3 GENERELT OM SÅRBARHET
3.1 D EFINISJON AV SÅRBARHET OG TILSTØTENDE BEGREPER
Segundo os epistemólogos Christian Laville e Jean Dionne, a abordagem antropológica nas pesquisas sociais consiste na participação ativa do pesquisador no campo explorado, ou seja, na comunidade, ocupando grande parte do seu tempo e esforços nas vivências sociais grupais:
O pesquisador deve se integrar ativamente no “campo” que quer explorar: ele, aí, não é senão uma testemunha [...]. Essa busca tem por objetivo reunir o máximo de dados. O pesquisador não pode, contudo, tudo ver, tudo ouvir, tudo fixar, daí a utilidade de uma baliza, papel normalmente exercido pela pergunta e pela hipótese. [...] A estratégia continua muito indutiva, sendo que o procedimento inscreve-se na “vida real”. O pesquisador aí evolui, tomando nota do que vê e ouve, fixando o que lhe parece útil, bem como o que lhe parece negligenciável. [...] É no momento do retorno sobre esta informação que ele poderá melhor julgar a verdadeira importância das informações assim obtidas e estabelecer os vínculos realmente significativos. Essas informações podem eventualmente ser enriquecidas pelo recurso aos instrumentos mais clássicos, como a entrevista, o questionário, a análise de documentos. [...] A riqueza da informação está ligada também ao fato de que se encontre os comportamentos reais, freqüentemente distantes dos comportamentos verbalizados. (LAVILLE, 1999, p. 154). A abordagem antropológica caracteriza uma parte das pesquisas aplicadas, que, segundo Délcio Vieira Salomon, são as que “se destinam a aplicar leis, teorias e modelos, na solução de
problemas que exigem ação e/ou diagnóstico de uma realidade (geográfica, social, econômica, política, etc)” (SALOMON,1974,
p.141).
1.4 OBJETIVOS DA TESE
pesquisas teóricas anteriores e é geralmente aplicável quando se analisa o caso concreto de que se ocupa a pesquisa em ambientes culturais diferenciados.
Para que a abordagem antropológica fosse plenamente aplicada e sua potencialidade explorada, os elementos componentes das hipóteses verificadas (o gosto pela leitura, as histórias em quadrinhos, os espaços de apropriação da leitura) foram sondados internacionalmente, tanto nas pesquisas teóricas que já se apresentavam concluídas, quanto na pesquisa de campo aplicada no Brasil e na Espanha.
A abordagem antropológica faz parte de metodologias como a “pesquisa participante”, aplicada nos trabalhos de campo de aproximação científica com as concretizações no âmbito popular, recomendada por intelectuais como Paulo Freire e as equipes das comunidades de base, nas décadas de 1960 e 1970. Orlando Fals Borba classifica como uma das principais responsabilidades dos pesquisadores e cientistas em geral a articulação entre os conhecimentos teóricos com o conhecimento concreto das situações cotidianas, que constituirão o espectro da aplicabilidade deste conhecimento (BORBA, 1990, p. 42-62).
A pesquisa participante é, assim, denominada por uma peculiaridade do comportamento do pesquisador, que participa das práticas observadas, mimetizando-se no ambiente. Grande parte dela se dá por observação assimétrica, isto é, uma observação ambiental que não é pré-estruturada, não possui um roteiro. Tudo que ocorre é observado e coletado pelo pesquisador, que analisa posteriormente os dados, quantifica, qualifica e relaciona. Nas pesquisas assimétricas, segundo Franz Victor Rudio, existem duas situações possíveis:
a) o observador é não-participante: aparece como um elemento que “vê de fora”, um estranho, uma pessoa que não está envolvida na situação, [...] b) o observador é participante, faz parte da situação e nela desempenha uma função, um papel [...] Costuma-se advertir que, quanto mais alguém é participante mais pode estar envolvido emocionalmente, perdendo a objetividade e prejudicando com isso a observação. [...] Kaplan, citando Hanson, diz que “o observador-padrão não é o homem que vê e relata o que todos os observadores normais vêem e relatam, mas o homem que vê em objetos familiares o que ninguém viu antes”. [...] o problema da pesquisa, início de todo processo, nasce freqüentemente da intuição de alguma dificuldade existente na realidade ou numa teoria.(RUDIO, 1989, p. 35)
1.4 OBJETIVOS DA TESE
A despeito das advertências de Rudio, o componente emocional tem sido aceito como componente científico, uma vez que a ética, o respeito à vida, a responsabilidade pelas conseqüências dos experimentos científicos tem incorporado a metodologia científica, no lugar da neutralidade positivista e da postura de que “os fins justificam os meios”. Para Borba, a ciência não perde o seu fôlego e legitimidade, mesmo que aplicada com a predominância da intervenção humana, em detrimento de registros de extrema precisão, aplicados em condições controladas. Denominando estes princípios como o de ciência modesta e técnicas dialogais, Borba recomenda que o pesquisador deveria:
(a) abandonar a tradicional arrogância do erudito, aprender a ouvir discursos concebidos em diferentes sintaxes culturais, e adotar a humildade dos que realmente querem aprender e descobrir; (b) romper com a assimetria das relações sociais geralmente impostas entre o entrevistador e o entrevistado; e (c) incorporar pessoas das bases sociais como indivíduos ativos e pensantes nos esforços de pesquisa. (BORBA, 1990, p. 55 ) Além dessas recomendações, Borba ainda aponta para construção racional diversa dos modelos cartesianos, enfatizando a essência das experiências de vida, assim como o domínio de duas ou mais linguagens científicas, ou diferentes níveis de comunicação simultaneamente, para realizar os seus objetivos. Esta forma de aproximação científica modifica a estrutura acadêmica clássica, à medida que reduz as diferenças entre o sujeito e o objeto de estudo (BORBA, 1990, p. 60).
Na prática, a pesquisa participante, como descrita por Borba, coloca como instrumentos de sondagem da realidade as entrevistas não-estruturadas, conduzidas por uma pauta que aponte para a problematização das hipóteses verificadas, coletadas preferencialmente nos ambientes de moradia, trabalho ou lazer dos participantes. Outro importante instrumento de coleta é a observação do pesquisador e a participação nas práticas vivenciais onde se desenrolam os fenômenos sociais verificados.
A maioria dos manuais básicos de metodologia da pesquisa não descreve especificamente a pesquisa aplicada, a exemplo de Salomon, já que ela é conjugada e precedida da investigação fundamental, que são as pesquisas documentais e bibliográficas, da pesquisa descritiva, que analisa o ambiente social e coteja os casos exemplares, da pesquisa experimental, que consiste na aplicação de “instrumentos” quantitativos e qualitativos de sondagem no ambiente.
1.4 OBJETIVOS DA TESE
No plano de investigação desta tese, desenvolvido em parte no Brasil e, posteriormente, na Espanha, foram clarificadas e orientadas todas estas fases da investigação que, em seus momentos intermediários, geraram inúmeros documentos relevantes, publicados ou em processo de publicação, que serviram de fonte para grande parte das elaborações teóricas desta tese. A conjugação de vários níveis de investigação científica social, em forma escalar, caracteriza a complexidade que diferencia uma tese de outras monografias e trabalhos de grau. Nesse sentido,Pensa-se que a realização de um estudo exploratório, por ser aparentemente simples, elimina o cuidadoso tratamento científico que todo investigador tem presente nos trabalhos de pesquisa. Este tipo de investigação, por exemplo, não exime a revisão de literatura, as entrevistas, o emprego de questionários, etc., tudo dentro de um esquema elaborado com a severidade característica de um trabalho científico. (TRIVIÑOS, 1995, p. 110)
Analisando as diferentes metodologias de pesquisa presentes nas ciências sociais, Geraldo Romanelli considera que a abordagem antropológica, a qual identifica especificamente pela “entrevista
antropológica”, foi criada pela antropologia, em seus trabalhos de
campo junto às sociedades primitivas. Devido às qualidades presentes neste método, foi incorporada pelos “pesquisadores das áreas de
psicologia, educação, saúde, comunicação e mesmo aqueles das ciências sociais [originalmente] mais afeitos ao uso de técnicas quantitativas de obtenção de dados” (ROMANELLI e BIASOLI-ALVES,
1998, p. 119).
Romanelli afirma, ainda, que esta incorporação de abordagem se deu ao longo das “três últimas décadas”, correspondendo à informação coletada no texto de Orlando Fals Borba. Embora seja, em sua origem, uma abordagem desenvolvida para a observação de sociedades sem vínculo com o processo civilizatório hegemônico, serve igualmente para que nos tornemos “etnólogos de nossa própria sociedade” e observemos o comportamento dos vários grupos sociais que a compõe.
Durante a apropriação da abordagem antropológica pela comunicação e outras áreas das ciências sociais, verificou-se que um dos problemas mais sérios seria o do “estranhamento”, sendo que sua superação sempre tenderá para uma reflexão profunda que volta o pesquisador para si próprio.
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Para tal, Romanelli se reporta a um conjunto de teóricos da epistemologia, os quais apontam que não é suficiente o treinamento e domínio dos métodos da pesquisa participante, mas que também é necessária uma sólida formação teórica e muita acuidade para exercitar o estranhamento e coletar os dados significativos nas observações levadas a cabo. Ou seja: “O primeiro suposto metodológico básico consiste em estudar a nós mesmos como se fossemos o outro, realizando o processo de estranhar aquilo que é familiar” (DaMATTA apud ROMANELLI e BIASOLI-ALVES, 1998, p. 123)
A entrevista é, por assim dizer, o instrumento principal da abordagem antropológica, conduzida por meio de uma pauta generalizadora, que será particularizada pelo entrevistado, identificado como depoente. Romanelli reflete que o entrevistador e o entrevistado, nesta situação, são mediadores de um mesmo núcleo de interesses comuns, onde são impelidos à reflexão sobre suas próprias vidas, descobrindo em suas cotidianas relações que estavam encobertas pelo manto invisível da rotina e do comportamento tradicional. No decorrer da entrevista,
O fato de organizar experiências para um interlocutor interessado em ouvi-las e que vai se tornando íntimo, apesar da alteridade sempre presente, induz o falante a recuperar aspectos da sua biografia poucas vezes comentados. É assim que, no curso da relação, o outro começa a avaliar o pesquisador como alguém interessado em sua existência e tende, muitas vezes, a investi-lo na condição de confidente. [...] Nessas circunstâncias, após a dificuldade inicial para entabular o diálogo, a alteridade entre ambos deixa de ser obstáculo para a aproximação e constitui-se em fundamento desta. (ROMANELLI e BIASOLI-ALVES, 1998, p. 126)
Devido à riqueza da investigação derivativa da abordagem antropológica na pesquisa que compõe esta tese, foi tomada a decisão de anexar, na íntegra, a transcrição das entrevistas, que poderão constituir-se, independentemente deste trabalho monográfico, em ricas fontes de informações relevantes sobre a temática da formação do leitor. Onde haja a incidência direta de afirmações significativas na fala dos entrevistados, sua transcrição será citada literalmente no corpo da tese, seguindo as normas internacionais de referência. Outros tipos de depoimentos coletados, como os dos estudantes de graduação (que o fizeram por escrito, de forma coletiva), serão representados por citações literais dos trechos mais relevantes, de forma que apenas uma amostra seja integralmente agregada aos anexos.
1.4 OBJETIVOS DA TESE
Quanto aos efeitos e resultados da investigação e sua posterior análise, a abordagem antropológica, a exemplo de outras abordagens qualitativas, aponta para uma prospecção especificamente voltada para a evolução social do problema pesquisado. Assim, na ocasião da moldagem do projeto de pesquisa cujo resultado principal foi à redação da tese, não se estava buscando apenas um determinado tipo de conhecimentos, mas a sua aplicabilidade na alteração dos aspectos incômodos da realidade social pesquisada. Ou seja, incluída na análise dos dados está à própria indicação para que as constatações influenciem diretamente as políticas públicas, concretizando os conteúdos prospectivos propostos de forma universalizante, poisOs investigadores das ciências sociais [como a comunicação] deixaram de aproveitar muitos dos conhecimentos obtidos, por não haver previsto e planejado desde o começo do projeto que tipo de conhecimentos se iria obter. E aqui não há recursos para não aproveitar, quer dizer, não há nem tempo, nem energia, nem esforços para desperdiçar. [...] Neste momento, e principalmente na América Latina, os investigadores não podem ser dar ao luxo de fazer uma pesquisa que não se sabe para que vai servir. Isso não causa uma obrigação para que todo projeto sirva para modificar algo, mas determina que seja [uma premissa] chave para ser considerada ao se fazer uma seleção de projetos, para uma melhor utilização dos
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recursos. (OROZCO GÓMEZ, 1997, p. 48)
As seguintes hipóteses, resultantes da problematização e da discussão individual ou coletiva, foram tomadas como referência de trabalho investigativo nesta tese:
! As histórias em quadrinhos são importantes para o desenvolvimento das funções sociais vinculadas à formação de leitores, democratizando o gosto pela leitura e contribuindo efetivamente para o letramento e a participação social dos cidadãos.
! A leitura de histórias em quadrinhos potencializa o gosto pela leitura deste e de outros suportes de informação e conhecimento, preparando o leitor para a decodificação e apropriação plena das diferentes linguagens, dando-lhe proficiência, estimulando o raciocínio analógico e a criticidade.