Entre as características analíticas do paradigma do capitalismo agrário, a defesa da tese segundo a qual, não há questão agrária no sistema capitalista, está presente nas hipóteses de Abramovay (1998, p. 48) por entender que “o que é próprio à lógica de desenvolvimento do capital é o problema da renda fundiária – ou seja, das condições de reprodução do capital ali onde um dos elementos da produção não é mercadoria”. Além de defender essa tese, Abramovay e outros pesquisadores filiados a esse paradigma sublimam os excelentes resultados da agricultura de larga escala, cada vez mais tecnificada, utilizando inclusive máquinas dirigidas por satélite. Os recursos do método positivista, ao priorizar as abordagens econômicas almejam elucidar dois objetivos específicos: demonstrar a “quase” inexorabilidade do processo de tecnificação, sem o qual, há comprometimento da produção agrícola e defender a hipótese segundo a qual, o desenvolvimento é sinônimo de crescimento.
À medida que esses dois objetivos vão sendo explicitados as análises insistem na tendência de integração de todas as forças produtivas, não tendo alternativa capaz de superar esse tipo de desenvolvimento territorial. Em outras palavras, não há como superar o agronegócio pela pujança e excelência dos resultados econômicos. Portanto, essa produtividade do capital causa fascínio nos pesquisadores impedindo o desvio da atenção desse sistema produtivo como se fosse um sistema tão perfeito e total, que seria irracional se opor à ele e, incorreria em equívoco, defender a hipótese segundo a qual, há contradição entre o agronegócio e o campesinato. Pelo contrário, o campesinato faz parte do agronegócio. E, faz parte, por que não lhe restar alternativa, uma vez que, historicamente, o capital, ao se expandir procura modificar as relações sociais e/ou criar novas formas de extração de mais-valia para se apoderar da agricultura. Diante dessas constatações, parte do campesinato adquire tecnificação e é integrado ao capital e parte foi eliminado devido à sua estagnação tecnológica. Portanto a perspectiva do campesinato dependerá do grau de interação na economia de mercado e na sociedade de consumo. Sendo assim, não emergem nas análises nem a resistência camponesa, nem a conflitualidade e nem a luta de classes, pois, o campesinato é recriado pelo capital como parte dele. Pesquisadores como Navarro (2010), por exemplo, defende a hipótese, segundo a qual, não há competição entre o campesinato e
o capital. Isso significa afirmar que não há questão agrária no capitalismo, pois o sistema é perfeito e quem deve se amoldar à ele é o campesinato.
O processo produtivo integrador do capital estimulou os pesquisadores a encontrar explicações que pudessem tornar inteligível as transformações. Entre elas, a substituição de conceitos como, pequena propriedade, produção de subsistência, unidade produtiva familiar por agricultura familiar, como vimos anteriomente. Essa substituição se constitui em uma das maneiras de retirar o caráter propositivo do protagonismo do campesinato. A gestão e o trabalho familiar que, anteriormente era considerado marginal e secundário, atualmente é considerado como componente do agronegócio.
Enquanto o trabalho do campesinato é organizado a partir das estações do ano e das condições edáficas e atmosféricas, o trabalho do agricultor familiar é organizado a partir das exigências das indústrias às quais ele está integrado. As indústrias selecionam os produtores de maior eficiência, retendo aqueles com melhores condições de responder tecnologicamente às necessidades das empresas processadoras. A reprodução do capital exige a submissão do agricultor familiar que deixou de ser camponês, o campesinato deixou de ser um modo de vida e se transformou numa profissão para se enquadrar às exigências das leis do mercado.
Para compreender a integração do campesinato as teorias procuram demonstrar, por meio de diversas análises, as razões e as causas que impulsionam as transformações do camponês em agricultor familiar. O produtor de subsistência foi metamorfoseado em produtor de mercadoria. Submisso à lógica da sociedade industrial, o agricultor familiar consegue se tecnificar e se integrar, assimilando as mudanças e as inovações tecnológicas. A agricultura familiar corresponde melhor à exploração industrial do que a policultura camponesa. Diante desse cenário, a racionalidade econômica do campesinato é considerada, pelos pesquisadores como parcial, como, também consideram parcial a cultura camponesa e seu modo de vida, onde os laços comunitários admitem o mutirão e a reciprocidade, as quais são incompatíveis em um mercado onde imperam as relações mercantis, como explicou Abramovay (1998); Veiga (1991), entre outros.
As análises indicam que a tecnificação da unidade de produção familiar camponesa com a intensa especialização tecnológica implanta novas tarefas, novas competências e novos conhecimentos específicos. O que exige formação técnica
sofisticada como explicou detalhadamente Mendras (1974), demonstrando que o Estado deve proporcionar essa formação por eleger o agricultor familiar como principal força do desenvolvimento territorial, dinamizado pelo uso de tecnologia moderna. Por isso, as proposições contidas nas análises do paradigma do capitalismo agrário insistem na hipótese segundo a qual o futuro do campesinato será projetado à medida que ele for se integrando. Por isso, nas análises dos teóricos do paradigma do capitalismo agrário, raramente tratam da luta de classes e quase nunca da resistência camponesa. Retiram o conceito de camponês das suas análises justificando sua origem política pela associação às reivindicações da esquerda latino-americana, e que junto com campesinato foram “incorporadas, ainda que indevidamente, ao nosso discurso político e ao trato da questão agrária” (MARTINS, 2000, p. 45). Submissão, isolamento, pobreza, precariedade, agricultura itinerante, cultivadores pobres livres, auto-consumo, agricultura de subsistência são os elementos utilizados por Wanderley (2001, p. 36-55) para compreender o campesinato no Brasil. Essa forma de agricultura tem “que se adaptar às exigências da agricultura moderna, essa forma de agricultura guarda ainda muito dos seus traços camponeses, [...]” (WANDERLEY, 2001, p. 52).