5. RESULTS AND DISCUSSION
5.1. R EGRESSION R ESULTS
5.1.2. D ISCUSSION OF THE R ESULTS
No final do século XVIII, a história da filosofia assiste com Kant a uma transformação que modificou todo o olhar ocidental com respeito à ética, tal como fez a considerada revolução copernicana com a história da ciência. Trata-se, portanto, de o homem passar a ser visto como único protagonista e responsável pelos seus atos no mundo.
Tal revolução filosófica é bem representada quando em 1783, Kant lança sua questão sobre o que é o esclarecimento [Aufklärung]67. Nesta obra percebemos o que Kant representa para a “saída do homem de sua menoridade, da qual ele é o próprio culpado”68. Isso porque, segundo o pensamento kantiano, há no homem a falta de “decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem”. “Sapere aude! Tem a coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento”69.
Reservando-nos de dar maiores esclarecimentos sobre a ética de Kant, mesmo porque isso será objeto de estudo do próximo capítulo, salientaremos apenas um aspecto que está presente em uma boa parte dos filósofos contemporâneos pós-Kant, que é afirmação da dignidade humana, a qual se destaca pela capacidade de o homem ser capaz de responder por seus próprios atos, já que é racional e capaz de discernimento; além de uma vida propícia para sua realização enquanto um “fim em si mesmo”.
A questão apresentada dirige-se, neste momento, como bem percebe Jonas, ao fato de cada vez menos o ser humano ser capaz de conduzir sua existência enquanto cidadão, já que está submisso às muitas necessidades de nossa sociedade tecnocientífica. Esse quadro de submissão é latente quando consideramos um “controle de conduta” da ação humana pelos muitos “aparelhos e chips”, que se já não estão muito próximos de sua fase de realização, ao mesmo são uma hipotética possibilidade70.
Um exemplo emblemático desse controle é o trabalho nas fábricas, que desde a conhecida Revolução Industrial, escraviza71 o homem de tal forma que, direta e 66 O problema da ética da responsabilidade será melhor definido no segundo capítulo.
67 KANT, I. Resposta à pergunta: que é o “esclarecimento”?. p. 100. 68 Ibdem. p. 100.
69
Ibdem. p.100.
70 JONAS, H. O Princípio Responsabilidade. p. 59.
71 WEIL, S. O Enraizamento. p. 67-68. A respeito do assunto da “escravidão” afirma Weil que a primeira
dificuldade a se vencer era a ignorância. Isso que dizer que os operários de fábrica estão de alguma forma desenraizados, ou seja, impossibilitados de refletir sobre suas próprias ações. Na realização de suas tarefas na
indiretamente, o impede de uma reflexão sobre a sua própria produção e as condições mesmas de sua realização, chegando a ser considerado apenas uma extensão do modo de produzir. Os empregados se tornam meros coadjutores das máquinas, os quais têm apenas o trabalho de operar as mesmas, dessa forma, homem e máquina se tornam um, com o intuito de um maior desempenho na fabricação.
Sem mais delongas, o que Jonas combate, mais precisamente, é o impedimento do homem exercer e usufruir daquilo que lhe é mais essencial, a saber, sua liberdade. Uma liberdade que se realiza na resposta responsável pelos seus próprios atos, frente aos efeitos dessa mesma ação sobre o mundo. Deixa-se, portanto, a liberdade humana ser constituída e direcionada pela máxima do “mais poder”, não cabendo a ele, diretamente, sentir-se responsável por sua existência de demais seres no planeta.
Além desse controle de conduta da vida humana que consideraremos mais apresentável aos homens, vale ainda considerar alguns métodos da biomedicina apoiados nos avanços tecnocientíficos para um possível controle da conduta humana. Como nos diz Jonas:
estas, por exemplo, não nos prepararam para julgarmos o controle psíquico por meio de agentes químicos ou pela intervenção direta do cérebro por meio de eletrodos – intervenções que, suponhamos, sejam empreendidas com fins defensáveis e até mesmo louváveis72
Quanto a isso Jonas diz ainda: “os renitentes problemas da ordem e da anomia na moderna sociedade de massas tornam extremamente sedutora, para os fins de manipulação social, a aplicação desses métodos de controle de forma não-medicinal”73. Somente precisamos lembrar das novas propostas a partir da descoberta do genoma humano que possibilita ao médico-cientista manipular as características de tal pessoa ali construída. A pergunta daqui decorrente e decisiva é a respeito de como moldaremos indivíduos valiosos para uma determinada sociedade. Já que “ao longo do caminho da crescente capacidade de fábrica gasta, portanto, às vezes até o limite extremo, o que tem de melhor dentro de si, suas faculdades de pensar, de sentir, de se mexer; gasta-as, pois está vazio quando sai.
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manipulação social em detrimento da autonomia individual, em algum lugar se deverá colocar a questão do valor, do valer-a-pena de todo empreendimento humano”74.
Dessa forma, cabe ao homem que é, aristotelicamente falando, essencialmente um
homem político, responder a essa questão de controle de conduta. Isso porque enquanto ser não é um entre muitos, mas é um que representa muitos e que diante de um problema que afeta a toda humanidade, ele tem que ser responsável pelo todo da humanidade. Tais questões podem de algum modo afetar irreversivelmente a própria evolução natural das pessoas futuras, as quais não poderão de forma alguma responder se desejariam ser de tal maneira ou não. Eis aí um dos motivos, como nos apresenta Jonas, pelos quais não temos o direito ao suicídio “universal”, pois não podemos responder pelas gerações futuras.
4. A IDEOLOGIA UTÓPICA DO MARXISMO NA CIVILIZAÇÃO