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D ATAINNSAMLING

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3. LITTERATURGJENNOMGANG

4.1 D ATAINNSAMLING

No Programa de Estudos Pós-graduados em Educação: História, Política e Sociedade, oferecido pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, alguns estudos têm possibilitado à pesquisadora repensar, agora sob o olhar da Sociologia, alguns aspectos do objeto de pesquisa referente à alfabetização, que ela tem procurado entender no mestrado e no doutorado.

Um dos autores estudados que oferece uma importante fundamentação, na perspectiva sociológica, é Peter Berger (1986). Esse autor esclarece sobre o poder que a sociedade exerce sobre os indivíduos; suas explicações procuram respostas ao questionamento sobre o porquê de nossos desejos quase sempre coincidirem com o que a sociedade espera de nós. Para ele, “a sociedade determina, não só o que fazemos, como também o que somos. (...) A localização social não afeta apenas nossa conduta; ela afeta também nosso ser.” (idem, p. 107).

As análises de Berger (1986) avançam sobre três áreas de investigação e interpretação: “a teoria do papel, a sociologia do conhecimento e a teoria do grupo de referência.” A primeira delas, “a teoria do papel”, derivou da linguagem do teatro – o autor define o papel como “uma resposta tipificada a uma expectativa tipificada.” Ele argumenta que “a sociedade proporciona o script para todos os personagens” (idem, p.108). Desse modo, os atores devem assumir seus papéis, conforme o estabelecido no script, e o drama social pode prosseguir de acordo com o planejado.

O modo como o indivíduo age em cada situação segue o padrão determinado pelo papel definido na sociedade. Assim, em cada profissão, ou como diz Berger (1986), em cada papel ocupacional, existe um padrão de hábitos de linguagem e gestos, mas ele

esclarece, ainda, que “os papéis trazem em seu bojo tanto as ações como as emoções e atitudes a elas relacionadas” (idem, p.109). E isso faz com que uma pessoa passe a sentir aquilo que representa, por exemplo, o professor que se sente sábio ao representar uma cena de sabedoria.

Nesta perspectiva, Berger (1986, p. 111) esclarece que “o papel dá forma e constrói tanto a ação quanto o ator. (...) Todo papel na sociedade acarreta uma certa identidade. (...) até mesmo as identidades que julgamos constituir a essência de nossas personalidades foram atribuídas socialmente”. Desse modo, ele sintetiza o significado da teoria do papel, de acordo com a perspectiva sociológica, ao afirmar que “a identidade é atribuída socialmente, sustentada socialmente e transformada socialmente.” (idem, p.112)

Partindo desse pressuposto, considera-se, na presente pesquisa, a possibilidade de reconhecer o modo como a sociedade atribui, sustenta e transforma as identidades dos professores que têm a tarefa de alfabetizar. Para tanto, são considerados o Sistema social, econômico e político, por meio da análise da origem social dos professores, do status de professor, das concepções de alfabetização no decorrer do tempo, e pelo perfil de cidadão alfabetizado esperado; o Sistema escolar e como ele define a formação inicial e continuada, a estabilidade por meio de concursos, as condições e jornada de trabalho; a Unidade escolar, como ela determina suas normas e rotinas, a recepção do professor iniciante, a atribuição de classes, a valorização, ou não, do professor alfabetizador.

Para explicar o processo de socialização da criança, em sua aprendizagem de pertencer à sociedade, Berger (1986, p. 112) destaca o trabalho teórico de Mead, no qual “a gênese do eu é identificada com a descoberta da sociedade”. Por meio da brincadeira, as crianças desempenham vários papéis sociais e, assim descobrem o significado de quem elas são. A interação da criança com outros seres humanos – que, no início, são seus pais ou um adulto responsável por sua educação – torna possível esse aprendizado dos papéis. Primeiramente, ela irá assumir papéis ligados a essas pessoas, chamadas por Mead de seus “outros significativos”. Esse processo será decisivo para a criança adquirir a concepção de si própria. Aos poucos, ela irá perceber a relevância desses papéis na relação com as expectativas da sociedade. Mead denomina esse nível mais alto de abstração como a descoberta do “outro generalizado”.

Todo esse processo é explicado por Berger (1986, p. 113), quando afirma: “(...) identidade não é uma coisa pré-existente; ela é atribuída em atos de reconhecimento social. Somos aquilo que os outros crêem que sejamos”.

Berger e Luckmann (2003), no texto A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento utilizam o conceito “outros significativos” para explicarem a intermediação que ocorre no primeiro contato do indivíduo com a sociedade na infância, denominado, pelos autores, de socialização primária.

Desse modo, considera-se o quanto a sociedade é determinante na atribuição das identidades e também é responsável por sustentar essas identidades, com bastante regularidade, seja por meio de ritos ou do reconhecimento de outras pessoas. Como afirma Berger (1986, p. 115), “(...) a identidade vem com a conduta, e esta ocorre em resposta a uma situação social específica”.

A estrutura social, por meio de seus mecanismos de socialização, produz as pessoas de que precisa para seu funcionamento. Como afirma Berger (1986, p. 124), “(...) cada sociedade produz os homens de que necessita”. Por meio da teoria dos papéis, o autor explica a presença da sociedade no homem e, de modo semelhante, ele apresenta sua análise da segunda área de investigação e interpretação: “a sociologia do conhecimento” que trata da “localização social das ideias” e “(...) tenta traçar a linha que une o pensamento, seu autor e o mundo social deste” (idem).

Partindo desse pressuposto, explica-se e justifica-se uma determinada situação social por meio de um pensamento. Assim, uma ideologia passa a existir quando ideias são criadas para atender a um interesse da sociedade. Muitas vezes, as ideologias alteram a realidade social para atender seus interesses. A ideologia tanto seve para justificar o que é feito pelo grupo favorecido por ela, como para interpretar a realidade social de maneira a tornar aceitável a justificativa.

Contudo, ainda que o exame das ideologias possibilite a localização social das ideias, seu domínio é limitado para demonstrar o pleno significado da sociologia do conhecimento. Nas palavras de Berger (1986, p. 129), “(...) a sociologia do conhecimento reivindica a jurisdição sobre todo o reino do pensamento (...) na medida em que qualquer pensamento está fundado na sociedade”. Nessa perspectiva, são consideradas todas as ideias, bem como sua localização na existência social das pessoas que as pensaram.

O indivíduo, por conseguinte, adquire socialmente sua cosmovisão quase da mesma forma como adquire seus papéis e sua identidade. Em outras palavras, tanto quanto suas ações, suas emoções e sua auto-interpretação são pré-definidas para ele pela sociedade, da mesma forma que sua atitude cognitiva em relação ao universo que o rodeia. (BERGER, 1986, 131).

A maneira de enxergar, interpretar reconhecer o mundo que o rodeia é determinada, socialmente, aos indivíduos. Essa cosmovisão é incorporada por meio da linguagem que lhes é imposta pelo grupo responsável pela socialização inicial. A linguagem é o mecanismo simbólico com o qual os indivíduos apreendem o mundo, organizam sua experiência e interpretam sua própria existência. Assim, de acordo com Berger (1986, p. 132) “(...) a sociedade fornece nossos valores, nossa lógica e o acervo de informação que constitui nosso ‘conhecimento”.

A terceira área de investigação e interpretação sobre a determinação da sociedade no homem, examinada por Berger (1986), é a “teoria do grupo de referência”. Sua definição demonstra que uma pessoa dirige suas ações pautada por esses grupos:

um grupo de referência, nesse sentido, é a coletividade cujas opiniões, convicções e rumos de ação são decisivos para a formação de nossas próprias opiniões e rumos de ação. O grupo de referência nos proporciona um modelo com o qual nos podemos comparar continuamente. Especificamente, ele nos oferece um determinado ponto de vista sobre a realidade social, que poderá ou não ser ideológico no sentido anteriormente mencionado, mas que em qualquer caso será parte e parcela de nossa participação nesse grupo particular. (idem, p.133).

A participação das pessoas, nesses grupos de referência, permite enxergar o mundo, segundo a perspectiva desse grupo. Desse modo, enquanto a sociologia do conhecimento oferece um panorama social da realidade, a teoria do grupo de referência indica a existência de muitos pequenos modelos do cosmo incorporados em diferentes grupos.

Diante das análises de Berger (1986), sobre a sociedade no homem nas três áreas de investigação e interpretação, “a teoria do papel, a sociologia do conhecimento e a teoria do grupo de referência”, pode-se concluir que a palavra que resume os temas principais aqui expostos é “internalização” – o mundo social é internalizado pela criança, ocorrendo o mesmo processo no adulto a cada novo contexto social em que for inserido.

Como finaliza Berger (1986, p. 136), além de controlar nossos movimentos, a sociedade “ainda dá forma à nossa identidade, nosso pensamento e nossas emoções. As estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa própria consciência”. O causa mais espanto é que tudo isto se dá com a nossa cooperação.

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