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Dagens manøvreringspraksis

7. Beskrivelse av manøvreringsreglement og manøvreringspraksis

7.3 Dagens manøvreringspraksis

A segunda e última categoria de sentidos e significados presente nas relações entre os dez irmãos adolescentes pesquisados é a amizade entre eles, analisada a partir dos dados das entrevistas e dos grupos focais. A amizade, nesse estudo, é entendida como uma importante dimensão da afetividade humana. Com fundamentação na teoria vigotskiana, a afetividade não constitui nenhuma fraqueza, mas a expressão da própria potência de agir e de existir humanos, ou seja, é a própria realização, sendo a força que move os indivíduos.

A afetividade, portanto, não está em oposição à razão ou à cognição, não existindo essa dicotomia ou cisão entre essas dimensões. O homem sócio-histórico é, ao mesmo tempo e dialeticamente, produto e produtor de sua própria história mediante a sua capacidade de afetar e de ser afetado. Portanto, a afetividade constituiu um relevante aspecto para se compreender as relações entre irmãos adolescentes.

Nas relações entre os irmãos adolescentes deste estudo, pôde-se observar, por intermédio do material empírico, como os aspectos de cooperação, ajuda mútua, aprendizado, cuidados uns com os outros estão presentes como forma de expressão amorosa entre eles. O seguinte trecho do GF2 ilustra bem isso:

Pesquisadora: Nós vamos falar sobre a relação entre irmãos. Outra questão

entre irmãos, nem tudo são flores... Vocês concordam com isso? Há muitas dificuldades, mas também realizações e alegrias? O que vocês acham?

Débora: Tem alegrias também (grifo nosso).

Ricardo: Só se for você, porque onde eu for, eu tenho que levar a anta [referindo-se à irmã Karla].

Débora: Sabe por quê? Olha só. Que nem a minha mãe vive falando. Eu

mais a Bianca, a gente briga, briga, briga, mas, no final, uma não fica longe da outra. A Bianca, quando ela viaja, eu fico que nem no ano passado. Ela viajou nas férias de julho e eu fiquei com a minha mãe, porque a minha mãe tava de resguardo. Aí, ela ligava pra minha mãe. Aí, eu ia falar com ela, mas não dava conta, começava a chorar... A minha mãe falava assim: “Essas duas, eu não entendo! Elas brigam, brigam, brigam, mas uma não dá conta de viver longe da outra.” Ela chorava de lá e eu chorava de cá. (grifo nosso) Jorge: A Jordana me ajuda nas tarefas [...] Só que eu ajudo mais ela do que

ela me ajuda. Eu gosto demais dela, porque ela me ajuda.

Wiliam: Soltar raia [sobre o que aprendeu com o irmão].

Nota-se que Débora, Jorge e Wiliam realçaram a amizade existente nas relações com seus irmãos, também relatando o que puderam aprender com eles. Já Ricardo mencionou a irmã como um fardo, pois tem de carregá-la onde quer que vá.

Jorge frisou, não apenas no GF2, mas também na entrevista, que pode contar com a ajuda da irmã, Jordana, em vários momentos:

Eu me sinto muito bem, porque tem hora que quando eu preciso dela, ela me ajuda. E quando ela precisa de mim, eu ajudo ela. [...] Eu ajudo ela a ter

mais facilidade em matemática. As coisas que eu sei, eu ajudo ela. E as coisas que ela sabe, ela me ajuda.

Percebe-se que há, entre os dois, uma relação mútua de cooperação, em que cada um se dispõe a colaborar com o outro em momentos de dificuldade. Da mesma forma que Jorge, Jordana sente que pode contar com o auxílio do irmão:

Quando nós estamos de boa, nós somos superamigos. Eu conto coisas pra ele, a gente brinca. Ontem, eu estava atrasada para um curso de violão, ele pegou a bicicleta e me levou. Porque lá não deixa a bicicleta. Porque lá não tem onde trancar. Ele pegou e me levou lá, sabe? Eu conto coisas pra ele. Muito bom. [...] Quando a gente não tá brigado, quando não estamos

emburrados um com outro, eu posso conversar com ele, contar com ele, que ele dá até presente. Eu quero falar alguma coisa que eu não fiz hoje, eu posso falar pra ele.

Nesses trechos de sua entrevista, ela contou que tem no irmão um amigo, alguém com quem pode conversar, e ele se mostra disponível para ajudá-la quando ela necessita. Percebe-se que há uma relação de ajuda mútua entre os irmãos, transparecendo um sentimento positivo entre eles. Com base na teoria vigotskiana, Brandão (2008) afirmou que todo sentimento é uma avaliação da condição humana,

ou seja, da relação do homem com o mundo e consigo mesmo. “Longe de ser uma expressão mecânica da vida instintiva, como se acreditava na psicologia tradicional, imersa no seu dogmático objetivismo darwinista, a afetividade é entendida por Vygotsky como fundante de toda atividade psicológica” (BRANDÃO, 2008, p. 148).

Os desenhos feitos pelos dois sobre a sua relação revelam situações em que ambos estão brincando, em interação, em união. Jordana explicou a representação que fez de sua relação com o irmão (Desenho 4) da seguinte forma:

Esse desenho é a rua que eu mais gosto. E eu estava junto com meu irmão. É a hora que nós dois estamos conversando, com os amigos dele e eu com os meus, ou então, nós dois. Eu acho que o desenho mostra eu e meu irmão brincando e conversando na rua, interagindo.

Desenho 4. Representação de Jordana para a relação que tem com seu irmão Jorge.

Jordana, assim, retratou graficamente um momento em que os dois explicitaram essa amizade, essa interação.

No entanto, sobre o desenho que Jorge fez da relação entre eles (Desenho 1), a adolescente comentou durante o GF1:

Eu não entendi isso aqui. Porque, assim, nós dois não brincamos, nós dois não jogamos bola, nós dois nem conversamos...

Sem entender o desenho do irmão, Jordana questionou os motivos pelos quais Jorge desenhou os dois jogando bola, pois, segundo ela, os dois nunca jogam juntos. Pode-se supor que “jogar bola” seja uma relação idealizada por Jorge, em que eles não brigam, mas brincam. Também no GF1, ao ser indagada pela

pesquisadora se a relação com o irmão a ajuda a crescer/amadurecer, Jordana respondeu:

Bem, meu irmão, tem hora que é bom, porque ele tem muito amigo. Aí, eu acabo me enturmando também. Porque eu não conheço quase ninguém lá da rua... Meu irmão tem tanto amigo!

Essa opinião também foi endossada por Bianca no grupo:

Eu acho que ajuda a crescer. Pelo menos, a Débora ajuda. [...] Quando ela

acha que está errado e quando não está... ela me ajuda.

Ao ver o desenho feito por Jordana na reunião do GF2, Jorge esclareceu:

Aqui eu vi... Eu e o Neguinho e a minha irmã. Aí, a gente estava jogando ioiô na rua.

Complementou, em seguida, que a irmã quis passar uma mensagem boa por meio do desenho. Percebe-se que o desenho de Jordana traz uma ação entre os irmãos, expressa por meio de um diálogo entre eles. A ilustração corroborou o que ela já havia mencionado na entrevista, que é justamente o que gosta de fazer com o irmão: conversar e poder confiar a ele seus segredos, demonstrando a relação de amizade entre eles.

Durante a entrevista, Ricardo explicou que se preocupa em ajudar a irmã, Karla, quando esta precisa:

Muitas vezes, ela já chegou em mim e perguntou como é que resolve alguns exercícios. E já vou explicando a questão, “Não. Você pega isso, resolve isso, toma... Aí, dá resultado.” Eu já ensino pra ela como é que faz a conta. Aí, se ela não aprender, eu vou e faço uma vez com ela e, aí, já falo, “Agora o caso é com seu professor, que ele que ganha pra isso e não eu.” Aí, ela já vai atrás do professor. Ela corre atrás.

Ricardo garantiu que ensina as tarefas escolares para a irmã, mas deixou claro que há um limite para este suporte quando afirmou que explica e faz uma vez junto com ela para que entenda; no entanto, se ela não conseguir compreender, deverá procurar o professor. Ao explicar a representação que fez da relação com a irmã, Ricardo disse que desenhou um brinco (Desenho 5), simbolizando, segundo ele, a união entre os dois:

Eu desenhei um brinco, porque, quando eu furei a orelha, a gente ficava trocando brinco. Eu comprei meus brincos e ela tinha uns brincos. Ficava trocando os pares de brinco. Ela queria usar meus brincos e eu pegava e dava o brinco pra ela. E eu, de vez em quando, queria usar um brinco dela. Aí, pegava, a gente ficava trocando brinco. Igual, quando assim, moleque troca figurinha de... Fica trocando figurinha. Com ela, eu trocava brinco. E

isso é a única coisa que a gente deu certo, até hoje, cem por cento, é isso.

(grifo nosso)

O comentário feito por Ricardo sobre seu desenho é muito significativo, pois demonstra que um simples par de brincos construiu uma conexão entre os dois. Por ele ter também a orelha furada, o ato de compartilhar brincos foi percebido como união, ligação entre eles. Esse compartilhamento foi tão importante a ponto de Ricardo afirmar que o único ponto em que ele e a irmã combinaram totalmente foi quando houve essas trocas de brincos. Da mesma forma, Karla expressou durante a entrevista que ajudaria o irmão, caso este precisasse:

Se ele pedisse, eu ia ajudar ele... Fazer as tarefas. [...] Às vezes, ele me dá

as coisas. Me dava brinco pra eu colocar na minha orelha. [riso] Às vezes,

ele saía e me levava com ele... Era bom...

Desenho 5. Representação de Ricardo para a relação que tem com sua irmã Karla.

Karla também retratou a importância desse fato, pois enfatizou essa troca de brincos que fazem, simbolizando o compartilhamento, o uso em comum de algo. A adolescente falou da satisfação que sentia quando o irmão a levava para sair, demonstrando, com isto, que há uma relação de amizade entre os dois.

Nas discussões do GF1, quando Karla viu o desenho feito pelo irmão, não conseguiu decifrar o que significava, interpretando-o como uma flor:

Eu acho que o Ricardo gosta de mim. [...] Eu não entendi muito esse

desenho aqui, não... Parece uma flor.

Em seguida, a adolescente questionou a pesquisadora sobre o que Ricardo havia desenhado. A pesquisadora repassou a Karla a resposta emitida pelo irmão, explicando-lhe que aquele desenho não representava uma flor, mas um brinco. Então, quis saber se isso fazia algum sentido para a adolescente, ao que esta respondeu:

Ah... Porque quando ele furou a orelha dele, eu fui a primeira a saber e eu não contei pra minha mãe. Aí, toda vez que eu usava um brinco ou ele usava, ele pedia pra eu não falar pra minha mãe e eu não falava. Ele furou a minha orelha também.

Quando Karla descobriu que Ricardo havia desenhado não uma flor, como ela julgara, mas um brinco, ela não se decepcionou, pois esta foi a forma encontrada pelo irmão para mostrar a ela que aquele objeto simbolizava união entre os dois, mensagem facilmente captada por Karla.

Notou-se, ainda, o pacto entre os irmãos de guardar segredo sobre o uso do brinco. Ricardo já havia relatado na entrevista que furou uma orelha escondido da família e que sua mãe e avós reprovam o uso de brinco. Quando vai à casa dos avós, não usa o brinco por respeito a eles e também para não parecer, segundo ele, provocação. Karla relatou que foi a primeira a saber sobre o que Ricardo tinha feito e não contou nada à mãe. Também disse que foi o irmão que furou suas orelhas. Assim, esse episódio configurou-se como importante acordo entre eles, sendo o brinco a representação desta relação. Karla ainda complementou:

Eu acho que ele gostou de eu não ter falado nada pra minha mãe. [...] A

gente troca de brinco.

Nessa fala, a adolescente reconheceu que o fato de não ter contado nada para a mãe sobre o brinco do irmão fez com que Ricardo sentisse confiança nela e tivesse um sentimento positivo em relação à irmã. Por intermédio das falas dos adolescentes, nota-se que entre Ricardo e Karla existe uma cumplicidade percebida por ambos como um sinal de amizade e afetividade. De acordo com Brandão (2008, p. 148), fundamentado na teoria vigotskiana,

É emocionalmente que construímos os nexos entre as funções psicológicas, transmutando-as em sistemas complexos, multiformes e mutantes. O que ocorre internamente é, por sua vez, expressão também do plano intersubjetivo, pois não existe linguagem sem pensamento e nem este sem afeto. .

Por meio dessa afirmação, pode-se perceber a importância dos afetos na vida das pessoas e como as funções psicológicas dependem deles, ou seja, linguagem e pensamento não existem sem afeto.

Entre a dupla de irmãos Wiliam e Breno, a relação de amizade é evidente. Acerca disso, Wiliam comentou na entrevista que:

Na hora que tem alguma coisa pra fazer e eu não posso, eu falo pra ele e ele vai lá e faz. [...] Na hora que a gente está aqui, sozinho, a gente vai

brincar, também. Nós soltamos raia. [...] Considero como amigo, também. [...] Quando ele tem coisa pra fazer, eu vou lá e ajudo ele. Ele me ajuda

depois.

No GF2, ao ver como Breno ilustrou a relação deles (Desenho 6), Wiliam demonstrou satisfação:

Eu estou indo pra escola. [...] Porque nós só vamos juntos pra escola. [...]

Sou muito estudioso.

Breno retratou os dois em uma cena que agradou seu irmão, já que Wiliam mesmo confessou ser muito estudioso. Provavelmente, a escola é um espaço no qual Wiliam se sente bem e em que gosta de estar; assim, Breno retratou a relação dos dois em um contexto prazeroso para o irmão.

Segundo Wiliam, Breno é um irmão com quem ele pode contar. Existe, entre eles, uma relação de cooperação e solidariedade, confirmada por Breno:

Quando ele tem as coisas, ele me dá. Quando eu tenho, também dou pra ele. Quando eu tenho dinheiro, eu vou e dou um pouquinho pra ele. Alguma coisa, ele também me dá. [...] Quando ele precisa, eu vou e ensino para

ele... E ele me ensina também.

Em sua fala, Breno reafirmou o que o irmão também já havia dito: há uma relação de ajuda mútua entre eles. Durante a discussão no GF1 em relação ao desenho feito pelo irmão (Desenho 7), Breno comentou:

Eu fiquei muito feliz! Nós dois jogando bola... É o que eu mais gosto. [...] O

Wiliam me fez com a minha camisona. Eu achei bom, porque ele desenhou o meu timão! Ainda bem que ele lembrou, né? Time que eu mais gosto, o Goiás.