Uma pesquisa documental realizada a partir da produção jornalística do jornal O Globo e Folha de São Paulo, do ano de 1999, revelou-nos uma mudança no discurso quanto à utopia das redes telemáticas. Os jornais não trataram, naquele ano do poder da internet para fazer frente à hegemonias, mas do receio do seu uso devido à falta de segurança da rede, a falta de privacidade, e em maior proporção, sobre os casos de pedofilia virtual que estavam sendo descobertos graças às ações policiais no país.
O surgimento do receio quanto ao uso da internet pelo homem não advém exclusivamente das questões que envolvem as redes telemáticas, mas é reflexo do uso da técnica como ideologia dominante na sociedade contemporânea. Por mais que o próprio corpo humano seja como o é devido a uma técnica natural, um conjunto de procedimentos que trazem o homem à existência, a questão de fundo refere-se ao conflito entre o uso da técnica sobrepondo-se à ação humana.
Lucien Sfez (2007, p. 19), ao comentar a obra Le système technicien, de Jacques Ellul22, afirma que o sistema técnico “suprime a fratura objeto/sujeito”. Enquanto se pretende
22 Jacques Ellul é um teólogo francês, líder da resistência francesa na 2ª Guerra Mundial, que possui diversos
estudos sobre a tecnologia e sobre o que chamou de fenômeno técnico. Suas visões deterministas e fatalistas atribuem à tecnologia um caráter tirano sobre a sociedade.
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neutro, em verdade, o sistema técnico neutraliza tudo que o cerca, influenciando profundamente a sociedade, suscitando formas de comunicações específicas, apropriadas à estrutura técnica. A partir dessa avaliação, Sfez faz uma crítica à ideia de Ellul de que o computador seja apenas um aglomerado de cálculos previsíveis, uma vez que o computador também se lança em circuitos imprevisíveis. Assim, junto da dinâmica humana, esses circuitos podem estimular a reflexão e o novo.
Por mais que Sfez tenha razão em considerar que o computador, enquanto instrumento técnico, possa estimular o desenvolvimento do saber humano, os principais tecnófobos consideram que o fenômeno técnico custa muito à liberdade reflexiva e à autonomia do indivíduo, pois a sua neutralidade não se verifica de fato. Assim, o homem não apenas usa a técnica ou a tecnologia para facilitar determinada ação, mas se submete à sua estrutura, não mais sabendo o que é ação humana ou ação tecnológica. Tomemos como exemplo o sistema bancário. Há como imaginar um mundo globalizado sem os caixas eletrônicos? Um mundo sem o intercâmbio monetário instantâneo? Certamente não. Porém, se partirmos de uma visão apocalíptica, sem a eletricidade que move todo esse sistema, a estrutura bancária contemporânea seria ineficiente e, sob muitos aspectos, as transações seriam inexistentes, em parte devido à virtualidade dos valores monetários e à dependência da eletricidade para tornar real todo o sistema econômico mundial. Tornou-se tão fácil retirar dinheiro ou transferi-lo que não é conveniente imaginar um mundo sem tal facilidade. Porém, seria diferente em um apagão elétrico, causado por ingerência ou por uma guerra inesperada.
Tanto o sistema bancário, que usamos como exemplo, quanto os seres humanos passaram a depender da tecnologia, pois esta permitiu manipular e controlar a natureza para determinado fim. Para os tecnófobos, comenta Rüdiger (2011, p. 194), “o homem perdeu a capacidade de controlar a técnica, qualquer que seja seu objetivo, na medida em que seus únicos elementos de valor passaram a ser o cálculo, o controle e a eficiência”.
Jean Baudrillard é um dos principais autores que condenam a técnica, em especial no universo em que coexistem os homens e as redes telemáticas. A base de sua argumentação está na existência de uma hiperrealidade constituída a partir das redes telemáticas, onde é quase impossível distinguir a realidade da imaginação. Assim, o que vemos no computador muitas vezes nos parece tão real que esquecemos da sua virtualidade, do seu caráter não-
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humano. Assim, por meio da simulação, a sociedade estaria sendo transposta à uma realidade virtual, levando para o ciberespaço as suas relações, mas perdendo constantemente a noção entre o que é real e o que é apenas simulação. O caso de games online que simulam a vida cotidiana, que trazem para sua interface as instituições que vemos nas ruas agora também nas ruas virtuais fazem com que a noção do real seja colocado à prova em detrimento de um espaço técnico do qual supostamente temos controle. Para Baudrillard,
A Internet apenas simula um espaço de liberdade e de descoberta. O operador apenas interage com elementos conhecidos, os sites estabelecidos, os códigos instituídos. Nada existe para além desses parâmetros de busca. Toda pergunta encontra-se atrelada a uma resposta preestabelecida. Encarnamos, ao mesmo tempo, a interrogação automática e a resposta automática da máquina (BAUDRILLARD, 1997, p. 146)
A visão de Baudrillard concretiza-se, por exemplo, com a presença do maior site de busca do mundo, o Google, operando na China – país que atualmente vive sob um regime totalitário. Graças a um acordo com o governo chinês, o Google deixou de revelar na sua página de buscas as referências a sites, comentários, vídeos ou outros produtos que tivessem relação a termos pré-determinados e vetados pelo governo chinês devido ao receio de influenciar os cidadãos de forma contrária à ideologia dominante naquele país. Dessa forma, o Google apenas traria respostas “filtradas” àqueles que optarem por buscar informações na rede. O que viesse como resposta nãos seria a totalidade de informação, apenas aquela informação indicada para aquele usuário.
O pensamento humano, complexo e dinâmico, não corresponde à uma proposta tão determinante como a da interrogação-resposta promovida pela internet. É evidente que os buscadores trazem respostas para os questionamentos dos usuários formulados por termos ou perguntas, mas não deixam espaço para a reflexão, o contraditório, as múltiplas possibilidades que permeiam determinado assunto e dessa forma, não deixam espaço para a construção do saber científico (não nos referimos a casos específicos em que a internet é utilizada para a produção de conhecimento pelas academias, mas o comportamento observado do usuário comum). Para os usuários, feita a pergunta, a resposta é imediata. Se correta, não se sabe. Uma lógica de estímulo-resposta típico da formação de sistemas e da Cibernética.
A visão de Baudrillard também questiona as relações interpessoais mantidas por meio das conexões entre os usuários. Na conversação mantida por meio da internet, os indivíduos
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se apresentam de forma alternada no processo dialógico. “O sujeito se torna prisioneiro de suas próprias fantasias [...], pois a interação, quando existe, é puramente simulada, e o mais comum é um eterno feedback consigo mesmo, alimentado por um outro anônimo e maquinístico” (RÜDIGER, 2011, p. 207). Por isso, para Baudrillard, não se sabe de fato quem é o outro com quem se interage. Em um game online, não se sabe de fato quem é o oponente. Perde-se a noção do real por meio da simulação, ou melhor, do simulacro.
Rüdiger (2011) atribui a Baudrillard o adjetivo de esotérico devido às suas reflexões futurísticas. Porém, parece-nos o mesmo esoterismo encontrado em autores tecnófilos, o que não desmerece um ou outro grupo. As contribuições de Baudrillard conflitam diretamente com aqueles que veem o desenvolvimento da humanidade por meio da tecnologia. A preocupação do autor, em especial, está no comprometimento da percepção do homem para com o que é, de fato, real.
2.3 Considerações
Neste capítulo, discutimos as principais ideias que tangenciam a questão da técnica na sociedade hiperconectada. Enquanto meio técnico, a internet tem sido enaltecida, por alguns, como o mecanismo para a solução de diversos problemas humanos e, por outros, como um retrocesso para a humanização das práticas cotidianas. Esse confronto dialético tem sido revigorado à medida que novos aparatos técnicos são inseridos na sociedade para aprimorar hábitos cotidianos e até mesmo a ciência. O questionamento baseia-se na dúvida sobre até que ponto o homem será capaz de controlar a tecnologia à sua disposição e se o uso constante de aparatos técnicos não seria, no decorrer do tempo, forma de subjugar a capacidade reflexiva humana frente às múltiplas possibilidades da técnica, que, segundo Heidegger, não é neutra. A afirmação do filósofo é importante para confrontar com os principais autores tecnófilos que acreditam que a tecnologia está à disposição e o seu benefício ou malefício depende da intencionalidade do homem que a quer dominar. Nesse sentido, Heidegger complementa que a técnica é condicionante, ou seja, ela regula (controla) o comportamento humano, pois restringe as possibilidades da ação ao seu contexto técnico. Esse é o maior argumento dos autores considerados tecnofobos, que, para além do viés pessimista, jogam um olhar crítico sobre a ultra penetração dos aparatos técnicos como estrutura necessária para as relações sociais, laborais, econômicas e políticas. No tempo em que todas as ações do real
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transportam-se para o virtual, estamos transformando em dados, números, toda a existência humana e suas relações, sem refletir sobre isso. Como se debaixo de um efeito narcótico, a internet fosse a solução para muitas necessidades humanas, causando uma progressiva migração para o ciberespaço. Ao migrarem para lá, passam a ser condicionados pelo meio, deixando expostas as suas vidas, regulando para aquele formato técnico as interações, os gostos, os desejos, a forma de se relacionar, a forma de ler notícias, entreter-se, namorar e até sentir prazer. É tão grande o efeito da internet que muitos jornais impressos deixaram de ser físicos. A programação da televisão passou a ser selecionada pelo telespectador. Os trabalhos acadêmicos escritos sobre a égide da inteligência coletiva – fácil, acessível, em linguagem popular. Como uma verdadeira revolução a partir da comunicação, a internet muda estruturalmente e funcionalmente as relações humanas na sociedade interconectada. E nesse contexto, são nas redes sociais online onde a maior interação entre os indivíduos ganhou novo fôlego, como veremos a seguir.
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