, 2004. p.
71-98.
54
PRICE, M. L. The subjective experience of foreign language anxiety interviews with high-anxious students. In: HORWITZ, E. K., YOUNG, D. (Eds.) Language anxiety: from theory and research to classroom
implications. Nueva Jersey: Prentice Hall, 1991. p. 101-108. 55
RUBIO, F. D. Ansiedad en los exámenes orales de inglés. 2000. Tese de Doutorado. Universidad de Sevilla, 1995.
56
SCOVEL, T. The effect of affect on foreign language learning: A review of the anxiety research. Language
Learning, v. 28, p. 129-142, 1978. 57
YOUNG, D. The relationship between anxiety and foreign language oral proficiency ratings. Foreign
Language Annals, v. 19, p. 439-445, 1986. 58
BENSON, P.; VOLLER, P. (Eds.) Autonomy and Independence in Language Learning. New York: Addison Wesley Longman, 1997. 270p.
59
BREEN, M. P.; MANN, S. J. Shooting arrows at the sun: perspectives on a pedagogy of autonomy. In: BENSON, P.; VOLLER, P. (Eds.) Autonomy and Independence in Language Learning. New York: Addison Wesley Longman, 1997. p. 132-149.
60
DAM, L. How do we recognize an autonomous classroom? Die Neuren Sprachen, v. 93 (5), p 503-527, 1994.
61
GREMMO, M. J.; RILEY, P. Autonomy, self-direction and self-access in language teaching and learning: the history of an idea. System, vol. 23 (2), p. 151-164, 1995.
62
HOLEC, H. Autonomy and Foreign Language Learning. Oxford: Pergamon Press, 1981. 64p.
63
(199664);
- a autoconfiança lingüística: Clément, Dörnyei e Noels (199465), Labrie e Clément (198666), Noels, Pon e Clément (199667);
- a auto-estima: Galyean (197768), Heyde (197969);
- a motivação: Brown (199070), Crookes e Schmidt (1991), Dörnyei (1990, 1994, 2001a, 2001b), Ely (198671), Gardner (198572, 2001), Gardner e Lambert (1972), Oxford e Shearin (199473), Skehan (198974), Williams e Burden (1999), entre outros.
No que tange especificamente ao fator motivação, pode-se afirmar que nos últimos anos houve um número crescente de estudos relacionados ao tema, alguns dos quais comentamos a seguir.