Figur- og tabellregister
3. Dødelighet blant yrkesaktive og yrkespassive
Trabalhar o pensamento filosófico de Adorno e Horkheimer, não é tão fácil como parece para certos leitores desavisados, porque exige do pesquisador, muita dedicação, paciência e várias leituras retomadas sobre a DE, especialmente, o primeiro capítulo “O Conceito de Esclarecimento” cuja compreensão é complexa. Porém, acredito que abrindo caminhos na floresta imensa da ignorância que persiste em habitar em nossa mente, como ídolos da teoria baconiana, conseguimos enxergar de maneira mais clara, o horizonte infindável da contemporaneidade e seus meandros nesta obra.
A dificuldade de enfrentamento da DE, fortalece e abre a perspectiva da mente, no exercício constante da dialética, nos colocando dentro de toda problemática. Não somos expectadores da história, mas somos produtores da história, com a história e na história. Conforme Wolfgang Leo Maar comenta na obra “Educação e Emancipação” em “A Guisa de introdução: Adorno e a experiência formativa” de Adorno o qual expressa sobre a Teoria da História baseado nas ideias de Walter Benjamin:
“[...] O passado não é um ponto fixo” do qual deriva o presente, dissera Walter Benjamin. Caberia conferir um sentido à história reelaborando a relação do passado ao presente, justamente para apreender o presente como sendo histórico, acessível a uma práxis transformadora.” (ADORNO, 1995, p.24)
Nesta perspectiva onde “o passado não é um ponto fixo”, realmente somos produtores da história (com e na história) no contexto que Adorno e Horkheimer nos inserem apresentando a DE, tornando-se uma obra clássica da contemporaneidade, mais especificamente, contendo todo o bojo filosófico de sua futura teoria estética, a qual perpassa pelo capítulo “Conceito de Esclarecimento” e na obra inteira da DE.
No primeiro capítulo: “Uma introdução a partir do Prefácio da Dialética do Esclarecimento”, apresentei uma breve exposição sobre o surgimento da DE, para entender quais foram os primeiros anseios de Horkheimer e depois com Adorno; apresentei a proposta do Prefácio de 69 com intuito de assegurar melhor os conteúdos que foram apresentados nos outros capítulos. Por fim, é exatamente o que dizem os comentadores Marcia Tiburi e Rodrigo Duarte em “Seis Leituras sobre a Dialética do
91 Esclarecimento”, quando afirmam: “No prefácio de edição de 1969 é afirmada a inserção de suas teorias no pressuposto do núcleo temporal e historicamente mutável da verdade.” (TIBURI e DUARTE, 2009, p.09)
Este capítulo é a amostra preparatória para vislumbrarmos, propriamente dito, os primórdios da filosofia adorniana na obra da DE e toda sua complexidade em torno desta verdade mutável. A verdade não é absoluta.
Já no segundo capítulo: “O entrelaçamento dialético entre Mito e Aufklärung”, tratou do tema propriamente dito. O contexto geral discutiu sobre a obra da DE, em sua complexidade e seus emblemas quanta obra clássica da contemporaneidade, conjuntamente com os principais comentadores de Adorno e Horkheimer. No item sobre o paradoxo dialético: “Esclarecimento ou Mito, Mito ou Esclarecimento” mostramos a tese central da DE, cuja tese, inspirou o tema proposto desta pesquisa.
Afinal, nesta perspectiva dialética, ora o Mito, ora o Esclarecimento, esta oscilação é tendenciosa ou não? De certo modo, sim, porém, a dialética apura e depura todas as perspectivas, mediante o esforço e arcabouço intelectual dos autores. Portanto, sem dúvidas nenhuma, é preciso explicitar claramente esta oscilação, ao mesmo tempo, tanto no Mito como no Esclarecimento, a qual não é fácil, pois nem sempre percebemos os movimentos dialéticos do texto.
A crítica do esclarecimento ao mito é um disfarce que demonstra o medo do próprio mito, então Adorno e Horkheimer afirmam que a regressão do esclarecimento ao mito, a qual ofusca a razão. O esclarecimento está tão preso ao mito, quanto o mesmo ao esclarecimento, manifestando a questão da dominação.
“[...] Essa aparência, na qual se perde a humanidade inteiramente esclarecida, não pode ser dissipada pelo pensamento que tem de escolher, enquanto órgão da dominação, entre o comando e a obediência. Incapaz de escapar ao envolvimento que o mantém preso à pré-história, ele consegue, no entanto reconhecer na lógica da alternativa, da consequência e da antinomia, com a qual se emancipou radicalmente da natureza, a própria natureza, irreconciliada e alienada de si mesma.” (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p.49)
A dialética manifesta a questão da dominação que perpassa toda resistência como lógica da alternativa, então, apropria-se da resistência e de toda crítica, aglutinando ao processo totalitário do esclarecimento. A própria natureza é
92 irreconciliada e alienada de si mesma conforme Adorno e Horkheimer nos disseram. Por isso, os autores usam a dialética para revelar este processo de constituição e transformação da dominação na história humana social.
No terceiro capítulo trabalhei selecionando alguns parágrafos específicos do primeiro capítulo “Conceito de Esclarecimento”, notadamente, apresentando de forma concisa os elementos contidos dentro do contexto do tema proposto. Foram eles:
O parágrafo §6 apresentou a tese central do “Conceito de Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer.
A conversão histórica de mão dupla do mito para o esclarecimento e vice-versa, nos mostra que a história da razão ocidental não era bem como costumamos saber desde então, também revela esta participação intrínseca tanto do mito como do esclarecimento, em suas gêneses estruturais, conforme Luis Inácio de Oliveira afirmou o mito e o esclarecimento são “contrafaces inseparáveis”.
Esta conversão ou transformação carregará elementos constituintes embutidos em suas essências como pensamentos vigentes (o mito contém indícios racionais, assim como o esclarecimento regride à mitologia) que, com certeza, expressa a relação dialética entre eles.
No parágrafo §7 em consonância com o anterior, ao constatar esta transformação do mito em esclarecimento, os autores revelam o substrato para auto conservação da espécie humana dentro da questão da dominação, que é o poder da repetição. A “insossa sabedoria” afirmada pelos autores, representa este poder da repetição.
Segundo Adorno e Horkheimer tal poder é considerado a mola propulsora da dominação da natureza externa e, mais tardiamente, da natureza interna do homem devido à crença num saber insosso (filosofias descritivas que não transformam a apreensão do mundo) na aurora da Modernidade, com a exaltação do ideal científico que eles criticam veemente. Porém, esta crítica como vimos alimenta ainda mais o esclarecimento como pensamento vigente, a qual é mergulhada na mitologia novamente. Por trás desta trama está o poder da repetição não só na linguagem, mas nas estruturas do próprio pensamento que são refletidas no comportamento inconsciente dos indivíduos na sociedade.
Repetimos, reproduzimos pensamentos já pensados por todo sistema que quer dominar e controlar as massas, mantendo-os na ignorância de si mesmo, enfraquecendo
93 seu ego, “coisificando” o sujeito pensante e transformando em “massa amorfa”. Segundo Hanna Arendt em “Origens do Totalitarismo” afirma:
“[...] As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização baseada no interesse comum, seja partido político, organização profissional ou sindicato de trabalhadores.” (ARENDT, 1989, p.361)
Adorno e Horkheimer quase numa mesma linha de pensamento de Hanna Arendt expressam a dominação presente na história da razão ocidental que oprime e reprime o sujeito até então considerado “esclarecido”, esta dominação se dá pelo poder da repetição, a qual dá a impressão que a história se repete, não há nada de novo para saber nessa “insossa sabedoria”, porém, ao afirmar isto reforçamos o processo da dominação da natureza que envolve os homens. Enfim, cunhados mais para frente como “massas atomizadas ou amorfas”. Por isso, percebo que no pensamento político de Arendt há uma continuidade da crítica à cientificidade racional, assim como Adorno e Horkheimer criticam o ideal cientifico no âmbito da teoria do conhecimento.
O parágrafo §10 introduz a questão da linguagem como área da vida humana social também dominada pelo esclarecimento, formatando ou resignando a linguagem ao cálculo. Padronizar a linguagem aos moldes matemáticos é mais fácil para dominar a natureza e aos homens. Lembrando que a linguagem em tempos imemoriais era muito mais imagética do que permeada pelos signos.
Na modernidade, o signo está separado da imagem, porque a linguagem, de certa forma, é colocada forçosamente num invólucro permanente da exatidão matemática, justamente, para não dar brecha para o sujeito pensar, por que tudo já se encontra pensado, esquematizado. E se quiseres ficar de “fora” do esquema imposto, será excluído automaticamente. Esta é a ideia do “fora”, a abstração se torna uma “camisa de força” no esclarecimento, assim como o “destino” se torna a mesma coisa no mito. São maneiras diversas de dominar através do campo da linguagem.
O parágrafo §11 também introduz a questão importantíssima da mimese como função identificatória dentro da arte e da ciência. A mimese só vem a calhar, aliás, esta
94 questão é titulo da obra de doutoramento de Rodrigo Duarte “Mímesis e racionalidade”: “Mímesis e racionalidade pertencem-se, mutuamente, uma à outra, e sua dialética só se realiza plenamente no interior de uma obra de arte. Nisso ela se aproxima da dos princípios do prazer e da realidade na Psicanálise.” (DUARTE, 1993, p.136, 137)
A mimese como “imitação” do semelhante acolhe o poder da repetição em si mesma. O esclarecimento contém a “própria autodestruição”. Segundo Adorno e Horkheimer a questão da arte e da ciência implica o uso diferente da mimese em ambas as áreas.
A arte provém da magia tendo a mimese através da semelhança, já na ciência a mimese tem função identificatória e eliminatória do “não idêntico”. Portanto, ciência e arte são antíteses que se confunde e, que através da mimese tem papéis opostos dentro da questão da dominação.
No parágrafo §17 Adorno e Horkheimer quase já no final do capítulo “Conceito de Esclarecimento” citam e colocam na problemática do entrelaçamento dialético entre Mito e Aufklärung, o personagem heroico Ulisses – astuto ardiloso. Ulisses como protagonista da Odisséia na reflexão adorniana é a figura protoburguesa que nas entrelinhas da epopeia homérica revela indícios da racionalidade ainda no pensamento mítico.
Segundo Adorno e Horkheimer, Ulisses é o ponto de partida para primeira investigação sobre a questão da subjetividade na transição do pensamento mítico para pensamento filosófico. Então, este parágrafo é escolhido para apresentar um nome –
Odisseu – Ulisses, que será lembrado sempre não só por suas aventuras, mas dentro da filosofia como o primeiro a dar indícios do eu (subjetivo). Ulisses é a figura mitológica imponente da aurora do esclarecimento como modelo de mentalidade moderna vigente.
Ao expor todos estes parágrafos que mostram elementos relevantes dentro do contexto dialético entre Mito e Aufklärung, esta nova história da razão ocidental insiste na questão da dominação, que não é tão simples de entender e que se desdobra na constituição da razão científica.
A pesquisa, de certo modo, explicitou através de um recorte selecionado de parágrafos do “Conceito de Esclarecimento” o entrelaçamento contínuo entre Mito e Aufklärung, em suas oscilações críticas e até redundantes.
Fica evidente que a questão da dominação esteve presente no Mito até o ideal científico positivista se estabelecer cada vez mais, apesar de que, hoje em dia, a ciência
95 mudou seus paradigmas iniciais, talvez até a ciência seja absorvida pelo processo totalitário do esclarecimento, mas não é o fim. Mesmo que a dominação gere medo, este medo sempre existiu no drama humana existencial, só aflora como o próprio Freud havia dito em sua obra “O Mal-estar na civilização”, onde ele afirmava que este medo “primitivo” sempre residiu no inconsciente, quiçá, então, hoje este medo que um dia foi inconsciente, se torna bem consciente que até se transforma em pânico. Eis o perigo sobre o qual Adorno e Horkheimer nos alertam neste capítulo inicial.
Todavia, Adorno e Horkheimer como defensores iluministas da razão esclarecida, escrevem se comprometendo para uma possível saída, mesmo que a situação pareça sem saída. Mais tardiamente, exatamente, em 16 de julho de 1969, Adorno participa pela última vez na sede da Rádio de Frankfurt com Hellmut Becker, o diretor do Instituto de Pesquisas Educacionais da Sociedade Max Planck, em Berlim, a uma entrevista intitulada “Educação e Emancipação”, cuja entrevista se torna sua obra, com mesmo título da entrevista, com quatro conferências redigidas pelo próprio Adorno. No último decênio de sua vida, Adorno se esforça para justamente encontrar uma solução para a questão da dominação difundindo a educação política, que para ele se identificava à educação para a emancipação.
De certa forma, nesta obra “Educação e Emancipação” de Adorno, seria uma resposta ao que ele e Horkheimer encontraram na DE sobre história da razão vinculada à dominação da própria razão, por isso, Adorno cultiva e busca o resgate da emancipação a partir do holocausto, especificamente, Auschwitz, o qual ele afirma:
“[...] Quando falo de educação após Auschwitz, refiro- me a duas questões: primeiro à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima que os motivos que conduziram ao horror torne-se de algum modo conscientes.” (ADORNO, 1995, p.123)
Auschwitz representa na história da humanidade o ponto culminante da barbárie no século XX. Adorno toma como ponto de partida este acontecimento para resgatar as consciências perdidas, para refletir sobre a educação para emancipação, começando com as crianças, algo que dá ideia de vida nova, renascimento e novos horizontes para o futuro, ressaltando logo em seguida o esclarecimento geral, para criar um novo ambiente cultural nas mentalidades pós-guerra. Lembrando que educar não é esquecer o
96 Holocausto, mas trabalhar as consciências para que Auschwitz nunca mais venha acontecer, e para isto é preciso conscientizar as massas reificadas para uma consciência emancipatória política.
Adorno afirma que o papel da educação pós-Auschwitz é, justamente, trabalhar os resíduos não só da guerra como da própria natureza humana, que é o medo reprimido, tão realçado por Freud.
O medo faz parte da natureza humana, porém, é usado em prol de controle das consciências reificadas em nome do “progresso”; insiste em permanecer cada vez mais paralisando os sujeitos, que deixam de realizar a sua tarefa primordial, sua própria libertação, aquilo que Kant chamava “o pensar por si próprio”, a busca da autonomia. Portanto, o medo é inerente, porém, não deve ser reprimido e sim trabalhado a partir da consciência emancipada.
“[...] a educação precisa levar a sério o que já de há muito é do conhecimento da filosofia: que o medo não deve ser reprimido. Quando o medo não é reprimido, quando nos permitimos ter realmente tanto medo quanto esta realidade exige, então justamente por essa via desaparecerá provavelmente grande parte dos efeitos deletérios do medo inconsciente e reprimido.” (ADORNO, 1995, p.129)
Então, o que seria emancipação para Adorno?
“[...] De certo modo, emancipação significa o mesmo que conscientização, racionalidade. Mas a realidade sempre é simultaneamente uma comprovação da realidade, esta envolve continuamente um movimento de adaptação. A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo.” (ADORNO, 1995, p.143)
Adorno nestas entrevistas consegue, talvez, não de maneira tão aprofundada como a obra da DE, dar uma resposta momentânea ao problema da barbárie. A DE é uma obra denunciadora fundamentada na teoria do conhecimento, sociologia, psicanálise e filosofias afins, já estas entrevistas são uma tentativa de uma simples resposta ao que foi levantado e apresentado no Prefácio de 1969 e de 1944 e no início do capítulo “Conceito de Esclarecimento.” E Adorno responde com o último capítulo “Educação contra barbárie” afirmando:
97 “[...] O problema que se impõe nesta medida é saber se por meio da educação pode-se transformar algo decisivo em relação à barbárie. Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação à sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás, uma tendência imanente que a caracteriza.” (ADORNO, 1995, p.155)
Depois de 22 anos da publicação da DE - Adorno em “Educação e Emancipação” expressa sua noção de educação que vimos acima clamando urgência em educar a massa para a consciência política. Isto é um novo desafio que gera nova problemática: Como é possível educar a massa nesta transformação constante da sociedade capitalista do consumo que marcha mais e mais em direção ao “progresso”, ou seja, à barbárie?
No entanto, de um lado, Adorno diria que a educação não teria sentido nenhum, se ela não incorporasse constante e continuamente o elemento adaptativo da realidade, que seria uma educação pautada na conscientização dialética do sujeito, assim o sujeito não estaria aquém do processo totalitário alienante, já que está inserido no meio social.
Por fim, o sujeito em sua impotência racional acolhe tal irracionalidade semeada na sociedade, na tentativa de transcender a si mesmo, transcender-se do imanente sem esquecê-lo, para escapar, por alguns instantes, do “monstro devorador de vontades autônomas” (sistema capitalista), e começar a respirar um pouco. Surge assim com esta depuração dialética, novos ares, novos pensamentos para o sujeito se emancipar do processo totalitário já imposto, mesmo que ainda esteja se sentindo preso, o sujeito já vislumbra novos horizontes, principalmente, na arte.
Por outro lado, é inerente a barbárie presente na sociedade como uma “ferida machucada que não se cicatriza”, porque o eu está ferido, reprimido, quebrado. A barbárie parece até uma “infecção interna”, que quando eclode em forma de bolha, explode de maneira violenta e prejudicial na convivência social. Esta “infecção interna”
98 é o impulso autodestrutivo do eu. E se não cuidar desta ferida infecciosa do eu, pode se tornar uma infecção generalizada, decretando a morte do eu e o caos social.
Portanto, é necessário cuidar bem desta “ferida” para sarar “as massas” no sentido individual, surgindo consciências saudáveis, humanizadas dentro do próprio processo totalitário.
É possível ainda acreditar no pensamento, no sujeito, é preciso resgatar a emancipação em prol da “saúde” e integridade do eu, do sujeito. Refazer um novo caminho na cura das feridas propiciadas pela convivência real dos sujeitos reféns do maquinário esquematizado do pensar dominante, não é fácil, porém, necessário. Além do mais, Adorno diria que é necessário tentar reverter o processo de regressão através da arte, instaurando nas consciências massificadas gotas de criatividade diversa no seu pensar, no seu falar, no seu agir, no seu ser.
Entretanto, Adorno em sua obra (1963) “O Fetichismo na música e a Regressão da Audição” afirma que: “A música de entretenimento preenche vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências.” (ADORNO, 2005, p. 67)
A música como expressão artística pode libertar as mentes deformadas pelo medo, porém, a música de entretenimento só aumenta a escravidão do sujeito dominado pelo sistema. Por isso, reverter o processo de regressão pela arte é necessário saber selecionar quais expressões artísticas apreciar em prol da emancipação. Não é qualquer música, não é qualquer arte, pois, ela também se encontra contaminada.
Sabemos que a realidade, muitas vezes, é cruel, porém, ou como refúgio, ou como alternativa, a arte bem selecionada pode trazer ao “sujeito quebrado, cansado” do opróbio óbvio do real, um alívio momentâneo para alguns e, para outros um alívio “conta-gotas”, para outros ainda uma válvula de escape da pressão que a realidade exerce sobre nós.
Por isso, segundo Adorno, a educação conscientizada do “sujeito quebrado”, com uma perspectiva artística, se torna um “elixir energizante” para o sujeito superar, sem rejeitar o sofrimento real, “escravidão do sistema”, inerente a cada sujeito que vive no meio social, mas continuar lutando, vencendo, sofrendo, chorando, caindo e levantando, como é normal no processo da vida. Pensar sem esquecer-se do pensar criativo.
99 Esta pesquisa focada nesta obra clássica da DE exige um esforço ímpar do pesquisador, que muitas vezes, quis desistir por vários fatores, mas inclusive, por participar e viver este mundo que Adorno profetizou, perseverei e findo esta pesquisa. Mas por que perseverar? Como disse, somos reféns deste processo de dominação, não há escapatória, porém, a escapatória está, justamente, no esforço dedicado e constante, é