É algo curioso defender a linguagem como um objeto de estudo da lingüística, e no entanto é exatamente a isso que dedicarei os três capítulos que compõe a segunda parte deste trabalho. Os apuros em que me encontro são diretamente causados pela maneira como irei definir linguagem, e, ainda assim, um e outro empreendimento - minha proposta de definição e a defesa da legitimidade desse objeto assim definido, no meu próprio campo de atuação acadêmica - são cruciais para a coerência deste trabalho. A meu favor, espero demonstrar a existência de tradições em uma série de disciplinas relacionadas entre si e com as questões da linguagem, que dão sustentação às minhas decisões conceituais.
Outra tarefa geral destes três capítulos é a de colher algum benefício, para o estudo particular das relações lingüísticas, da relativamente extensa discussão sobre biologia e evolução que constituiu a primeira parte do trabalho. Ainda que eu tenha reafirmado antes a importância das discussões biológicas e evolutivas em si mesmas para a abordagem de qualquer fenômeno em uma perspectiva biológica - e esse é bem o caso das relações lingüísticas - é necessário agora explicitar essa importância para o objeto de investigação deste trabalho, e, mais que isso, aplicar o resultado do debate teórico sobre evolução em minha abordagem proposta dos fenômenos lingüísticos (é claro, o “resultado” deve ser entendido como minha própria posição no debate).
Este capítulo 4 discute a tradição científica de correlação do objeto “humano” com o objeto “linguagem” em abordagens sobre fenômenos lingüísticos. Em atendimento ao foco deste trabalho, irei privilegiar as abordagens que passam pela biologia, seja as propriamente biológicas, seja as que se servem desse campo do conhecimento como embasamento ou justificação (nem sempre explicitados) da correlação humano-linguagem, seja as que, dada a sua estrutura conceitual ou teórica, irão implicar um certo entendimento da biologia. O elemento que une esses três casos - a biologia como disciplina de “partida”, de “meio”, ou de “chegada” - é que tanto é necessário uma certa biologia para justificar determinadas escolhas epistemológicas como, de resto, essas mesmas escolhas irão implicar uma determinada biologia, uma recursividade inescapável quando decidimos contextualizar biologicamente a linguagem, seja qual forem nossas motivações.
Para atender às duas tarefas gerais da Parte 2, acima mencionadas - construir e justificar minha definição de linguagem; e “colocar para funcionar” as discussões teóricas da Parte 1 em uma discussão propriamente lingüística - é necessário que este capítulo passe por quatro etapas distintas, a saber: uma discussão introdutória, ou “alerta”, sobre as premissas envolvidas na conceituação da linguagem como capacidade ou atividade exclusivamente
humanas (parte 4.2); uma discussão do contexto evolutivo humano, contrapondo, à idéia de evolução linear e à busca por traços distintivos, a evolução como diversificação de modos de vida (4.3); o papel dos estudos evolutivos e comparativos na construção da idéia de “evolução da linguagem” e nas discussões sobre as relações entre fisiologia e comportamento (4.4); e propor os processos lingüísticos como interações orgânicas - ou “infecções” - atuando recursivamente na conservação e diversificação de modos de vida (parte 4.5).
Sobre essa última parte do capítulo 4 é preciso fazer alguns esclarecimentos desde já. O título desta parte 4.1 - “Identificando o vírus” - pode soar negativo, algo como “apontando o problema”, mas trata-se do movimento exatamente oposto. A exemplo da curiosa proposta (sobre que, em termos literários, eu nada teria a dizer) do escritor americano William Burroughs da “linguagem como um vírus” (Burroughs, 1967), utilizarei essa metáfora biológica para uma conceituação provisória do fenômeno lingüístico, principalmente para distanciar-me da conceituação da linguagem como capacidade, e, além disso, como capacidade humana. Utilizo a metáfora dos vírus sabendo de suas desvantagens e riscos
interpretativos, que são quase tão grandes quanto os seus benefícios, mas a barganha é, na minha opinião, compensadora.
Uma maneira de identificar os compromissos epistemológicos de um biólogo é perguntar-lhe sobre o estatuto ontológico dos vírus (desde que ela ou ele tenha alguma opinião a respeito disso, e aqueles que transitam nas ciências biológicas geralmente têm uma opinião). Consensualmente, os vírus têm duas propriedades que lhes conferem um lugar seguro no reino dos objetos biológicos: funcionam perfeitamente bem como “partes” orgânicas (caso estejam efetivamente acoplados a um organismo pleno, e isso não implica dizer que a “parte” beneficie o “todo”); e evoluem (ou seja, conservam ou modificam suas linhagens ao longo do tempo; novamente, na dependência de manterem uma história de acoplamento com organismos de facto).
Mas, vírus são organismos?57 O zoólogo Richard Dawkins costuma dizer que essa é uma pergunta típica de “mentes descontínuas” (Dawkins, 2005). Tudo o que precisamos saber é que, assim como organismos têm sua “informação codificada” (no DNA ou RNA), os vírus são pouco mais que esse código em estado puro, e, portanto, sempre que tiverem a oportunidade, utilizarão as “máquinas gênicas” (isto é, nós) para se replicarem pelo simples fato de que a finalidade da informação é a auto-propagação (Dawkins, 1989; Dawkins, 1998). No entanto, a aparente consideração da pergunta como uma falso problema já revela a resposta desse autor, e a resposta é positiva (talvez mais categoricamente que o “não” de biólogos descontínuos). Dawkins vê na relação entre a “mensagem” (o programa genético) e o “meio” (nós, organismos) a dispersão da primeira através de realizações temporárias da segunda: essência e acidente, como poucos descontinuístas deixariam tão claro.
Os vírus desempenham, para Dawkins, o mesmo papel de princípio vivo dos genes, ainda que o autor diferencie “linhagens de informações”, e os vírus, como agentes “livres” e oportunistas, tenham tido um percurso evolutivo diverso do programa genético propriamente dito, que encontra-se hoje forçosamente ligado ao maquinário celular (um tema recorrente também nas discussões sobre um “mundo de RNA”, ou seja, de que moléculas replicadoras seriam evolutivamente anteriores à organização celular; Dawkins, 2004). Seja espiraladas nos cromossomos das células ou empacotadas em vírus, as moléculas replicadoras são para muitos biólogos o “princípio vital”, e portanto, ainda que não idênticas ao organismo, são idênticas ao que é importante em um organismo: “está chovendo DNA lá fora”, diz Dawkins (2001), observando, da janela de sua casa, sementes caindo de um salgueiro.
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Na citação de Burroughs na abertura deste capítulo, o autor utiliza “vírus” e organismo” como termos intercambiáveis, mas eu não apostaria nisso como um indicativo da opinião do próprio Burroughs sobre a ontologia dos vírus. É em cima da relação parasita-hospedeiro da “palavra” com o “humano” que Burroughs constrói sua fantasia (ou descoberta). Para o autor, parece-me, não haveria muita diferença se o tal parasita fosse um tipo de bactéria ou qualquer outro micro-organismo funcionalmente adequado. Ainda assim, Burroughs tem sua própria história sobre o surgimento, ou evolução, do tal vírus-organismo: “The word is now a virus (...) The word may once have been a healthy neural cell. It is now a parasitic organism that invades and damages the central nervous system”. (Burroughs, 1967). A identificação de uma “célula” com um “vírus” demonstra, ao
Outros biólogos são menos propensos a conferir ao DNA ou ao RNA um papel de agentes privilegiados de informação biológica e, portanto, são igualmente refratários à identificação de vírus com organismos plenos. A bióloga Lynn Margulis, proponente da evolução da célula eucariótica (aquela constituinte de humanos e repolhos) como uma história de simbiose inter-bacteriana, ecoa, com as seguintes palavras, muitos de seus colegas em um caminho descritivo exatamente oposto ao de Dawkins:
Pequenos demais para se sustentar, não metabolizam nada. Os vírus não fazem coisa alguma até entrarem numa unidade autopoética [sic]: uma célula bacteriana, uma célula de animal ou a de um outro organismo vivo (...) Tal como a linguagem, as moléculas nuas de DNA ou os programas de computador, os vírus sofrem mutações e evoluem, mas, em si mesmos, são zumbis químicos, na melhor das hipóteses. A célula é a menor unidade da vida.
(Margulis e Sagan, 2002; ênfase minha)
Concordo plenamente com as autoras, e Lynn Margulis, especialmente, tem credenciais suficientes na construção do pensamento evolutivo contemporâneo para não ser chamada de “descontínua” apenas por traçar uma firme linha divisória entre vírus e organismos. Incidentalmente, a citação acima oferece outra motivação para minha metáfora biolingüística. O paralelo que Margulis e Sagan traçam entre linguagem, vírus biológicos e vírus de computador não é informacional, mas enfatiza a dependência, para se falar dessas entidades, dos processos efetivos de operação de suas máquinas-contextos. Poderíamos pensar na metáfora (ou mais que isso, talvez)58 da proposta do lingüista Noam Chomsky de um “órgão da linguagem”, e, igualmente, dizer que um órgão só opera no contexto do organismo. Mas esse paralelo é duplamente enganador. O funcionamento do nosso (meu, de Burroughs e de
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Não quero discutir aqui a diferença entre metáfora e literalidade, mas analogias que abundam nos textos de Chomsky, como entre estudar as propriedades do sol que o fazem emitir luz e calor (sem enviar um laboratório ao centro desse planeta) e estudar as propriedades lingüísticas (sem contato direto com esse “órgão”; Chomsky, 1988) fazem com que a metáfora chomskyana pareça bem menos uma figura de linguagem que um compromisso
Margulis) vírus-linguagem não depende de uma existência localizada no interior do organismo, mas dos processos interacionais. É na “infecção” inter-organísmica que o vírus-
linguagem subsiste, ainda que as condições sistêmicas de existência do hospedeiro como um indivíduo sejam modificadas em congruência com sua história de interações com o próprio parasita (uma “doença”, digamos assim, mas não pretendo, como Burroughs pretendia, implicar nenhum estado perverso ou patológico na própria linguagem, a não ser no fato de que os processos orgânicos são efetivamente modificados ou efetivamente conservados pela agência da interação com o vírus-linguagem). De outro lado, a metáfora chomskyana, apenas com um entendimento muito parcial do que seja biologia, pode ser considerada biológica, e para discutir isso voltamos a Richard Dawkins.
O próprio Dawkins utilizou a metáfora dos vírus (ou dos genes, mas já vimos como esse autor advoga identidade entre uma coisa e outra) em um contexto apenas superficialmente semelhante ao meu, os memes. O que era inicialmente uma especulação sobre unidades replicativas mínimas a exemplo dos genes (Dawkins, 1989), a memética - o estudo dessas entidades - tornou-se hoje um campo mais ou menos fértil de investigação (Dawkins, 2005). Ao propor uma unidade mínima (mensurável, quantificável) do mental, Richard Dawkins fecha o ciclo conceptual sonhado pelos cibernéticos dos anos 40 (Dupuy, 1996), que vai das metáforas computacionais (ou informacionais), passando pelo funcionamento do mundo vivo, e chegando à mente. O software está para o programa genético bem como ambos são, funcionalmente, correlatos exatos da mente. A mesma relação, é claro, mantêm os suportes físicos desses programas, respectivamente o hardware, a “máquinas gênica” e o cérebro (Vianna, 2004).
Ao contrário da “segunda cibernética” - outro movimento surgido dos primeiros cibernéticos (e base do pensamento sistêmico de, por exemplo, Gregory Bateson e da Biologia do Conhecer; Bateson, 1974; Dupuy, 1996; Varela, Thompson and Rosch, 1997) - a atitude
reducionista de apontar partes privilegiadas do sistema une, conceptualmente, os herdeiros
cognitivistas dos primeiros cibernéticos e os biólogos de orientação neodarwinista, graças à atribuição, a esses centros de controle vivos ou cognitivos, da propriedade de serem “sobre” objetos ou relações externas ao próprio organismo. Nesse sentido, nem a metáfora do órgão lingüístico de Chomsky, e tampouco a metáfora dos “bits mentais” de Dawkins, são propriamente biológicas. O que está em jogo, em um e outro caso, são as propriedades instrutivas do software, e essas independem tanto das contingências físicas das máquinas- contextos em que ocorre o processamento dos dados quanto das diferentes e efetivas interações por que passam essas máquinas-contextos. Ou seja, não necessariamente - e, portanto, não necessariamente o contexto é biológico - estamos tratando aqui de organismos e interações orgânicas.
Minha metáfora da linguagem-vírus está bem distante disso, ou esforço-me para que assim seja. Não preciso preocupar-me em estar reificando “porções de linguagem” ao identificar os processos lingüísticos com os vírus, pois o que me interessa nos vírus não são suas ontologias individuais (ainda menos como “pacotes de informação”), mas exatamente os processos, as relações estabelecidas. Ainda, interessa-me que essas relações são estabelecidas, e apenas são estabelecidas, no nível das interações orgânicas, e em nenhum outro contexto.
Há uma terceira propriedade do universo viral que estimula minha adesão à metáfora. Vírus não apenas infectam organismos de mesma linhagem na interação inter-orgânica, mas diversificam suas próprias linhagens ao infectarem organismos distintos. Há uma co-evolução de vírus e organismos: assim como há uma “árvore da vida”, há uma “árvore viral”, mais ou menos correspondente. A analogia implica que, embora a linguagem humana corresponda a um modo de vida humano (mas não necessariamente, não universalmente, e não unicamente), outras linhagens de linguagens-vírus modificam e conservam outros modos de vida.