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Como vimos anteriormente, os professores encontram-se entre os profissionais sujeitos a níveis mais elevados de stress, sendo igualmente o seu grupo profissional aquele em que os sintomas de exaustão emocional e de despersonalização, próprios do síndroma de burnout, são mais frequentes em alguns países. No entanto, em Portugal estão por determinar os níveis de incidência do burnout profissional na docência, desconhecendo-se igualmente estudos sobre os factores, designadamente de stress, que contribuem na população docente portuguesa para o desenvolvimento deste síndroma. As questões que se colocam nesta dissertação podem então ser equacionadas da seguinte forma:

Quais os níveis de incidência do stress e do burnout profissional dos professores e quais os seus preditores?

Vimos também que o quadro explicativo do burnout profissional é dominado em grande medida pela desarticulação teórico-empírica, tendo-nos referido à necessidade de modelos capazes de enquadrar teoricamente o estudo do burnout e de orientar investigações dedutivas. Neste sentido, propomo-nos integrar o estudo de burnout na docência numa perspectiva processual mais ampla e que não entra em conflito com ela, a saber o modelo transacional de stress e coping (Kyriacou & Sutcliffe, 1978a; Lazarus, 1966; Lazarus & Folkman, 1984). Do ponto de vista do fenómeno do burnout, as tentativas de coping desenvolvidas pelos professores revelam-se disfuncionais e perversas na medida em que contribuem para o stress profissional prolongado e para o desenvolvimento de sintomas de burnout nos docentes. Está no entanto por clarificar o papel do coping como variável interveniente na relação stress – burnout, sendo esta uma outra questão fundamental a que se procura responder nesta dissertação:

Qual o papel, mediador e/ou moderador, que as estratégias / estilos de coping utilizadas pelos docentes em situação de stress profissional desempenham na relação stress – burnout?

Constatámos, por último, a quase total ausência de modelos que dêem conta, em termos conceptuais e empíricos, da dimensão social do problema do burnout. Neste sentido, a nossa proposta consiste em estudar as representações sociais que os professores constroem do burnout na sua profissão e integrá-las no processo de stress-coping-burnout, na convicção de que esta proposta de articulação nos permite situar o estudo do burnout na docência num nível de análise psicológico e simultaneamente dar conta da dimensão social deste problema. Podemos assim formular duas outras questões que diríamos centrais nesta dissertação:

Quais as representações sociais construídas pelos professores sobre o burnout profissional na docência e qual o papel que estas variáveis desempenham na relação coping - burnout profissional na docência?

Como veremos no capítulo três, as representações sociais são teorias – sistemas organizadores de significados comuns – sociais – produzidas no quadro dos processos de interacção social – práticas – orientadoras dos comportamentos e comunicações (Jodelet, 1984). Ou, nas palavras de Jodelet (1989a, p. 36).: "…Uma modalidade de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objectivo prático e contribuindo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social…".

Uma característica fundamental das representações sociais, que aqui pretendemos salientar, é a sua funcionalidade prática em termos de construção e defesa da identidade social e de organização e orientação dos comportamentos. Diversos estudos realizados neste domínio têm efectivamente demonstrado que as representações sociais sobre um objecto se constituem como projectos de acção que determinam comportamentos face a esse objecto. É o caso, por exemplo, do estudo de Herzlich ([1969] 1973), sobre as representações sociais da saúde-doença, em que as três representações da doença por ela identificadas - destruição, libertação e ofício - se assumem como três estratégias comportamentais distintas e coerentes com os objectivos identitários. Também os estudos realizados no quadro da teoria das representações sociais sobre as concepções e avaliações do risco associado a determinado fenómeno têm evidenciado que estas dão sentido ao contexto, fornecem critérios de avaliação e selecção de comportamentos, e organizam e orientam as acções tidas como adequadas à situação. Salientamos ainda que a representação e percepção de risco ou

vulnerabilidade tem sido frequentemente incluída como variável psicossocial nos modelos sobre crenças e comportamentos de saúde (por exemplo Becker, 1974 ou Leventhal, Meyer & Nerenz, 1980) sendo considerada por alguns autores como um importante componente dos processos de coping e de adaptação (Leventhal et al, 1980). Como referem Farr e Marková (1995) as campanhas de educação para a saúde mobilizam igualmente o pressuposto de que a percepção do risco de determinada doença é um elemento essencial para a mudança dos comportamentos relacionados com a saúde.

Tendo em conta esta reflexão, que aprofundaremos no capítulo três, a tese que procuramos demonstrar neste trabalho pode então ser formulada em três pontos essenciais:

as representações sociais que os professores constroem do burnout na

docência incluem concepções sobre os modos desejáveis de acção face ao problema do burnout profissional;

estas representações sociais constituem-se como preditores significativos das

estratégias / estilos de coping utilizadas pelos docentes para lidarem com o stress profissional; e

estas representações sociais moderam a relação entre as estratégias / estilos

de coping utilizadas pelos docentes e o burnout profissional.

Gostaríamos por último de sublinhar a relevância teórica e prática das questões formuladas. De um ponto de vista teórico reportam a, e procuram elucidar, problemas como: as relações entre o stress e o burnout ou, mais genericamente, entre o stress e a saúde-doença; o papel das variáveis de coping nessa relação; e a regulação social da construção de significados, designadamente no domínio das vivências profissionais. Na perspectiva das suas implicações práticas, pretendem clarificar o problema da incidência do stress e do burnout na profissão docente e identificar alguns dos seus principais preditores; ao fazê-lo abrem pistas para uma reflexão, pensada a nível da formação de professores, sobre as estratégias de prevenção mais adequadas à especificidade do contexto socioprofissional da docência português.

Para finalizar esta introdução ao trabalho resta-nos apresentar um breve resumo dos

outros quatro capítulos que o compõem. Assim, no capítulo dois – Fundamentação teórica: o fenómeno do burnout – propomo-nos fazer uma abordagem geral deste fenómeno. O nosso ponto de

partida é a análise do desenvolvimento histórico e conceptual do conceito de burnout. Seguidamente tentamos clarificar a natureza e limites do burnout, tendo em vista a sua delimitação conceptual. Ao caracterizarmos o campo de estudo do burnout de acordo com quatro grandes abordagens teóricas, individual, interpessoal, organizacional e societal, procuramos evidenciar a desarticulação teórico- empírica reinante e a escassez de modelos societais. Finalmente apresentamos um modelo integrativo das conceptualizações do burnout, em que se articulam, numa perspectiva transacional, os fenómenos de stress, coping e burnout e as variáveis do contexto sociocultural em que estes ocorrem, mas se deixa em aberto o papel mediador e / ou moderador do coping na relação stress – burnout.

Pretendendo afirmar a relevância de uma abordagem societal do burnout, no capítulo três – Representações sociais do burnout na docência - propomo-nos analisar concretamente o fenómeno do burnout profissional dos professores no quadro da teoria das representações sociais. Na primeira parte do capítulo, relativa aos fundamentos teóricos, apresentamos uma caracterização desta teoria, dando particular destaque aos estudos efectuados sobre as representações sociais da saúde e da doença, e justificando a sua adopção como modelo heurístico para a compreensão do burnout. Na segunda parte do capítulo apresentamos o estudo empírico por nós realizado, o qual se estrutura em duas investigações de natureza diferente mas intimamente relacionadas e nos permitiu reconstruir e caracterizar três grandes representações sociais do burnout na docência: burnout como doença, burnout como desadaptação e burnout como absentismo. Os resultados obtidos permitiram- nos ainda especificar o modelo integrativo do burnout proposto no final do capítulo dois, operacionalizando as variáveis de contexto social e cultural como representações sociais do burnout, sugerindo diferentes tendências de relação entre as três representações sociais identificadas e as estratégias de coping utilizadas pelos docentes em situação de stress profissional e propondo a intervenção das representações sociais do burnout como doença e como absentismo como variáveis moderadoras da relação entre o coping e o burnout.

No capítulo quatro, propomo-nos finalmente estudar os problemas da Incidência e

preditores do burnout profissional dos professores. Começamos, para tal, por analisar os

fundamentos teóricos e as provas empíricas existentes sobre as suas possíveis causas e manifestações e sobre os seus níveis de incidência. Esta análise permitiu-nos confirmar que no domínio do burnout na docência se verifica igualmente alguma desarticulação teórico-empírica e escasseiam as abordagens societais do problema, bem como constatar a inexistência de estudos que determinem para a população docente portuguesa os níveis de incidência do burnout e os seus principais preditores. O estudo empírico que apresentamos seguidamente, e que partiu do modelo integrativo do burnout proposto no capítulo dois e especificado no capítulo três, permitiu-nos avaliar a incidência do burnout profissional numa ampla amostra de professores portugueses, destacar as diferentes variáveis de stress, coping e representações sociais que se assumem como preditoras significativas das três dimensões do burnout , clarificar o papel que as estratégias de coping utilizadas pelos docentes desempenham na relação stress - burnout e analisar o papel que as representações sociais do burnout desempenham na relação coping - burnout.

No capítulo das Conclusões, o último deste trabalho, fazemos um resumo das principais conclusões a que chegámos, caracterizamos o panorama da prevenção e tratamento do burnout profissional, e propomos algumas linhas de orientação para uma reflexão crítica sobre a prevenção do burnout pensada a nível da formação de professores. Para finalizar, analisamos as principais limitações do trabalho e apontamos algumas linhas de investigação relevantes.