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O filme sugerido pelos usuários para dar início à sessão de cinema que, em um primeiro momento, anteciparia as produções imagéticas no Caps, curiosamente, foi Bicho

de sete cabeças. Com o objetivo de fazer um making of da sessão de cinema, que acabou por disparar muitas con- versações no grupo de oito usuários, fiz duas filmagens: uma antes e outra depois do filme. Atenho-me aqui à segunda, pelas intrigantes questões mobilizadas.

No vídeo, a câmera balança desajeitadamente. Pos- tura pouco convencional para alguém que vai trabalhar com produção de imagens em seu mestrado. Os créditos sinalizam o fim do filme e com ele o silêncio logo inter- rompido por Simone:

(1) Simone: Aconteceu tudo isso aí comigo. (2) Pesquisador: Oi!?

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O zoom in e o zoom out5 grosseiramente manejados

entregam que, definitivamente, a técnica nas filmagens não é o forte do pesquisador.

(1) Simone: Tudo o que aconteceu com esse moço aconte- ceu comigo. Tudo isso aí comigo.

(2) Paula: Você não tentou se matar não, né?! (3) Simone: Só não tentei me matar. Me falavam... Não se consegue ouvir ao certo o que Simone diz, já que depois do silêncio dos créditos, o filme voltou à tela inicial do menu do DVD e, com ele, a música “Fora de si”, de Arnaldo Antunes.

eu fico louco eu fico fora de si eu fico assim eu fica fora de mim eu fico um pouco depois eu saio daqui eu vai embora eu fico fora de si

eu fico oco eu fico bem assim

eu fico sem ninguém em mim

Apesar da compreensão das falas em si ficar compro- metida, de alguma maneira, o acaso fora de si da música compõe com as conversações...

(1) Simone: Fiquei quatro vezes internada. Entre a vida e a morte. Daí meu marido pedia pra tirar eu de lá... Me

5 Expressões do cinema utilizadas para definir um zoom para frente e/ou para trás.

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internaram lá no Bezerra.6 Eu ia pelo plano médico depois

eu ia pelo governo. Tudo isso que aconteceu com o moço, aconteceu comigo. Davam serra leão em mim! Amarrava eu, sabe?! Largava lá na casa abandonada!

Não se pretendia estabelecer um debate acerca da Refor- ma Psiquiátrica, mesmo porque a escolha do filme coube ao próprio grupo, mas o encontro com o filme disparou relatos e discussões, sobretudo acerca da internação e da violência nos hospitais psiquiátricos por muitos ali experienciadas. A incessante produção de imagens na TV, no cine- ma, na internet marca nossa época e tem implicado uma significativa ampliação de trabalhos ligados à imagem, e, como dito anteriormente, essa relação tem sido marcada principalmente pelo viés da utilidade. Na educação, por exemplo, ela tem sido utilizada como um recurso pedagógi- co, uma ferramenta para se alcançar determinado objetivo (ou meta) previamente estipulado. Assim, o professor exibe um filme com objetivo de melhorar a eficiência do processo de aprendizagem dos alunos. Um processo de aprendizagem concebido de maneira uniforme e padroni- zada, no qual as pessoas aprendem (ou deveriam aprender) todos da mesma forma – massificadamente. Simplesmente desconsidera-se o fato de que cada um experiencia o filme de uma forma e é afetado de um jeito diferente, o que produz em cada um diferentes sentidos; na verdade não há possibilidade de controle sobre o processo de aprendizagem dos alunos.

Na verdade, a questão da utilidade não está presente apenas no âmbito da problemática da imagem: ele perse- vera há tempos na Educação, mas hoje se encontra mais acentuada retificando uma concepção positivista, na qual

6 Bezerra de Menezes é um hospital psiquiátrico do município de Rio Claro (SP).

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os professores são vistos como os especialistas técnicos que devem aplicar essas tecnologias pedagógicas.

Na perspectiva de pensar outras possibilidades na relação entre educação, cinema e arte, alguns trabalhos de Leite (O enredo que encena a educação: a construção

de olhares a partir da infância, do cinema e da formação do professor e Ação, câmera, luz: entre imagens e olhares,

experiência de infância e montagens), sobretudo, Infância,

experiência e tempo:

[...] possuem como eixo central refletir a “força” da ima- gem, e mais especificamente do cinema, nos espaços de formação, a princípio a formação docente e posteriormente a formação nos processos de produção de subjetividade e, mais diretamente, da criança. (Leite, 2011, p.19)

Trata-se de uma superação desse modo utilitário e cien- tificista na perspectiva de pensar “a educação e a arte como lócus potente de produção de sentidos e subjetividades” (ibidem) e a educação como experiência.

Essa proposta de pensar a pesquisa como experiência acabou se desdobrando em novos trabalhos com diferentes grupos, o que levou à constituição, em 2010, do I-mago: laboratório da imagem, experiência e cri[@]ção, um grupo de professores e alunos da graduação e pós-graduação ligados ao programa de pós-graduação em Educação da Unesp Rio Claro – um laboratório de multiplicidades.

Laboratório não no sentido de experimento, algo que é passível de testes comprobatórios que encontram sempre o mesmo resultado (por repetição), mas algo da ordem da experiência, do singular, do único, do inédito. Compreende-se aqui experiência como um percurso, uma travessia que

[...] não é o caminho até um objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para

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o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver” nem “pré-dizer”. (Larrosa, 2001, p.28)

Crianças, usuários de saúde mental, professores da rede pública municipal e idosos são alguns dos diferentes grupos com os quais o I-mago desenvolveu oficinas de produção imagéticas, abarcando diferentes domínios, como música, poesia, dança, infância e, agora, com o presente trabalho, a questão da loucura e da saúde mental.

Talvez essa diversidade esteja de certa forma vinculada à forma aberta de se pensar a metodologia com a pesquisa como experiência. Uma pesquisa que não fecha, não acaba, não termina (intermezzo), mas se conecta por rizoma na medida em que novos caminhos vão se criando no decorrer da travessia da pesquisa.

Plano-fragmento: a internação na Idade