Ao discorrer sobre as questões referentes ao trabalho da escola, Pimenta (2008), destaca que a finalidade dessa organização tem que ter como objetivo, permitir aos estudantes, que se apropriem dos conhecimentos da ciência e da tecnologia e desenvolvam habilidades necessárias para atuar com esses conhecimentos, “[...] desenvolvam as habilidades para operá- los, revê-los, transformá-los (...) em sociedade e as atitudes sociais - cooperação, solidariedade, ética -, tendo sempre como horizonte colocar os avanços da civilização a serviço da humanização da sociedade” (PIMENTA, 2008, p. 1). Portanto, acreditamos que as escolas precisam rever sua organização, mas essa ação precisa ser realizada com crítica a partir das discussões no coletivo dos atores da escola.
Contudo, vimos que as políticas de avaliação têm redimensionado a organização do trabalho pedagógico para que a qualidade da Educação seja alcançada, mas, em função de números e objetivos estabelecidos por essa política. Com efeito, as instituições se sentem pressionadas a se adequarem às metas estabelecidas a fim de se classificarem “bem” no ranking. Nesse contexto, as práticas pedagógicas acabam sendo modificadas. As escolas são levadas a dedicar-se no esforço em preparar os/as estudantes para que atinjam bons resultados.
Essa categoria foi organizada a partir de evidências percebida durante os momentos formais do processo de ensino e aprendizagem observados em sala de aula, situações informais com diálogo entre as profissionais e pesquisadoras e leitura dos projetos internos situados no PPP onde descritores das avaliações externas predominam. Selecionamos excertos, situações e materiais que evidenciavam a preparação dos estudantes para as
avaliações externas, ou seja, quando a organização do trabalho pedagógico era conduzida sob influência da AE.
A partir da sinalização de que há preparação para a AE na EMMFR, elencamos dois desdobramentos: “quando prepara o/a professor/a para atender as demandas da AE” e “quando ocorre a avaliação em sala de aula utilizando instrumentos/métodos (provas, testes, simulados) elaborados de forma semelhante aos itens cobrados na AE”.
Para demonstrar como a AE repercute na preparação do/a professor/a para atender às suas demandas, destacamos alguns excertos de diálogos informais entre pesquisadoras e profissionais da escola, além de registros de observação.
A seguir, destacamos alguns excertos de diálogos entre pesquisadoras, diretora e supervisão em que afirmavam algumas mudanças no trabalho do/a professor/a.
- forçou os professores a trabalhar textos diversos; - busca por melhores resultados;
- induziu formação de professores extraturno (estudo dos índices, termos da avaliação);
- estudos dos descritores que os alunos mais erraram/ organização de apostila dos descritores que erraram (Registro de diálogo com diretora, E. M. Maria Firmina dos Reis, grifos nosso).
[...] contribuíram para o comprometimento das professoras dessa instituição com o aprendizado dos estudantes, a diversificação de questões nas provas, esclarecimento e uso de comandos mais claros nas questões e objetivos, uso de diversidade de gêneros textuais, a mobilização por formação continuada dos/as profissionais, pois precisavam, compreender os termos, objetivos e matrizes das avaliações externas (Registro do diálogo informal entre pesquisadora, direção e supervisão, E. M. Maria Firmino dos Reis, grifos nosso).
A supervisora e a diretora julgam positivo o impacto do SIMAVE sob a forma de organização e prática docente quando essa os/as “forçou” para o uso de, por exemplo, textos diversos e estudo de comandos objetivos na elaboração de atividades/questões/provas.
Alguns destaques demonstram alguma “positividade” produzida em decorrências AE: “comprometimento das professoras com o aprendizado dos estudantes”; “uso de diversos textos, gêneros textuais”, pois de acordo com a supervisora, antes usavam (basicamente) apenas textos de fábulas e pequeno poemas; mobilizou a equipe a promover e participar de formações (extraturno como apontado pelas docentes na entrevista já mencionado no capítulo 4). Contudo, por entendermos que a Educação é perpassada por complexidades e riquezas que não podem ser medidas a partir dessa política reducionista da qualidade, não podemos concordar ou atribuir à avaliação externa o poder de melhorar as práticas de aprendizagem- ensino.
Com base nessas percepções, conferimos aquilo que estudiosos já denunciaram: que a avaliação externa reflete alterações na organização do trabalho docente e nas práticas curriculares (ESTEBAN; FETZNER, 2015).
No desdobramento: “quando na avaliação em sala de aula se utiliza instrumentos/métodos (provas, testes, simulados) elaborados de forma semelhante aos itens cobrados na AE”, encontramos na resposta da diretora uma das razões porque isso ocorre.
Eu percebo assim, que não houve uma mudança de postura, porque a postura é a mesma de quando eu estava na vice-direção, quando ainda não se falava em avaliação externa. Eu percebo que a postura não mudou muito, o envolvimento da equipe não mudou muito, hoje o que se mudou foi apenas uma adaptação ao modelo da avaliação, mas o compromisso é o mesmo, não mudou. O espírito de equipe da escola como um todo foi acontecendo. O que exigiu mais da gente, foi adaptar ao modelo de avaliação externa (Registro de diálogo com diretora, E. M. Maria Firmina dos Reis, grifos nosso).
Por meio de planejamento, das formações, buscamos ensinar o profissional a fazer, a pensar, a interpretar as avaliações, a matriz de referência (Registro de diálogo com diretora, E. M. Maria Firmina dos Reis, grifos nosso).
Em sala de aula observamos algumas situações:
Os estudantes realizaram em dois dias simulados on-line, nos padrões das avaliações externas. Um foi impresso e outro digital (Registro de observação 03/11/2014, quinto ano, E. M. Maria Firmina dos Reis).
Um estudante pergunta como será a prova de Português, se terá trabalho com gênero. A professora 2 responde que não e em seguida esclarece que: “Será no modelo da Prova Brasil igual às seis folhas de atividades que já fizeram”. (Registro de observação na sala de aula da professora do quinto ano, em 18/09/2014, quinto ano, E. M. Maria Firmina dos Reis).
De acordo com a professora do quinto ano, essas ações eram para familiarizar e auxiliar as crianças para realizarem uma boa avaliação. Mas o esforço em “preparar” os/as estudantes para se saírem bem nas provas só tende a fortalecer uma cultura avaliativa baseada em treinos seguidos de provas e verificação dos resultados. Desse modo, são os números que importam, ainda que esses não nos digam muita coisa (ou quase nada).
Acompanhamos uma verdadeira difusão de uma “cultura avaliativa” no ambiente local das escolas, para além da cultura do exame, da classificação e da exclusão como afirmava Luckesi (1995) nos anos de 1980. Hoje as crianças estão dentro da escola “treinando” para realizarem as provas do SIMAVE com sucesso, ao invés de se debruçarem no esforço necessário para às aprendizagens significativas (MENDES, 2016, p. 91).
Conforme Freitas (2007, p. 973), “[...] nesses sistemas de avaliação o desempenho individual é subsumido nas estatísticas que lidam, preferencialmente, com tendências globais
dos sistemas de ensino ao longo do tempo, a partir da proficiência média dos alunos”. A ênfase nessa concepção de avaliação inviabiliza a possibilidade de práticas formativas. Discutiremos melhor na próxima categoria sobre a repercussão da AE na AA.