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3.4 Årsaker til kvalitetsfeil

3.4.4 Dårlig/svak utblødning

Quando as presas ingressam no Talavera Bruce, o primeiro lugar que ocupam é o anexo; caso ele esteja lotado, vão ocupar a galeria E, onde é a “tranca”, mas é no anexo que ficam para a chamada “prova do silêncio”. São 4 (quatro) dias em que ficam isoladas, só podendo sair de suas celas por 1 (uma) hora por dia, das 8 (oito) ate às 9 (nove) horas da manhã.

È nesse período silencioso que elas aprendem como devem se comportar na prisão; embora nada seja dito, as regras começam a ser internalizadas naquele momento, constituindo-se como um instrumento eficaz de sujeição em que “a palavra vale prata e o silêncio vale ouro”.

Esse tem se mostrado um instrumento muito eficaz para “amansar” as presas recém-chegadas, especialmente aquelas que estão entrando, pela primeira vez, no sistema penitenciário. Para as que vêm do Bangu VI, “cadeia do seu Marcelo”, ou do Bangu VII, “cadeia da Dona Sônia”, o impacto é menor, porque essas são unidades prisionais nas quais, segundo o depoimento de diversas internas, há castigos físicos (surras).48 Esse período, também, tem por utilidade fazer circular as notícias e os informes relativos às novatas ou às reincidentes. Após esse período inicial de (re)adaptação, as presas são encaminhadas ao Pavilhão II, onde ficam aguardando alguma vaga, seja em galeria ou em alojamento, de acordo com os parâmetros exigidos para ocupar cada um desses espaços.

O Pavilhão II abrigou, até o final dos anos 1970, as presas políticas que eram chamadas de “subversivas”. Nota-se que as características desse pavilhão eram opostas às atuais, pois, na época, as presas políticas estavam subordinadas a um regimento especial — “normas gerais de tratamento relativas aos internos que gozam do benefício de cumprir pena sem rigor carcerário”49 —, que lhes concedia vários direitos, na época, não extensivos às presas comuns, tais como: a não-obrigatoriedade de uso do uniforme, e a possibilidade de receber “visitas íntimas” de seus companheiros. Além disso, não havia, para essas presas, a exigência de se submeterem a horários rígidos, como ocorre, até hoje, para as presas comuns. Por fim, além de uma ala específica com celas individuais, as presas políticas dispunham de uma cozinha onde podiam, quando quisessem, preparar suas próprias refeições e

48 Essa questão será desenvolvida no capítulo 2.

49 Segundo Tânia Dahmer Pereira, isso ocorreu em função da forte influência da posição

espaços vagos (cubículos vazios) que estavam disponíveis para diversos usos. (LEMGRUBER, 1999, p. 35).

Atualmente, o uso do uniforme não é mais exigido para as presas do Talavera Bruce, exceto quando saem para “visita íntima” em outras unidades prisionais. Hoje, também, as presas do TB, como foi mencionado, têm acesso a “visita intima”.

Em certa medida, pode-se dizer que essas duas benesses ou conquistas que as presas do Talavera Bruce têm hoje são um legado das presas políticas. Isso porque sua presença ali reforçou, indiretamente, tanto a luta contra o uniforme, ou seja, pela possibilidade de cada uma expressar sua individualidade na forma de vestir, como a demanda da oficialização da “visita íntima” — uma conquista há muito tempo alcançada nas penitenciárias masculinas50 —, que sempre foram duas bandeiras de lutas das internas.

Uma questão em aberto seria a discussão sobre os motivos que levaram as autoridades da época a autorizar ou permitir um tratamento positivamente diferenciado para as presas políticas. Seguramente, não foi uma decisão baseada apenas nas “normas legais”. Ainda que, no final dos anos setenta, estivéssemos em franco processo de abertura e anistia política, vale lembrar que, no início daquela década, à revelia de toda a legislação formalmente vigente, os serviços de repressão do regime militar torturaram centenas e eliminaram dezenas de presos políticos, sem fazer distinções de gênero, de etnia.

Quiçá, em um momento de forte abertura política e de “déblaque” da ditadura,

as presas políticas, com maior capacidade de articulação e com um capital relacional não desprezível, tenham logrado apoio oficial para as suas demandas. Sem dúvida, o papel de seus defensores (familiares, advogados e amigos com bons contatos na esfera pública) foi fundamental para essas conquistas. Facilitou, também, esses avanços a mudança da conjuntura política

50 Ressalte-se que, como se trata, formalmente, de uma “regalia”, também nas unidades

que apregoava abertura democrática e luta pela anistia política. Ao longo desse período de transição, as presas políticas foram, paulatinamente, transmutando- se, aos “olhos das autoridades penitenciárias”, ainda que de forma irrefletida e inconsciente, passando de “subversivas” para “moças de classe média”. Essa mudança de status acarretou — como é comum até hoje com presas oriundas da classe média — um tratamento diferenciado, ainda que, na maioria das vezes, de forma subliminar e pré-reflexiva, por parte das autoridades.

Nos apoiamos na interpretação acima nas análises de Jessé de Souza. Em suas palavras:

esquemas avaliativos compartilhados objetivamente, ainda que opacos, e quase sempre irrefletidos e inconscientes que guiam a nossa ação e nosso comportamento efetivo... é apenas esse tipo de consenso, como que corporal, pré-reflexivo e naturalizado, que pode permitir, para além da eficácia jurídica, uma espécie de acordo implícito que sugere... que no Brasil algumas pessoas e classes estão acima da lei e outras abaixo dela. o que existe aqui são acordos e consensos sociais mudos e subliminares, mas, por isso mesmo tanto mais eficazes que articulam... (de forma informal e não consciente)... solidariedades e preconceitos profundos e invisíveis. (SOUZA, 2003, p. 174-175)

Como veremos adiante, seriam também esses “esquemas avaliativos” que permitiriam, na atualidade, às presas estrangeiras (gringas), especialmente as de origem europeia, e às poucas presas de “classe média” do Talavera Bruce monopolizarem a maioria das ocupações mais almejadas, como é o caso da “faxina”.51