3 Utslippsoversikt
3.1 Dagens situasjon
Traçados alguns tópicos acerca da “intriga” judaico-cristã no horizonte transcendente, em que pudemos perceber as distinções entre as concepções judaica e cristã acerca da revelação e da redenção, podemos agora elaborar o conceito próprio do Amor, nesta ambiência.
Da mesma maneira que se constitui a intriga entre os “dois mundos”, se constituirá a intriga entre o amor-cristão e o amor-judaico no plano transcendente.
271 Idem, p. 207. 272 Idem, p.190.
Ainda em tom de crítica, Lévinas escreve que o cristianismo se apóia numa concepção de amor a Deus que desculpabiliza o homem do mal praticado contra o outro homem273. O ocidente absorve isto, o qual denomina de hipocrisia274, isto é, um
esquecimento da próprio Mandamento e fruto de um distanciamento da Torah/Revelada, que na última conseqüência leva à guerra.
A) O Ideal do Amor Cristão
Apresentamos de modo sintético, como ideal do amor cristão, a concepção de Santo Agostinho e seus prolongamentos ao longo da história.
Em A cidade de Deus lemos: “Dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Gloria-se a primeira em si mesma e a sengunda em Deus, porque aquela busca a glória dos homens, e tem esta por máxima a glória de Deus275”. Segundo Montagna,
Como se vê, pelo duplo preceito de amor, Agostinho faz da ordem social um prolongamento da ordem moral individual, pois a organização dos homens em sociedade (Estado), fundamentada na reta ordem do amor, não tem outra finalidade senão garantir a paz temporal, ou felicidade temporal imediata dos homens; mas, tendo em vista a “paz eterna” ou “verdadeira felicidade” a se alcançada em Deus. Neste sentido podemos dizer que toda a moral, toda a sociologia, toda a política de Santo Agostinho não é senão a aplicação do primeiro de todos os mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito” (Mt 22, 37).276
É essa “ordem do amor” que continua alimentando o cristianismo ao longo de sua história, como salienta Assis277:
Mais do que tudo, porém, apostamos na esperança de que em nossa existência seremos, de fato, identificados misticamente com Cristo, salvos nele pelo sangue vertido outrora das chagas cujas marcas são ainda visíveis. Os seres humanos, então celebrarão na Trindade o culto sem fim inaugurado pelos coros angélicos.
273 Cf. RIBEIR JÚNIOR, p. 190.
274 A civilização ocidental é hipócrita porque se diz tendo raízes na Bíblia e no entanto faz a guerra. Cf. TI
9; LC 82; SA 177.
275 AGOSTINHO. A cidade de Deus. XIV, 28. 276 MONTAGNA, Leomar Antonio.
A ética como elemento de harmonia em Santo Agostinho. Dissertação de Mestrado; Curitiba: PUC-PR, 2006; p. 66.
277 Cf. ASSIS, Cristiano Francisco.
Alteridade e Salvação: o Rosto Salvífico de Deus. Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado à Faculdade Dehoniana, para a obtenção do título de Bacharel em Teologia, 2006, pp. 53-54.
A existência humana realizada na história da salvação especificamente no cristianismo não é, pois, somente relativa ao presente. Mediante a fé somos unidos a Deus pelo Cristo histórico e transcendente. Pela caridade, participamos no amor do Pai expresso e comunicado no Verbo encarnado. Na esperança da graça salvífica, já partilhamos a Jerusalém celeste, isto é, a comunidade bem-aventurada, uma vez que Deus estará em todo cosmos e em todos, luz e alegria. Nesta nova realidade acontecerá a definitiva convivência humana dentro de um cosmos totalmente transformado. Nas palavras proféticas de Isaías “... como os novos céus e a nova terra, que hei de fazer, durarão diante de mim – diz o Senhor – assim durará a vossa posteridade e o vosso nome na eternidade” (cf. Is 66,22).
Portanto, a história será encerrada e a eternidade sem ruga assumirá a obra totalmente nova. Toda amizade e toda afinidade real, consagrar-nos-ão para sempre na cidade de Deus, onde veremos seu rosto, face a face, e experimentaremos na plenitude da vida a alteridade da salvação eterna e nossa própria definitiva e total felicidade. Então a Igreja será “consumada na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas, e com o gênero humano também o mundo todo que está intimamente ligado ao homem e por meio dele atinge sua finalidade, encontrar sua restauração definitiva em Cristo”278.
B) A Proposta Ética do Amor Judaico
Como vimos no segundo capítulo desta dissertação, é no judaísmo ético- intelectual que percebemos alargar a noção do compromisso e da responsabilidade para com o outro homem. Junto a essa responsabilidade, está a noção do amor. Recorremos aqui, mais uma vez, às análises feitas por Guttmann, sobre a história do judaísmo no ocidente.
Para Lazarus, é a noção do princípio kantiano da autonomia, que viabiliza o amor nas relações éticas. Segundo ele,
tal princípio kantiano é o mesmo princípio da ética judaica porque, tomado como um sentimento ético religioso, exige o cumprimento de estatutos éticos, divinamente dados, de puro amor a Deus sozinho, e devido a uma aspiração a imitar Deus, bem como por ser o referido princípio dotado de intensa consciência daquela certeza interna implícita na idéia do bem ético279.
278LUMEN GENTIUM, p. 48. 279 GUTTMANN, p. 380.
O conceito do amor em Cohen será melhor desenvolvido, ainda que continuador do pensamento de Lazarus. Para este, não basta um imperativo ético, e nem uma comunidade de “a sós com Deus”, mas é preciso um “sentimento ético”. Desta forma, o seu ativismo encontra essa realização na ação ética, que dimana do sentimento; nesse atuar reconhece que a intimidade da comunidade ética surge tão somente do senso de unidade com o próximo, que também deriva do sentimento. Enquanto a própria ética reconhece apenas a reverência que devemos à dignidade ética de nosso próximo, a piedade é transformada em amor para com o nosso semelhante. Segundo Guttmann, “o conceito fundamental da estima ética não é, destarte, substituído, mas converte-se na pressuposição que permite ao amor tornar-se amor ético. Essa nova relação moral constitui, para Cohen, uma relação religiosa, distinta da puramente ética280”.