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A comunidade preserva os conhecimentos tradicionais por meio do uso de plantas medicinais, rezadeiras e parteiras que ainda prestam auxílio às mulheres em trabalho de parto, quando necessário e às crianças recém-nascidas.

A quilombola Francisca Maria Rodrigues da Silva mantém a tradição passada de mãe para filha. Sua mãe de 72 anos já fez o parto de 190 crianças da comunidade e regiões circunvizinhas. Silva, na arte de “pegar menino”, ainda hoje faz o trabalho de parto nas mulheres do quilombo, na condição de que a gestante não apresente problemas durante a gestação. As rezadeiras usam de suas crenças, plantas e rituais para curar dor de cabeça, dor de barriga e dor de dente.

Utilizam os benefícios medicinais de árvores e plantas também, como a rapa da árvore do joá, pedra de tabuleiro, sementes de amburana para fazer os melados para gripe e de pau de ferro para dor na coluna, crista de galo, flor de catingueira, além disso a comunidade também faz uso de cascas de árvores como aroeira para inflamação e casca de catingueira.

Uma outra cultura preservada no quilombo é a dança do toré, trazida pelos quilombolas em meados do século XIX. A dança vem se mantendo viva nos festejos da comunidade. O toré é uma ciranda de coco cantada e dançada em versos criados no improviso ou sendo recantados os mesmos versos entoados pelos antepassados. Antigamente era

dançado ao som de um berimbau de cabaça, tocado pela Joana de Couro, geralmente no período da noite.

A dança é conduzida pelas mulheres da comunidade ao som do pife, tocado pelo senhor Mazim e seus dois filhos, um tocando o instrumento musical triângulo e o outro o bumbo. O instrumento pife é de fabricação artesanal que ele aprendeu a fabricar observando seus ancestrais fazerem, a primeira vez que fez foi com a mamona e foi aperfeiçoando ao longo dos anos.

Antônia Maria Vieira de Carvalho, dona Bizunga, uma das mulheres dançadeiras, lembra que a dança foi ensinada por Raimunda Marçal, uma das pessoas mais velhas da comunidade e uma de suas atividades era a fabricação de objetos de barro, falecida em 2014 com 101 anos de idade. Ela aprendeu com a “finada Joana de Couro”, mãe de Maria Virgem da Silva, que deu origem ao nome dado à escola do quilombo, que as ensinava a dançar e cantar os versos no terreiro da casa grande.

Figura 23 - Dança do toré, apresentação feita V edição do artefatos realizado em Carcará

A dança do toré, no quilombo Carcará, é realizada em movimentos circulares. Elas dançam e cantam ao mesmo tempo. Jovens, crianças e os mais velhos podem participar da brincadeira. Hoje existem pelo menos 15 integrantes no grupo. São entoados cânticos, como: Amor à torta, o casamento, a flor do i, o curumé carneiro, a dança crioula dentre outras. As cantigas e as danças estimulam a busca de suas identidades e a assumirem verdadeiramente quem são.

Os versos e “divertimentos” contam histórias, misturados com alegria e culto à ancestralidade, os movimentos representam poder, força, energia ancestral e união, traduzem a vida cotidiana passada e presente e nas “festas a música perpassa os rituais e marca as comunidades, as letras das músicas incluem histórias e valores, de geração em geração” (MOURA; SCIPIONI, 2012, P.70).

Em cima daquela serra, curumé carneiro Passa boi, passa boiada, curumé carneiro Também passa mulatinha, curumé carneiro Do cabelo cacheado, curumé carneiro E balança o coco curumé carneiro E balança o coco curumé carneiro40

Essa cantiga traz à lembrança da presença da população negra nos quilombos, na serra, porque lá se pode se sentir liberto, se sentir grande, a serra é longínqua, é uma outra lógica de ver o mundo, é ter Zumbi como herói, onde “passa mulatinha do cabelo cacheado”. Entre uma cantiga e outra não há uma sequência musical. As mulheres ao dançarem combinam entre si a próxima do repertório.

Esses territórios foram se construindo em locais distantes, uma vez que necessitava de liberdade para a prática de suas próprias culturas e com isso não quer dizer que eram comunidades isoladas, boa parte dos quilombos trocavam mercadorias com as cidades que ficavam “próximas” de seus espaços de sobrevivência.

Fulô do i, fulô do a, vamos apanhar maracujá, Fulô do i, fulô do a, vamos apanhar maracujá, E ela tire, tire eu, tire eu tire eu,

E ela tire, tire eu, tire eu tire eu.

A cantiga enfatiza a boa colheita, a fertilidade do solo, a gratidão aos seus antepassados pela escolha do território, pela resistência e pelos valores civilizatórios empregados na maneira de cuidar da terra. As pessoas em volta do círculo, ao apreciar a dança, são convidadas a participarem da brincadeira. São colocadas no centro por uma das mulheres, e no compasso do ritmo movimentam o corpo, assim, sucessivamente, todos vão participando. Já no cântico a seguir, elas vão cantando e falando versos a cada refrão.

Olha o passarinho domine, caiu no laço domine, Das um beijinho domine e dois abraços domine. Dentro do meu peito tem garrafinha de vintém,

40 Cantigas anotadas em diário de campo nas apresentações feitas na comunidade e na escola, como como a partir de conversas informais com as dançadeiras do toré da comunidade ao longo da pesquisa.

Um melinho açucarado, pá boquinha do meu bem. Olha o passarinho domine, caiu no laço domine, Das um beijinho domine e dois abraços domine. Pimenta do reino é preta, mas põe de comer gostoso, Meu benzinho também é preto, mas tem um olhar dengoso. Olha o passarinho domine, caiu no laço domine,

Das um beijinho domine e dois abraços domine.

Os versos neste cântico são improvisados, falam de suas vidas cotidianas, da relação amorosa, de sentimentos, de sua história de negro quilombola, além de unir o passado e o presente em um conjunto de conhecimentos culturais e históricos respeitados e valorizados pela comunidade.

A próxima cantiga que faz lembrar o homem negro, convicto de suas raízes africanas. Percebe-se a relação da cantiga a seguir com a cultura do gado, do caminho das boiadas, do couro. Renegada pela história oficial como de origem africana, essa é uma cultura que permanece viva na região, em que aparece ressignificada em vários elementos culturais, com nas cantigas do coco, toré e no reisado, quando a figura do boi é evocada em alguns momentos.

Boi, boi vamos vadiar, Boi, boi vamos vadiar

Meu boi bonito vamos vadiar, não vá errar, vamos vadiar. Boi, boi vamos vadiar, Boi, boi vamos vadiar

Meu boi bonito vamos vadiar, não vá errar, vamos vadiar.

A dança do toré é um dos elementos patrimoniais da memória africana em Carcará, que virá a ser um ponto de partida para a produção de material didático pedagógico, para ser trabalhado na escola pela riqueza da articulação com a história da comunidade, pelos cânticos, rimas, pela corporeidade e pela própria cosmovisão africana embutidos na ginga da dança e na oralidade, “a memória são conteúdo de um continente, de sua vida, de sua história, do seu passado, como se o corpo fosse o documento, não é à toa que a dança para o negro é um momento de libertação” (NASCIMENTO, 1989).

As mulheres dançadeiras do toré são professoras da tradição oral, são elas que conduzem os passos na dança, embora não haja distinção de gênero, “dança homem, dança mulher”, no entanto, introduzem nos mais novos o desejo pela continuidade do saber, porque a circularidade do toré é também um espaço de afirmação de identidade e empoderamento. No grupo há pelo menos cinco crianças que dançam.

A comunidade tem muito a nos dizer acerca das suas heranças históricas africanas, os mais velhos se encarregam de transmitir, através de narrativas, para os mais novos no momento da dança, nos cânticos e nos modos próprios de falar, os conhecimentos tradicionais que singularizam a existência e a permanência de Carcará naquele território.

É importante destacar a continuidade histórica e existencial dos quilombos no Brasil, por exemplo, os livros didáticos trazem uma ideia muito resumida sobre a história quilombola no contexto brasileiro, sequer cita sua existência nas Américas, traz de forma resumida a contextualização de Palmares, sem dizer suas formas de produção de trabalho e nem sua a relação com o território, enquanto um lugar de memória coletiva, com um sentido de nação estritamente africana. Tendo em vista que,

A história não é todo o passado e também não é tudo o que resta do passado. Ou, por assim dizer, ao lado de uma história escrita, há uma história viva, que se perpetua ou se renova através do tempo, na qual se pode encontrar novamente um grande número dessas correntes antigas que desapareceram apenas em aparência (HALBWACHS, 2006, p. 86).

A memória das comunidades quilombolas remontam um passado que tem uma relação com a diáspora do povo africano no Brasil e isso quer dizer que é importante que as escolas, principalmente as que estão situadas dentro e próximas aos quilombolas, pautarem em seus currículos essa existência e resistência da população negra, bem como a importância da constituição do território enquanto um espaço de produção dessa cultura.

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