Nosso estudo segue, em seus aspectos teóricos e metodológicos, a natureza da pesquisa de abordagem qualitativa de vertente etnográfica, sendo orientada pela técnica da pesquisa colaborativa, caracterizada também pela observação participante. Dentre os paradigmas adotados pelas pesquisas em Linguística Aplicada (LA), escolhemos essa abordagem por considerarmos mais adequada aos objetivos propostos nesta dissertação e também pela utilização de variados instrumentos (perfis, artigos de opinião, cartas argumentativa, entrevistas, questionário) para a geração de dados.
Conforme Thomas (1993), existem dois tipos de etnografia: a convencional, a qual busca descrever a cultura de um grupo para melhor entendê-lo, e a crítica, a qual estuda e descreve a cultura de um grupo com vistas a transformá-la. Essa, por sua vez, tem objetivos emancipatórios e fortalecedores (THOMAS, 1993 apud TINOCO, 2003, p.32/33). Nesta dissertação, temos traços distintivos dessas duas vertentes de etnografia.
Para melhor exemplificar os procedimentos que envolvem o trabalho etnográfico, André (1995, p. 27) afirma que...
[...] a etnografia é um esquema de pesquisa desenvolvido pelos antropólogos para
estudar a cultura e a sociedade. Etimologicamente, etnografia significa ‘descrição cultural’. Para os antropólogos, o termo tem dois sentidos: (1) um conjunto de
técnicas que eles usam para coletar dados sobre valores, os hábitos, as crenças, as práticas e os comportamentos de um grupo social; e (2) um relato escrito resultante do emprego dessas técnicas.
É interessante ressaltar que as pesquisas de caráter etnográfico consideram os desafios enfrentados durante a própria geração de dados: incompatibilidade entre as agendas do pesquisador e dos colaboradores; falta de interesse e/ou de disponibilidade de colaboradores potenciais; ausência de envio de dados que poderiam ser importantes para a pesquisa. Além disso, o pesquisador precisa aprender a ouvir e a lidar com os interesses pessoais dos colaboradores, com os valores, as práticas, as crenças. Essa relação de respeito é fundamental para estreitar as relações entre pesquisador e colaboradores. Em meio a tudo isso, múltiplas relações harmoniosas e algumas conflituosas surgem quando se pretende registrar as práticas e os comportamentos de um grupo social específico.
Outra característica da pesquisa etnográfica é a observação participante, conforme André (1995, p. 28). Para ela:
[...] A observação é chamada de participante porque parte do princípio de que o pesquisador tem sempre um grau de interação com a situação estudada, afetando-a e sendo por ela afetado. As entrevistas têm a finalidade de aprofundar as questões e esclarecer os problemas observados. Os documentos são usados no sentido de contextualizar o fenômeno, explicitar suas vinculações mais profundas e completar as informações coletadas através de outras fontes.
Além dessas características que subjazem do uso dessas técnicas, existem ainda, segundo essa pesquisadora, o princípio da interação constante entre pesquisador e objeto pesquisado, ou seja, o pesquisador é o instrumento principal na geração e na análise dos dados. Para ela, outra característica importante da pesquisa etnográfica é a ênfase no processo, naquilo que está ocorrendo e não no produto ou nos resultados finais. Além disso, há preocupação com o significado, com a maneira própria com que as pessoas veem a si mesmas, as suas experiências e o mundo que as cerca. Por fim, a pesquisa etnográfica envolve um
trabalho de campo: “[...] o pesquisador aproxima-se de pessoas, situações, locais, eventos, mantendo com eles um contato direto e prolongado” (ANDRÉ, 1995, p. 29).
Conforme Thomas (1993, p. 2), a natureza etnográfica se caracteriza por um tipo de reflexão que examina a cultura, o conhecimento e a ação. Esse autor define etnografia crítica como sendo...
[...] um tipo de reflexão que examina a cultura, o conhecimento e a ação. Ela expande os nossos horizontes para a escolha e ampliação da nossa capacidade de ver, ouvir, sentir. Ela aprofunda e aguça compromissos éticos, forçando-nos a desenvolver e agir de acordo com compromissos de valor no contexto de agendas políticas (THOMAS, 1993, p. 2).
De acordo com esse autor, o pensamento crítico vai além de uma estratégia de pesquisa. Isso significa que esse pensamento se constitui numa forma de vida que ultrapassa o interesse meramente profissional. O saber construído ao longo do processo de investigação não finda com o término de um projeto de pesquisa, tendo em vista que o pesquisador incorpora as descobertas e o conhecimento adquirido por meio da pesquisa desenvolvida.
Considerando Thomas (1993), há alguns motivos que levam um pesquisador a optar pela pesquisa etnográfica crítica. Corroborando essa ideia, Jafelice (2003, p. 15) menciona quatro dessas razões:
a) satisfação pessoal em integrar os aspectos privados e profissionais [...];
b) responsabilidade intelectual, ao transformar conflitos de interesse em desafios técnicos [...];
c) potencial de emancipação para libertar-nos das formas existentes de dominação cultural [...];
d) obrigação ética, que pressupõe uma premissa vinda de uma longa tradição de filosofia moral com relação a valores que são melhores que outros, tais como não violência, justiça social, igualdade.
Se tomarmos o motivo “potencial de emancipação”, por exemplo, Thomas (1993,
p. 04) o define como sendo “[...] o processo de afastamento com relação às formas de pensar ou agir que limitam a percepção ‘acerca de’ e a ação ‘em direção à’ realização de possibilidades alternativas”. Interpretando esse pensamento, podemos afirmar que esse autor
considera que os pesquisadores que optam pela vertente etnográfica crítica partem do princípio de que a vida cultural está em constante tensão entre o controle e a resistência.
De acordo com Tinoco (2003), na etnografia crítica, pesquisadores e colaboradores têm participação ativa no desenvolvimento de ações relacionadas à pesquisa, uma vez que se vinculam a um processo maior que envolve conhecimento, sociedade e ação política. Metodologicamente, essas ações implicam em entender a não neutralidade da pesquisa e das relações que se estabelecem entre os colaboradores bem como a necessidade de se lançar um olhar reflexivo e crítico sobre a realidade e como essa poderia ser alterada.
Outrossim, quanto à pesquisa qualitativa, procuramos registrar os dados gerados durante a investigação, dando prioridade à descrição e à análise desses fatos no contexto situado, ou seja, onde eles realmente aconteceram. Entendemos, em nossa pesquisa, que é primordial a interação com os colaboradores envolvidos e os dados gerados, bem como a triangulação para que possamos melhor interpretá-los com o propósito de legitimação e confiabilidade desses dados.
Nessa vertente de natureza etnográfica, tentaremos combinar uma análise de práticas de letramento, acervos e traços identitários, analisando os significados desses dados no dia a dia de interação social dos colaboradores.
Entendemos que essa perspectiva se coaduna com as pesquisas em estudos de letramento e, para tanto, balizamo-nos em Kleiman (1998, p. 60):
[...] A pesquisa etnográfica visa construir descrições iluminadoras da realidade social que nos permitam ver com novos olhos os fenômenos cotidianos (como o da leitura) e apresenta o estudo de casos particulares como um microssomo social (Erikson, 1996). Os enfoques etnográficos convencionais aspiram a construir um
“descrição teórica” dos fatos (também conhecida como descrição densa, rich
description; ver Geertz 1973/1993; Hammersley, 1992).
No nosso caso, pretendemos oferecer uma contribuição à área de PLE na ECT por meio dos achados desta pesquisa, além da possibilidade de tornar visível para os graduandos do BCT o potencial alargamento das concepções de leitura e de escrita, advindas das práticas que desenvolvem em contexto acadêmico ou fora dele para agir no (sobre o) mundo.
Assim, esse pensamento é o que sintetiza, em linhas gerais, o risco a que nos expomos e os desafios que podemos enfrentar ao dialogar com diversos pesquisadores nas mais variadas áreas do saber para colaborar com este estudo de vertente etnográfica.
Subjaz, então, em nosso estudo, a ênfase na pesquisa etnográfica pelo fato de entendermos ser a linguagem escrita um instrumento para legitimar a cidadania. Isso significa dizer que todo esse processo vai além do procedimento utilizado para a geração dos dados, pois integra múltiplas perspectivas, vozes e significados com propósitos de refletir sobre a realidade. Nesse sentido, tanto pesquisadora quanto colaboradores firmam-se numa relação de coaprendizagem, cada qual com objetivos diferentes, mas que a seu modo, eles tentam repensar a sua condição sócio-histórica pela produção do conhecimento (colaborativo e democrático), numa conexão entre reflexão e ação (THOMAS, 1993).
Reforçamos ainda que, ao optar pela vertente etnográfica, entendemos que os fenômenos humanos e sociais são complexos e dinâmicos, por isso não devem ser medidos nem categorizados por si, mas são de possível interpretação.