4 METODE
4.7 D RØFTING AV RELIABILITET OG VALIDITET
O movimento cooperativista foi inspirado nas orientações e doutrinas defendidas pelos "precursores do cooperativismo", que atuaram entre meados do século XVIII e a criação da primeira cooperativa foi no ano de 1844, em Rochdale - Inglaterra (RECH, 2000; SCHNEIDER, 1999). Com o objetivo de criar uma alternativa econômica para atuar no mercado como forma de enfrentar o sistema capitalista, um grupo de vinte e sete tecelões e uma tecelã fundou a Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale22, uma associação de consumo, conhecida mais tarde como cooperativa.
Essa alternativa de resposta aos problemas gerados pela Revolução Industrial para a classe operária e para o campesinato, reagindo aos abusos do liberalismo econômico, deve-se, fundamentalmente, ao fato de que a partir do Século XVIII o processo de produção começa a se dinamizar com o advento das máquinas movidas à energia a vapor e posteriormente à energia, criando um sistema que submetia os trabalhadores a preços abusivos de salários e produtos de consumo, à exploração da jornada de trabalho de mulheres e crianças, ao desemprego crescente, entre outros. Ao mesmo tempo, os centros urbanos passaram a concentrar as unidades fabris, cada vez maiores e menos artesanais, propiciando um processo de urbanização que se acelerou mas sem uma contrapartida em infra-estrutura urbana, o que provocou a proliferação, na periferia das cidades, de bairros pobres de operários.
Em meados do Século XIX o problema econômico e social do capitalismo se evidenciava através da "[...] crise de fome, de desemprego, de brutal exploração da força de trabalho e de condições habitacionais infra-humanas [...]" (SCHNEIDER, 1999, p. 38).
Essa força de trabalho nova e despreparada enfrenta, durante um século, as mais cruéis e desumanas condições de vida. Oficialmente proibidos, nesse período, de se organizarem em associações para a defesa dos seus interesses de trabalho, os operários são geralmente vítimas da mais desapiedada exploração. Era comum homens e mulheres, mesmo aquelas em estado de gravidez, trabalharem 14 a 15 horas por dia. Menores de idade realizavam serviços iguais aos de adultos, especialmente nas minas de carvão, e, porque precariamente alimentados e mal pagos, apresentavam elevadas taxas de mortalidade. Não havia preocupação com medidas higiênicas e sanitária, seguro contra acidentes, previsão de recursos para a aposentadoria e provisão
de amparo, em casos de doença. Fora das fábricas, eram vítimas de comerciantes gananciosos, que lhes vendiam produtos deteriorados e fraudados nos pesos e nas medidas (SCHNEIDER, 1999, p. 34-35).
O movimento cooperativista nasce, enquanto uma das expressões do pensamento socialista utópico, como uma reação para superar o capitalismo. Os socialistas utópicos23 entendiam cooperativa como um dos caminhos para a construção de uma nova ordem econômica e social. No entanto, a alternativa adotada, ao invés da luta e do enfrentamento direto, foi a mobilização dos operários em torno das cooperativas de produção e consumo. O objetivo era, no futuro, substituir o modelo explorador do capital por cooperativas - as Commonweath Cooperativa - onde o trabalhador seria o dono dos meios de produção e dos excedentes gerados. Schneider (1999, p. 35) coloca que "[...] tentando superar a absolutização do interesse privado e suas consequências, a cooperação institucional e sistemática então emergente se empenhará por resgatar e reforçar o interesse coletivo e comunitário".
A doutrina cooperativa teve origem na Alemanha e na Inglaterra, mas foi sistematizada pelo francês Charles Gide, professor de economia política. Um outro francês a quem as cooperativas se vinculam é Charles Fourier, elaborador de ferrenhas críticas às condições sociais existentes à época, advindas do processo de industrialização em curso na Europa. De acordo com Engels (1980)
[...] foi Robert Owen quem criou as cooperativas de consumo e de produção como medidas de transição para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista e 'todos os movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na Inglaterra no interesse da classe trabalhadora estão ligados ao nome de Owen (ENGELS, 198024 apud SILVA, 1992, p. 57).
Os ideais dos pioneiros de Rochdale - conhecidos como um círculo owenista e como membros de uma friendly society - iam além de construir cooperativas de consumo como forma de superação da grave situação do proletariado. A idéia era construir colônias de cooperativas autônomas - as Commonweath Cooperativa - democráticas e auto-suficientes, onde reinasse a ajuda mútua, a igualdade social e a fraternidade (SCHNEIDER,1999).
A cooperativa de Rochdale, Manchester-Inglaterra - Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale -, foi pioneira do cooperativismo mundial, no entanto, não foi a primeira experiência de caráter cooperativista. Muitos ou a maioria dos princípios identificados com a 23 Os socialistas utópicos emergem no início do capitalismo industrial e têm grande influência no movimento
cooperativista. Entre seus precursores destacam-se como principais: P. C. Plockboy, Jonh Bellers, Robert Owen, William King, Charles Fourier, Michel Derrion, Philippe Buchez e Louis Blanc.
cooperativa matriz do cooperativismo mundial já haviam sido propostos e eram praticados nas iniciativas econômico-sociais de Robert Owen, William King, Charles Fourier, Michel Derrion, Philippe Buchez e Louis Blanc.
O mérito dos pioneiros de Rochdale foi sistematizar os diversos princípios, unido-os concatenadamente e dando-lhes uma unidade lógica e sistêmica, relacionando-os entre si, de maneira que o surgimento de uns supõe necessariamente o seguimentos dos outros (SCHNEIDER, 1999, p. 82).
Robert Owen e William King foram, entre os precursores do cooperativismo, quem mais influenciaram a formação da cooperativa de Rochdale, marco do surgimento do movimento cooperativista mundial.
Nessas iniciativas que antecederam a experiência pioneira da cooperativa "Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale" destacam-se: as primeira cooperativas para a venda de mercadorias em 1769, 1777, 1795, 1800, 1812 e 1821 que funcionaram por pouco tempo, não chegando a constituir um movimento; as cooperativas que se fundaram a partir de 1825 na Inglaterra por iniciativa de Willian King ou de discípulos de Robert Owen. Os owenistas passaram a se empenhar principalmente nas colônias cooperativas de Ralahine, da Irlanda, de Rosehill e de Queenwood. Nesta última, Owen exerceu a função de dirigente máximo (SCHNEIDER, 1999). A própria cidade de Rochdale teve uma experiência anterior à "Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale" de 1844. "Já bem anteriormente, em 1930, se fundara a Rochdale Friendly Co-operative Society, com 60 tecelões como sócios e que participaram nos congressos cooperativos de 1832" (BONNER, 196125 apud SILVA, 1992, p. 43). Três dos futuros pioneiros de Rochdale participaram dessa cooperativa.
No período de 1826 a 1835 surgiram pelo menos 250 cooperativas de consumo, das quais 50 só em Londres, chegando, 1835, a um total de 300 cooperativas. Esta rápida multiplicação foi acompanhada por um movimento de articulação nacional, através da realização de oito congressos entre 1827 e 1835 (SCHNEIDER, 1999).
Rochdale se transformara em importante centro industrial e era a expressão do processo de urbanização que emergiu com a Revolução Industrial. Cole26 (apud SCHNEIDER, 1999, p. 43-44) ao caracterizar esta cidade no período coloca:
A crise de fome, a carência generalizada de alimentos não deteriorados, o desemprego, as péssimas condições habitacionais, também se fizeram sentir
25 BONNER, A. British cooperation, the history, principles and organisation of the british co-operative
moviment. Manchester: Co-operative Union Ltd. Holyoake house, 1961. p.42
26 COLE, G. D. H. A century of co-operation. Manchester: Co-operative Union Ltd., Holyoake House, 1944. p.
em Rochdale, cidade que atraíra muitos migrantes do interior rural da Inglaterra e também da Irlanda por causa do apogeu da indústria têxtil na região, já com longa tradição como importante centro de indústrias de fiação e tecelagem, que remonta até o século XIV.
Não sem motivos, Rochdale, nas décadas de 30 e 40 do século XIX, se tornara importante centro de mobilização em prol da sindicalização operária e em prol do "movimento cartista"27. Vários pioneiros de Rochdale participaram das experiências owenistas das colônias cooperativas e do "movimento cartista".
O movimento cooperativista se expandiu mundialmente. No entanto, mesmo que os princípios propugnados na experiência de Rochdale tenham se tornado referência para todo o movimento cooperativista internacional, inexiste no mundo um único modelo de cooperativa.
Rech (2000), ao discorrer sobre o desenvolvimento mundial do cooperativismo coloca que o conteúdo ideológico das cooperativas apresenta perspectivas diferenciadas segundo duas posições: o ponto de vista socialista e o ponto de vista capitalista.
Para os socialista utópicos que tinham o inglês Robert Owen como seu grande teórico, a cooperativa "[...] era um embrião de uma nova sociedade, onde as pessoas poderiam trabalhar conjuntamente, libertando-se do jugo do capital e suprindo interesses pessoais e coletivos" (RECH, 2000, p. 10).
Essa concepção de cooperativa, no decorrer do século XIX, tomou dois rumos. O primeiro via na cooperativa um instrumento de luta para a superação do capitalismo. No caso, as cooperativas se constituiriam numa etapa ou passo em direção à implantação do socialismo. Seus teóricos mais expressivos são o inglês Robert Owen, o francês Charles Fourier e o alemão Ferdinand Lasalle. O segundo rumo - teve no francês Charles Gide seu mais importante representante -, concebe a possibilidade da substituição do sistema capitalista por uma "República Cooperativa", onde todos os setores da economia deveriam ser organizados em um sistema cooperativista (RECH, 2000).
27 O "movimento cartista" foi fundado na Inglaterra, em 1839, e teve ampla expansão nos primeiros anos da
década de 40. Substituiu o owenismo e teve como principal líder o irlandês Feargus O' Connor. De acordo com Foi a primeira importante mobilização em prol da conscientização da classe proletária. Os cartistas acreditavam que a construção de uma sociedade mais digna para o trabalhador explorado e sua emancipação "se daria pela via política, através da campanha maciça em prol da conquista do direito do voto universal para a escolha dos dirigentes políticos locais, regionais e nacionais" (SCHNEIDER, 1992, p. 41). Entre 1839 e 1848 ocorreram três insurreições populares (1839, 1842 e 1848) fortemente reprimidas pelo governo, que expatria seu principais líderes. A repressão levou a corrente mais moderada do cartismo, liderada por O' Connor a promover a criação de comunidades rurais em que algumas atividades econômicas eram exercidas de forma cooperativa (SCHNEIDER, 1992).
Hobsbawn (1989, p. 230-231) sobre o movimento operário no princípio do século XIX e sua resposta à situação vigente diz:
Mas a própria novidade e a rapidez da mudança social que os envolvia, encorajava os trabalhadores a pensar em termos de uma sociedade totalmente diversa, baseada nas suas experiências e em suas idéias em oposição às de seus opressores. Seria cooperativa e não competitiva, coletiva e não individualista. Seria 'socialista', e representaria não o eterno sonho da sociedade livre, que os pobres sempre levam no recôndito de suas mentes, mas na qual só pensam em raras ocasiões de revolução social generalizada, e sim uma alternativa praticável e permanente para o sistema em vigor.
A concepção capitalista defendida pelos liberais e fisiocratas capitalistas28 concebia as cooperativas como um meio de corrigir os defeitos do modo de produção capitalista. "Neste caso, a cooperativa viria atenuar as características ego ístas e concentradoras de capital do sistema vigente à época" (RECH, 2000, p. 15).
Independente da corrente ideológica havia os que não viam com entusiasmo as cooperativas. Um deles foi Marx (1864), em relação as cooperativas preconizadas pelos socialistas utópicos afirmou:
[...] enquanto permanecer limitada a um círculo reduzido, enquanto apenas alguns operários se esforçarem [...] a cooperação dos trabalhadores não será capaz de libertar as massas, nem mesmo aliviar de modo sensível o fardo de miséria (Marx, 186429 apud RECH, 2000, p. 12).
Em relação ao modelo de cooperativa preconizado pelos socialistas utópicos, Rech (2000, p. 11) diz sobre as tentativas de implantação de cooperativas a partir de uma experiência socialista:
No entanto, infelizmente , as iniciativas concretas em estados socialistas, já no século XX, não seguiram tão entusiasticamente as propostas de Owen, Lasalle ou Gide, mesmo que, principalmente na União Soviética e na China, tenham, de forma discutível, definido a organização de quase toda a sua população camponesa de forma cooperativada.
Na prática, nesses países as cooperativas foram utilizadas para suprir deficiências em suas economias fundadas em planejamento centralizado sob a tutela do Estado, dado que 28 Para Bobbio, o liberalismo é um fenômeno histórico que se manifesta na Idade Moderna e tem seu baricentro
na Europa. Coloca que "[...] o Liberalismo econômico ligado à escola de Manchester acreditava que o máximo de felicidade comum dependeria da livre busca de cada indivíduo da própria felicidade" (BOBBIO, 1992, p. 689, v. 2). Quanto aos fisiocratas, Bobbio (1992, v. 1) coloca enquanto definição que se assim são denominados na história do pensamento político, para os contemporâneos eram conhecidos como "économistes". Defendiam um "[...] sistema que partia de uma certa concepção de mundo e da sociedade para desenvolver uma teoria política e, em sua atuação, uma política econômica" (BOBBIO, 1992, p. 501, v.1). Para Rech (2000, p. 14) são "Correntes ideológicas baseadas no princípio de que o que está estabelecido como natural e individual é que deve prevalecer. O individualismo se torna um valor em si e a natureza como um bem que não deve ser transformado com leis, regulamentos ou sistemas, mas apenas acertada ou corrigida" .
[...] o papel das cooperativas, mesmo que tenham exercido uma importante atividade na organização dos camponeses, sempre foi interpretado como instrumento complementar aos planos de coletivização governamental e não como uma iniciativa autônoma dos trabalhadores (RECH, 2000, p. 12).
Ainda sobre essa questão, Silva (1992) coloca que, no início do século XX, na União Soviética quando aconteciam as primeiras experiências cooperativas em um contexto de revolução socialista, a matéria foi objeto de polêmica.
Quanto ao modelo de cooperativa concebido a partir do ponto de vista capitalista (liberais e fisiocratas capitalistas), que tinha como perspectiva a correção do sistema capitalista, logo se desenvolveu na Europa, berço do movimento cooperativista. Em 1965, os dados mostram que nos países do norte europeu, 60% da população já era cooperativada. Na entrada do século XXI há de se destacar que: a Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega tinham sob responsabilidade das cooperativas de produção a oferta da maior parte dos produtos agrícolas no mercado; a Inglaterra e Suécia detinham 50% das famílias vinculadas às cooperativas de consumo; e a França com 25% da população cooperativada.
Em relação a países de outros continentes, no mesmo período, os Estados Unidos acusavam 22% da população cooperativada, a Argentina 20% e a Índia 10% (RECH, 2000, p. 15-16).
Israel implementou uma forma característica de cooperativa socialista, sendo considerado o país - capitalista - que desenvolveu uma das mais radicais expressões de atividades econômicas e sociais coletivizadas, em nível comunitário30 (RECH, 2000).
O debate sobre as cooperativas nas sociedades capitalistas e socialistas é profícuo. Para Pinho (1965) as cooperativas são úteis em ambos modelos de sociedades. Afirma que no capitalismo, as cooperativas representam uma forma de soerguimento da economia doméstica, artesanal e campesina, atuando como um forma de oposição às consequências práticas do "liberal-individualismo desbragrado" ou aos ditames dos grupos monopolistas, enquanto no socialismo, elas constituem uma forma de defesa dos indivíduos frente aos excessos da intervenção estatal (PINHO, 196531 apud SILVA, 1992, p. 63-64).
30 São famosos seus kibutz (espécie de cooperativa comunitária de produção agrícola), os moschav (comunidade
de agricultores, onde o cooperativismo é praticado nas operações de compra e venda, sendo a produção individual pois cada um dirige sua granja) e os moschav shituf (uma só empresa agrícola explorada em comum por todos os habitantes de uma determinada região. A renda obtida é distribuída entre as famílias de acordo com a necessidade de cada uma). "A propriedade da terra é do Estado e a cooperativa é pensada como se fosse uma aldeia, com sua vida própria e sua relações consolidadas" (RECH, 2000, p. 14).
31 PINHO, D. B. A doutrina cooperativa nos regimes capitalistas e socialistas. 2. ed. São Paulo: Pioneira,
Já para Silva (1992, p. 65) "[...] as cooperativas constituem formas associativas subsidiárias do processo mais amplo de produção e consumo, não sendo a principal estratégia econômica tanto no socialismo quanto em sociedades capitalistas". Mas, acrescenta que "[...] não obstante, podem ser assimiladas e até estimuladas tanto em contexto favorável à socialização, qua nto em sociedades capitalistas preocupadas em ampliar o arco de possibilidades e de mecanismos para a expansão do capital privado [...]" (SILVA, 1992, p. 65).
Enquanto tendência predominante no movimento cooperativista internacional, prevaleceu o ponto de vista capitalista assumido pela experiência cooperativista de Rochdale. Rech (Op. cit., p. 21 e 22), ao lamentar tal opção, acrescenta que “[...] dependendo dos estágios democráticos de cada país, a cooperativa foi assumindo características comunitário- participativas mais ou menos avançadas". A experiência cooperativista de Israel bem exemplifica esta colocação de Rech. Independente do modelo adotado, o movimento cooperativista se desenvolveu e, em 2000, estimava-se que no mundo havia quase um bilhão de cooperados. Dados do mesmo ano registravam que a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) - organização com mais de duzentas entidades cooperativistas de 102 países - somava mais de 700 milhões cooperados (OCB, 2000).