4. F ORSKNINGSDESIGN OG METODE
4.3 D ET KVALITATIVE FORSKNINGSINTERVJU
vas não convencionais e que poderia, com elas, abastecer o país e se tornar independente dos outros países europeus.
Há também o caso dos países do Oriente Médio que, mesmo com suas imensas reservas, seriam impactados de mais de uma forma pelo shale norte- -americano. Inicialmente, pela redução das impor- tações americanas e, em um segundo momento, pela competição por mercado. Já se observa, com a volta dos embargos impostos pelos Estados Unidos ao Irã, que o país americano não só inde- pende dos recursos iranianos, como pretende reduzir a influência do país árabe na geopolítica global (KAPLAN, 2012). Outro elemento elucida- tivo é a decadência de fornecimento de outros grandes produtores, como a Venezuela, que passa por uma séria crise político-econômica, onde a produção atual já é inferior à do Brasil.
A recente aliança de interesses entre americanos, sauditas e russos, com foco na determinação do preço do barril de petróleo considerando uma margem que seja lucrativa para todos, também ilustra o aumento do poder de influência que os EUA alcançaram nos últimos anos (KAPLAN, 2012). Por outro lado, o aumento das incertezas provocadas pelas políticas pouco transparentes do atual governante americano torna a previsibi- lidade e o próprio status do fornecimento ameri- cano, no mínimo, questionável.
18. OPEP: Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Tem o objetivo de estabelecer uma política petrolífera comum a todos os grandes produtores de petróleo do mundo (países membros), definindo estratégias de produção e controle de preços de venda de petróleo.
A diversificação do fornecimento global, além de promover um elemento de alteração no forne- cimento reduzindo a influência dos países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)18 e seus associados, permitiu também
a Estados importadores a adoção de medidas orientadas para o mercado, o que acaba por influenciar sua política externa.
Entre os países afetados pelo saldo positivo da balança comercial de gás natural norte-americana está a Rússia, que atualmente é a maior fornece- dora do energético para a Europa. Ao longo do tempo, os russos construíram um imenso poder de barganha nas decisões e no relacionamento com membros da União Europeia (UE) por serem os principais fornecedores do continente.
Com a possibilidade de exportação de gás natural por parte dos Estados Unidos, o recurso energético proveniente da Rússia perderia a capacidade de atuar como ferramenta política, passando a ser mais um produto negociado em função de questões econômicas. Os impactos de uma redução do poder russo na distribui- ção de gás no continente poderiam ser benéfi- cos, ainda, para países detentores de reservas dentro do próprio continente, mas cuja extração e posterior comercialização não é viável atual- mente. Esse é o caso da Polônia, por exemplo, que possui um número considerável de reser-
3.2. PETROPOLÍTICA
O gás não convencional afetou a oferta mundial de petróleo, possibilitando aos americanos removerem aproximadamente cinco milhões de barris de petróleo importados diariamente do mercado internacional (o consumo mundial hoje está em torno de 89 milhões de barris por dia), jogando os preços internacionais para baixo (DELGADO, 2009).
Os preços do petróleo no mercado internacional começaram a declinar moderadamente, a partir de junho de 2014. Ansari (2017) menciona que na reunião dos membros da OPEP em novembro de 2014 foi anunciado que não haveria um corte de produção, e os preços atingiram US$ 30/bbl em dois meses. Em dezembro de 2015, após um ano de preços deprimidos, a OPEP decidiu manter sua produção, o que foi explicado por alguns analistas (BAFFES (2015), BAUMEISTER E KILIAN (2016), DALE (2016), KHAN(2017) por três teorias: 1. A OPEP estaria tentando defender seu
market-share por meio da inundação do
mercado em uma tentativa de inviabilizar a produção de shale;
2. A revolução do shale anulou o poder de mercado da OPEP, deixando o cartel sem opção a não ser a de tomador de preços; e
3. A OPEP estava incerta sobre o potencial efetivo do shale e precisava testar sua perfor- mance em um cenário de preços baixos. Todavia, independente do que efetivamente foi a estratégia da OPEP na época, o corte de produ- ção logo veio em 2016, em uma ação conjunta entre OPEP e Rússia removendo 1,8 milhões de bbl/d do mercado, inclinando a curva de preços para cima19. Entretanto, é importante destacar
que nem sempre o preço do barril do cru no mercado internacional por si só foi o elemento mais importante para consubstanciar uma situa- ção de crise econômica. É também importante a oscilação desses preços no mercado internacio- nal que imprime um espectro de incerteza nos países e em seus planejamentos estratégicos, econômicos e financeiros uma vez que sejam dependentes dessas receitas petrolíferas.
Ainda assim é importante mencionar que esta revolução só foi possível graças a combinação de uma geologia favorável, significativo conhe- cimento das bacias sedimentares norte-ame- ricanas e uma malha de gasodutos extensa e capilarizada, além da peculiaridade relacionada à propriedade do subsolo nos EUA.
A confluência em uma nova economia do petróleo correlaciona mudanças fundamentais nas regras do mercado petrolífero, tais como (DALE, 2016):
19. No início de 2016, o preço do barril de petróleo atingiu mínimas em quase 12 anos, sendo negociado abaixo de US$ 30. Após a negociação do corte da oferta do barril de petróleo foi causado alta de 15% nos preços. A Arábia tem o controle de 10% da produção mundial. A Saudi Aramco, maior empresa de energia do mundo, abriu 5% do seu capital em ações, com resultado de 125 milhões. Em 2016 o valor da Saudi Aramco era cotado em US$ 2,5 trilhões.
• A inesgotabilidade do recurso (e ser precificado
como) devido às mudanças nas condições de mercado (políticas climáticas rigorosas, desco- bertas de novos campos e plays; e a maturi- dade das tecnologias renováveis);
• A modificação dos fluxos globais de cru para o
leste (em direção à Ásia), o que leva a atrasos e gaps de mercado devido à rigidez do setor de downstream;
• E a alteração do formato da curva de oferta
global de petróleo (tonando-se mais plana) devido à rápida reação ao shale; considerando que - historicamente - a OPEP tem apenas capacidade de enfrentar choques temporá- rios de oferta ou de demanda, nunca choques estruturais.
Em geral, uma crescente diversidade de produ- tores no mercado global de petróleo melhora a segurança do suprimento aumentando a fungi- bilidade reduzindo o risco de uma indisponibi- lidade de um único produtor para o mercado global de petróleo. A proliferação de produto- res também inibe a capacidade da OPEP ou de qualquer outra combinação de fornecedores de usar cortes de produção para fins geopolíticos.
No ambiente atual, os importadores de petró- leo podem empregar ferramentas orientadas ao mercado para influenciar a política externa, como por meio da restrição de exportações de países onde o comportamento entra em conflito com as normas internacionais, como foi visto recentemente com as sanções internacionais contra o Irã.
Embora a produção de shale já tenha começado a remodelar a segurança energética relacionada ao petróleo, a totalidade de suas implicações para os mercados globais de petróleo ainda precisa ser concretizada. Mesmo um aumento modesto na produção fora dos Estados Unidos, por exemplo, poderia aumentar ainda mais a segurança global do petróleo, aumentando a diversificação e aumentando a elasticidade da oferta. As características únicas do shale - inves- timentos em pequena escala e ciclo curto de produção e retorno de investimento - também podem reduzir as oportunidades de interferên- cia política, particularmente em lugares onde questões “acima do solo” impedem uma produ- ção viável. Na Argentina, por exemplo, apesar da significativa interferência política que afastou os investidores estrangeiros - e até expropriou seus negócios - o shale continuou a atrair interesse.