Após a virada do ano 1000 é possível falar de transformações arquitetônicas nos monumentos religiosos. Conforme Xavier Barral I Altet demonstra, introduzem- se as criptas e as torres, sendo a primeira uma das maiores novidades da arquitetura da época no Ocidente. As propriedades eclesiásticas prosperavam e um dos edifícios principais que testemunham esse momento são as catedrais:
(...) Nas cidades, a catedral resplandecia; sua monumentalidade, sua antiguidade tornavam-na o centro de atração urbano. Bairros inteiros foram remodelados. De fato, era frequente que a catedral existisse desde a Antiguidade tardia, tendo sido reformada em diferentes épocas. Raoul Glaber dá testemunho dessa nova riqueza da cidade: “as basílicas dedicadas à memória dos diferentes santos foram reconstruídas ainda mais belas do que as antigas” (...) 124.
A decoração desses edifícios era, sobretudo, arquitetônica, seus modelos retomavam as tradições antigas e bizantinas, utilizando-se de frisos, pequenos nichos abertos sob cornijas, e os capitéis. Estes, em princípio, ainda eram decorados conforme modelos já existentes, I Altet destaca a decoração esquematizada à maneira das tradições escandinavas ao Norte, enquanto em Loire e na Borgonha começam a desenvolverem-se representações de cenas e
personagens religiosos. Já em Saint-Philibert de Tournus, observam-se o uso de acantos ou palmeiras estilizados que, segundo o autor são “(...) a arrancada da primitiva arte românica, ainda abstrata (...)” 125. A partir da segunda metade do século XI, entretanto, percebemos que a escultura passa a integrar o edifício da igreja românica.
Os capitéis, em especial, tornaram-se suporte para as mais diferentes criações artísticas que não necessariamente demonstram estarem submetidas ao simbolismo religioso. Esse fenômeno de independência e atitude estética por parte dos artesãos é tratado por Meyer Schapiro 126. O autor demonstra que, entre os séculos XI e XII, no interior desses espaços sagrados, identificamos certa liberdade dos artistas em que formas são deformadas e adaptadas aos capitéis e revelam a espontaneidade e fantasia individual. Tanto Schapiro quanto Jean Wirth 127 afirmam a raridade de capitéis historiados e imbuídos de conteúdo religioso, sendo mais frequentes os motivos figurativos sem valor iconográfico e que parecem terem sido postos para embelezar tais locais.
Tais formas revelam a capacidade do Ocidente medieval de incluir motivos estrangeiros e variados para decoração e instrução. Wirth coloca que os capitéis parecem ter interessado bastante os escultores por lhes oferecerem um suporte não habitual e complexo. A coabitação do plano côncavo com o plano reto e as regiões de transição entre eles fazem do capitel um suporte rico para o desenvolvimento de formas não naturais. Esses espaços, portanto, passaram a ser explorados com imagens dos mais variados arcabouços, revelando o que Schapiro define como uma “imensa receptividade” da arte ocidental do século VII ao XIII: “(...). As formas cristãs primitivas, bizantinas, sassânidas, persas, coptas, sírias, romanas, muçulmanas, célticas e germânicas pagãs eram, então emprestadas, quase sempre sem referência ao seu contexto e significado” 128.
Tais formas revelam a imaginação profana e uma atitude não religiosa que não estiveram ilesas de críticas. O célebre texto de São Bernardo de Claraval, em
125
I ALTET, Xavier B., op. cit., 2002, pp.177-178.
126 SCHAPIRO, M. Sobre a atitude estética na arte românica. In: ARGAN, G. C. História da arte italiana: 1. Da
antiguidade a Duccio. São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 404-422.
127 WIRTH, J. L’image à l’époque romane. Paris: Les Éditions du Cerf, 1999. Ver, em especial, a segunda parte L’éclipse de l’iconographie, p. 109-186.
carta ao abade Guilherme de Saint-Thierry, é ao mesmo tempo testemunho das “extravagâncias fantasiosas” e protesto contra a arte de Cluny em seu tempo:
(...) sob os olhos dos confrades que leem a quem agrada aqueles ridículos monstros, aquela maravilhosa e deformada beleza, aquela bela deformidade? Com que finalidade estão ali aqueles macacos imundos, aqueles leões ferozes, aqueles centauros monstruosos, aqueles meio homens, aqueles tigres cobertos de listras, aqueles cavaleiros que se batem, aqueles caçadores que esganiçam seus cornos? Veem-se lá muitos corpos sob uma única cabeça ou ainda muitas cabeças sobre um só corpo. Aqui há um animal quadrúpede com um rabo de serpente, lá, um peixe com a cabeça de outro animal. Aqui ainda, a frente de um cavalo que se lança atrás de meia cabra, ou um animal de cornos traz a parte posterior de um cavalo. Em suma, tantas e tão maravilhosas são as variedades de figuras de todos os lados, que somos mais tentados a ler no mármore do que em nossos livros e há passar o dia inteiro a espantar-nos com essas coisas do que meditar sobre a lei divina. (...) 129.
Schapiro analisa que tal carta condena a arte românica precisamente por ser irreligiosa e demonstrar uma atitude pagã para a vida, por meio da curiosidade para com o mundo que se expressa nessas formas. Os monstros dos capitéis românicos, portanto, parecem mais simbolizar a invasão de temas do repertório pagão no espaço sagrado cristão do que auxiliar nas meditações espirituais. Essas criaturas revelam a importância de uma memória coletiva e popular que fundamentaram tais belas deformidades. Percebemos que no Ocidente, apesar dos esforços da Igreja em expelir o paganismo, houve um “contra efeito”, e o paganismo parece cada vez mais atrelado ao arcabouço imagético ocidental.
Nesse sentido, voltamos a tratar das sereias, especificamente. Essas criaturas, pertencentes à antiga mitologia clássica, por estarem presentes na obra de Homero, tiveram uma interpretação alegórica. Porém, por também pertencerem aos “setores viventes”, são transmitidas e transformadas. O aspecto mítico ecoa, mas suas formas se apresentam independentes, participando do inventário monstruoso dos capitéis românicos. Dessa maneira, é necessário explorar as sereias tanto no âmbito erudito das produções escritas eclesiásticas, quanto no âmbito figurativo e profano que invadia as produções de iluminuras e espaços cristãos.