3. METODE
3.3 D ATAINNSAMLING
Gravidez e parto são eventos marcantes na vida das mulheres e de suas famílias. Representam mais do que simples eventos biológicos, já que são integrantes da importante transição do status de "mulher" para o de "mãe". Embora a fisiologia do parto seja a mesma, as diferentes sociedades não se atêm apenas aos cuidados deste aspecto, mas como evento biossocial, que envolve valores culturais, sociais, emocionais e afetivos 5.
O estado gravídico, considerado um ritual é um estado de contínuo cumprimento de tradições e costumes transmitidos de geração em geração6.
As vivências negativas nestes eventos tão marcantes para a mulher podem desencadear reações que vão desde o medo de ficar grávida outra vez, depressão pós parto, negação do serviço de saúde, até rejeição ao filho e frigidez. Além disso, as mulheres que tiveram essas vivências podem transmiti-las por meio de “relatos ou cuidados”, estigmas resultantes dessas situações, gerando por sua vez medo e incertezas 7.
É notório que o momento do parto é um processo vivenciado pela mulher de maneira particular, pessoal, o que demanda assim, um atendimento personalizado da equipe de saúde 8.
Historicamente, desde os primeiros tempos, a gestação, nascimento e parto dos seres humanos sempre foram situações de grande mobilização pessoal e social, envoltos por tabus, ritos e preconceitos, apresentando grande significado e fascínio, já que se relacionavam à continuidade da vida e perpetuação da espécie 9.
Nos escritos de Tschrak e Susruta, da medicina Hindu, já se recomendava uma atenção especial a gestantes. A prática milenar, de prestar assistência à mulher no período gestacional e ao recém nascido, foi exercida até o final do século passado, basicamente por mulheres, salvo em algumas comunidades indígenas em que os maridos ajudava 8,10 Essas mulheres eram geralmente anciãs que, ao longo da vida, foram adquirindo conhecimento e prática, passando suas experiências para as mais jovens, dando origem às parteiras, que as atendiam em domicílio11.
Com o surgimento da obstetrícia como área acadêmica, após a metade do século XIX, a assistência empírica perde seu espaço após uma intensa disputa entre classe médica e parteiras. Nessa nova ordem, a mulher passa então de sujeito da ação a objeto de estudo da nova ciência médica8.
O parto é institucionalizado no século XX, após a Segunda Guerra Mundial, visando a redução da mortalidade materna e infantil. Assim, considerando a premissa de que a medicina poderia dominar e /ou neutralizar os riscos á saúde da mulher e do feto, o parto passa a ser medicalizado8. E como conseqüência, o ato de dar à luz, experiência profundamente subjetiva, de vivência no ambiente domiciliar para a mulher e sua família, transformou-a em experiência no âmbito hospitalar: um momento privilegiado para o treinamento de acadêmicos e residentes de medicina e obstetrizes10.
A institucionalização do parto no estado de São Paulo foi acelerada pela extinção do Serviço de Assistência Médico Domiciliar de Urgência (SAMDU), no final da década de 60, reduzindo drasticamente os partos domiciliares, e atribuindo à gestante a responsabilidade de procurar o serviço de assistência hospitalar.
Gravidez e parto começaram a ser vistos como uma experiência humana complexa, transitória, especial, singular e multidimensional que envolve a gestante, parceiro, família e sociedade, permeada por grandes transformações físicas, emocionais, culturais, psicológicas, sociais, pessoais e alterações de papéis sociais 9, 8.
Como um evento social, mobiliza a atenção do meio de inserção da mulher, afeta as relações entre o grupo familiar, com expressão de particulares valores e significados particulares de cada grupo, influenciado pelos hábitos da família, que normalmente são transferidos de mãe para filha, e caracterizam o agir durante esse processo. Recebem ainda influências do meio em que vive, aumentando assim sua bagagem de costumes e atitudes relacionados a gravidez 1.
Partindo dessa significação, a gravidez é considerada um fenômeno sócio-cultural, caracterizado por vivências específicas. A mulher prepara-se
para assumir o papel de mãe no caso da primípara e as multíparas para exercer a maternidade mais uma vez 12.
O caráter individual da gravidez, está na forma única de como cada mulher a vivencia em cada nova gestação, que recebe influencia de vários fatores, entre eles a história pessoal, os antecedentes gineco-obstétricos, momento histórico da gravidez, aceitação da gestação pela gestante e família, condições sócio-economicas, culturais e espirituais, formação educacional e o fato de estar ou não realizando o pré-natal 9,1.
O período gestacional, apesar de ser um processo fisiológico que representa a capacidade reprodutora inerente à mulher, traz ao organismo feminino uma série de mudanças. As atenções no início,voltam-se às transformações corporais e oscilações emocionais e posteriormente ao momento do parto13.
As transformações geradas pela gravidez podem gerar medo, dúvidas, angústias, fantasias ou simplesmente curiosidade em saber o que acontece com o próprio corpo14. A mulher vai se adaptando ao estado de gravidez, incorporando o bebê como parte do seu corpo15.
O parto é um evento que integra a vivência reprodutiva da mulher e seu parceiro. Os profissionais de saúde são coadjuvantes dessa vivência, desempenhando importante papel ao colocar o conhecimento a serviço do bem-estar da mulher e do bebê, ajudando-os no processo de parturição e nascimento de forma saudável, prestando-lhe cuidados por meio de ações humanizadas10.
É um acontecimento muito esperado pela mulher, e familiares, repleto de significados (re) construídos dinamicamente na cultura, que podem desencadear um momento gerador de sentimentos ambivalentes, receio e medo, alegria e surpresa, expondo assim a mulher á vulnerabilidade emocional. São situações reais visualizadas no dia-a-dia e estão relacionadas aos fatores internos e externos que envolvem a parturiente. As mulheres visualizam simbolicamente a dor do parto a partir de experiências prévias ou de informações compartilhadas com outras mulheres, como também com profissionais que as cuidam. 13,16,12
Fisiologicamente as últimas horas da gravidez são caracterizadas por dores decorrentes das contrações que ocasionam a dilatação do colo uterino e forçam a saída do bebê pelo canal vaginal. As transformações corporais acontecem de forma rápida, ao contrário daquelas que ocorrem gradualmente durante os meses de gestação. É também quando se dá o início da separação do bebê, um processo psicológico importante para a mulher17.
Importante grau de estresse ou desconforto é vivenciado, principalmente durante a evolução do trabalho de parto. Como ele é o mais longo de todo o processo de parturição, a parturiente fica sujeita a um estresse fisiológico que, em condições normais, pode ser bem tolerado pelo organismo18.
Ao se reportarem à vivência da gravidez, as mulheres acentuam a prevalência do medo e ansiedade associados á antecipação do parto. Embora a ansiedade seja um fator comum ao processo gravídico normoativo, um elevado número de mulheres atinge valores que podem ser considerados de risco com claras implicações adversas na saúde e bem estar da mãe e bebê, mesmo após o período gestacional 12. Somado a isso, o medo da dor do parto se apresenta como fator determinante para o aumento desses sentimentos, pois sabemos que a dor é uma experiência vivenciada em um determinado contexto, sofrendo influencias psicológicas, biológicas , sócio-econômicas e culturais, pois pode ser influenciada pela sociedade em que a mulher está inserida19,20.
Estudos têm demonstrado que dentre as principais expectativas das mulheres em relação ao trabalho de parto e parto estão a possibilidade de participação ativa nesses momentos, o autocontrole (durante as contrações) e o controle da situação, além de conhecer o profissional que vai atendê-la, ter segurança acerca do apoio que receberá deste profissional e a expectativa de contar com um acompanhante 21,22.